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quinta-feira, 21 de novembro de 2024

O MENINO E A NOITE

    Quando comecei a escrever poesia, tinha um pouco menos que a idade atual de meu filho, Miguel, e um pouco mais que a de minha Clarice. Fui incentivado pela minha irmã Malu a datilografar meus textinhos na velha Remington 25 que papai comprara para as filhas, na qual eu brincava de ser escritor. Honestamente, eu me divertia com isso muito mais que hoje. Era um pequeno calhamaço de poeminhas bobinhos que eu intitulei Poemas de uma criança, da Editora Estrelinha, meu único empreendimento digno. Nessa época, eu também comecei um romance que chamei de A guerra dos meninos. Nunca terminei. Talvez, porque já começava a me bandear ao lado do exército inimigo. Também me aventurava em histórias em quadrinhos que eu mesmo diagramava em bloquinhos que confeccionava com folhas velhas de meus cadernos escolares. A principal era a da águia Cry, que sempre mudava de forma entre os quadros. Desenhava o que me vinha à mente, fosse concreto ou abstrato. Peguei gosto pelos super-heróis, pela anatomia humana, animal, pelas formas geométricas, pelas flores. Sempre tentei, sem sucesso, desenhar a noite, mas foi na poesia que tive êxito. O caso é que, nesse momento, a Noite já era outra. A escuridão e o espaço, uma vez palavras, ganharam gravidade, peso, forma e força. Entendi, então, que eu era mais da Noite que do dia, que a ausência do meu amado sol de litoral era muito maior, muito mais íntima que minha relação com ele. Dei a Ela minhas mãos de já pré-adolescente e, a partir daí, ainda que sem saber, passei a dar a tudo que escrevia um tom de ausência, um adeus. Minha escrita caótica foi motejada pela despedida como se, em cada poema, eu me despedisse de mim, ou dos outros, ou das palavras, ou de tudo.
    Hoje, minha literatura tem o encargo de me explicar, de me narrar. O peso do testemunho de quem sou e fui, do que sinto, vejo, amo, penso e odeio tornou-se monumental de tal forma que escrever, há muito, vem deixando de ser produzir e passando a ser descarregar. Escrevo como se tirasse autoesculturas malfeitas de minhas costas, peças que me decompuseram e que me espedaçaram porque são feitas de mim, e que, por isso, me enfraqueceram o espírito mais que me aliviaram de sua sobrecarga. É por esse motivo que não me encontro mais no que escrevi. Em cada texto, em lugar de haver um reflexo ficcional do eu-autor, há os meus pedaços que ele deveria refletir. Eu estou lá, pois sei que eles são meus, mas sei sem sabê-los, sem me lembrar deles. Eu fiquei lá, esculpido, forjado, amalgamado, e a memória do que eu fui não os alcança mais. Ela ficou lá, encapsulada, criptografada. E é esse mistério, essa antologia de lacunas das quais também fui me despedindo, que me pesa ainda mais que quando elas estavam preenchidas aqui, em forma de lava. Lá fora, como vidro vulcânico, são obsidianas cortantes que me sangram ao toque. Revisitar velhos poemas, como fiz há pouco, é como um masoquismo, uma automutilação, uma nostalgia de algo que sempre me espanta e fere, pois o encontro com quem fui é sempre um encontro de estranhos: o eu-cá, curioso e pasmo; o outro, expatriado, arredio, indignado, beligerante.
    Mas, nem sempre. Há vezes em que escrever é confeccionar uma roupa, um uniforme ou um disfarce — às vezes, apenas um cobertor, quando preciso me apartar da Noite. Tirar a própria pele apenas para ver como sou. Depois, vesti-la sobre um eu-novo ainda anônimo e amorfo. Andar, então, pelo presente, vestido de passado, protegido por mim, disfarçado de mim. Escrever, assim, pode ser vestir-me com meu próprio fardo e crescer a carne nova em paz, sem que ela seja cicatrizes.
    Tão diferente vim me tornando quanto vim me descrevendo. À medida que me livrava de mim, vim me acumulando, obrigando-me a reconhecer-me em minha trilha de migalhas de pão. Quanta saudade de quando escrever era como acender velas na escuridão da casa, revelando a mim mesmo nas sombras projetadas na parede. Foi assim com o desenho, com a música e com os primeiros textos, antes que a Noite obsoletasse as paredes, a casa, a cidade, até mesmo, a noite lá de fora. Assim, toda tessitura e toda composição foram estruturando uma nova casa, que cresceu a uma cidade, que evoluiu a um país, assim como o reino dos cheiros de Jean-Baptiste Grenouille, com a diferença de que, lá, todos foram capturados, ao passo que, cá, fomos todos abandonados. Dessa forma, escrever também pode ser um fenômeno biológico como um tipo de meiose, por meio do qual cada texto, ainda que um haicai, é um eu diferente de mim, porém, um componente de mim exteriorizado, e, ao me fragmentar para compô-lo e livrar-me dele, acabo por tornar-me um organismo formado inteiramente de corpos estranhos, células oriundas de uma tentativa de amputação que culminaram numa espécie de eu-colônia ou eu-mosaico.
    Escrever sempre é tentar definir-me por meio de mim e do alheio. Coisas, lugares, pessoas ou experiências, por mais que eu tenha a intenção de denotá-las, acabam por ser uma escusa para falar de mim por intermédio delas, como se fossem todas lentes ou janelas que sempre dão aos cômodos da casa do eu-autor, incluindo-me eu próprio nessa mediação. Nesse último caso, a composição é uma viagem em que o eu-autor é o mar, o barco e o barqueiro, e, chegando lá, nessa terra nova, tenho a sensação muito nítida de descoberta e desbravamento, pois aportei numa revelação de mim mesmo completamente inédita: um eu-mesmo que é outro. Provavelmente, a cada novo texto, a cada novo desenho e a cada nova música, eu vinha criando a mim mesmo, gerando um eu-que-seria, mas, simultaneamente, vinha me despedaçando em vários eus-textos que deixava para trás. Por isto, é tão preciosa aquela criança que datilografava como quem pavimenta o próprio caminho: é dela que não posso me perder; é ela que busco nas releituras; é com ela que preciso me integrar para vagar na Noite. Portanto, escrever é o paradoxo de destruir-me para criar(-me). É multiplicar-me para diminuir-me. É sobrecarregar-me para ser leve. É crescer para tornar-me novamente criança.
    Procurei, outro dia, aquele calhamaço da Editora Estrelinha, sem sucesso. Sei que não o perdi. Está em alguma caixa ignorada em várias mudanças. Gosto de pensar, porém, que não é uma caixa ou um envelope. Gosto de pensar que é uma casa oculta nessa cidade que virou país, uma casa toda feita de lembranças, de onde foram retirados os tijolos para a construção de todas as outras, e, por isso mesmo, imaterial que se tornou, é tão difícil de se encontrar. Lá, quando regressar, vou reler os quartos, o quintal, os vãos de sonho que foram originalmente dormidos. Vou deitar novamente na rede em que as palavras me embalaram pela primeira vez e vou reconhecer-me como o mais distinto semelhante, o mais próximo distante, o mais eu-mesmo que o outro pode ser. A Noite, como agora há pouco, vai parir o dia, e poderemos, talvez, escrever sobre o sol que nasceu no mar e sobre a primeira vez em que nos vimos cara a cara.

21/11/24

quinta-feira, 30 de novembro de 2023

DESENCAIXE



Todo dia, um pedaço de mim sai de casa
Vai à rua, pega ônibus, toma sol
Compra café
E se perde como aquelas peças de quebra-cabeças
Do Corcovado e do Cristo Redentor
Que minha mãe me comprou
Tirando do dinheiro reservado ao mercantil

Cento e vinte peças, todas miudinhas

Muitas mais sou eu

Muito mais me perco

A despeito de todo o desencaixe

30/11/23

quarta-feira, 8 de março de 2023

PAUSA PARA UM CAFÉ

Jongensspelen (aprox. 1860-1870) – Jogos de meninos anônimos: histórias para jovens.
(Clique na imagem para ampliá-la e na legenda, para acessar a página de origem.)
 
— Chegamos bem perto desta vez.
— Nunca tão perto, nunca tão longe. De onde estamos, há mais léguas entre nós que uma vida inteira de caminhada.
— Mas eu te sinto aqui.
— Esse não sou eu.
— Quem, então? Eu próprio? Meu reflexo, minha criação?
— Olhando daqui, estás só. Percebo-te outro, indissociável de ti, porém, outro. Tens mudado muito.
— Não é a mim que olhas. Estás de cabeça baixa.
— Pois é. É a ti que olho.
— Não pode ser! Vejo-te diante de mim! Quem és tu, senão tu mesmo, tu, que eu vejo?
— Teu olhar também não é o mesmo. Ele te ilude as medidas. Crês mesmo no que vês?
— Queres me enlouquecer!
— Não. Como disse, estás só. Nisso, em tudo, em ti. Só, como sempre.
— Então, com quem falo? Com quem grito? A quem tenho, como uma sombra, manejado minha caminhada?
— A mim.
— Então?
— Não existo mais sob teus olhos nem mais sou a teu lado. Tenho me movido muito pouco, alguns passos, apenas. És tu que giras e danças e saracoteias em carreiras infantis. Eu apenas cresci. Tu…
— Espera! Não cresceste! Vejo-te aqui, a meu lado, à minha altura.
— Já disse: estás só. Escolheste estar.
— Estou louco, então! Falo com quem não existe, vejo o invisível!
— Não. Eu existo. Tu, por outro lado…
— Estou morto?
— Não. Pior. És memória.
— …
— Terminei meu café. Podes voltar a brincar agora.
— Contigo?
— Como sempre.
— Pega-pega?
— Polícia-e-ladrão.

08/03/23

quarta-feira, 4 de agosto de 2021

CURTINHOS

 
(Clique na imagem para ampliá-la.)

I
minha cama é uma jangada
de vela arriada,
por quatro âncoras,
ancorada
no fundo noturno do mar.

II
aqui era bom
quando ainda não era aqui.

III
embaixo dos carros,
gatos mortos e cães e pombos
evaporam.
tão certos são de chegar ao céu
como a água que se despede da lama.

IV
quando tinha dez a doze anos,
não imaginava
que me faria tanta falta.

04/08/21

ENTRE OUTRAS COISAS

(Clique na imagem para ampliá-la.)

desde menino, sei de coisas
que só as coisas sabem, por exemplo:
nadejar e tudejar
no terreiro amplo do espaço das tardes
como as terras, os ventos
e a indiferença das plantas;
andar a esmo nas importâncias
sem me dar delas;
caber no vazio
quando me apercebo dele;
e inexistir
na via expressa dos afazeres humanos.

04/08/21

sexta-feira, 2 de abril de 2021

FLOR DE ALGODÃO

Foto: Fernando de Souza

    Ali pela segunda metade da década de 1980, meu pai trouxe de Pitombeiras uns cortes de galhos de pé-de-algodão que pegaram fácil na calçada da minha casa e na dos meus vizinhos de quarteirão. Aqui, que era pelado de árvores, floriu de amarelo em pouco mais de um ano, de um lado e de outro da rua, e eu guardo esse orgulho besta de termos sido os traficantes desse arborecer. Nessa época, saíamos (a pivetada) de casa em casa com pau e lata pra colher jambos. Os que não comíamos viravam munição pra batalhas campais que deixavam até a alma roxa. E quando estes acabavam, valíamo-nos dos torrões de barro vermelho seco que se encontravam em toda parte devido às obras de saneamento na rua. Era uma época de roubar frutas, guerrear de molecagem e despetalar o amarelo dos algodoeiros. Debaixo deles, sentávamos à noite e de dia, nas calçadas que ninguém nunca mais terá, e éramos aquilo que nunca mais seremos. E eu sabia intimamente que não poderia ser mais feliz.
    Foto tirada em 31 de março, num meio-dia de tempestade, numa cidade sem graça, sem frutas e sem molecagem. Ainda tentei carregá-la no bolsinho da alça da mochila, onde guardo o frasco de álcool em gel, pelo máximo que pude, mas ela não aceitou essa antinaturalidade e descoroou-se, jogando-se na calçada mais estéril possível, defronte a uma farmácia de conveniência no Meireles, salpicada aqui e ali da mais polimerosa artificialidade. Só pude pensar que, pelo menos, as flores ainda resistem com suas delicadezas, apesar de havermos perdido as nossas.

01/04/21

terça-feira, 16 de março de 2021

MARINHOS

Foto: Fernando Girotto (Icapuí - CE)  
(Clique na foto para ampliá-la e no nome do autor para acessar a página de origem.)

I

dentro das palavras, onde moram as coisas,
existem coisas ainda maiores
— o ignorado.

veja o mar, por exemplo.

dentro da palavra, ao lado do que é e sempre foi o mar,
existe outra coisa a que também chamo mar,
mas que, diferente daquele,
sobre-existe esvoaçante, muito além da água e do sal,
dos peixes e dos navios cheios de petróleo e armas.

é um mar feito de luz e de cabelos,
cuja água, onipresente sobre o corpo,
desdenha da superfície da terra.

nele, a vazante e a preamar
são pressentimentos,
tanto que rompem com a Lua
por padecerem de outros magnetismos,
por obedecerem a leis que se renovam
com a maré.

é um planeta submerso,
salpicado de ilhas cor de vento
e baías que nasceram já dançando
de uma eterna meninice,
de uma saudade mais antiga
do que o próprio objeto da saudade.

esse mar, que habita dentro da palavra mar,
não se vale de sua força
para urrar quem é à costa
nem se guarda aos faróis
como se os apagasse a naufrágios.

ele é manso e humano e anda sempre ao meu lado,
corre como um rio por onde quer que eu vá,
adiante de mim,
e dentro, na fome de que sinto falta,
na comida que nunca mais haverá.

ele é feito, assim, única e simplesmente
de tudo aquilo que zarpou
de todas as beiras de praia de minha vida.

II

se me perguntassem onde termina o mar
não saberia dizer
se na chuva que dele sobe
antes de chover
se no leito negro dos abismos
se na vela recolhida e enxuta
se no porto
ou se na aurora

se no casco, que lhe faz fronteira
se na costa, que a onda lambe
ou se na concha, malassombro de seu marulho

o mar
acho que termina
naquele casal que se beija
e bebe um do outro
a sua própria maresia

termina na areia
entre os dedos dos pés da criança
tragada pelo ralo do banheiro do apartamento

talvez no lixo escumado
talvez no sunglass do playboy
talvez na sempre enigmática
mise-en-scène do carnaval

o mar
acho que termina mesmo
no fundo do prato de plástico
no fundo da gelateria chic
no fundo mais profundo e estéril
do bairro mais nobre à beira-mar

16/03/21

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

O NOME DE DONA IRENE

Imagem digitalizada por Francisco Carlos.
(Clique na imagem para ampliá-la e no nome do autor para acessar a sua página.)

     Memória é, no meu caso, primariamente um negócio afetivo. Vejamos um exemplo. Estudei por pouco tempo numa escola que não existe mais, chamada XV de Novembro, quando muito criança, ali pelos 6, 7 anos, início dos anos 1980. A diretora se chamava Rita, minhas professoras eram Sônia e Cláudia. Meu melhor amigo era o Jairo. Eu era apaixonado por uma menina chamada Márcia. A zeladora era a Dona Irene, e o porteiro, o Seu Geraldo. Não lembro de me contarem, lembro porque lembro, lembro porque eu assimilava o mundo ao meu redor com o coração, com a imaginação, como deveria ser com toda criança. Em 2019, encerrei 10 anos de contrato de trabalho numa escola X, como professor de Português. Por esses 10 anos, eu convivi com algumas pessoas ótimas, outras, detestáveis, porém o meu afeto não me permitiu (ou não permite) lhes guardar devidamente os nomes. Preciso fazer um longo esforço de reconstituição de cenas para lembrar que a senhora da copa se chamava Lourdinha, por exemplo. No entanto, com um falecido porteiro — pai de um aluno meu muito querido, chamado Maurício —, que se chamava Seu Marcos, não tive sucesso; precisei da ajuda da Vivi, ex-colega de trabalho, que me corrigiu — achei que fosse Seu Mauro. Porque isso acontece, não sei; gostava igualmente dos dois. Mas a D. Irene, aquela do XV, que ficou uma vez esperando comigo sozinha na escola porque meu irmão Cláudio se esquecera de me buscar, está gravada permanentemente na minha memória. Já os nomes de muitos outros eram tão circunstanciais que eu precisava inquiri-los a terceiros, de cujos nomes, por sua vez, só me lembrava por sorte. Sorte, no sentido etimológico do radical: aleatoriedade. O afeto me permite recuperar-lhes os rostos, a camaradagem, ser-lhes solidário nos votos de boa-aventurança. Já seus nomes, estes se perderam na voragem sucessiva das coisas ordinárias dos dias iguais.
    Talvez, eu tenha me tornado um cínico, ou um escapista, ou um misantropo, ou uma espécie de sociopata, como sugeriu certa vez Dona Fátima, mãe do Hálinson e da Natália, esposa do Seu Messias, todos muito queridos meus. Conversávamos sempre com muita alegria, e, numa tarde, falando sobre esses “apagões” mnemônicos, eu tinha dito a ela que não conseguia me lembrar dos nomes de algumas ruas do meu próprio bairro nem de alguns dos meus amigos, muitos, de infância, até, e que me perdia com facilidade, por não gravar os caminhos. Ela me ouviu pacientemente, analiticamente. Ouviu como mãe. Respondeu como juíza. “Isso acontece porque você não se importa com nada”. Dona Fátima, com o pragmatismo de uma contadora — que ela é —, asseverou o encadeamento de palavras que, na minha autodefinição, ainda não eram sequer letras. Porém, lá estavam, epigrafadas: “ele não se importa com nada”.
    Como acertara D. Fátima… Ali, de certa forma, deram-se tanto uma epifania quanto uma libertação. Não levei a mal, muito pelo contrário. Eu tinha agora uma frase que me definia bem, e só quem vive a perturbação da busca constante sabe o quanto isso é difícil de se encontrar. Não era um problema meu de afeto, não era eu que não sabia sentir as pessoas, não era um aleijão sentimental. Era, isso sim, o oposto da posse. Era um olhar de transeunte permanente, de constante temporariedade, era a janela do ônibus com a vida em curso nas avenidas, ruas, calçadas, botecos, olhares, contatos. Tudo passando, tudo fugaz. Ou quase tudo. D. Irene, não. Ela, cabelo grisalho, vestido de chita, pés apressadinhos nas chinelas, fez mais que o seu trabalho quando outros negligenciaram os seus. Dona Irene, que já deve estar no céu das Irenes, junto à de Manuel Bandeira, é nome que não passa na janela. Fica sentada junto de mim, com todos os outros nomes que, sei lá por quê, me acompanham nesses ônibus circulares desta cidade provinciana que sou eu.

23/02/21

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

POEMA PARA MIM SÓ

e eis que assim se me termina tudo
todas as noites:
este suor seco, cola fria na colcha áspera,
os engasgos no peito,
estes imensos silêncios nas mãos,
a medula que range malassombros,
estes pés estragados pela multiplicação do peso
e pelas pedras descalças esfolados,
fronteiriços de mim com o mundo,
do qual só sabia com andá-lo.

gentes restaram por toda parte.
tomaram-me as mãos como alças de esquife,
velaram-me em beijos de adeus precoce.
sobejaram os olhares, as mercês, as piedades e os escárnios.
nunca me faltou ninguém,
mas faltei eu
em de alguém ser.
por isso mesmo, existo apenas em mim
e naquilo com que se enganam.

meu corpo também se enganou
e tomou-me por morbidez a resignação,
adiantando-se a mim
e escapulindo das suas obrigações físicas
de conter-me.
ora ele adormece sua própria noite
na escuridão vermelha da carne,
sem lua nem estrelas,
sonhando no estômago e nos intestinos
antecipações funestas de banquetes canibalescos
em que se entredevoram minhas memórias.

espero, grave, amnésico,
a carta de mim mesmo que atrasou
por falecimento do carteiro,
inanido em algum ponto do meu labirinto até aqui.
trá-la, por dó, o vento, disfarçado embora
de guinchos, roncos e silvos
da cantiga dos armadores da rede
com que costumava voar sobre o mundo
na forma de abismos.

nela, presumo, vêm codificadas instruções
de procedimentos e métodos
acerca da retomada das rotinas originais:
qual o jeito certo de mover as nuvens;
de vestir-se de vento;
de discernir o sol;
de correr com a lua;
de se unir à noite;
e de beijar o mar.

reaprender a ler
será o meu último trabalho
e o meu maior desafio.

05/01/21

sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

PRECIPITAÇÃO


foi um corisco numa noite
de falta de energia elétrica
— era Deus dizendo
que é mais bonito assim

foi a chuva subindo raios
do mar às nuvens
na praia de minha infância
— meu céu era feito de búzios salgados
e auroras

foi a rua molhada
com meus filhos
foi o sertão colorindo as virgens
foi a folga do trabalho
que a cidade inundou

foi uma chuva forte essa de quando
nem se notava
mas na hora certa
a semente guardada entendia
que sua casa era aquele chão
e que era possível raiar
naquele escuro

18/12/20

terça-feira, 14 de julho de 2020

JUÍZO


(Clique na imagem para ampliá-la e na legenda, para acessar a página de origem)

Não são a ciência
Nem o amor
Muito menos a chama da revolução
Que irão salvar o mundo

A beleza
Somente essa estúpida e inútil fraqueza da percepção
Poderá comover a alma dos homens dentro de seus corpos
Onde ainda, bem distante
Mas ainda
Rescende à terra molhada
A criança que eles mataram

14/07/20

segunda-feira, 29 de junho de 2020

JÁ FUI CAÇADOR DE SONHOS

(Clique na imagem para ampliá-la e na legenda, para acessar a página original.)

    Sinto saudades dos meus pesadelos originais. Das aranhas intangíveis, do mar de anzóis, dos monstros perseguidores, dos diabos antropomórficos, das quedas abissais. Esses eram fantásticos, cinematográficos. Vinham o terror, o susto, então o despertar e um subsequente sorriso feito de adrenalina e endorfina. Já os de hoje são tão banais, tão novela das oito e, por isso mesmo, tão fatigantes e punitivos… Será que a vida vai apodrecendo até nos pesadelos? Ou perdeu-se mesmo foi a minha capacidade inconsciente de ser original?
    Já fui um caçador de sonhos. No redormir, pelejava com os meus labirintos de além por encontrar nem que fosse um rastro, uma sobra de mim e dos meus vilões de havia pouco. Tive pouquíssimo sucesso nessas empresas. Sonhos são criaturas de vento e fumo, desprovidas de fidelidade e teimosia. Pesadelos, então! São como assaltantes de alma, que levam a paz e deixam a aventura no lugar. Mesmo nessas caçadas exitosas, não conseguia capturar a presa inteira, em perfeito estado. Isso se dava, acredito eu, porque não deve ter muita graça para uma onça fingir que é um peba e enfiar-se terra adentro para ela mesma dormir o seu sono onírico. Caçadora é ela, sempre foi, não eu, nunca eu! Mas, aqui e ali, um sonho deixava-se pegar pelo rabo e corria de novo comigo pela mágica universal da criança que todos nós voltamos a ser quando os caçamos.
    Hoje, sonhar parece ser só algo que acontece, e ter pesadelos não deixa mais a sombra corsária do náufrago resgatado nem a angústia azul-celeste do fugitivo em liberdade. Também é só algo que acontece, arrancando a paz e deixando um buraco prenhe de perguntas renegadas. E a alma, violada, não quer nunca mais dormir. E o espírito, vigilante, de faca na mão, com sangue nos olhos, do lado de fora da casa do corpo, espera. O dia inteiro, espera, até que o dia, esse fascículo rude da vida, insípido como um chiclete frio e mastigado, traga outra vez o acontecimento do sono e vença.
    Não busquei nem fui buscado. Apenas aconteceu. Não tem nenhuma glória o tropeçar em alimento morto, mas come-se, digere-se e espera-se que, dentre o capim seco das primeiras horas, ressurja a caverna de Grenouille, e o meu mundo de aromas me ascenda novamente à selva lisérgica onde minha alma volte a ser das feras a amante medieval, expectante, apavorada e gozosa na torre do castelo.

29/06/20