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quarta-feira, 13 de março de 2024

JOÃO


(Inspirado em Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, e em Construção, de Chico Buarque)

    — Ando precisado de morte, mestre Caetano.
    Começava sempre assim o fim de seu dia, quando ia ter com mestre Caetano em seu boteco, que só abria depois do Angelus. Era um dos últimos antigos, com enorme balcão de sucupira, peitoril de milhares de vidas que a noite conduzia, intermediando seus êxodos e procissões.
    Trabalhava menos por necessidade que rotina. Não sabia quem era se não estivesse em alguma “empeleita” ou fazendo algum bico. Chegava primeiro ao balcão, olhava como sempre os calendários de várias décadas, alguns, com paisagens, outros, com santos, muitos, com mulheres nuas. O tempo era registrado com sonhos que não sabia como ter. Até tentava se imaginar através das imagens, como fazia com filmes e novelas que mestre Caetano compartilhava na tevê de tubo, de vez em quando. Para ele, as gravuras, as fotos e a tevê estavam em algum idioma que lhe era estrangeiro, vedado à sua pequena humanidade. Eram a lembrança de que aquele balcão era a fronteira além da qual, caso se aventurasse, seria preso pela estranheza, ou, por ela, morto. Costumava desfiar as lamúrias em conversa baixa, sem interlocução definida, alternando a destinação a quem transitava ou lhe parava ao lado acidentalmente. Mestre Caetano costumava lhe engendrar um arrazoado qualquer de sua experiência, e, assim, existia fixo, ancorado naquela confirmação de que vivia, de que era alguém apesar de si mesmo. Mestre Caetano aferia que ele era uma pessoa.
    — Não carece de precisar, João.
   — Por quê, não? Preciso de dinheiro, preciso de comida, preciso de roupa, de uma dose… Bote uma aí. Preciso de morte, mestre.
    — Sua ou de alguém?
    — E eu não sou alguém?
    — Então não precisa.
    — Já tenho muita, né? Essa vida sem nada, sem mim, já tá toda preenchida de morte, né isso? Hoje, tava lá, na laje do condomínio, arriando o cimento na massa, fungando o pó cinza. Tem mais cimento em mim do que naquele prédio. Olhei pra baixo, vi os carros, as pessoas, todo mundo indo e vindo de algum lugar a outro. A vida é isto, mestre: ter lugar de onde se vem e aonde se vai. O mestre sabe que não tenho o primeiro, até meu nome veio da rua. Meu barraco é só o jacaré, duas panelas, dois armadores de rede. Não tem eu na minha vida, mestre. O lugar de partida e de chegada é a pessoa, é a razão, diz quem se é. A vida é ser, mestre. Eu não sou. Então, já tenho morte de sobra neste buraco cimentado, não é?
    — É. Mas isso não é ruim não, João. Todo mundo é cheio de morte, todo mundo é vazio de si. A gente passa a vida se procurando pra se preencher, e isso é a vida. Morrer é não procurar, morrer é viver nesse buraco, sem fundo e sem corda. Tome aqui.
    — Quem vai morar naquele condomínio é vazio, mestre? Quer dizer, aquela gente anda mais, viaja, procura mais, como o senhor disse. Quem procura mais é mais morto do que eu? Ou mais vivo? E eu sou mais morto porque passo a vida construindo lugar que não é meu pra essa gente se encontrar nele? Eu sou mais morto porque não posso me procurar, mestre, e tenho de passar a vida fazendo chão e levantando parede e cavando piscina e plantando jardim pra gente que vive?
    — Sim.
    — E é por isso que não preciso de morte, mestre?
    — Sim.
    — Morte chama mais morte…
    — Morte não chama nada, João. Quem vive morre. Uns, mais, uns, menos. A vida é assim também. Uma é a falta da outra, como um casal casado há muito tempo que não sabe mais ser cada um. Não é amor, não é amizade. É uma argamassa. A construção é a gente. A gaiola, as aranhas, a malha, o esqueleto. Os tijolos. No final, o prédio. Depois, a ruína. Depois, o basculho. Depois, o alicerce. E tudo de novo, meu amigo, como esta sucupira. Isto aqui já foi semente. Esta morte desta madeira é uma morte de vera? Hoje ela é tudo que ela não era, ela era vazia disto. A vida que ela tinha era cheia desta morte. A morte que ela tem é cheia daquela vida.
    — Esperar cansa, mestre. Não saber é não ser, e não ser é morte.
    — Vida, também.
    — Que vida?
    — Vida apenas, João. Você, eu, a sucupira, os moradores do prédio. Morte, também. Tudo junto.
    — E isso é justo?
    — Só não é justo pra quem não vive. Sua vida é vazia de você, mas é vida. Você é este balcão, João. Ele não sabe quem foi, não é mais quem foi. Sabe menos ainda quem será. Mas ele é. Você é, João. Ignorar não é morrer. E quem diz que sabe mente. Ninguém sabe.
    — Nem as pessoas que fazem os calendários?
   — O tempo é como esta cachaça: entretém, embebeda, acalma, mata. É parte da vida. Tá boa? Quer mais uma?
    — Viver direito é morrer direito, né, mestre?
    — Disse melhor do que eu.
    — Então, bote outra. Vamos fazer as coisas como se deve.

13/03/24

quarta-feira, 8 de março de 2023

"AS PESSOAS SÃO INCRÍVEIS" - UMA CRÍTICA DE "A BALEIA", DE ARONOFSKY

 

     Uma vez, o excelente crítico cearense de cinema P. H. Santos disse (sobre o Pinocchio de Del Toro) que tem filmes que já nascem clássicos. A baleia é isso, devastadoramente. Baseado numa peça premiada de 2012 de Samuel D. Hunter, esse filme de Darren Aronofsky (Cisne negro, Réquiem para um sonho) nos destrói e nos reconstrói com a delicadeza e a potência que não são comuns nesta época de superficialidades. É descaradamente metalinguístico e intertextual, de modo que exige de nós algum conhecimento mínimo de Moby Dick, obra na qual colhe elementos intra e extratextuais, pra que ele atinja o ponto certo de nossa sensibilidade. Aconteceu, pra minha sorte, que o livro de Melville me catou muito cedo, ainda criança, frutificando em uma enorme tatuagem no meu braço esquerdo e no segundo nome do meu primeiro filho. Entenda-se, daí, o grau de destruição, no melhor sentido, à qual esse filme acaba de me submeter. Brendan Fraser fez não só o trabalho mais importante (em termos de intensidade e identidade) de sua carreira, mas entregou uma interpretação que (tenho certeza) só poderia sair de onde dói, de onde se estertora, de onde se morre. A trilha sonora é o que conduz tudo, e, assim como vários outros elementos intertextuais, concorre pra nos conduzir ao mar, às gigantescas tempestades e à tensão da morte onipresente que são evocadas a partir do clássico de Melville. Há também uma similaridade com Mar adentro, filme de Alejandro Amenábar de 2004, mas não vou comentar isso pra não estragar a experiência.
     A baleia é desses filmes que, uma vez que já se sentiu o peso da vida ao menos uma vez, transforma o espectador permanentemente. Sugiro que apenas os que não se envergonham de seus sentimentos (caso os tenham) o vejam no cinema. Os demais, ele os encontrará inteiros e os despedaçará com a força e a fluidez de uma enorme onda, e é bom terem à mão algo que não os permita afogarem-se.
     Assistam sozinhos.

25/02/23

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

CANTOCHÃO

(Clique na imagem para ampliá-la e na legenda, para acessar o endereço de origem.)

   Deitou o copo na mesa, levemente. Reconheceu, no xadrez da infância, a concessão da derrota que lhe ensinaram no internato: “tombe-se o rei!”. A mesa do boteco servia-lhe perfeitamente de tabuleiro: bispos hereges, torres de alvenaria caiada e muitos, muitos peões cascabulhados pelas longas partidas da vida. Havia ali também muitas rainhas, todas de coroas preteridas. O baralho da mesa ao lado lhe despertou as copas que tão bem conhecia. Também, algumas de paus e de espadas de sua meninice nos terreiros. Mas, de ouros, nunca! Nenhuma! Nem ela!
   — Mais uma aqui, por favor.
   Já passara do ponto do crédito havia muito. Da pena, também. Virara um “costumeiro”, um item ornamental, um identificador do Santa Edwiges, o bar de Seu Xavier. Sem ele, a mesa do choro não tinha para quem puxar o Odeon nem a Escadaria. Ele fluía com a tarde, ronqueava com a voz gostosa seus salves, sempre carinhosos, às figurinhas ali também desgastadas pelo tempo: Martins, o do violão sempre prestes, o bêbado Tarcísio, coro sempre certo à dor de cotovelo das dez, a cambista Heloísa, que sempre o esperava chegar para encerrar atrasada as pules, e o garçom Liberato, que aprendera a cuidar da dignidade daquele mistério. Parecia ser a licença que se dava ao Santa para ser um bar: um alvará, uma bênção. Até mesmo a clientela encorpava depois de sua chegada. A sinuca, inclusive, só ficava séria depois que ele cumprimentava os jogadores, que passavam a casar as apostas na mão da Heloísa. Era a alma do lugar, uma essência que justificava frequentarem-no os bambas e os febris, as memórias que tomavam zinebra no balcão e as novidades que gargarejavam cervejinhas na calçada de anedotas. Sentava-se à esquerda da porta, ali pelas seis, após a permissão do angelus do rádio do Xavier.
   — Aqui, Seu Cordeiro. O Seu Xavier perguntou se vai pagar.
   — Diga a ele o de sempre: quem manda é o dia.
   — E o dia foi bom?
   — Me trouxe até aqui. Como sempre.
   — Vai de canja hoje?
   — Deus lhe pague, Liberato.
   — Ô Seu Xavier, mande uma canjinha aqui pro Seu Cordeiro, que ele precisa.
   O violão chorou um sambinha, chegou um pandeiro da mesa dos novatos, Seu Xavier sacou o cavaquinho e o rendeu ao grupo, pedindo “manda uma do Paulinho, gente!”. A música ali era sempre boa. Arrumaram Desilusão, e o peito de Seu Cordeiro batucou atrás, meio surdo. Parecia adoçar a derrota no sangue a cada bombada, sincopando ali o regional improvisado.
   Chegou a canja com um pão do dia. O primeiro de seu dia. Seu Cordeiro parecia um griô, na sua elegância imane e inata de preto-velho. Cruzava as pernas frágeis para fora da mesa, sentado de lado na cadeira, recostado à parede, que guardava, com a sua mancha de suor e poeira, o seu lugar em sua ausência.
   — Os meninos querem que o senhor cante. A rapaziada nova.
   — Deixe o santo baixar, Liberato. Ainda não cheguei.
   — Deixe o dia lá fora, meu camarada. Aqui dentro, é sempre noite. Dona Marlene perguntou se está boa a canja.
   — Melhor que a vida, meu amigo. Entregue a ela uma lembrancinha, faz favor?
   Deu a Liberato um pacotinho de papel-bíblia, uma página arrancada de um catecismo velhíssimo.
   — Diga a ela que achei.
   Aquilo não era uma novidade, exceto pelo último pedido. Sempre levava babilaques, coisinhas, presentinhos para Seu Xavier e sua esposa, Dona Marlene. Porém, o segredo impresso no “achei” ativou a experiência malandra de garçom acumulada por Liberato em décadas de torpedinhos e leva-e-traz entre as mesas.
   — O que é isso, Seu Cordeiro?
   — É um pedido dela. Uma encomenda pessoal.
   — Pessoal? E se o Seu Xavier quiser saber o que é, digo o quê?
   — Que é de antes dele. Que não se preocupe não, que nenhum mal foi feito. E que este negro aqui só lhe guarda amizade e gratidão. E que minha vigília e minha obrigação finalmente acabaram.
   Era coisa demais para o velho garçom. Ainda tocavam o “danço eu, dança você”, e Liberato intuiu. Pensou em devolver, mas adivinhou a proporção do momento no olhar de Seu Cordeiro, que nunca vira tão expectante em sua mansidão. Baixou a cabeça, penitente. Seu Cordeiro enxugava a última laminha de caldo da tigela com o miolo do pão, que levava à boca como uma hóstia. O sagrado de tudo aquilo que, sem ser dito, reverberava nas paredes do Santa Edwiges convenceu por fim o garçom de levar a cabo aquele rito.
   — O senhor ainda vai voltar? — perguntou.
   — Eu nunca fui a lugar nenhum, meu amigo…
   Apesar de suas roupas e pele estabelecerem o oposto, Liberato entendeu profundamente.
   — Pois adeus, meu velho. Fique com Deus.
   Cruzou o bar convertido, por seus passos, em uma nave, parou de cabeça baixa à frente do balcão, a mão posta em oferenda:
   — Seu Cordeiro mandou pra senhora,
   — O Cordeiro ainda acha que tem de pagar alguma coisa aqui? — sorriu vermelho Seu Xavier. — Tu acha, Marlene?
   Dona Marlene, de pele branca salpicada de sinaizinhos da idade, reconheceu aquela página amarelada de catecismo quase imediatamente, translucidando-se. Disfarçou o tremor e ergueu o olhar para o marido, que não entendeu aquele pedido de perdão. A mesa do choro já tinha engatado Não tenho lágrimas, e o bar ficara frio de repente. Lá fora, uma chuva fina lavava um corpo negro, delicadamente deitado no outro lado da rua, a mão esquerda ao peito, as pernas cruzadas, como se houvesse descido em rodopio de mestre-sala. Um grito seguiu-se a outros, precipitando todos ao cruzamento esvaziado de trânsito, fremindo no ar os ai-meu-Deus de suspensão.
   Seu Xavier nunca entendeu a explicação da esposa, que sobreveio e sobreviria até o fim sem lágrimas, sem medo e sem culpa, ainda que purpurecida de saudade:
   — Foi antes, quando eu ainda era mocinha, no internato. Padre Honório que me deu, e eu tinha perdido. Seu Cordeiro achou não sei como… Não sei como.
   O pequeno terço cor de rosa, com ave-marias peroladas e crucifixo de osso, fazia ainda menos sentido naquela fatalidade.
   No dedo anelar esquerdo do morto, uma antes nunca percebida aliança de finíssimos acabamentos, filigranada de ouro, sepultava ali tudo: a vida, o samba, o bar, a morte. Sobranceava na neblina um vento que pareceu a Liberato, naquele momento, um cantochão assobiado.
   — Adeus, meu velho — repetiu.

01/02/23

segunda-feira, 13 de junho de 2022

TUA FORMA

deixa a forma que têm as coisas que te sustentam
esmorecer, colapsar, ruir.
a estrutura envelhece e te ilude que és tu que o fazes.
teu corpo, teus hábitos, tuas manias,
tudo são apenas as roupas
que as traças do tempo roem.

o café que se oxida no copo americano
no boteco da esquina
fala de abraços quentes que nunca tiveste,
mas que te protegem nas manhãs urbanas.
contudo, ele azeda, mofa, apodrece na borra e na barriga,
e tu pensas que és tu que te amarguras.

não te permitas sofrer
pela epiderme que se afina,
pelos ossos que se afinam,
pelas ruas que te afinam.
as formas de ti e do mundo
apenas te contêm,
e não permitas que te formem
nem que te deformem,

pois tu não és esse corpo
nem essa vida miserável.
tu não existes porque um número te registra
ou te cancela.
tu não vives porque respiras
ou te reproduzes,
tampouco porque te disseram os patrões
que a vida é trabalho,
e trabalhaste.

nem mesmo o sangue que te pulsa
e te materializa na carne que ama,
que teme e que odeia,
nem mesmo isso és tu,

pois o amor, o ódio e o medo,
tudo isso passa.
as ruas passam, os pontos, as camas,
a fome e o prato cheio,
assim como o corpo e suas consequências,
passam.
só tu duras.

inócuo, incógnito, rejeitado, ignorado:
tu és a tua grande novidade,
a surpresa no fim da escalada
à eventual e definitiva revelação.

tu és aquilo que acontece nos intervalos de ti,
desse tu falso:

chegas inesperado, sentas, a despeito do chão,
e emerges a casta submarina
de todas as etapas que cruzaste;
contemplas, plácido,
em seguida, suspiras,
tornas a mergulhar
e desapareces,
ondeando no mar a promessa
de que existes mais, muito mais e maior
que a urna em que te acomodaram.

10/06/22

quarta-feira, 25 de agosto de 2021

DO TEMPO E DO TRAÇO

Foto: Fernando de Souza
(Clique na foto para ampliá-la.)

o tempo é juntura
com que tudo faço:
do rasgo, um laço
de fina costura,
que, só no momento
em que a faca fura,
cura o ferimento
com seu próprio aço.

novelo de tempo
com que me enlaço:
me cubro o cansaço
e me reinvento
— meu novo modelo
de renascimento
é estar sempre em sê-lo
da cruz ao regaço.

compões o cimento
do chão dos meus passos
— do meu erro crasso
tu és pavimento.
também és mansões
e compartimentos:
silêncio e canções
do fim donde nasço.

25/08/21

quinta-feira, 1 de abril de 2021

1º DE ABRIL

Clique na imagem para ampliá-la.

não meças nunca a noite do teu cansaço
pela aurora do vigor alheio.

só as tuas derrotas
é que sabem de ti
e de tuas ressurreições.

tu rastejas nessa noite
sem pele, sem pés, no asfalto imundo,
incógnito,
desaparecido.

contudo, não temas a noite
nem a odeies.

deixa-a fazer
o que ela faz de melhor
— matar-te —
e conta as estrelas se não chove,
que é entre uma e outra,
muito além delas, porém,
que adormeces,
e a tua própria noite encontra na outra
o colo materno que faltava
a quem te venceu;
e todos os teu irmãos extraviados.

já os guerreiros,
obtusos por incapacidade,
o que veem são deuses no céu,
e tudo lhes é nada mais que gráfico
e matemático
no preenchimento desse vácuo,
para o qual inventam
hinos, bandeiras
e outras que tais inutilidades.

sabem menos que tu,
que padeceste as tuas torturas
e as deles;

vivem menos que tu,
que morreste mil mortes
e vives no peito causticado
dos outros crucificados diários.

tu, agora,
conheces a matéria heterogênea
da noite verdadeira.

deitaste.
descansa.
guarda do céu a última friagem,
que, além, no lado oposto da dor
e do tempo,
te aguardam reconstruídos
os teus irmãos,

e é lá o teu lugar.

31/03/21

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

POEMA PARA MIM SÓ

e eis que assim se me termina tudo
todas as noites:
este suor seco, cola fria na colcha áspera,
os engasgos no peito,
estes imensos silêncios nas mãos,
a medula que range malassombros,
estes pés estragados pela multiplicação do peso
e pelas pedras descalças esfolados,
fronteiriços de mim com o mundo,
do qual só sabia com andá-lo.

gentes restaram por toda parte.
tomaram-me as mãos como alças de esquife,
velaram-me em beijos de adeus precoce.
sobejaram os olhares, as mercês, as piedades e os escárnios.
nunca me faltou ninguém,
mas faltei eu
em de alguém ser.
por isso mesmo, existo apenas em mim
e naquilo com que se enganam.

meu corpo também se enganou
e tomou-me por morbidez a resignação,
adiantando-se a mim
e escapulindo das suas obrigações físicas
de conter-me.
ora ele adormece sua própria noite
na escuridão vermelha da carne,
sem lua nem estrelas,
sonhando no estômago e nos intestinos
antecipações funestas de banquetes canibalescos
em que se entredevoram minhas memórias.

espero, grave, amnésico,
a carta de mim mesmo que atrasou
por falecimento do carteiro,
inanido em algum ponto do meu labirinto até aqui.
trá-la, por dó, o vento, disfarçado embora
de guinchos, roncos e silvos
da cantiga dos armadores da rede
com que costumava voar sobre o mundo
na forma de abismos.

nela, presumo, vêm codificadas instruções
de procedimentos e métodos
acerca da retomada das rotinas originais:
qual o jeito certo de mover as nuvens;
de vestir-se de vento;
de discernir o sol;
de correr com a lua;
de se unir à noite;
e de beijar o mar.

reaprender a ler
será o meu último trabalho
e o meu maior desafio.

05/01/21

sexta-feira, 6 de novembro de 2020

28 DIAS (OU TUDO O QUE OLHOS COMPOSTOS DEVERIAM VER)

(Clique na imagem para ampliá-la e na legenda, para acessar a página de origem.) 
 

    Ponderava se era assim também com as outras: susto, fuga, risco de morte, velocidade e caos. Não frequentava enxames; era tímida. Voejava, quando podia, o mais lentamente possível para não cair, somente para sentir a vida fluir mais lentamente. Porém, a sua maldita natureza a compelia a extremos constantes, a vilezas e indignidades que suportava estoica, porém limiarmente. Queria ser como os marimbondos, autoenclausurados em seus arapuás, respeitados, temidos, deixados em paz. Ou, pelo menos, como as mutucas, suas parentas mais afortunadas e hematófagas, em sua rotina campesina de parasitar vacas e jumentos. A ela lhe deram os monturos, os excrementos humanos, os piores de todos. E essa insustentável vida de não-viver, de pária, de nitrificante alada da cadeia alimentar? E essa sua abjeta natureza, que sequer lhe permitia o suicídio — tentara bocas de fogão, pás de ventiladores, circuitos elétricos; seu corpo de reflexos autônomos funcionava à sua revelia, e a morte sempre lhe escapava, escapava inclusive quando lhe desferiam tentativas de mãozadas, raquetadas, envenenamentos —? Seu corpo era feito para a sobrevivência, e ela expiava na dúvida de uma eternidade daqueles sofrimentos e imundícies.
    Contudo, nas poucas vezes em que se permitia ajuntamentos, percebia sempre parecer o bando diferente, com raras e cada vez mais avolumadas exceções. De uma hora para outra, o corpo daquela uma cintilava cores diferentes, discernidas pela infinidade de seus olhos-colônia, subitamente curiosos, estranhamente interessados. Quase não reconhecia a familiaridade dela consigo, não fora pela química obscura que suas antenas e patas lhe comunicavam como tal. Já as outras lhe pareciam ser tão outras quanto possível. Estranhava também a absurda heterogeneidade naquela aparente monotonia de formas. Será que somente ela o notava? Não incomodava também às outras aquela eterna novidade, aquela coletividade harmoniosa de completas estranhas? Perguntava-se o que as unia além da involuntária irmandade de espécie. Não lhe era aceitável que a resposta fosse aquele ciclo, aquela rotina coprofágica, necrófila, carniceira. Seriam todas filhas da mesma mãe sob o sol de Deus apenas pela abjeção de suas existências? Seria possível que o que as igualasse fosse a miserável condição de marginalidade essencial, que não poderia ser romantizada nem na sacralização da morte conservada em alfinetes, como era privilegiada às borboletas e aos escaravelhos? Já os vira assim — pois seus olhos viam tudo, assim como sua teimosia o registrava numa memória que era mais rancor do que saudade — em breves clarões de luzes que intermitiam na frente das pessoas. Tentava compreender o fascínio que as luzes e as cores exerciam tanto sobre ela quanto sobre as pessoas… As pessoas! Várias de sua espécie eram mortas por elas a toda hora, por que não ela? Se bem que as pessoas, quando se agrupavam, pouco se distinguiam também entre si. Eram dadas a reuniões vorazes, quando, a bem da verdade, viviam o tempo inteiro sós. Somente lhes invejava a hipocrisia pela inerência do arbítrio que ostentavam. Queria ser uma pessoa, queria poder escolher, queria as opções. As pessoas possuíam o hábito que mais lhe agudava o desejo, com a pungência de um nó cego muito fino, muito entranhado, indesatável: elas se destruíam. Como desejava… Via-se trucidando todo o seu enxame com suas patinhas, vomitando-lhes seu ácido gástrico e lhes abandonando os corpos às formigas, sobre as quais planaria como uma ave, rainha, senhora da vida e da morte, das quais disporia como se de uma gravata ou de uma pulseira de prata. Queria ser como as pessoas, consciente e impune, assassina natural, fera temida.
    A brevidade de seus pensamentos era causada por sua própria condição física e social. Sempre que aprofundava um raciocínio, operava uma brisa qualquer, tinha lugar uma mudança de luz ou de temperatura, anunciava-se um movimento humano, premia-lhe a percepção de um alimento. A tudo isso seu corpo respondia prontamente, e o gérmen de ideia que a fazia tão diferente das outras se partia. Vivia de catar os pedacinhos e recompor-se eternamente uma criatura como idealizava que uma criatura tinha de ser: autoconsciente. A agonia só lhe era tolerável pela distinção que lhe dava entre suas pares: orgulhava-se intimamente de sua própria angústia, de pastar sobre a bosta não por vontade, mas por natureza, e de ser a única a saber, dentre todo aquele gado minúsculo, a diferença entre ambas. A derrota de sua vontade era a sua vitória, consistente apenas em saber de sua participação agente naquela luta.
    Sentiu, naquele momento, a vibração costumeira no ar a que seu corpo tão prontamente respondia e, antes que pudesse formular o pensamento habitual de contrariedade, disparou no caos como se nunca houvesse outra coisa dentro da qual estar. Porém, algo estava diferente. Tudo foi muito rápido como sua própria vida. Sentia diferente, e aquilo, que não tinha nome, converteu-se instantaneamente em frase. “Estou tão cansada…” Surpreenderam-na tanto o próprio sentimento quanto a capacidade de tê-lo. Dedicou-se pela primeira vez à possibilidade do gozo do momento seguinte, que se revelou não um fim, como temeu no primeiro susto, mas sim como um meio. Queria estar distraída, pestanejada, e podia deleitar-se na recém-apropriada consciência de que podia vencer a vida simplesmente abraçando aquela novidade.
    Seu pensamento não se havia partido como sempre. Conseguia pensar além daquela realidade entômica, sem que essa natureza lhe obstasse a razão. Entendeu finalmente a sensação de cansaço, leito em que se revirava entre lençóis rasgados a sua tão íntima agonia. Sentia-se banhada por ela, premiada pela indignidade de sua vida inteira: estava cansada, e essa concepção libertava-a das obrigações do corpo, da consciência do corpo, a qual, até aquele instante, tinha-lhe roubado toda possibilidade de transcendência, de apartação, de liberdade. Num instante, aprofundou-se vertiginosamente em outro caos, a despeito do ar. Parou. Estática, experimentou a sensação novíssima de não conseguir mover-se, embora a natureza em seu corpo a compelisse ao corisco. Ao seu redor, um único espectro dominava o panteão de cores que era capaz de enxergar — era ele também uma revelação. Sua carapaça vibrava, mas ela não se movia. Seus olhos compostos gritavam ao seu cerebrozinho que se aterrorizasse, e, a isso, seu corpúsculo lutava por converter o terror em voo, inutilmente. Ela não se movia. Fascinada, entendia pela primeira vez uma natureza sua que era superior à anterior, fazendo-a, assim, superior a si mesma naquela onipresença monocromática. Contudo, agradou-lhe algo remanescente de sua natureza original: não podia fechar os olhos. Felizmente, viu tudo. Na contagem normal, a humana, findavam-se ali os seus 28 dias. Na dela, tudo, absolutamente tudo se iniciava ali, enormemente como um voo em linha reta, lento e revelador.

05-06/11/20

terça-feira, 3 de novembro de 2020

RITO DE PASSAGEM

(Clique na legenda para acessar a página de origem da foto.)

    Este ano já me levou quatro: meu irmão Cláudio, minhas tias maternas Lourdes e Tate (esta última ajudou a me criar) e, no dia de hoje, minha avó paterna Jesuína. Não lhes fui aos velórios nem aos enterros. Enterrei-os e velei-os (exatamente nessa ordem) eu mesmo no que tenho de mais íntimo, no meu próprio chão, na minha própria capelinha. Foram cerimônias muito simples, quase anônimas. Somos todos anônimos na morte. Não faz diferença à matéria o nome que lhe damos. Os nossos nomes, os verdadeiros, não são passíveis de morfologia ou fonética, não cabem nos registros. Os nossos nomes são coisas que se sentem. São alegrias e tristezas, ódios, rancores, perdões. São presságios. São contemplações.
   Chegamos à idade de aguardar. Esperamos confinados, receosos, conformados. Abnegamo-nos de qualquer luta; apenas sobrevivemos e aguardamos. Porém, dentro de nossas salas de espera, entrincheirados, mascarados e besuntados de álcool em gel, corremos o risco ainda maior de uma rendição, essa, sim, irrevogável: o risco de desejarmos.
   Nesse caso, o encouraçado nuclear em que nos convertemos mira seus canhões aos faróis e torreões desprotegidos de nossa própria costa. O que resta de nossas praias, já sem sol e sem mar, traga como um ralo de areia movediça o acumulado de relicários que protegíamos — a última traição da terra, que se negou a ser chão à sua própria gente.
    Aquilo a que chamamos mal somos nós, morrendo a vida que levamos. Somos nós, permitindo-lhe a existência. Somos nós, adaptando-nos ao inadaptável: plantando e colhendo miséria à revelia do solo.
   É nesses ritos que eu ladainho a liturgia diária de sobreviver e enterrar, de indignar-me e envolver-me fetal no lençol velho, sudário sertanejo desse calor de fim de mundo. Não sei que deus louvo, não sei contra qual diabo peço proteção. Chegou o tempo de enterrarmos os nossos mortos, sem lágrimas, sem surpresas, mas com uma inquietação íntima muito própria da pedra que derrete na frágua, sem adivinhar se será ferro de grilhão ou aço de punhal.

03/11/20

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

ARMORIAL

 

(Clique na imagem para ampliá-la e na legenda, para acessar a página de origem.)

(Em homenagem a Susassuna, o Ariano armorial, e ao meu primeiro grande amor, que me sertanejou a vida.)

a cultura que renegas
eu, íntimo, abraço:
um abraço feito de pele e fome,
tapioca agreste e macia com café
na manhã nevada e serrana de minha casa.

nela, eu, antigo e novo,
encavaleiro-me,
vestido com o gibão de minha própria pele
cosido com as histórias de meus pais
e armado com o delírio dos cegos:
cravejada em meus olhos,
a alucinação solar que nos norteia.

minha morte é minha vida:
é cobra que me rasteja;
é a onça espreitando por mim;
mas também é a montaria,
égua encarnada e ligeira,
que pisoteia o que não é vida
e me galopa os segredos
dos sertões adiante.

pelejo por esporte
e sobrevivo por profissão.
comigo, levo pouco de meu:
minhas letras, meu nome,
meu silêncio.
mas, no sangue
— moto-perpétuo ancestral —,
trago aboios e novenas,
incelenças e cordéis,
litanias e tiranas,
canções de nascer nos corpos
as almas de antes,
cheias de novidades de cacimbas
e maravilhas do além-mar.

a cultura que renegas
é o mandacaru que te dá flor,
mas te rasga na pele o atrevimento
de te achares
— tu, que és seco e estéril de poesia —
o inverno
de que ela é chuva.
não é palavra nem silêncio
o sertão que não carregas.
é o olhar cheiroso que não tens,
é a saudade mansa que não sentes,
é o orgulho fibroso que não te acocha
esse peito mole sem amor nem ódio,
sem jeito de amar mordendo,
sem pátria onde querer morrer.

23/10/20

domingo, 27 de setembro de 2020

FUNERAL

Foto: Fernando de Souza

àqueles que perderam
ou foram amputados:
é outro o tempo das almas;
aqui
é o tempo dos corpos.

27/09/20

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

ATÉ O FIM


Não posso prestar mais
muita atenção ao que diz meu corpo.
Quase sempre, são fragmentos de fim,
entretrapos de uma bandeira derrotada pelo tempo.
No entrecortado de sua fala,
ora arquejante, ora gemedora,
estalam-me os ossos
e guincham-me as fibras sob a pele,
como se, com o seu barulho,
tentassem suplantar o sangue,
que, de sua parte, me grita:
“assoreei, meu filho!,
aqui ninguém navega mais!”
Não lhes posso dar ouvidos.
Há algo que me surge debaixo de tudo,
algo suave, congênito, febril, eterno.
Algo que tem o som que tem o sol
quando ele me jorra sombras no torrão das ruas.
Algo que me canta os sucessos dos meus mortos
que nem cheguei a conhecer ou prantear.
Algo que me veste
com a insensibilidade a mim mesmo,
com essa dormência nevrálgica,
sem a qual sou — e sempre serei —
alguma coisa sem mim.
Esse algo me diz,
sem voz nem palavra,
sem silvo nem trinado,
que meu nome é medo na boca da morte,
e que, trêmula, ela me pragueja todos os dias.
Que esta rota, onde me perco,
é a avenida principal de meu retorno a casa.
E que, seja como for,
a condenação de meu corpo
é conduzir-me nela até o fim,
depois do qual, ele, silenciado pelos vermes,
e eu, por estes desacorrentado dele,
desencadearemos de nós dois o sonho
da útil e pacífica continuidade.

03/08/20

sexta-feira, 10 de julho de 2020

SÓIDÃO DI CORPISTRÃIO

um dia mi dissero
queu miricia morrê
suzin

tumara mermo
quiá Dona Morte mi pegue num dia desse
di sóidão gostosa
merecedô dimin, vitorioso,
cheide paz

— púxuma cadera
tem café quentin
i muita istora pacontá

mar num pricisa não
quela mi cunhece
sab dimin faz tempo, tempo…
nunca li foi nem li fiz
segredo
di queu num sô daqui
i qui meu corpistrãio perambulô
si raspano
nu amô alhei
sem si misturá

mereço não, Dona Maria, mereço não
a vida diagunia
di só tê serventia
si fô cumeno nas mão
mereço mermo sô eu i mĩa sóidão
qui mi há di sê mĩa
nem qui seja oto dia
mais palá quiu sei não

09/07/20

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

FANTASMAS


    Estou plenamente convencido da existência dos fantasmas. Não falo de alma nem de espírito. Fantasmas. Aqueles de lençol branco, não, nem correntes. Acho que um morto tem muito pouco que fazer, aliás, nada a fazer. Os mortos gastam a eternidade tentando ser, eles gastam todo o tempo tentando ser. Dessa forma, acho que um morto não tem a intenção de metaforizar nada. Os males da vida e também os seus bens ficam na história, que já é um fantasma em si, mas de outro tipo, o que assombra, pois nunca existiu como deveria. A morte tem seus próprios sofrimentos, suas próprias revelações, sua própria dinâmica, que é incompreensível a quem não consegue enxergar as revoluções dentro da estagnação que é tudo o que não é aqui.
    Eles existem. Pensam, sofrem, amam, odeiam, gozam, entediam-se, acima de tudo, entediam-se e desenlaçam os nós emocionais a fim de tecer longuíssimas imaginações, cidades, continentes de tecido cosido de fiapos de fome e sede, inveja e desesperança, mas também de exaltação e euforia, orgulho e ternura, um mantel universal fruto de todos os escrutínios que existiram, e não esqueçamos aqueles que foram imaginados, as ilusões, ah, as ilusões... Há tantas, no fantasmário escalonado, que se confundem com a própria inexistência da matéria e dos movimentos.
    Tudo, para eles, é em desacordo com os movimentos. Houve um que me visitou, pensamento que era, quando eu estava ocupado em tentar não pensar, o que sempre dá muito trabalho. Invadiu, maçadoramente, minha tentativa frustrada de ausência e ficou a encarar-me, envolvendo-me com os fios que desatava e tecia na minha frente. Não fluía. Espalhava-se. Quando dei por conta, ele era uma série de pensamentos que não eram nem nunca foram os meus, sendo pensados sem a minha permissão, como um filme diante de mim num cinema sem portas. O fio narrativo que se desenrolava na tela e me envolvia vestindo-me, ao mesmo tempo em que me desnudava de mim mesmo, ia contando coisas que sucederiam possíveis apenas se fosse eu o roteirista da película, se, como num sonho, a irrealidade substituísse com a mais aceitável perfeição a totalidade da falta de estratégia do exército mundano das horas marchantes que é a minha vida, mas dando-me controle sobre o seu curso, dando-me a divindade de criar um mar e um vento, e pondo-me náufrago numa ilha de espectros mutáveis ao meu comando, na qual eu seria o imperador e o náufrago, o deus exilado. Nesse ponto, espantado com tanta liberdade, perguntei-lhe "isto é a morte?", ao que, numa gargalhada condescendente, silenciou outros tantos fios, todos coloridos com minha ignorância de tudo aquilo. Entendi a estupidez da pergunta, sentei-me na poltrona mais ao centro da sala e me deixei ser contado na tela.
    Mostrou-me misturas de sensações que nunca imaginei serem possíveis. No momento exato do medo, vinha a preguiça. Quando atingi a vertigem em seu máximo, deu-me a indiferença. Mesmo as cores e as outras percepções sensoriais que substituíam a imagem e a forma eram inéditas, impossíveis. O mínimo som que emanava metálico do que me parecia ser um carrilhão brotava do imprevisível, e onde deveria haver o subsequente espanto, instalava-se algo como uma memória embaçada pela vida, pelas formas que me cercam, pelos nomes das coisas. Eu mesmo, naquela narrativa, não tinha a minha forma nem o meu nome. Meu peso era aéreo, e eu respirava o líquido que era o ar. As chamas eram sedas cálidas, e o frio era agradável como uma tarde na praia. Havia, afinal, um enredo. O sol era uma ideia morna que eu deveria atingir, como um Ícaro exitoso. Porém, atingi-lo demandava esforço, e vários outros fantasmas que se desfiavam sólidos e inconstantes ora auxiliavam-me, ora me ignoravam, e a solidão como eu conhecia se personificava ao meu lado, um fantasma novo, sorridente e compreensivo, com o meu próprio rosto, dando uma nova perspectiva a cada fracasso. Ali, eu comecei a entender, estava a mensagem, impossível de ser dita, inviável de ser exemplificada. Foi-me assim instruindo que nada se opõe e tudo se complementa, existindo, ainda, independentemente, como os vários eus que todos os outros fantasmas se configuraram, trocando de lugar conforme a conveniência do que eu queria que acontecesse.
    Assim como num sonho, senti despertar ao fim do filme. Ali estava ele com os mesmos olhos, instruindo-me em silêncio que não devia procurar os pensamentos, que pensar é o mesmo que prender-se à cadeia do tempo. A morte tem a sua própria forma de viver, disse-me com os olhos. Hesitei em lhe fazer uma última pergunta. Queria saber se a morte seria uma sequência interminável de lições que daria a mim mesmo. Ele o percebeu como percebera tudo o que eu tentara pensar, desobedecendo-lhe. Isso lhe foi suficiente para antecipar-se numa nova gargalhada, ainda mais humilhante. Em seguida, foi-se da mesma forma como veio, incômodo e tirano.
    Deixou-me vazio, e senti que me roubara algo. Corri ao papel e tomei-me o pulso, medindo. Certificado, tentei escrever. Só então, percebi o que me fora furtado. Sem que eu me desse do que ele pretendia, ao me encher de significados, não me dera palavra alguma que lhes fosse corpo, e nenhuma das que possuía se prestava ao trabalho. Ali, entendi. Deitei, epifanizado. Fantasmas existem sim. Não têm nome, não têm forma, não têm idealização possível. Mas existem mais reais que a sua própria ausência, que somos nós e que é a íntima essência da vida.

15-16/12/19

sábado, 14 de dezembro de 2019

A SOBREVIVENTE


    Eu já ouvi que era uma adolescente com a simpatia de uma velhinha. Queriam dizer, talvez, que meu comportamento não era atrevido nem arrogante como o das minhas amigas de então — porque essas coisas de amizade mudam! —, cheias de bravatas e crueldadezinhas com todos. De fato, eu sempre achei essa vitrine espinhuda em que as meninas costumavam transformar sua fala, seus gestos e suas atitudes um artifício tão pobre, um desperdício de ironia existencial tão grande A maioria era frágil, gentil e carente como é o natural nessa idade, assim como os meninos também, inclusive. Todavia, com estes, a vitrine era uma hipérbole macaqueada do que eles achavam que um homem deveria ser. Sempre achei que era mais prática a transparência prudente; e mais segura, a verdade encarada no espelho.
    Hoje isso me lembra minha avó, D. Menininha, que morreu sendo chamada por esse apelido, o qual carregava o sentido exato do que ela fora a vida inteira: uma ispilicute.  Minha avó foi uma ispilicute mesmo inválida em sua cadeira de balanço, no sopé da calçada alta, implicando com o povo da rua, dando coió para espantar morcego e fumando escondido até a morte um cigarro pé-duro que ninguém sabia como obtinha.
    — Invente seus mistérios e me deixe com os meus, Ritinha.
    Esse foi o melhor conselho que recebi na vida, junto com o outro de procurar homem só pela manhã.
    — É quando eles traem, minha filha. Melhor lado do chifre é o lado de fora. E procure homem da perna fina. Trabalha, que é um danado

    Adaptei esse conselho ali pelos catorze, quando dei em cima de alguém pela primeira vez. Maria Luíza, um chuchu. Perninha fina, mas uma cinturinha
Fiquei com vontade de contar para minha vó do alvoroço, da lambança de quem faz sem saber o que está fazendo, do susto e da carreira, da risadaria e do gozo, o primeiro de vera, o que me abriu uma greta lascada na pele e no juízo, que eu tinha de preencher pelo menos uma vez por semana, senão ficaria doida. D. Menininha nem sabia como era certo aquele conselho das pernas. A pessoa é mais ágil, sem ser bruta, é leve e maleável, sabe intuir onde colocar o corpo, uma delícia. Perna grossa vem normalmente com uma modorra inata, uma leseira, um arrastado de chinela. Peguei mais regra que exceção, posso afirmar: mulher de perna grossa só presta para homem.
    Malu foi a primeira que me disse aquilo de parecer uma velhinha, numa tarde de um falso trabalho escolar no seu quarto cheio de pelúcias. Ela queria dizer que eu era mais experiente, imaginei na época, mas depois a entendi. Isso de não fingir ser outra pessoa, não dissimular esse eu-mesma, que era de acordo com o ela-mesma, me atribuía uma aura de alegre segurança, me incluía num grupo do qual eu não escolhera fazer parte, mas já fazia: o dos guias, o dos conhecedores dos caminhos. O que aconteceu de verdade foi que eu intuí tanto quanto a Malu todos os toques, o tempo certo em que as minhas mãos deveriam ficar entre as suas pernas, a sucção adequada para cada beijo e chupão, a quantidade perfeita de saliva em cada linguada. A diferença foi que eu agi com a mesma naturalidade de quem faz uma traquinagem qualquer, como tocar a campainha da dona Lourdes — que a havia instalado para estabelecer a diferença entre ela, que se arrogava ares de evoluída, e nós, o canelau, os zés-povinhos —, a única que havia naquela época, e sair correndo, calculando o tempo e a velocidade, o risco e o prazer, e tudo isso com a consciência da subversão e sem me questionar um só segundo sobre a simbologia ou a aceitação daquela molecagem pelos adultos, o que sabiam os adultos de ser criança?, o que uma criança deveria sofrer por ser quem é? Foi assim, como uma perna que se põe após a outra numa carreira desabalada, que eu descobri a doçura do proibido e a urgência de mais, porque aquilo era eu, e aquilo era muito bom.
    Não foi fácil, contudo. Guaiúba era, naqueles anos setenta, a despeito de ser um interior perto da capital, de um atraso pouco possível de ser imaginado hoje, mesmo com este retrocesso mental que ascende contra pessoas como eu. O que hoje escandaliza era usual na época, era encartilhado e ensinado na fala e no cinturão. Escondi muito bem meu romance com a Malu, mesmo quando estávamos ulceradas pelas brigas que depois levaram ao rompimento. Escondi bem, porque possuo a arte de encaixar minhas máscaras sociais firmemente e de trocá-las com perfeição. Para meus pais, eu era só a moleca cheia de meiguice, estudiosa, boa filha, menina direita, porque era isso que eles precisavam saber de mim, e essa era a minha verdade para eles, a única. Não precisava ser
com outras pessoas quem eu era para a Malu. Para ser lasciva, depravada, puta, mulher, eu já tinha a Malu. Ninguém mais precisava me ver daquela maneira. Entretanto, já queria… Olhava as outras meninas da escola, fingia-lhes amizade para sondar possibilidades.
    No entanto, D. Menininha, por trás de sua quase cegueira desdentada e entrevada, me sentiu os guardados. Talvez pela sua própria experiência com a sexualidade, que continuo imaginando ter sido uma sequência de violências e resistências — porque ela, apesar de um conhecimento doutoral no assunto, que não hesitava em passar adiante desbocadamente, não falava do meu finado avô, por respeito ou nojo, os quais ela nunca deixou ninguém discernir exatamente, resguardando-se nessa dúvida —, ela adivinhava que eu já teria experimentado homem.
    — E aí, minha filha, já tá mexendo direitinho?, perguntava com uma cumplicidade e uma malícia que me emocionavam, porque eu sabia serem, daquele jeitinho dela, só para mim.
    — Oxe, vó, e eu lá mexo em nada? Sou bem quietinha, respondia no mesmo código.
    E ríamos, e assim nos entendíamos, cifradamente. Ela sabia de maneira sangrenta o preço da liberdade, pois esta lhe havia custado tempo, saúde e juízo, e, por isso mesmo, cuidou muito bem da minha durante aqueles dois anos em que o amor e o sexo cresceram em mim, e eu floresci. Quando ela morreu, experimentei uma solidão e um abandono que me amadureceram quase instantaneamente. No fundo da minha rede, enlutada, rasgando o desespero de uma órfã, acabei esquecendo a hora certa de trocar a máscara, e aquele rangido de dentes deu por faiscar na mamãe o corisco da desconfiança. Ela sempre soube que eu era mais próxima de sua mãe do que dela mesma, não que ela não fosse amorosa ou que fosse uma tirana, mas, simplesmente, porque estar ainda encoleirada ao meu pai limitava a mulher que ela era, e isso abria um abismo entre a sua subserviência sublimada e a minha liberdade vivenciada.
    Mamãe era um bastião, um arrimo, a viga mestra da casa. Papai, ocupado com a criação e com o açougue, homem honesto, muito limpo, bigode calado, devoto da Virgem, só era pai no manter-nos e no prover-nos. Éramos dignos em nossa vida de família pequena: eu, filha única, devido a mamãe ter perdido o útero no parto, eles e vovó, única sobrevivente de uma longa linhagem de maus-tratos. Isto ela ensinara à mamãe: “Pra mão de macho levantada, tem peixeira na cozinha. Ai de tu, se ficar igual a mim”. Sua filha, talvez por amor ou pelo buraco deixado pela morte do meu avô, anuíra a tudo, à simplificação, ao silêncio, até à usura, mas seu temperamento havia deixado bem claro a papai que, se ele sinalizasse qualquer menção de agressividade, não viveria muito. Eles haviam se casado logo depois que meu avô morrera por infecção generalizada devido ao cancro que contraíra nos puteiros e nas cocheiras de Guaiúba e Pacatuba, em cima e embaixo, de um lado e do outro da Aratanha, e só o fizeram porque, se ele ainda estivesse vivo, não o permitiria. De fato, namoraram em segredo, acoitados por vovó, que tentou fazer com minha mãe o que fazia comigo. Ela só não adivinhava que o temperamento medroso e adolescente do meu pai viesse a se transformar numa beatice azeda e numa anulação paulatina da mulher que minha mãe poderia vir a ser. Talvez, ele tenha se tornado assim para compensar o tipo de homem que meu avô era. Na tentativa de criar o seu oposto, assemelhou-se a ele, exceto na violência, a qual era tão típica sua que o fizera temido na região toda e, eu soube bem mais tarde, o havia tornado mais de uma vez contratado pelo prefeito para matar opositores, o que nunca lhe foi atribuído às claras devido ao temor criado pela sua figura alta e vermelha, seca e viperina. Dele herdei os olhos verdes e a chumbregagem, que já me latejava entre as pernas e viria a jorrar em xiringadas de sangradouro pouco tempo depois, quando vim dar em Fortaleza, à ocasião de minha fuga de casa.
    A cumeeira alta, ornada de morcegos amofinados, foi a testemunha. Mamãe chegou, olhou aquela desesperação de dois dias primeiro com piedade, com maternidade. Puxou o tamborete, sentou, esperou. Na ocasião da morte do pai, a culpa de havê-la desejado assombrava-a e lhe atravessava a barriga e lhe rasgava a garganta. Havia dor e amor em seu olhar, quando eu o encontrei. No meu, onde ela imaginara encontrar um semelhante ao dela, surpreendeu-a o medo. Mamãe não era boba. Sertaneja, silente uma vida inteira de suas dores, havia aprendido a ouvir bem os silêncios alheios. Adivinhava traições, anunciava intenções de crimes, compreendia martírios. Era mulher de ouvir escutando com os olhos, com a pele, a temperatura daquilo que lhe diziam e a frieza do que lhe calavam. Súbito, carregou-se de outro silêncio, beligerante, ameaçador, um silêncio de mãe. Olhou-me de cima abaixo, arrastou-me para fora da rede e começou a me arrancar as roupas, ao que eu, também já versada naquelas necromancias femininas em meus dezesseis anos, ao não me opor, ao não me proteger, dizia-lhe que nada encontraria. Mas ela já sabia que ali existia outra filha, uma que traíra, que dissimulara, ela não sabia o quê, mas estava ali, na carne, mesmo com a presença do cabaço, havia já uma mulher ali, onde ainda não deveria haver.
    Gritou-me por fim todos os nomes. Ameaçou-me de morte. Trancou-me no banheiro, onde me encolhi encostada na parede da cisterna. Abraçada aos joelhos, olhei a cuia velha pendurada na parede, olhei as teias recentes ainda vazias de muriçocas. O banheiro era frio como o riachinho que dividia o terreno da casa com a mata que antecipava a Serra. Eu também estava fria. Ali, sem saber, já havia decidido um fim, também não sabia de quê, mas amanhã eu não seria mais eu mesma. Malu me cobrava os olhares, os silêncios, as pequenas manifestações do que eu viria a ser, e aquilo me enervava como um cabresto que me queriam pôr. Sua família nem sonhava, graças unicamente à minha proficiência na dissimulação, que nos azunhávamos no quartinho, cavando a pele uma da outra, buscando o gozo da primeira vez, poucas vezes reencontrado. Contudo, aquilo, ao mesmo tempo em que me atava, começara a me enojar pelo mesmo motivo, e esse binário de opostos, somado à morte de minha avó, foi o que minha mãe quase adivinhou.
    Acalmei, entrei na cisterna, coisa que já havia apanhado para não repetir — “E nos outros que vão tomar banho, tu não pensa não?” —, e me entreguei àquele frio até os ossos, esperando o que já sabia. Meu pai chegou, minha mãe lhe expôs o caso, longo silêncio dele. Apesar de ele vestir a tradição de usar as calças na casa, temia de certa forma as três mulheres que viviam ali. Protegia-se naquele silêncio masculino, patriarcal, onipresente mesmo na ausência. Mas nos temia. O silêncio era o seu jeito de ser homem e de ser pai de forma efetiva e definitiva: o silêncio, naquela casa, não deixava dúvidas. Eu não sentia medo, mas sim uma espécie de ansiedade. Assim como minha mãe, eu adivinhava, e precisava daquela culminância que mudaria tudo. Nem cuidei de desfazer o engano, e, se o tentasse, de nada adiantaria. Mesmo constatando minha virgindade, minha mãe estava convencida de que eu já era mulher, e foi isso que meu pai entendeu.
    — Maria Rita, se vista.
    Minha mãe, com minhas roupas na mão, a porta entreaberta.
    — Seu pai quer conversar com você.
    Pelo vão, vi meu pai sentado, já com o relho de dar nos jumentos pendurado no pulso direito. Imediatamente, lembrei minha avó, mas não com o desamparo de havia pouco. Lembrei as vezes em que ela me dizia, repetindo as orientações que dera à mamãe: “De homem não se apanha nem na putaria”. Arregalei os olhos, e o ódio me tomou inteira e me levantou da cisterna, ensopada, tilintando de frio. Abri a porta, nua como estava, e desafiei, a boca crispando as palavras metálicas, inesperadas, firmes naquele tremor. Eu era já alta, e meu corpo já havia se arroliçado na formosura e na força. Meus olhos, como os de meu avô, eram dois punhais de esmeralda apontados na direção do meu pai, que lhes sentiu a pungência e calou o próprio silêncio, engolindo-o seco e engasgando-se numa tosse de cachorro que o fez sentar de novo, a mão no peito, a cara amarela.
    — Venha! Venha! Venha, se for homem!
    A isso, minha mãe, a boca aberta, avermelhada de repente, entendeu. Ali havia, sim, uma mulher, mas de outra forma. Não pelas mãos nem pela jeba de um homem, como havia sido com ela e como ela intuía. Eu era a mulher que ela poderia ter sido, eu era a antagonista do meu avô, eu era a força que ela nunca teve, a força que roubaram à minha avó, D. Menininha, a força que havia nascido da liberdade do corpo e da aceitação orgulhosa do espírito.
    Durou um instante apenas. Ela correu ao meu pai, que arquejava o malassombro de ser impotente diante daquela mulher-homem, como que para acudi-lo, mas, em vez disso, arrancou-lhe o relho do punho e surrou-me gritando, como um porco em agonia, “Morre, morre, morre!”, e me batia cada vez com mais fúria. Como o escrúpulo havia cedido à animalidade, ela não escolhia um alvo, como acontecera nas poucas vezes em que me surrara, quando mirava minhas pernas e minha bunda. Nas suas convulsões de égua, acertou-me um olho, que vazou imediatamente, lacerou-me os seios, esfolando-lhes os bicos com a ponta do chicote. Meu pai, de boca aberta, apavorado, gemia infantilmente que ela parasse, que já estava bom, que eu já tinha aprendido. Ela não parava. Ensanguentada já, acocorei-me e lhe cedi as costas, que receberam uns bons minutos de lambadas. Quando tudo acabou, foi a sua vez de desfalecer, mas de exaustão. Caiu no chão ao meu lado e foi socorrida pelo meu pai, que a levou à cama deles, me gritando que lhe levasse uma água com açúcar. Eu ardia. Juntei o que podia dos panos que estavam ali, me arrastei até a arca onde guardava minhas roupas, vesti uma bonitinha, de que Malu gostava, era a que estava mais em cima.
    Hoje, relembrando esse dia, não sinto remorso do derrame que vitimou minha mãe nem da depressão que meteu o meu pai na cachaça e o levou a uma morte solitária, somente descoberta bem depois, pelo mau cheiro na casa. Nunca mais vi Malu, a única que me negou guarida depois de minha fuga. Dei-lhe à porta, mais molambo do que gente, ao que ela gritou, primeiro de terror, depois de medo, “Vai embora, sua louca, meu pai tá aqui, vai embora!”. A bem da verdade, eu não havia ido a ela por motivos românticos. Hoje eu sei disso. É que a dela era a única casa com cujo endereço eu atinara, de tão esgarçada que estava. Seus gritos me despertaram, e o meu olho bom deseclipsou-se daquela sangria. Meu corpo vermelho de sangue debaixo do vestido amarelo me deixava com o aspecto de um enorme crisântemo no batente alto daquela casa. Passaram, me viram, me socorreram, quiseram prender meu pai, e só não o fizeram por se apiedarem daquela sua viuvez imediata. A tragédia virou causo, e falavam de minha mãe como de um fantasma, uma visagem que vinha surrar as filhas desviadas por macho. Sim, porque, para todos, aquilo havia sido por causa de um macho.
    Se me perguntassem hoje, tantos anos depois, eu diria que fora justamente pelo oposto. É uma pena que não haja ou eu não conheça uma palavra que signifique o oposto de macho. Não, não é fêmea nem é mulher. Homens e mulheres não são opostos, eu sei, provei ambos. São apenas dois universos diferentes, com um balanceamento diferente de forças e magnetismo. Entre os corpos celestes, o vácuo é o mesmo para os dois. Não, não faltava em meu pai a masculinidade que abundava em meu avô. Tampouco, havia em mim um excesso de mulher do qual carecia minha mãe. O que havia naquela casa era uma despolarização, uma desarmonia, uma balança corrompida que igualava a desigualdade de três contra um. Havia um organismo guenzo, uma deformidade da qual eu sou o único fruto e a única sobrevivente, condenada e abençoada a ser o oposto de mim mesma em cada corpo que possuo e ao qual me entrego. Justo eu, que nunca me neguei no espelho, vivo hoje a eterna aventura de me descobrir sempre diferente, sempre outra, como se fosse a mim mesma que eu buscasse nesses corpos. Mas eu não quero isso de me encontrar, não. Tomara Deus que, em vez disso, eu encontre de novo D. Menininha, fumando seu cigarro misterioso, enxuta mesmo sob aquela minha saudosa chuvinha serrana, sorrindo banguela um deboche qualquer, que eu completaria com uma gaitada que nos irmanaria e encaixaria de uma vez por todas e para sempre.

14/12/19

domingo, 8 de dezembro de 2019

O MILAGRE DE SANTA CLARA


    — Olha aquele um: não foi marcado. Feliz, sem marcas, quase santo. Nesse aí, a vida errou o tiro.
    — A vida não mata com bala não. Isso é sonho, Francisco. A vida mata lento, e é com veneno, e veneno no homem pode ser na veia ou na ampola. Esse não tem cara de quem porta porque administra.
    Sempre achei que era branca a pessoa da morte. Francisco ria disso e me dizia que a vida é que era branca, e os homens a sujavam. Esse outro lado que jamais atingiria me divertia nele. O amor é algo que também mora nesse outro lado. Ele era cheio de sorrisos venturosos, um peito de passarinho. Dizia em meus ouvidos que toda melancolia tinha o seu mel, e que eu era a “sua melancolia”. Francisco era um ponto brilhante que eu orbitava encolhida, enegrecida de sombras e crateras carbonizadas.
    Olhei de novo o homem, mais atenta, enquanto Francisco me recitava versinhos do Jeneci. Realmente, ele parecia uma versão definitiva e irretocável do Francisco. Era velho sem ser gasto, era branco e iluminado, andava como se se espalhasse pelo caminho e se tornasse mais completo a cada passo. Acredito que os polos, as extremidades de tudo, de alguma forma se encontram num paradoxo perfeito em algum lugar. Se aquele homem era, como dizia Francisco, um não-marcado, ele era, segundo eu mesma, todas as dores juntas. Contudo, o que era, naquela situação, diferente de nossa habitual discordância das coisas era que eu não acreditava que as marcas nele eram dele. Parecia que essas marcas eram aquilo que ele espalhava, tornando-se mais belo à medida que regava o mundo das dores, sombras e crateras que eu conhecia tão bem.
    Francisco, ele, sim, era um santo. Conversava comigo como se eu fosse um bichinho, punha flores em meus cabelos no final de um dia de trabalho. Aquela semicalva também parecia a do Santo, o Outro, e eu gostava de fingir arranhá-la com minhas unhas. Foi ele quem me ensinou a olhar o sol na hora certa, a tomar cerveja na hora certa, a fazer amor na hora certa. Talvez fosse isto o que me dificultasse amá-lo: não me sentia transformada, mas sim consertada. Aquele excesso de luz me aniquilando a escuridão acabava por tirar de mim o que poderia me fazer sentir-lhe amor: a necessidade. Francisco era onipresente. No universo, a escuridão é onipresente. A luz é que é pontual como postes iluminados numa estrada noturna e sertaneja, saindo ou entrando nas cidades. Naquele universo franciscano, a luz era insidiosa, e eu era obliterada em vez de iluminada. E eu sabia que não era assim com aquele velho. A luz que vinha dele não me obscurecia; eu era atraída por ela. Aquele homem branco era, sim, a morte, eu sabia. Sabia porque, quanto mais eu o olhava, mais eu mesma eu me sentia, e era tudo de uma claridade que não me matava, como a de Francisco fazia, mas que me revelava. Enquanto Francisco ia me contando das cores do sol na linha do mar atrás de mim, servindo como assento no qual me recostava na Ponte Metálica, eu ia me sentindo mais nua e distante, olhando para aquele homem branco passeando calmo na noite que purpurejava o céu crescente diante de mim. Aquele homem era a morte porque não me matava.
    — Francisco, eu preciso andar. Vamos até o Joca? A gente vai pela areia, molhando os pés.
    Isso era entrar na noite que entrava na cidade.
    — Vamos. De lá, a gente vai pros barcos, talvez ainda tenha camarão.
    Incomodou-me um pouco ele aceitar. Tinha a esperança de que ele dissesse não, e eu diria que tudo bem, que iria assim mesmo, que ele poderia voltar, que ele não me fazia falta, que eu não o queria. Encandeada, eu fui. Sabia que o velho tinha ido por ali. Sabia que eu tinha esse dom de rastrear gente, de farejar gente igual a mim. Talvez conseguisse. No mar, ele não entrou, estava em roupa de passeio. Há quem se banhe à noite, ainda mais naquele novembro quente dos infernos. O mar de Fortaleza tinha essa propriedade de esquentar o frio e resfriar o calor, além de ser um limite que só transpassam os barcos e os suicidas, e ele não era nenhum dos dois. Por que eu queria alcançá-lo? O que eu faria, o que eu diria? Diria? “Oi, boa noite, o senhor é muito bonito”. Ele não era bonito; era outra coisa. O que eu sentia era outra coisa. Não o queria como homem, não lhe cobiçava o corpo. Eu queria mesmo era perguntar “Oi, boa noite, o senhor me leva?”. Preciso ir. Preciso me escurecer de novo, preciso de mim negra para poder olhar as estrelas. E Francisco? Francisco era bom. Eu não o apagaria.
    — Você quer dar um mergulho?
    — Eu, não. Por quê?
    — Tá muito quente. Olha aquele lugar ali. Tem pouca gente.
    — Francisco, e se eu quiser, mas não contigo?
    — …
    — É, sozinha. E se eu quiser entrar, e não voltar?
    — Tá, tudo bem, a gente não vai. Não precisa apelar. É que a gente já andou tanto…
    — É, a gente andou muito. Aqui tá bom. Consegue uma água de coco?
    — E uma cervejnha?
    — Pode ser. Deve ter vendedor de camarão por aqui. Já vi gente vendendo ali, no Espigão.
    E se eu aproveitasse e entrasse mesmo? O homem branco deve estar lá… Ou chegando. Sei que andei mais rápido que ele. É quente mesmo, Francisco tem razão. Se bem que, sei lá… Estou respirando melhor. Nesse céu sem nuvens, já dá para ver as estrelas, apesar da cidade. Por que tem tanta luz em toda parte? Isso sufoca igual aos fios e aos postes e aos prédios. Igual ao Francisco. Sozinha, seria bom entrar. A água está boa, quase não há ondas. Aliás, nas ondas, eu penso melhor. Já consigo pensar melhor. O barulho das ondas não vira palavra, e a palavra atrapalha o pensamento, o verdadeiro pensamento. As palavras pesam como âncoras, como a que prende aquele navio lá… O barco lá longe, que, no mesmo corpo, espera e parte, sou eu, um estado fixo e itinerante, esta vontade de ir, indo, mas estática, ancorada, contemplando a jornada. Falar atrapalha a viagem.
    — Aqui, o coco. O rapaz lá vai trazer o camarão e as cervejas junto.
    — Então, pra quê o coco?
    — Ué, você pediu, ora. A cerveja foi ideia minha.
    — E o mar?
    — Olha aquele navio ali. Deve vir carregado de quinquilharia. Nessa recessão, é só o que se consegue vender. Deve ser bom ficar parado no mar, o vento, a espera… Sabia que, dependendo de onde eles vêm, eles podem esperar mais tempo pra aportar do que pra chegar aqui? Se vierem do Recife, com certeza… Olha, viuvinhas. Deve ser época de tatuí. Nem sei como ainda tem, com essa poluição.
    — Eles se adaptam, eu acho.
    — Olha aquele senhor de novo. Olha, sem preocupação, sem peso… Acho que não é rico. Gente rica anda torta ou dura, desfilando pra ninguém.
    — É…
    — Ué, não vai discordar não? Você tinha dito que o homem carregava veneno.
    — Acho que tem mais veneno no barco.
    — Opa, chegou a cervejinha, E o camarão. Valeu, irmão. Pedi pra você também, Clara. Olha, até o senhor lá vai dar um mergulhinho. Também, com esse calor…
    — É. Agora eu quero também. Vamos apostar quem nada mais longe?
    — E nossas coisas?
    — Deixa com o moço da cerveja.
    — Tá, mas isso de nadar…
    — Qualquer coisa, você me salva.
    — Certo.

08/12/19

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

TODAS AS CORES DO UIRAPURU


    Nem ligava mais se a entendiam. “Isso é gente que não chove”, dizia às rolinhas. Todos os dias, fazia pelo menos uma coisa sem sentido algum aos olhos tão acostumados com o pragmatismo da capital, e isso a tornava ridícula em seus farrapos de mendicância, mesmo aos outros desgraçados como ela. Vira e mexe, conversava numa língua pagã com uma árvore ou dedicava uma tarde incinerante a andar curvada pela Praça, catando os lixos minúsculos que os garis haviam ignorado. Talvez, fosse a sua infância iluminada por um sol diferente, a qual lhe ensinou como andar descalça e o tom de voz certo para chamar passarinho. Fortaleza era tão pobre de passarinho, só tinha pardal e bem-te-vi. Enojavam-na os pombos. Ela, que se acostumara a comer avoantes e hamburguesas no sertão de sua avó, sentia um certo ódio quieto daquela ave tão urbana. Achava-a feia como os prédios e os postes, e, pior, sentia-se oprimida de tal forma que se impressionava como se vendo uma visagem quando vinham em revoada, à semelhança de marimbondos enormes. A cidade inteira lhe era como um gigantesco arapuá que não podia queimar como o fazia seu avô, quando ia colher mel nos campos da vazante. Ali era sempre verde, mesmo na estiagem, e o aroma dos cravos-de-defunto, dos jasmins e das flores das mangueiras adoçava a atmosfera como uma grande roupa natural, como uma grande alma, dentro da qual brincava a dela. Já o pombo combinava com o poste, que combinava com o prédio, que combinava com o cinza quase tátil que se respirava no Centro.
    Na Praça do Ferreira, ela era a “doida do assobio”. A galhofa tão típica do fortalezense é, na verdade, a maior violência desta cidade, ensinada desde o berço e aplicada até o pós-túmulo. É como se todos existissem nos dois extremos apenas: os defeitos, laureados pelo coió — patrimônio imaterial —, e as virtudes, sempre associadas ao poder que inviabiliza o coió. Entre os polos, um pêndulo que dança entre a hostilidade e a subserviência. No sertão dela, também tinha disso, mas não era ambiental como aqui. Aqui, na falta da parede do açude, fugia assobiando para as viuvinhas e um ou outro sibite, que ornavam os velhos oitis da Avenida do Imperador.
    Também, com as décadas, fora perdendo a memória, tanto que não se lembrava mais do assassinato do pai pelo avô na ocasião em que aquele fora pego tentando estuprá-la. Não se lembrava mais das foiçadas e dos gritos, mas ainda guardava uma predileção inconsciente pelo vermelho. Também não se lembrava de ter sido expulsa pela mãe, que nunca lhe perdoara os ganidos que lhe roubaram o homem. Tampouco do desgosto do avô, que pegou maniconia e apaixonou-se pela morte, gemendo pela esposa finada no terreiro da cacimba, onde fora encontrado meses depois, mole e podre, os quartos quebrados. Viera de caminhão em caminhão, sempre pagando com a moeda que matara o pai, até dar em Horizonte, donde andou até sangrarem os pés na esperança de ver o mar. Viu. Era grande como lhe contara a avó, que guardara numa garrafa vazia de cachaça um litro de sua água, o seu bem mais precioso, atrepado na prateleira dos santos, ao lado de um Sagrado Coração de Jesus e de um Imaculado Coração de Maria, onde votava seus terços de saudade. Contudo, decepcionou-se com a solidão do mar. Esperava algo parecido com o que sabia de água, que era o Jaguaribe dando no Orós, algo como um encontro, uma comunhão. Sua alma doeu um pouco, pois rezara para aquela água em menina, e esperava uma espécie de Deus sertanejo, turvo, violento e bom, um Deus como seu avô. Em vez disso, encontrou imensidão e sal e não entendia como as pessoas adoravam se salgar naquela água de onde sempre se saía mais sujo do que quando se entrava. Nem entrou. Molhou os pés, que arderam nas lazeiras e nas unhas perdidas. Daquele dia lembrava-se bem. Começaram ali os coiós e as arengas. Nunca pensara que ser matuta era coisa que se usasse como ofensa, e era uma ofensa tão aguda, pungente como aquela ondinha suja que lhe chupava o sangue dos entrededos. Sem saber o que fazer, acentuou a matutice num esconde-não-mostra da cara entre os ombros, e foi-se andando torta pela dor do sal e das tampinhas de garrafa sob os pés. Subiu a rua da igreja, igreja feia demais, parecia um malassombro cinza, pontiagudo. Desde que entrara na cidade por Caucaia, sentiu um acinzentamento de tudo, do céu, do ar, das pessoas, até que, para não ficar também cinza, coloriu o ar à sua volta com os assobios, que era o seu jeito de passar pelos aperreios. Foi escorraçada de casa assobiando, assobiou enquanto os caminhoneiros e freteiros lhe comiam o resto de infância, assobiava para não se perder, pois seguia o som que projetava alma nas coisas que lhe tiravam, família, virtude, vida. Assim foi. Existia dentro das musiquinhas de menina e das imitações de sabiás, graúnas e bigodeiros, de que tanto o pai gostava. De alguma forma, nessa amnésia, sentia-se bem, como se um santo lhe houvesse agraciado com a percepção de um sentido íntimo das coisas passageiras e a dessignificação dos traumas, dos quais pareciam ser compostos todos os outros. Retinha os sorrisos das crianças filhas de outros mendigos como ela, aos quais retornava sempre uma imitação de passarinho, mas não perdia nem um momento considerando a própria miséria ou o olhar ascoso das outas crianças com as suas mães, que só não lhe passavam por cima por nojo, até porque, como não se lembrava como fora dar ali, não era capaz de pensamentos dessa profundidade. Lembrava o sertão iluminado, paraíso para o qual, um dia, voltaria. Lembrava a decepção do mar e o início e o então do cinza urbano, e isso era como o seu diabo. Para o resto, assobiava e se coloria toda, sem lhe atingirem os escárnios e os coiós cotidianos.
    Naquele cenário, no centro do Centro, no centro do início daquele aglomerado de fins, visitavam-na e aos outros mendigos, casualmente, voluntários de igrejas e assistentes sociais. Achava graça neles. Ninguém dizia coisa com coisa. Falavam de higiene e de Deus, como se ela não pudesse lhes ensinar assobiando a anatomia e a Bíblia, a ciência atômica dos corpos e a metafísica absoluta do universo. Contudo, numa manhã em que assobiava para um saco preto de lixo de lanchonete, de onde retirava os restos que lhe calavam momentaneamente os silvos, parou diante dela uma mulher velha, branca, mais ou menos da sua idade, com o olhar silente e duro como o de uma matriarca que manda o filho se calar. Assombrou-se de súbito, mas logo abriu um sorriso podre de volta, pois não viera dela nada de ruim. O olhar da velha dizia muito. Ela o ouviu atentamente. A velha abaixou-se, acocorando-se ao lado dela, sempre lhe dizendo o que ela sabia ser só para ela, pois não havia palavras nesse dito. Desabituara-se das palavras, pois o nome das coisas era música, e ninguém lhe dizia nada de importante. Sentiu que a velha se apequenava à medida que o diálogo prosseguia, esvaziando-se pelo olhar, que a preenchia de sons que nunca ouvira nem saberia imitar. Também lhe pareceu que ela não era mais velha, que ambas não eram mais velhas, que ambas iam suavemente se colorindo — uma, preenchendo o seu branco de laranjas e crisóstomos; outra, atenuando o seu negro em tons lilases e amagentados. Foram, no tecido daquele silêncio, vestindo-se uma da outra, tornando a ser quem foram, sob os umbuzeiros e entre as gravioleiras, ambas bebendo daquela sertania, tão misteriosa aos que as rodeavam — pois nunca enxergaram aqueles espectros luminosos nem ouviram aqueles segredos compartilhados de beira d’água —, mas tão identitária, e íntima, e telúrica, que pareciam ambas mãe e filha, filha e mãe, terra e planta, sertaneja e sertão. Seu coração crescia, e ia se lembrando de todas as coisas. Lembrou-se de outro mar, de outros pais, de outros crimes. Lembrou-se alegremente de quando era inconclusa, feita apenas de pensamentos e imaginações. Lembrou-se ainda mais distante, quando, na mais absurda liberdade, existia inimaginável, etérea e ampla, parte intrínseca de coisas que ainda nem existiam. A velha, já remoçada e multicolorida, confidenciava-lhe o segredo que guardava o que lhe diziam todo aquele tempo os passarinhos, quando ela os imitava declarante de si, mas ignorante deles. Ela compreendeu com a surpresa de quem não sabia como não percebera antes. Ali, ela, também moça, irradiante de tons de opala, iridescera finalmente àquilo tudo que poderia ter sido quando lhe roubaram corpo e alma e resplandeceu em cores impossíveis dentro dos ouvidos do chão, das árvores e das águas. Face a face, ambas se perpetuaram num trinado de uirapuru, bicho lendário que seu avô lhe contara ter visto com as oiças, uma vez só, sorrindo banguela as suas lembranças de São Saruê.

18/11/19

domingo, 17 de novembro de 2019

O HEREGE

    — E quem te disse que eu queria?
    — Não quer?
    — Não é da sua conta.
    — Claro que é da minha conta. Quem vai ou não te dar sou eu. Aliás, essa marra toda não tá te ajudando em nada. Gente assim acaba tendo o que não espera.
    — Você não me conhece pra nada. Não preciso de ti! E vá baixando essa bolinha murcha de juiz, certo? Marra é cabeça de bode e mãozada na cara.
    — Já engrossou… Como é que, só pra efeito de lógica, você vai me dar essa mãozada?
    — Tem uma infinidade de maneiras de te quebrar a cara e a pose. Só você, debaixo desse manto sagrado, acredita que é inatingível. Você é a criatura mais cheia de expectativa que existe! Quando não é do seu jeito, lá vêm fogo e enxofre, sete anos disso, sete daquilo, dilúvio e o caralho a quatro. Quem sabe é a Lilith…
    — Ah, agora vai citar os renegados… Essa é a tua violência?
    — Não.
    — Não vai vomitar as tuas blasfêmias agora mais não?
    — Não.
    — Sei. Monossílabos. Acabar, o misterioso sou eu.
    — Não tem mistério, Vossa Onisciência. E, se tem, que diabo é que tu tá fazendo conversando comigo? Quer respostas?
    — Sei todas, criatura.
    — Então me responde. Por que não é da tua conta?
    — Orgulho.
    — Mas é muito arrogante mesmo… Cheguei até aqui me despedaçando, arrastando minha miséria por décadas, mendigando existência, evitando contrariar o que o padre me disse quando eu tinha sete anos, sete anos! Que pecado um cristão consegue ver numa criança de sete anos pra dizer a ela que a vida dela é de outro? E não fazer nada além da ameaça? Não é orgulho! Nunca foi isso, que isso eu nunca tive! Nem agora! É independência! Independência, entendeu? Esta vida aqui, esta merda de vida, é minha! Se sou mais desgraçado que ela, é porque a graça não me importa! A graça foi pra todos os outros que me desgraçaram, inclusive pra ti. Pois não me interessa mais a tua graça, não quero mais, porque querer foi o que mais me desgraçou. Lembra aquele teu silêncio quando eu era roído pelos ratos e disputava comida com eles? Aquele teu silêncio era tão alto, mais, muito mais alto que o meu choro e os meus gritos. Quando apanhei, quando calei todas as injustiças, onde é que tu estava? Me dando graças? Ou era eu que devia me ajoelhar na merda enquanto apanhava e era mijado pelos outros e te dar graças?
    — Entendi a referência. Você quer fazer o que acha que meu filho deveria ter feito.
    — Pobre homem! Coitado! Fez tudo, tudo! Morreu pela gente uma porra! Morreu por ti! Porque foi tua ordem!
    — Sei que isso é muito pra tua capacidade de imaginação, mas já se esqueceu de que eu sou três?
    — Olha, essa história pode ter colado pra Maria. Nem teus padres acreditam nisso. Zeus, pelo menos, era honesto. Descia, estuprava e ia embora, como todo bom canalha, e não negava! Mas dava sempre uma ajudinha aos filhos. Já tu…
    — Hum. Agora, vamos apelar pra poesia…
    — Que é que tu entende de poesia?
    — Olha, você já está ficando irracional. Antes que perca a capacidade de articular as ideias, me responda: quer ou não?
    — Não se preocupe, que eu tô mais lúcido que Lúcifer. N Ã O   T E   I N T E R E S S A.
    — Ok, depois não acrescente mais este à sua lista de arrependimentos. Estou aqui pra te ajudar. Depois daqui, pela minha lei, não pode mais contar comigo. Pra onde vai, não tem volta.
    — Meu querido, se eu, por uma recaída de falta de amor-próprio, sonhasse com uma redenção vinda de você, uma redenção de um crime que você mesmo inventou chamar de crime, igual a uma dondoquinha rica dando esmola no sinal, fingindo ignorar o seu peso no esmagamento dos pobres, essa sua redençãozinha automasturbatória, essa sua merdinha de redenção pra se manter branquinho e limpinho no seu troninho, calando a boca da oposição a cada dia mais crescente e perigosa, apesar dos esforços do Francisco, se eu fosse contar com essa sua redenção, eu seria mais besta que a pobre da Madalena, acreditando naquele teatro das pedras.
    — Olha o respeito com a minha mulher!
    — Arrá, olha aí! Olha aí, rá, rá, rá rarrarrarrarrá!!! Vai pro céu, patriarca de merda, vai pro teu mundinho de reizinho! Aqui, não! Aqui, só tem liberdade! Vai fazer o quê, me matar de novo? Hein? E vai fazer isso como? Minha alma é minha, porra! Minha! Besta foi quem caiu na tua e tá aí azedando na espera do teu juízo. Quem me julgou fui eu, e eu me libertei!
    — Pois bem, seu herege. Agora, nem que tu quisesse. É feita a minha justiça! Vai-te!
    Caiu rindo, caiu sabendo que toda queda é um voo, e todo voo é a administração de uma queda. Sentiu o calor pela primeira vez e ardeu, mas não como o prometido. Ardeu gostoso, ardeu aceso como uma lamparina sertaneja numa noite fria de bacuraus, mochos e caborés piando nos juás e nas barrigudas. Sabia que não haveria mais vento que lhe apagasse a chama, nem de boca, nem de céu, nem de mar. Naquela infinitude de si e de mais ninguém, lembrou-se de quando dormia no papelão molhado sob a marquise dos fumadores de crack, lembrou-se do frio que a fome fazia sentir mesmo sob o sol cearense. Olhou em volta e sorriu, manso, inteiro, concluso. O que nunca fez em vida deu-lhe a morte: dormiu em paz pela primeira vez.

17/11/19

terça-feira, 12 de novembro de 2019

COLAR DE PÉROLAS


    — “A pérola é o câncer da ostra”, dizia para si mesmo àqueles dias.
    Bêbado de palavras, deixava voejarem os sentidos daquelas no fundo do seu mar fosco, poluído de guimbas, cacos de garrafas e roupas podres de suicidas.
    — “Não jogai pérolas aos porcos… Pérola, câncer, cancro, caranguejo, carcinoma… Ostra, ostracismo, óstraco, banimento, banner, exílio… Dias, aqueles dias…”, era esse o fluxo em que se embriagava, afogando-se.
    Lembrou-se do que ela lhe dissera uma vez, perdidos ambos um do outro, traçando rotas pelas estrelas:
    — Deixe meu espírito no frio, não mexa nele, não o aqueça. Você é covarde ao fogo e não sabe lidar com incêndios.
    Realmente. Ardia em febre. Beber só piorava. Rompia o limite que assegurava a integridade do pensamento e da memória, pois a cachaça tomava-lhes as mãos e conduzia-os dançando e gargalhando cruelmente entre os cardos e mandacarus do sertão do imaginário. Contudo, na febre, delirava, e isso era o seu incêndio e tinha lá os seus açoites. Misturavam-se verdades suas e dela, na recuperação mnêmica dos gritos e dos sussurros. O que teria de fato acontecido? Onde acabavam o feito e o dito e iniciava a percepção?
    Queimava-lhe também o remorso da inércia diante da febre epitelial que dela transcendera ao extrafísico. Ele, terrenal e salgado, era de um elemento diferente, um que virava vidro quando diante da chama, e, vidro que era, deixara-se transver, deformando o que estava além de si e codificando-se na sua própria invisibilidade. As labaredas eram nada mais que um balé ruivo e alucinado sobre seu corpo e espírito, ambos incapazes de arder com ela. Punia-se intimamente, tentando incinerar o que lhe sobrara de razão, a ver se, ao menos, nas cinzas, haveria um pouco da matéria que não tinha podido dar a ela nem com flores, vestidos e babilaques tecnológicos. A rocha de que era feito tinha baixíssimo grau de fragmentação, e viraria aço muito antes de ser magma. Entretanto, como se imolava mesmo sem línguas de fogo, crepitava em estalos, irradiava ondas de lamentações infernais e encandeava distâncias homéricas, tanto que, sem saberem ao certo por quê, afastavam-se amigos e familiares, e incomodavam-se meio enojados desconhecidos de toda sorte, inclusive os semelhantes.
    Comeu o enxofre durante meses. Numa manhã que teimava em não raiar, procurou-se no espelho enquanto escovava os dentes, pois o embaçado dos olhos fizera estes acordarem por último. Porém, o que lá estava era-lhe totalmente estranho, e não da estranheza aterrorizante dos despertados do coma ou dos mutilados por ácido. O que lá estava não era um “quem”, não lhe parecia uma pessoa. Sabia como era uma pessoa, sabia! A estrutura óssea, os músculos, a pele. Por conseguinte, ainda que fosse outro, saberia que seria ainda uma pessoa, um ser, mas não reconhecia nada, não havia semelhança com nada. O que estava à sua frente era um ineditismo, uma palavra sem letras, um símbolo sem remissão. Lavou o rosto com o medo de que, uma vez limpos os olhos, a imagem lhes sumisse. Esfregou-os, e lá estava ainda, entregando-lhe algo que lhe pareceu um sorriso, a imagem. Passou a mão no vidro, retirando com as unhas os perdigotos desidratados e as marcas de pasta de dente, e sentiu o contato frio da matéria que lhe tocava de volta. Sentiu uma vertigem como a que só sentira quando criança, quando o pai acelerava na antecipação do declive, e o corpo parecia, por uma fração de segundos, flutuar para depois ser recebido pelo assento da Belina, a sempre possibilitadora de suas viagens ao sertão. Em seguida, algo lhe ascendeu a espinha, ao que o corpo todo obedeceu como se nunca houvesse sido aquilo o seu costume, e desatou-o do chão de azulejos retangulares azul-celeste do seu banheiro, tomando-lhe a forma para outra, uma forma nova e definitiva, equivalendo-se ao que jamais fora nem pretendia ser naquela vida. De mãos dadas, desincompatibilizaram-se com todo o resto, pessoas e coisas, sentimentos e memória. Olharam em volta e viram tudo se obsoletar sem que tivesse havido uma querela sequer. Ninguém era vencedor ou vencido. Tudo, simplesmente, existira, e tudo aquilo que haviam sido estava posto em uma fotografia sobre o aparador da sala, onde também jaziam uma bonbonnière vazia, uns bichinhos de porcelana e um porta-joias de concha bivalve envernizada, presente que dera a ela havia anos, quando as pérolas eram só imaginadas.

12/11/19