Número de sílabas (desde 11/2008)

counter
Mostrando postagens com marcador Crônica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Crônica. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 24 de abril de 2026

A CHUVA DO SÉCULO

(Clique na imagem para ampliá-la.)

(Crônica de aniversário filha do diálogo com meu grande amigo, o professor e batera Pedro Carvalho, em 19 de abril, em virtude de um vídeo que ele me mandara em que pessoas, pobres como nós, divertiam-se na lama e nas águas da doença e da morte em que nossas gestões municipais têm tentado nos afogar desde que foram criadas as civilizações.)

     O ano era 1997. Fortaleza, bairro da Parquelândia.
    Deveria ter ido trabalhar no meu empreguinho mixuruca de auxiliar de escritório de contabilidade com meu bom amigo e patrão, o contador Sr. Antônio Pereira Fortes, o qual passava pela minha casa a caminho do escritório no Edifício Palácio Progresso, no Centro. Porém, a natureza e o destino tinham outros planos.
    Era, como hoje o é, meu aniversário, dia 24 de abril, e despencou sobre Fortaleza aquela que viria a ficar famosa como “a chuva do século”.
    Minha cidade nunca teve um sistema de esgotamento adequado. Ela crescera, mas a conduta de seus gestores sempre foi como a de antes da criação do porto e das grandes secas do XIX e do XX. Nesse sentido, éramos e talvez ainda sejamos provincianos como à época dos vendedores de água, leite e peixe de porta em porta, conduzindo seus burros e jumentos carregados de bilhas e odres.
    Foi uma catástrofe. Portões de alumínio foram arrancados das molduras, muros caíram — inclusive, o do Cenáculo que dava para a Gustavo Sampaio, minha rua, por cima do qual costumávamos pular a fim de roubar as mangas e os cajus das freiras, na quadra chuvosa, anualmente. Carros, motos, cães e gatos afogaram-se. Muitas pessoas ficaram desabrigadas, e registrou-se uma morte. Houve gente que perdeu tudo. Eu, não.



 
(Clique nas imagens para ampliá-las.)

    Ironicamente, havia ganhado meu presente catastrófico, o qual serviria de parâmetro para todos os meus futuros aniversários. Sr. Antônio, obviamente, não havia conseguido nem sair do Pirambu, bairro onde morava. As ruas eram rios, e aquela comunidade era das últimas no radar do saneamento básico municipal. Eu havia ganhado uma folga de um trabalho que, a despeito dos ótimos companheiros de escritório, detestava. E eu aproveitaria.
 


(Clique na imagem para ampliá-la.)

    Saí à rua como a um açude. Meu bairro fora, havia séculos, uma grande lagoa, a Lagoa do Alagadiço. As depressões do terreno nunca foram terraplanadas por obras públicas — Parquelândia já limitou o município, quando ainda se chamava Coqueirinho, um “ermo” de riachos e lagoinhas, de vegetação densa e frutífera; daí, “progrediu”, primeiro como periferia para depois começar a gentrificar-se a um bairro de remediados (minha condição) e, finalmente, à residência da burguesia que não tem condições de Aldeotas, Meireles ou Papicus. Isso, aliado ao abandono da CAGECE, garantia, sempre em grandes águas, laguinhos de esgoto que se tornavam balneários de moleques e suplícios de seus pais.
    No meio desse caos, estava eu dando braçadas onde, nos dias anteriores, voltava cabisbaixo e cansado de mais uma jornada de trabalho. Meus 23 anos não eram muito distantes, graças a Deus, dos meus 13 — era ainda um bom moleque. Abandonara alguma prudência e, apesar do medo, arriscava-me próximo às bocas de lobo e em subidas no meio corpo dos postes, dos quais alguns, já faiscantes.
    No curso dessas jamais antes empreendidas aventuras, eis que surgiram fraquinhos, mas indistinguíveis, gritos de socorro entre os trovões e os coiós da canalha de que fazia parte: eram as dançarinas da banda de forró Calango Aceso, as “calanguinhas”, que moravam numa casa alugada na parte baixa de minha rua, onde, àquela altura do dilúvio, a água dava no peito. Heroicamente, como boas ratazanas, nadamos entre os toletes e os guabirus, desviando de chinelas extraviadas de seus pares e de tocos de oitizeiros boiantes, torpedeados da alameda da Av. Bezerra de Menezes, no intuito invencível de resgatar as jovens daminhas. Chegando lá, vimos, como boas calangas que eram, umas cinco ou seis atrepadas no muro frontal, “em tempo de uma arte” ou de uma tragédia. A água que descia do oitão da casa já havia deitado abaixo o portão de canaletas e elevava-se mais ou menos a 1,60m, e o muro seria o próximo. Eu mesmo carreguei duas no tuntum até um plano seguro, dois quarteirões acima, recebendo beijoquinhas leptospiróticas por gratidão.
 
(Clique na imagem para ampliá-la.)

    Uma pena. Tinha apenas 23 anos, mas esperava mais. Um bocó, reconheço hoje. A segunda e a terceira maiores chuvas registradas em Fortaleza seriam em 2004, com 250mm registrados, e em 2024, com 215,1mm. Em 1977, choveram, em 02 de junho, 168mm. Essa, a do meu aniversário de 23 anos, foi de 270,6mm em apenas 13 horas, representando 79% de todo o esperado para aquele abril. Todas, no meu curso de vida — eparrei, Iansã! —, e uma, no meu aniversário, o melhor de minha vida, hoje bem sei. Outras bênçãos mandará Oyá, confio. Contudo, nunca mais choveu assim, por dentro do espírito, com enxurrada e navegações, nesta minha pobre, mas pouco comum, existência. Por isso, entre melancólico e grato, encerro esta croniquinha nestes meus, no dia de hoje, 52 anos de águas de Iansã, Nanã, Oxum e Iemanjá. Um agreste que nunca foi seco; um orvalho que nunca durou.

24/04/26

Fonte das imagens da catástrofe: sites dos jornais Diário do Nordeste e O Povo e página do Instagram @fortalezaantigamente.
Fonte das informações das chuvas: FUNCEME.
Fonte da imagem da capa do CD da banda Calango Aceso de 1997: site Letras.
Clique nas indicações para acessá-las.

domingo, 19 de abril de 2026

ISSO TUDO


    Nenhum de nós é tudo aquilo que pensa de bom de si. Nem de mau. Contudo, essa projeção positiva compulsória também tem significativo potencial danoso. Nem os melhores de nós são isso tudo. Menos ainda, aqueles de quem pensamos isso tudo.
    Continuam aqui, ainda que em silêncio, as palavras que pior nos definem: a decepção materna, os contragostos fraternos, as desilusões das enamoradas, as amarguras dos amigos.
    Mesmo em análise relativista, ainda não somos isso tudo.
    Por melhores que sejamos, nossos grandes amigos têm outros grandes amigos, alguns, talvez maiores que nós. Cada um de todos os amores de nossa vida já olhou com desejo alguém completamente irrelevante na rua, no ônibus, no trabalho. Talvez, até com afeto. Alguns, nem tão irrelevantes assim. Nossos pais já imaginaram a própria vida sem nós. E se sentiram bem. Para aqueles que creem, até mesmo Deus, que, em última instância, nos ama essencialmente, precisa exercitar extenuado um bom quinhão de piedade conosco, pois não? Amém.
    Não somos isso tudo, mas somos de verdade tanto, e tantos! Tanto que só se revela na nossa maré baixa, com mar calmo, de barco no porto. Um tanto ignorado, frente à autoimposta aventura contra as ondas, entretanto real, carnal. E ainda somos tantos, tantos quantos não enxergamos, atrapalhados pelas selfies e pelos espelhos com os quais nos vestimos os olhos.
    Quanto de nossa vaidade e presunção nos faria tão melhor se, após uma acareação com nossas falhas, saísse fantasiada de nós mesmos, num carnaval em praça pública, desimportante de nossas pretensões!
    Seríamos tão melhores menos. Não menores, não encolhidos nem reduzidos: apenas menos. Menos tudo isso que nos cobramos ser. Inclusive, felizes. Só aí, assim, talvez fôssemos finalmente... felizes.

19/04/26

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

ESTRELAS DE NATAL

Estrelas-do-mar
(Clique na imagem para ampliá-la e na legenda, para acessar a página de origem.)


    É mais que compreensível a aversão ao Natal, assim como a todas as datas aniversárias. Há nelas um compromisso acordado por outros de que, compulsoriamente, os sentimentos devem ser sentidos e convertidos em pensamentos, e estes devem-se converter em interações, e estas, em autenticidade social.
    Desde as vésperas, já se força uma troca do eu natural ― este que se usa ordinariamente com os outros — por um alheio a qualquer naturalidade. Salvas as óbvias exceções, fala-se diariamente com as pessoas por conveniência, por contrato ou por afeto, e isso as situa nas agências e nas circunstâncias da vida. Dependendo de como funcionaram os traumas na socialização de cada um, essas interações ocupam lugares de cores e tamanhos bem distintos, e mesmo o desconforto de algumas delas se enquadra no que é a verdade de cada indivíduo, e isso tudo está muito bem.
    Porém, à chegada do Natal, que nem natalício é de veras, que nem relativo ao aniversariante também o é, colonizam-se os espíritos por um povo completamente estranho, estrangeiros de seus corpos, conduzindo estes a paródias chapa-branca dos que neles habitavam no dia anterior.
    Assim amputados, resta aos espíritos ver o outro, o incorpóreo, fraudar as verdades de que são feitos, em nome de estabelecimentos de sentimentos e ações pré-fabricados, importados, esterilizados.
    As redes sociais agravaram a tortura. Antes delas, podiam-se as pessoas esconder, fugir, sumir e reaparecer constrangidas, ou não, após as roedeiras dos ossos dos perus. Hoje, elas tornaram o escape uma ofensa ainda maior ao grupo mais solidário aos Jingle Bells. A vida virtual, o nosso presente 1984, tornou inviável a existência, ou, pelo menos, uma parte mínima, saudável, dela, apartada das agregações humanas. Nunca a solitude foi tão mal vista, nem a individualidade, tão ofensiva. Há sempre, ali pelas 22h, mensagens, videochamadas, ligações que instam o pobre escapista à reintegração às ocupações “festivas”, empurrando-lhe olhos, ouvidos e pele adentro um espírito que não é seu, ou melhor: que se escolheu não acolher.
    Todos os anos, a esta época, apinham-se picos de pressão arterial e de ansiedade à mera lembrança do estorvo que é não poder escapar ― exceto aos afortunados prévia ou geograficamente ilhados — dos assaltos, das invasões e dos sequestros a suas individualidades. Como consequência desse ultraje, assomam-se os ataques de pânico social, o surgimento e a potencialização da depressão e as violências autocometidas, que, por ocasião do “aniversariante”, são julgadas como consequências atribuídas à rejeição d’Este.
    Tenho muita pena de mim mesmo neste período do ano. Mesmo este texto, escrito tensionado como um arco de serra, requer a minha piedade. Nada em mim é como deveria ser. Não há espaço nesta vida, sob a qual tive pouquíssimo controle, para a manifestação do que poderia vir a ser o “meu” Natal, e acho que também não o há na vida dos incontáveis reféns de um zeitgeist tão tirânico e invencível.
    Resta a mim ― e acredito que a esses outros, também — a submersão desobediente num fundo inegociável do espírito. Daqui (ou de lá), como patéticos escafandristas, caminhamos com o peso das botas de aço no leito de nós mesmos, esperando contrafeitos a passagem da tempestade, dos trenós e das orações hipócritas que fustigam a linha d’água. No entanto, aqui, também há estrelas. Vivas e rudes, belas em sua natureza de autorregeneração, elas são capazes de nos lembrar de nossa íntima verdade: mais importante que nascer (e renascer) é Ser.

24/12/25

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

O PARA-SEMPRE DO EXTRAORDINÁRIO

Cássia Eller - Espírito do som, 2021 (com alterações.)
(Clique na imagem para ampliá-la e na legenda, para acessar a página de origem.)


    Depois de tudo, resta a quase atingida esperança: o som há de ser a sublimação do extraordinário. O som, não a voz. Não o canto, o sussurro, a gargalhada. O som. O espírito, se fosse mensurado pela Física, seria finalmente revelado em sua consistência imaterial: ondas sonoras finalmente livres de sua fonte de emissão e, a despeito da eventual inexistência dessa origem, eternas como almas desprendidas do corpo.
    A ideia própria do som, o pensamento amorfo que antecede a palavra, presente na memória de uma voz ou de uma canção que persiste mesmo após a amnésia do que foram seus corpos — os verbos, as frases, os textos —: isso é a verdadeira essência. Lembro minha mãe cantando, mas sei lá qual música, sei lá os versos, a letra, nada!, só a voz, pura, cristalina. Da voz de meu pai, idem: um trovão confortável que nos guarnecia e assegurava a todos nós a firmeza de uma árvore. Combinados, os dois eram uma espécie de deus vibrante e primordial. Mas, nada de palavras; o som, apenas. Esse é o para-sempre do extraordinário.
    Ao longo da vida, tão barulhenta, tão ruidosa, os sons podem acabar se confundindo no caos — um Cronos devorando seus filhos: vão-se, um a um, os espíritos do maravilhoso sendo absorvidos pelas máquinas e pelos demônios que se apossam das pessoas e das frases. A indústria do mundo e suas engrenagens só são possíveis na insensibilidade da surdez. É necessário estrugir as almas dos homens para que se contentem com suas funções, para que o estrupício do mundo ocupe os ocos onde se calaram suas vozes, ecoando como pianolas autômatas compassando o dia a dia marcial do trabalho, da funcionalidade, da produtividade. Surdos a nós próprios, vagamos pragmaticamente, dançando no tempo marcado pelo chicote e pelo metrônomo.
    Há que se guardar o “espírito do som”, como diz a canção de Péricles Cavalcanti e Chico Evangelista, imortalizada por Cássia Eller. Ocorre muito de imagens acústicas de uma canção se repetirem e repetirem no pensamento, enquanto realizo as tarefas diárias. Afinal, “o espírito do som brinca o tempo todo e é muito bom e feliz”, e a criança que eu fui é que a canta e depois escolhe outra, e outra… Ela não se entrega. Ela não me permite a rendição. Ela é que me salva os ouvidos do zumbido industrial do mundo e me permite a poesia.
    De som em som, vamos nos resgatando. O nosso destino é um aboio, solto e livre, condutor de nós mesmos. Uma sinfonia sertaneja, feita de rios em meio à caatinga. Há de ser.

04/12/25

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

A TRISTE PAISAGEM DA JANELA QUE SE DESPEDE DE LÔ

Lô Borges (detalhe ampliado da contracapa de Clube da Esquina - foto de Cafi)
(Clique na foto para ampliá-la.)

    Já desisti de tentar diminuir o abismo geracional entre mim e quem tem menos de 25 anos, quase a metade da minha idade. Pensando bem, a que sorte (ou azar) de coisas o mundo foi sujeito no último quarto de século? Toda a cultura pop e boa parte da economia e da política (até da religião) passou por conversões, adaptações ou apagamentos que as tornaram inindentificáveis pra quem já tinha 25 anos quando o milênio virou. Isso, sem falar na revolução tecnológica. Vi a morte do K-7, do LP, do VHS, o nascimento da internet, do CD, da MP3, do DVD e do Blu-Ray, suas respectivas mortes, sua tímida ressurreição e, agora, a ascensão do streaming, certezas e dúvidas que nasceram, morreram e reencarnaram.

Fita Cassete K7 Basf 90 Lh Extra I Estereo Cassete Lh-ei Ec
(Clique na foto para ampliá-la e na legenda, para acessar a página de origem.)


    Quando nasci, os artistas que me formariam já eram grandes ou estavam confirmando seu estrelato, e eu que lutasse (expressão millennial) pra correr atrás (expressão pré-hippie) da minha sintonia cultural. Minha própria cultura, a nordestina, ainda tinha uma passada orgânica de bastão (mix de expressão pré-boomer com da “geração Z”), dado o meu contexto socioeconômico. Ouvir Seu Luiz, Pessoal do Ceará, Fagner e o cânone do forró, do brega e da seresta era natural, tocavam no Roadstar da Belina do meu pai. A MPB também tinha espaço no radinho da cozinha, além das baladas românticas e, é claro, do rock nacional e dos gêneros gringos. Ainda não havia o agropop, o piseiro, o narcofunk nem os neopentecostais, então as FM eram mais ou menos democráticas, rolava de tudo, bastava mudar a estação.
    Passava horas da minha adolescência esperando o programa do Paulinho Leme ou o do Nelson Augusto, com a Basf 90 semivirgem a postos pra capturar, com sorte, a fina flor musical do meu tempo, coisa incompreensível pra esta geração atual, que nem sei mais como foi rotulada pelos vendedores de vape e Smirnoff Ice. Hoje, o mercado conseguiu virtualizar quase que completamente as mídias, tornando o acesso ao audiovisual portátil possível praticamente apenas mediante assinaturas de streaming. Sem o Spotify, fica muito difícil pra um adolescente de hoje saber quem foi Lô Borges, que, como se deveria saber amplamente, fez, em parceria com Milton Nascimento, um dos melhores discos de todos os tempos, o álbum duplo (duro, explicar um elepê duplo a um garoto de 13 anos de hoje) Clube da Esquina.

Lô Borges
(Clique na foto para ampliá-la e na legenda, para acessar a página de origem.)


    Foi mais ou menos por aí (meus 13 anos) que tive contato com o Clube, muito pobremente, pois não era um disco tão “comercial” assim. Lô Borges, mesmo, só fui conhecer uns dez anos mais tarde, quando, já com a internet, pude ouvir as suas coisas no YouTube. E, meu Deus!, que música era aquela! Uma genialidade adolescente, extremamente precoce e rebelde, desenquadrada dos padrões comerciais da indústria, original, mas reverente ao pop inglês, brasileira, mineira, íntima.

O "Disco do Tênis" - Lô Borges, 1972 (foto de Cafi)
(Clique na foto para ampliá-la e na legenda, para acessar a página de origem.)


    Nessa última semana passada, vinha acompanhando pelo Facebook e pelo Instagram as notícias de sua internação. Seus 73 anos (nem parecia!) não suportaram uma intoxicação de medicamentos, o que o levou ao coma, a uma traqueostomia e ao subsequente falecimento hoje, segunda, dia 03, logo após o Dia de Finados. A notícia veio perdendo o peso nesses dias. Sua idade — a idade daqueles de sua geração, o sedimento e o pináculo culturais musicais do Brasil — não nos deixaria com muita esperança de uma recuperação milagrosa em casos mais sinistros.
    Seu parceiro, Milton, está com 83 anos, já fez sua anunciada última turnê, gravou com amigos e medalhões, honrou sua velhice de preto-velho que se tornará orixá. Recentemente, também, divulgou-se seu quadro de demência. Um deus que vai se esquecer de quem é. Por mais amor e esperança que eu tenha, sei que, eventualmente, ele se tornará apenas o ícone, a referência que não pode mais criar novas próprias referências. Assim foi com Aldir Blanc, Dominguinhos, Hermeto Pascoal, recentemente.

Lô Borges
(Clique na foto para ampliá-la e na legenda, para acessar a página de origem.)

Milton Nascimento
(Clique na foto para ampliá-la e na legenda, para acessar a página de origem.)


    Foram pessoas como Lô, que eu, nascido em 74, tive de garimpar pra encontrar como joias prontas, ornando palácios musicais que me foram quase achados arqueológicos dentro de meu próprio tempo. Essa mineração eu fazia em sebos de vinil, de livros, na FM Universitária. Uma vez que tinha as gemas em mãos, deitava no chão frio do meu quarto e deixava o 3-em-1 da CCE (uma das primeiras compras de primeiros salários) fazer o seu trabalho: transformar-me; evoluir-me. E sim, eu já tinha consciência de que aquilo era um fogo de Prometeu. Talvez eu seja de uma geração que, por ser a última formada pelo rádio, tinha consciência do que um Trem azul, um Girassol da cor do seu cabelo e uma Paisagem da janela podiam fazer por mim. Lô, Milton, Beto Guedes, Fernando Brant, Márcio Borges! Como fui privilegiado de ter de ter precisado cavar fundo entre Xuxas e Betos Barbosas pra encontrá-los! Disse isto ao meu saudoso amigo Aloísio Menor, numa das últimas ocasiões em que falávamos sobre música, e era só do que falávamos: a raridade não está na baixa tiragem dos discos, mas sim na nossa dificuldade de tê-los, e, por isso mesmo, nós os valorizamos.

Milton Nascimento e Lô Borges - Clube da Esquina, 1972
(Clique na foto para ampliá-la e na legenda, para acessar a página de origem.)


    Com a internet, claro, isso não foi mais tão difícil assim. A última música muito difícil de ser encontrada foi Gabriel, de Teca Calazans. Minha última raridade. Desde lá, há uns quinze anos, tem sido relativamente fácil encontrar na web discos como Via Láctea (1979) e Os Borges (1980), ambos obras-primas de Lô, e olha que eu não assino nenhum streaming.
    Como comecei este texto afirmando, já desisti de me colocar no lugar de um adolescente atual, ainda que um como eu, sedento de arte. O máximo que me disponho a fazer (desconfio que é o melhor que consigo) é tentar imaginar a mim mesmo hoje, com minha ignorância de 13 anos, criado por uma família também contemporânea, ainda que a mesma. Perdoem-me a crueldade da nostalgia, mas só consigo sentir piedade e uma certa desesperança. Talvez, um certo pavor, também. Provavelmente, eu jamais viesse a saber quem são Roberto Ribeiro, Altemar Dutra, Dolores Duran, que minha mãe tanto adorava. O próprio Milton talvez só me fosse conhecido pelo seu dueto com Criolo, este, conhecido ocasionalmente apenas por ser contemporâneo. Ainda assim, só pelo YouTube, e olhe lá! Imaginem o Lô.
    São tristes tempos para se morrer. Mesmo homenageado postumamente como merecido, o grande artista só vai encontrar sentimentos legítimos entre aqueles, talvez, que tenham até seus 35 anos. Pra quem fica, como traduziu Milton em Canção da América, originalmente, de Ricky Fataar, só resta alar o pensamento na lembrança cantada por quem partiu. Mas, que asas tem quem tem seus 13 anos num mundo artisticamente tão raso, construído mormente ao consumo da música como fast-food e à inanição reflexiva sobre si mesmo e estes tempos? Que lugar tem a janela lateral do quarto de dormir de Lô na vida de um adolescente que, musicalmente, é uma pessoa em situação de rua?
    Lembrou-me agorinha minha amiga maior, Carmélia Aragão: “se eu morrer, não chore não, é só poesia”, escreveu Márcio, seu irmão, pra que Lô nos encantasse. Hoje, o luto é um campo de girassóis da cor de todos os nossos cabelos, Carmélie.

Milton Nascimento com camiseta da Chico Rei
(Clique na foto para ampliá-la e na legenda, para acessar a página de origem.)


03/11/25

quinta-feira, 6 de março de 2025

DO LADO OPOSTO DO MAR

Raimundo Cela
(Clique na imagem para ampliá-la e na legenda, para acessar sua página de origem.)

    Lembro de ouvir meu pai dizer, num desses diálogos que não têm âncora no tempo, que eu tinha uma bomba na perna esquerda. É dessas coisas que só pai nota e que só pai diz. E foi dita na hora certa, pois ficou. Atestou-me. Eu, apesar de destro, era um canhoteiro, decretara meu pai. Muita coisa importante virou vento, muita virou furacão: assim é a palavra, quando o portador é alicerce, coluna e teto. O vento motiva a vela, afresca a pele, seca a lágrima. Torna o dia um dia bom. O furacão averte o mar e cria homens de terra, de pedra, homens-recife. Dos ventos, eu me lembro disso e de ouvi-lo dizer coisas como “o mar não tem cabelos” e que nunca me deixaria afundar. Já aos furacões, resisto, e só.
    Que homem só foi o meu pai. Que homem só eu me tornei. Minha perna esquerda, que hoje é o meu tronco, o meu mourão, ainda me suporta. Na beira do mar, é ela que me ancora. Fateixa de pau-e-pedra, guardando as minhas partidas. Ainda assim, quando olho o mar, procurando não ver ninguém, eu os encontro no sargaço, na maresia, nas vagas. É na ausência que estão meu pai e todos os meus fantasmas. É no obscuro das saudades que arrebenta o furacão de quem não partiu.
    Digo isso da perna esquerda porque, há dias, as dores da direta me dilaceram. Há uns quinze anos, tive nesta um derrame que me custou a sustentação e causou o subsequente definhamento muscular. Além disso, quando tinha uns sete de idade, meu pé direito foi moído pelos raios de uma roda de bicicleta e nunca teve os ossos soldados corretamente, o que me fez conviver com a dor de ficar em pé desde então. Bem recentemente, talvez resultado da má prática de esportes, a articulação do meu ombro direito vive em eterno estado de inflamação, o que me limita os movimentos consideravelmente. Além do mais, tive as duas fraturas na mão direita: uma, resultado de um jogo de vôlei de rua; outra, de uma surra que dei num dos dois únicos ladrões que me roubaram. Isso, sem levar em conta os inúmeros acidentes com facas, anzóis, ferramentas e outras pequenas mutilações ao longo dos anos. Tudo, do lado direito. Agora, espasmos elétricos de punção e fogo na perna direita me agoniam e me fazem pensar se não é nesse lado, à guisa de tiracolo, que carrego meus furacões. Ou se é por aí que eles me carregam. Será que é o mar, o mar alto, a rota aonde eles me fustigam? Será que a minha firmeza, que me finca e sustenta, não me estaria negando o desdobramento de um confronto real com a procela? O que eu seria depois de todos os embates e massacres que nunca me foram impostos lá, após a arrebentação, passando a costa, no além da ausência dos espíritos?
    O que meu pai talvez sentira e nunca me dissera é que aquilo que resta ao homem que evita o mar é a erosão. É ir se desmanchando em areia e fazer parte do chão da praia, parte do mar, parte da terra. Talvez, por outro lado, existam muitos mares menores onde navegam os homens que são o que são, e nada mais: funcionários, pais, bêbados, vagabundos — homens de poucas metáforas. Ou ainda, que o mar grande seja uma maneira de existir ausente, um lar reservado apenas para o depois.
    Eu amei o mar por meio do meu pai. Pela sua mão, perdi e ganhei o medo dos afogamentos; pelo seu olhar, aprendi o respeito e a medida segura de atrevimento. Porém, hoje, aqui, seguro, sou fustigado pelos furacões que deveria haver apenas lá. Gostaria de lhe dizer que, como na maioria das coisas de que me lembro dele e das quais aprendi com ele, existem no homem e na vida dois lados, duas forças que se encontram sem muito conflito, mas cujos violência e desastre se acentuam conforme nelas se adentra
— sobretudo, quando essas forças são menosprezadas no cotidiano, na paciência com que a onda converte o recife em areia fina, na agressividade imóvel de quem olha o mar dolorosamente.
    Sem esse modo de amar, contudo, o outro que eu seria — talvez sem dores, talvez sem senso — não saberia o que é esse cruzamento da fronteira divisória do homem: tudo que sei de mim foi costurado e ponteado pela dor de permanecer e pela angústia de não partir. É possível que essa seja a condição real do homem e que não existam marinheiros, exceto em fantasias e delírios de poder. É possível, portanto, que a natureza da vida sejam este fremir de nervos e tendões, estes ossos tortos e toda a sorte de concretudes físicas que me ancoram na rocha do cais.
    Entretanto, é também possível que este modo de amar o mar seja a única coisa que possibilite a existência do mar. O largo imenso donde olho o mais imenso; e, nesse mais imenso, o verdadeiro outro lado. Não os sei, mas suponho os ventos que sopraram meu pai. Todavia, é da natureza dos homens sós, isso eu sei por certo, costurarem eles mesmos os farrapos de suas velas ao mesmo tempo em que trançam os cabos de suas fateixas. Resistir também é um modo de navegar.

06/03/25

quinta-feira, 21 de novembro de 2024

O MENINO E A NOITE

    Quando comecei a escrever poesia, tinha um pouco menos que a idade atual de meu filho, Miguel, e um pouco mais que a de minha Clarice. Fui incentivado pela minha irmã Malu a datilografar meus textinhos na velha Remington 25 que papai comprara para as filhas, na qual eu brincava de ser escritor. Honestamente, eu me divertia com isso muito mais que hoje. Era um pequeno calhamaço de poeminhas bobinhos que eu intitulei Poemas de uma criança, da Editora Estrelinha, meu único empreendimento digno. Nessa época, eu também comecei um romance que chamei de A guerra dos meninos. Nunca terminei. Talvez, porque já começava a me bandear ao lado do exército inimigo. Também me aventurava em histórias em quadrinhos que eu mesmo diagramava em bloquinhos que confeccionava com folhas velhas de meus cadernos escolares. A principal era a da águia Cry, que sempre mudava de forma entre os quadros. Desenhava o que me vinha à mente, fosse concreto ou abstrato. Peguei gosto pelos super-heróis, pela anatomia humana, animal, pelas formas geométricas, pelas flores. Sempre tentei, sem sucesso, desenhar a noite, mas foi na poesia que tive êxito. O caso é que, nesse momento, a Noite já era outra. A escuridão e o espaço, uma vez palavras, ganharam gravidade, peso, forma e força. Entendi, então, que eu era mais da Noite que do dia, que a ausência do meu amado sol de litoral era muito maior, muito mais íntima que minha relação com ele. Dei a Ela minhas mãos de já pré-adolescente e, a partir daí, ainda que sem saber, passei a dar a tudo que escrevia um tom de ausência, um adeus. Minha escrita caótica foi motejada pela despedida como se, em cada poema, eu me despedisse de mim, ou dos outros, ou das palavras, ou de tudo.
    Hoje, minha literatura tem o encargo de me explicar, de me narrar. O peso do testemunho de quem sou e fui, do que sinto, vejo, amo, penso e odeio tornou-se monumental de tal forma que escrever, há muito, vem deixando de ser produzir e passando a ser descarregar. Escrevo como se tirasse autoesculturas malfeitas de minhas costas, peças que me decompuseram e que me espedaçaram porque são feitas de mim, e que, por isso, me enfraqueceram o espírito mais que me aliviaram de sua sobrecarga. É por esse motivo que não me encontro mais no que escrevi. Em cada texto, em lugar de haver um reflexo ficcional do eu-autor, há os meus pedaços que ele deveria refletir. Eu estou lá, pois sei que eles são meus, mas sei sem sabê-los, sem me lembrar deles. Eu fiquei lá, esculpido, forjado, amalgamado, e a memória do que eu fui não os alcança mais. Ela ficou lá, encapsulada, criptografada. E é esse mistério, essa antologia de lacunas das quais também fui me despedindo, que me pesa ainda mais que quando elas estavam preenchidas aqui, em forma de lava. Lá fora, como vidro vulcânico, são obsidianas cortantes que me sangram ao toque. Revisitar velhos poemas, como fiz há pouco, é como um masoquismo, uma automutilação, uma nostalgia de algo que sempre me espanta e fere, pois o encontro com quem fui é sempre um encontro de estranhos: o eu-cá, curioso e pasmo; o outro, expatriado, arredio, indignado, beligerante.
    Mas, nem sempre. Há vezes em que escrever é confeccionar uma roupa, um uniforme ou um disfarce — às vezes, apenas um cobertor, quando preciso me apartar da Noite. Tirar a própria pele apenas para ver como sou. Depois, vesti-la sobre um eu-novo ainda anônimo e amorfo. Andar, então, pelo presente, vestido de passado, protegido por mim, disfarçado de mim. Escrever, assim, pode ser vestir-me com meu próprio fardo e crescer a carne nova em paz, sem que ela seja cicatrizes.
    Tão diferente vim me tornando quanto vim me descrevendo. À medida que me livrava de mim, vim me acumulando, obrigando-me a reconhecer-me em minha trilha de migalhas de pão. Quanta saudade de quando escrever era como acender velas na escuridão da casa, revelando a mim mesmo nas sombras projetadas na parede. Foi assim com o desenho, com a música e com os primeiros textos, antes que a Noite obsoletasse as paredes, a casa, a cidade, até mesmo, a noite lá de fora. Assim, toda tessitura e toda composição foram estruturando uma nova casa, que cresceu a uma cidade, que evoluiu a um país, assim como o reino dos cheiros de Jean-Baptiste Grenouille, com a diferença de que, lá, todos foram capturados, ao passo que, cá, fomos todos abandonados. Dessa forma, escrever também pode ser um fenômeno biológico como um tipo de meiose, por meio do qual cada texto, ainda que um haicai, é um eu diferente de mim, porém, um componente de mim exteriorizado, e, ao me fragmentar para compô-lo e livrar-me dele, acabo por tornar-me um organismo formado inteiramente de corpos estranhos, células oriundas de uma tentativa de amputação que culminaram numa espécie de eu-colônia ou eu-mosaico.
    Escrever sempre é tentar definir-me por meio de mim e do alheio. Coisas, lugares, pessoas ou experiências, por mais que eu tenha a intenção de denotá-las, acabam por ser uma escusa para falar de mim por intermédio delas, como se fossem todas lentes ou janelas que sempre dão aos cômodos da casa do eu-autor, incluindo-me eu próprio nessa mediação. Nesse último caso, a composição é uma viagem em que o eu-autor é o mar, o barco e o barqueiro, e, chegando lá, nessa terra nova, tenho a sensação muito nítida de descoberta e desbravamento, pois aportei numa revelação de mim mesmo completamente inédita: um eu-mesmo que é outro. Provavelmente, a cada novo texto, a cada novo desenho e a cada nova música, eu vinha criando a mim mesmo, gerando um eu-que-seria, mas, simultaneamente, vinha me despedaçando em vários eus-textos que deixava para trás. Por isto, é tão preciosa aquela criança que datilografava como quem pavimenta o próprio caminho: é dela que não posso me perder; é ela que busco nas releituras; é com ela que preciso me integrar para vagar na Noite. Portanto, escrever é o paradoxo de destruir-me para criar(-me). É multiplicar-me para diminuir-me. É sobrecarregar-me para ser leve. É crescer para tornar-me novamente criança.
    Procurei, outro dia, aquele calhamaço da Editora Estrelinha, sem sucesso. Sei que não o perdi. Está em alguma caixa ignorada em várias mudanças. Gosto de pensar, porém, que não é uma caixa ou um envelope. Gosto de pensar que é uma casa oculta nessa cidade que virou país, uma casa toda feita de lembranças, de onde foram retirados os tijolos para a construção de todas as outras, e, por isso mesmo, imaterial que se tornou, é tão difícil de se encontrar. Lá, quando regressar, vou reler os quartos, o quintal, os vãos de sonho que foram originalmente dormidos. Vou deitar novamente na rede em que as palavras me embalaram pela primeira vez e vou reconhecer-me como o mais distinto semelhante, o mais próximo distante, o mais eu-mesmo que o outro pode ser. A Noite, como agora há pouco, vai parir o dia, e poderemos, talvez, escrever sobre o sol que nasceu no mar e sobre a primeira vez em que nos vimos cara a cara.

21/11/24

quarta-feira, 8 de março de 2023

PAUSA PARA UM CAFÉ

Jongensspelen (aprox. 1860-1870) – Jogos de meninos anônimos: histórias para jovens.
(Clique na imagem para ampliá-la e na legenda, para acessar a página de origem.)
 
— Chegamos bem perto desta vez.
— Nunca tão perto, nunca tão longe. De onde estamos, há mais léguas entre nós que uma vida inteira de caminhada.
— Mas eu te sinto aqui.
— Esse não sou eu.
— Quem, então? Eu próprio? Meu reflexo, minha criação?
— Olhando daqui, estás só. Percebo-te outro, indissociável de ti, porém, outro. Tens mudado muito.
— Não é a mim que olhas. Estás de cabeça baixa.
— Pois é. É a ti que olho.
— Não pode ser! Vejo-te diante de mim! Quem és tu, senão tu mesmo, tu, que eu vejo?
— Teu olhar também não é o mesmo. Ele te ilude as medidas. Crês mesmo no que vês?
— Queres me enlouquecer!
— Não. Como disse, estás só. Nisso, em tudo, em ti. Só, como sempre.
— Então, com quem falo? Com quem grito? A quem tenho, como uma sombra, manejado minha caminhada?
— A mim.
— Então?
— Não existo mais sob teus olhos nem mais sou a teu lado. Tenho me movido muito pouco, alguns passos, apenas. És tu que giras e danças e saracoteias em carreiras infantis. Eu apenas cresci. Tu…
— Espera! Não cresceste! Vejo-te aqui, a meu lado, à minha altura.
— Já disse: estás só. Escolheste estar.
— Estou louco, então! Falo com quem não existe, vejo o invisível!
— Não. Eu existo. Tu, por outro lado…
— Estou morto?
— Não. Pior. És memória.
— …
— Terminei meu café. Podes voltar a brincar agora.
— Contigo?
— Como sempre.
— Pega-pega?
— Polícia-e-ladrão.

08/03/23

domingo, 18 de abril de 2021

SETE ANOS DE SOLIDÃO

 
(Clique na imagem para ampliá-la e na legenda, para acessar a página de origem.)

    Sempre ensino aos meus alunos que se deve adaptar o princípio da alteridade ao texto. Imaginar o leitor é fundamental para estabelecer as premissas básicas do “diálogo”, e uma delas é a adaptação do que se tem a dizer nos planos da forma e do sentido àquele em cujas mãos o texto cairá. Contudo, não paro por aí. Intimamente, eu projeto a minha própria leitura ao momento do inédito da obra, ou até antes, quando ela não seria sequer possível. Recomendo essa experiência. Garanto que, no mínimo, ela é capaz de tornar filmes, livros, músicas que são absolutamente ordinários um entretenimento prazeroso. Com filmes, por exemplo, isso funciona, que é uma beleza! Vi Godzila vs. Kong e assumo que passei os primeiros minutos imaginando se não tinha nada melhor a fazer da minha vida, mas bastou me projetar no tempo até os primórdios do CGI e me vestir com os meus olhinhos de menino, que aquela lenga-lenga barulhenta se tornou um espetáculo sensorial, como um grandioso número circense. É verdade, aqui e ali, o adulto emergia e estragava a experiência, mas há que se dar um desconto: é um filme de dois babaus brincando de telequete. Quem não se diverte com isso cresceu demais, ao meu ver.
    No entanto, em alguns casos, esse ineditismo acontece de não precisar ser inventado, e, para minha sorte, foi isso que se deu com a obra de García Márquez. Ontem, fez sete anos que o colombiano de Aracataca, cidade que ele transformaria em continente, morreu. O primeiro livro que me veio às mãos foi logo o vencedor do Nobel de Literatura de 1982, Cem anos de solidão. Um dos livros mais traduzidos do mundo, ele teve a peculiaridade de ser um premiado bastante popular, o que fez a crítica questionar o seu valor literário posteriormente. Afinal, se o povão gostou, não pode ser tão bom assim, na cabeça erudita e ensebada da “elite” intelectual.
    O arrebatamento de que esse livro me vitimou foi desproporcional à minha própria capacidade de ser arrebatado, o que me causou a sensação de, muitas vezes, lutar por um ponto de equilíbrio numa ascensão espiralada, como se um rodamoinho me tragasse e me cuspisse, sem se importar onde ficavam o céu e o chão. Hoje, passados bem mais de vinte anos dessa primeira leitura — à qual se sucedeu bem uma dezena de outras — ainda não me arrisco a dizer que domei a voragem. Porém, entendi plenamente que era esse o objetivo de Gabo. A América Latina alegorizada em um pueblo chamado Macondo e o realismo mágico usado como caminho para a compreensão do homem imerso em sua história são, na minha opinião, os dois causadores principais dessa abdução do leitor de qualquer época, e é isso que ombreia García Márquez com Jorge Amado, com Saramago, com Cervantes, com Melville, com Homero. Os leitores desses homens sempre vão ser arrebatados e sempre se sentirão arremessados por furacões, sem o lastro do tempo e sequestrados por ciganos mágicos.
    Depois disso, li outras obras dele, poucas, reconheço, mas suficientes para me fazerem despertar em outras vidas, em outros lugares, tão meus como esta que vivo e este em que estou. Acredito que um grande escritor tem muito mais dos outros do que de si mesmo, é muito mais pessoas do que uma só. É capaz de prever vidas que nunca viveu e encantá-las, fazê-las reféns de si mesmo até que elas o sejam e, dessa forma, tornar-se imaterial, essencial, ubíquo em qualquer um que não padeça de insensibilidades.
    De verdade, isso me transformou. Escritores como Gabriel García Márquez, Clarice Lispector e os outros de que falei deixaram de ser pessoas simplesmente. São como uma música que vira intuição e sai num assobio sem que se pense mais nela, organicamente, misturada nos hábitos diários. Todos me habitam, todos sou eu um pouco: sou o patriarca gigantesco José Arcadio amarrado louco no tronco do castanheiro, sou a matriarca Úrsula aceitando estar morta porque assim lhe disseram por molecagem, sou o espectral Melquíades predizendo juízos finais. Sem eles, quem eu seria? O que teria sido feito da criança a quem o tempo roubou os brinquedos, mas manteve cruelmente os olhos?

18/04/21

quinta-feira, 15 de abril de 2021

QUANDO UM CABA VIRA MANO, MORRE MAIS QUE UM CALANGO

 
A cidade piauiense de Lagoa do Barro recebe pela primeira vez transmissão de TV, e seriado Chaves é pioneiro (05/12/1993).
(Clique na imagem para ampliá-la e na fonte, para acessar a página de origem.)

    Quando é que uma palavra deixa de ser palavra e vira “regionalismo”? Veja bem, isto não é nada contra as variantes. Muitíssimo pelo contrário, eu defendo a legitimação desses territórios culturais que as palavras demarcam. Minha inquietação vem justamente da marginalização que os termos regionais sofrem até mesmo nos dicionários, quando estes assim os setorizam, enclausurando, consequentemente, o seu escopo. Sempre me pareceu incômoda a categoria “folclore” na cultura, por exemplo, começando pela inglesada etimológica: folk (povo) lore (instrução). Então Zeus engolir Métis (grávida dele mesmo) e ele próprio parir Atena (que já nasceu armadurada) pelo quengo (que foi aberto a machadadas pelo seu irmão Hefesto, depois de uma grande dor de cabeça daquele lá) é mitologia, mas deixar uma peinha de fumo para agradar a Comadre Fulozinha antes de entrar na mata para caçar é folclore? Mas, menino! Pois vem daí o meu ranço. Quando alguém usa “regional” ou folclórico” para descrever algo, pode reparar na via de mão dupla dessa valoração: de um lado, despertam-se o orgulho bairrista, a memória afetiva, a herança, o telurismo; de outro, é como um prêmio de consolação, um Grammy Latino, um Oscar de melhor filme estrangeiro. É dizer que lacraia é melhor que embuá, ou pior, que o certo é caracol, e aruá é “só” um regionalismo.
    A pior parte disso vem agora, nestes tempos em que “profissões” como coach, influencer ou youtuber afetam diretamente os falares identitários, a cultura que o discurso de um povo reflete. Mais uma vez, é preciso esclarecer: eu não sou contra aquilo que soma; sou contra, radicalmente, aquilo que substitui, sou contra aquilo que subtrai. É mais ou menos como um gênero musical novo. Há alguns poucos anos, o k-pop ultrapassou as barreiras geográficas e idiomáticas e ganhou o mundo, especialmente, o Brazil, que adora bajular uma novidade, principalmente, as estrangeiras. À época, eu vi um documentário sobre essa música pop sul-coreana e entendi a importância que ela tem naquele país, onde foi o veículo de uma renovação de costumes, um sopro de liberdade num cenário dominado pelo tradicionalismo e pela sem-gracice. Uma vez aqui, a meninada adorou, como adorou o Menudo nos anos 80, ou como, nos 60, o yeah, yeah, yeah! virou iê-iê-iê e apavorou os que veem diabo até na cruz. Até aí, tudo bem, porque é sempre bom ter uma coisa a mais como expressão de arte ou de entretenimento. O problema é que a mídia, que é um dos setores que mais destroem a cultura — principalmente, pelo esgotamento — suprimiu de certa forma boa parte do espaço destinado aos gêneros nacionais, o que deu aos kapopeiros a sensação de onipresença do BTS e das Blackpink, retirando deles outras possibilidades de expressão — muito mais legítimas — de seu comportamento. Ser jovem é foda. Superficialidade e profundidade são extremos em constante batalha pelos coraçõezinhos adolescentes, e isso é natural. Mas vamos pelo menos lutar em português, não é?
    Pois bem. Semelhante ao que acontece na música, a linguagem vem perdendo espaço (há muito tempo, eu sei) e, consequentemente, prestígio para modismos internos oriundos das capitais e de seu pseudocosmopolitismo, visto que, no Brazil (com z, mesmo!), isso significa arreganhar as pernas primeiro ao Sul-Maravilha e, depois, à gringalhada. Como consequência, a criançada de 5 a 45 anos daqui do Ceará, por exemplo, passou a usar “mano” em vez de “macho” ou “má”, e o “cê é louco, meu” vem minando o “aí dento”, que resiste bravamente, apesar de tudo. Até o tema melódico dos sotaques vem sendo alterado. Lembro que, há muitos anos, um radialista aqui de Fortaleza anunciou um evento no então Mucuripe Club, que reabrirá com o nome Mucuripe Music (pois é!), alterando a prosódia da palavra para “Múcuripe”, talvez para combinar com o “clâb”, que ele pronunciou britanicamente, como convém a qualquer locutor que se preze. Sem gringuismo, não há respaldo, não é? Pois então!
    Além disso, eu percebo que a “neutralização” (para não dizer descarte) do sotaque cearense aumenta proporcionalmente à classe social e à conta bancária do fortalezense. Parece que existem vários esqueletos no armário que cada aspirante a “aristocrata” — ou, de fato, membro de alguma oligarquia — tenta desesperadamente esconder em cada s sibilado antes de t e d, em cada escolha vocabular artificial ou estrangeira, em cada amnésia idiomática afetada diante do constrangimento da palavra inconvenientemente ouvida (“o que é quenga?”). Eles forçam por se perder, por se desconectar. Sei que não se deve nunca ter pena de quem tem dinheiro, mas é digna de piedade a pessoa que não tem povo, que não tem gente, que só se assemelha pelos badulaques dispostos impecáveis no aparador, validando-os como “cidadãos do mundo”. Nada contra os cacarecos, que também tenho esses fetiches, e os considero um materialismo saudável, mas me parece que, sem eles, aquelas pessoas não são capazes de dizer quem são da mesma forma como fazemos meramente chupando uma ciriguela.
    Também é enorme a quantidade de Felipes Netos, de RezendeEvils, de Felipes Castanharis, de Kéferas Buchmanns, de Harus Jigglies, de Coccielos, todos eles misturados, que eu vejo no jeito novo de falar o cearês. O mais curioso é que o Whindersson Nunes, que é o youtuber mais bem-sucedido do Brazil hoje e é piauiense, não influencia a fala de ninguém. É o complexo nelsonrodriguesano de vira-lata, só que de um jeito mais hipócrita: todos adoram o pé-duro amarelo, mas ele nunca vai latir tão bem como um weimaraner.
    Eu me preocupo de verdade é com aquilo que se pode perder. Sou da capital, mas meu pai me deu o melhor presente que podia na minha formação de caráter, que foi o levar-me constantemente ao sertão e proporcionar que o sertão me levasse aonde ele não podia, que era a riqueza silenciosa de sua cultura. Sei o que é um jirau porque foi num que emborquei a caneca de alumínio para secar, no terreiro branco da casa de Dona Zefinha, em Pacajus. Sei o que são um puçá, um jereré, um landuá, uma sovela, um samburá, um mão-no-olho, porque tudo isso fez parte do meu universo de pescaria nos interiores e litorais daqui. Sei que pão de milho não é um pão, porque moí os caroços secos no quintal da casa de meus primos em São Miguel, hoje, Itaitinga. Sei o que é um quixó, porque meu pai me ensinou a fazer um para matar os ratos do quintal. Sei a diferença entre a rasga-mortalha e o caburé, porque ouvi os dois piarem, à noite e de dia, e aprendi ali o misticismo sertanejo, os malassombros e as visagens que ali, na Serra da Boa Vista, no roçado dos capuchos de algodão, tornaram-se meus como se tivessem nascido comigo. Sei, enfim, de um pouco da riqueza de minha terra, de minha gente, que me chegou nas palavras, nos cantares, nos sotaques tão gostosos quanto enciclopédicos, e tudo isso significa que eu pertenço a um lugar, a um povo, a uma beleza imaterial que se vivencia quando, simplesmente, se fala. Nada disso nunca foi “regional”, nunca foi “folclórico”, mas sim fui eu com os meus, foi vivência, foi natural como as palavras e as suas almas devem ser. Será que esse chão sobreviverá nos meus filhos? Será que essa pertença que a linguagem agrega ao falante vai enraizá-los em si mesmos, situando-os no mundo e dando-lhes a perspectiva de que sua fala é seu lar? Será que eles vão sobreviver a esse autoetnocídio financiado a dólar? Não sei, realmente. A vida é a cada dia mais “de plástico”, e o manual de instruções vem impresso em mandarim.

15/04/21

sábado, 10 de abril de 2021

A CULPA É DA RÊMORA

 
(Clique na imagem para ampliá-la e na legenda, para acessar a página de origem.)

    Nesses dias, eu me peguei pensando num texto do Brecht que costumava usar em aulas de Interpretação Textual, “Se os tubarões fossem homens”. Texto genial, alegoria impecável, utilíssimo para meter o pau no sistema. A meninada adorava. Não há como fugir das metáforas nem como evitar a faísca da revolta, essa eterna adolescência do pensamento político. No entanto, hoje, só hoje, eu pensei nas rêmoras, os peixes-piloto que pajeiam tubarões e arraias, nadando colados aos seus flancos e ventres. Nunca consegui entender qual o benefício delas para os “hospedeiros”. Aos jacarés, com suas bocarras abertas, há pequenos pássaros que limpam os dentes, comendo os restos cadavéricos e faxinando a casa. Tia Consuelo, a namorada do dentista, minha professora de Ciências na quinta série, ensinou-me — entre uma piada e outra sobre o namorado colocar-lhe ferro na boca — que isso se chamava “cooperação” entre as espécies. O mesmo se dá entre a abelha e a flor, o paguro e as cracas etc. Foi ela que me falou das rêmoras, as quais, com o tubarão, têm uma relação de comensalismo, ou seja, uma espécie se beneficia da outra sem prejudicá-la, mas sempre me incomodou a associação infantil que ainda teimo em fazer com o jacaré: como o tubarão permite que um peixe entre em sua boca e colete ali os restos que poderiam muito bem ser do seu colega — talvez, parente — do lado oposto, que se descuidara? Ele não permite. Tubarão não é jacaré.
    Aí, veio-me o Brecht. Rapaz, como não pensei nisso antes? As rêmoras funcionam como os assessores, os corta-jacas, os baba-ovos, os paus-mandados, os moleques de recado dos tubarões, se estes fossem homens. No topo da cadeia alimentar, eles não precisam se rebaixar a indignidades tais como sacar vencimentos de funcionários — digo, peixinhos — inexistentes, ou mesmo o valor excedente depositado em conta daqueles que até existem, mas com o legítimo propósito de receber bocados gordos demais para suas boquinhas de xaréu, o que as rêmoras, prontamente, remedeiam com o translado até as bocas proporcionais dos seus mestres. Rá! Resolvi o enigma, Consuelo!
    Contudo, há, de raro em raro, ocasiões em que uma espécie excepcionalmente perigosa de tubarão põe em risco a harmonia do fundo do mar, que consiste em cada tubarão ter as suas próprias rêmoras, suas tartarugas, suas focas, suas sardinhas. É uma espécie cuja voracidade não permite que as presas se renovem a tempo de repor o estoque, tampouco respeita o território dos outros tubarões. Em situações mais raras ainda, no conflito causado pela intromissão em esferas alheias, esse tubarão passa a predar seus semelhantes, guardando exceção apenas para os familiares, os quais defende com fúria desproporcional, à revelia da lógica biológica entre as espécies, qual seja, nenhum tubarão pode se associar a moreias, por exemplo, ou a marlins, ou a orcas. Cada qual tem seu curralzinho, sua congregaçãozinha, seu eleitoradozinho para consumir. Esse tubarão percebeu que pode sim haver um grau acima na hierarquia oceânica. Ele entendeu que um tubarão poderia ser temido apenas pelo menear da cauda, pelo fremir dos opérculos, ou mais ainda, esse supratubarão poderia, apenas com a sua existência, submeter os outros tubarões como se estes fossem meras rêmoras.
    O problema é que não há um dente a mais na sua boca que na dos demais, nem mais velocidade ou força em seu corpo. A única vantagem que leva é a fidelidade absurdamente irreal de suas rêmoras. Elas são tantas que mal se lhe vê o corpo macilento. Somente os olhos sem vida e a bocarra indecentemente entreaberta à espera de novos bocados imediatamente servidos por elas se percebem. Os outros tubarões, obviamente, não podem tolerar tamanha aberração, tal desirmandade, tão traidora, tão vil. Reúnem-se. Confabulam. Esperam o nível de revolta entre os peixinhos — os dele e os seus próprios — chegar à beira do colapso, de modo que estes cheguem ao ponto de ver neles seus irmãos, seus vingadores, seus justiceiros. É o momento ideal. No mar, agora, não há mais “tubarões”. Há apenas um, o maldito, o inominável, o excrementíssimo, aquele a quem qualquer proporção de justiça não se aplica mais, seguindo-se a isso pedidos de estraçalhamentos e descarte dos restos em fossas abissais.
    O tirano, contudo, é covarde em seu delírio de Netuno. Intimamente, sabe que sua vida de predador só vale enquanto houver a anuência digestiva dos de sua laia. Todos precisam estar felizes no topo de suas cadeias, que é para isso que servem os peixinhos. Cada tubarão deve ter a sua tirania respeitada. Sabendo que é inevitável o ataque, ele apela para uma medida tão antiga quanto o sal do mar: a culpa é das rêmoras! Sim, ele fora mal assessorado, tivera sua visão velada pelo fluxo constante de barbatanas bajuladoras ao seu redor, fora uma vítima de oportunistas que, impossibilitadas de terem a sua grandeza, entraram em conluio para destruir a sua imagem perante os de sua espécie. Não pôde ver o que lhe faziam, e acabou sendo levado a decisões que comprometiam o grande conglomerado de tubarões, todos vítimas, todos seus irmãos.
    Funcionou. Centenas de rêmoras foram dilaceradas sem finalidade alimentícia, vingança pura, uma carnificina expiatória e purgativa, a carne podre da sociedade sendo cortada pelas suas lideranças. Enfim, voltou a reinar a paz. Cada tubarão continuou em sua bancada, com seus peixinhos fiéis. De quando em quando, uma rêmora era devorada para que as outras não esquecessem o seu lugar na cadeia democrática do oceano. O oceano, acima de tudo! Os caranguejos é que, habituados a se entocar e a se alimentar dos excrementos sociais — ao lado dos camarões e dos plânctons, a ralé absoluta daquele ecossistema —, entendiam a verdade final daquela aventura de poder: o único oceano seguro é aquele entre os recifes, sob as rochas, sob o leito, sob algumas camadas de terra, onde merda e vida são praticamente a mesma coisa, uma amálgama enorme, em cujo interior, em se permanecendo, sobrevive-se mais ou menos como agrada aos deuses.

10/04/21

sexta-feira, 9 de abril de 2021

OS PARDAIS E O FIM DO MUNDO

 
 (Clique na imagem para ampliá-la e na legenda, para acessar a página de origem.)

    Ultimamente, tenho visto pouquíssimos pardais. Antes, eram onipresentes. Tudo bem, entende-se a ausência deles no meu quintal, eu tenho seis gatos. Mas as rolinhas, os bem-te-vis e os beija-flores ainda estão lá, mesmo que mais cautelosos após alguns óbitos; os morcegos, também, farfalhando a noite em relâmpagos negros. Então, onde eles estão?
    De todos os pássaros urbanos, o pardal sempre me infligiu lições, por exemplo: ele nunca se habituou ao homem. Chega um, foge o outro. Nesse quesito, difere do pombo e da hamburguesa, além do qual, há o atenuante de ninguém nunca ter caçado, capturado ou comido um pardal — meninos de baladeiras, talvez, embora isso seja coisa de sertão, onde o alvo preferido são as avoantes, hoje, raras por causa disso. De vera, ninguém lhe dá a mínima. Nem migalhas, que estas se jogam nas praças columbinas. Mesmo assim, sem ser molestado, o pardal é de natureza arisca, mais que todos os outros com suas pixilingas: ao menor sinal de gente, põe-se em alerta e chispa voo se alguém se move.
    E agora, esta: somem! A ordem natural das coisas tem jeitos sutis de se queixar, antes de ignorar a criação e pôr-se a reinventar a vida. Esquentam uns célsius aqui, somem abelhas acolá, e pimba!, aparece o solo negro onde dormiam neves que se supunham eternas.
    Se o sumiço dos pardais é um sinal de uma nova enxaqueca divina, pegou-nos completamente desatentos. Escolhesse o Criador um bicho mais notável, mais midiático, como o elefante-africano ou o dragão-de-komodo, vá lá, a gente perceberia. Ou não? O mico-leão-dourado e a ararinha-azul que o digam.
    Desta vez, talvez o cansaço tenha sido maior, tenha sido demais. Talvez o limite de Deus tenha sido o “batismo” de Bolsonaro no Rio Jordão. Ou a Damares conclamando linchamentos morais contra o aborto legal de uma criança estuprada. Ou o Brazil como um todo, por que não? Somos um país que não merece mais pardais nem segundas chances. Talvez estejamos sendo o limite arbitrário entre os dilúvios, já que Deus parece descartar a criação com um desamor proporcional ao amor. Minha irmã costumava repetir o que os carismáticos lhe haviam ensinado: “da próxima vez, vai ser com fogo!”. Nisso, eles se assemelham bastante aos neopentecostais, já que a alucinação de ambas as congregações com o Juízo ultrapassa os parâmetros hollywoodianos, de Michael Bay para lá! Contudo, a nós, nordestinos, possa até fazer sentido: primeiro, ateia-se o aceiro; depois, revolve-se a terra nitrificada.
    Eu, de minha parte, acho que tanto Deus como os pardais acharam algo melhor a fazer. Longe daqui, destas sucessões de absurdos e horrores, da compra dos votos do centrão, das torturas e assassinatos institucionais, da extrema-direita, da FIESP, do apodrecimento do Sudeste, do (des)Governo genocida, enfim, bem longe da safadeza do Brazil, devem estar numa praça qualquer mais ou menos assim: Deus, com uma marmita de cordeiro ao vinho recém-devorada, arrotando satisfeito mais um mandamento; e os pardais, pinicando, festejando com o que Lhe cai das barbas galácticas. Aqui e ali, uma pontadinha de indigestão, uma peristalse, um deslocamento de flato e uma catinguinha Lhe recordam as terras onde já gorjearam os sabiás, para onde, em Seu nome, dirigiram-se os piores europeus imagináveis, em caravelas de progresso e evangelismo. Nada que uma abanada de mão divina não afaste e uma soneca digestiva não converta em bosta santa, adubo divino do barro primordial.

09/04/21

sábado, 3 de abril de 2021

É VERDADE ESTE “BILETE”

Foto: Fernando de Souza
(Clique na foto para ampliá-la.)

    Essa pandemia mudou completamente a maneira como compreendemos a vida que levamos dentro das alterações forçosas de rotina. As interações assumiram novos valores, e muitas delas acabaram por ser percebidas completamente inúteis. Entre as úteis, estão as laborais e as sentimentais. Amigos, família, amores e afetos empreciosaram-se na lonjura, e a internet acabou finalmente atingindo o seu objetivo mais nobre, que é o de aproximar o que importa nas pessoas. Imagino como devem ser — pois esse tempo já passou por mim — a necessidade da presença física, a urgência de abraços e beijos, a carência dos dedos nos cabelos, os ouvidos procurando nos cantos da casa o leque-leque das chinelas nas solas dos pés assinalando que não se está sozinho; e nada disso ser possível. Pelo menos, por agora.
    Eu, de certa forma, tenho a sorte de estar numa fase muito confortável de minha misantropia. Faltam-me meus amores perto, é óbvio. Porém, ter normalizada a minha necessidade de solidão é bastante redentor. Pela primeira vez, vejo uma utilidade prática para a minha saúde emocional em eu ser exatamente assim como sou.
    Acontecem também outras curiosidades, e algumas oscilam entre a surrealidade e a brasilidade, semissinônimos que se opõem pelo contexto apenas. Trasanteontem, dia 1º — é mesmo verdade este “bilete”! —, por volta de 18h, caminhava pela orla da Beira-Mar em direção a mais uma aula particular. É o fantasma da morte nos ônibus, nos supermercados, nos próprios apartamentos dos alunos, mas a precisão prevalece. Não parei de aproveitar em nenhum momento as oportunidades de aulas que surgiram. Em parte, sentia-me culpado por estar ali, já que afirmo e confirmo a obrigatoriedade do isolamento nestes tempos, mas, fazer o quê, preciso trabalhar. Melhor que seja pelo menos agradável o risco de morte, pois não? Pois bem. Pus Zé Rodrix para tocar nos fones de ouvido, sentei-me numas pedras ao lado de um dos espigões e comecei a comer o pão com mortadela que preparara em casa, pois tinha bastante tempo até o início da aula e antevi a fome. Olhei o mar, andei pela areia, observei algumas poucas famílias por ali, alguns namorados, vários solitários. Todos, meio que como eu: o olhar apreensivo, buscando qualquer coisa nas ondas que fizesse a vida valer a pena. Caminhei até o ponto no calçadão que ficava em frente ao prédio, ainda tinha uns 40 minutos. Sabia que ninguém deveria estar ali, mas, para mim, era o jeito. Pelo menos, não chovia. Máscara, viseira, álcool em gel, desconfiança e distância dos outros. No fone, já tocava outra coisa, mas eu queria ouvir de novo “soy latino-americano e nunca me engano, e nunca me engano”. No momento em que procurava, percebi de canto de olho uma linha humana preta, cinza e laranja se aproximando a pé, de moto e em camburões: era a polícia. Tirei os fones.
    — Senhor, estamos em lockdown — ele falou como eu, “loquidáun”, apesar de eu ter notado a polidez forçada pelo ambiente e ensinada pelo chefe da corporação para momentos em que se aborda alguém na “área nobre”.
    Sempre que vejo a polícia, lembro-me da noite em que o Miguel, meu filho, quebrou a clavícula num escorregão. Ele tinha então 2 anos, e fomos de Uber ao José Frota ele, a mãe e eu. Na pressa, o motorista foi pelo itinerário do aplicativo, o que nos meteu num lugar esquisito, deserto, miserável, típico ponto de desova. Na saída desse “cheiro do queijo”, uma viatura nos parou, todos apontando as automáticas. Apesar de estarmos de mãos para cima, calmos e afirmando que levávamos uma criança ao hospital, eles só baixaram as armas e a truculência quando viram o Miguel no banco de trás, improvisadamente tipoiado e no colo da mãe. Desde então, entendi que só estamos seguros de joelhos e com as mãos na cabeça. E olhe lá.
    — Ô, meu querido, eu entendo, mas estou esperando a hora de começar a trabalhar. Naquele prédio ali, veja.
    Apontei. Sempre ando como se ainda fosse estudante: jeans, tênis ou chinela, mochila, camiseta, boina, fone de ouvido. Acho que ele demorou a associar aquilo que viu a um trabalhador. Poderia ter dito que era professor, que ia dar aula particular, mas poderia piorar minha situação. Vai saber.
    — Meu senhor, a partir das 17 horas, está proibido ficar na área de lazer da praia.
    — Claro, eu concordo com tudo isso. Pode deixar.
    E fui andando. Eu adiei uns segundos o problema imediato: andaria para onde?
    — Meu amigo, me diga uma coisa: onde eu posso ficar?
    Acho que ele não esperava a pergunta óbvia. Acredito que só aí ele entendeu que não tinha escapatória senão revelar a brasilidade de nossas medidas legais, emergenciais e urgentes em meio a esta pandemia, que é deixar cair o biombo que esconde a macacada hipócrita que é o nosso comportamento geral. Nenhum de nós, mesmo aqueles que, como eu, perdemos parentes e amigos para o vírus, agimos como deveríamos nestes últimos 15 meses. Talvez não o tenhamos feito nunca, mas era de se esperar que pelo menos o medo da morte motivasse a responsabilidade que se espera de quem quer viver. O problema é que temos de sobreviver primeiro. Viver vem depois.
    — O senhor pode ficar do outro lado da rua.
    — Oi?
    — Ali, do outro lado da rua.
    Várias pessoas estavam lá. Semiaglomeradas. Quase todos que foram tangidos do calçadão, os moradores dos prédios, os seguranças, os porteiros… Isso, sem falar no pequeno engarrafamento causado pela baixa velocidade dos camburões e das motos, aboiando com as sirenes o gadinho magro. Era um cortejo fúnebre-carnavalesco de fardas, buzinas e xingamentos em voz baixa.
    A vontade de rir foi grande. A máscara me ajudou, escondendo o sorriso de nojo.
    — Ali pode?
    — Pode, só não pode ficar aqui, na área de lazer.
    Era uma aula de pragmatismo in loco. Proibido, para a proteção da própria população, era ficar apenas na área de lazer. Ficar aglomerado na calçada oposta já contava como lockdown, segundo o silêncio eloquente e desconcertado do policial.
    — É, meu amigo, tá certo. O ideal era que nenhum de nós precisasse estar aqui, né?
    — Isso. Nenhum de nós. Mas tem de trabalhar, né?
    — Pois é. Quem manda ser brasileiro, né? Bom trabalho aí.
    — Pro senhor também.
    Atravessei a rua, obedeci. Fiquei uns 20 minutos embaixo de uma árvore de calçada, tão bem podada que parecia de plástico como quase tudo por ali. Pensei nos que sofriam, nos que estavam morrendo, no meu irmão morto, nos meus filhos, que dependem de eu estar ali. Abri a playlist. Zé Rodrix não fazia mais sentido ali. Belchior, talvez… Acabei na minha pasta de samba, procurando o Roberto Ribeiro. “Coisas da Vida” sabia melhor naquele começo de noite, cheio de ausência de humanidade, inteligência e esperança: “e, se falar a verdade das coisas tristes da vida, no peito, tristeza que dói. Assim eu levo o meu canto, sangrado em desencanto, e, se me alerto pra vida, é obra de puro espanto”. A última faixa de um dos melhores discos de samba de todos os tempos, de um 1979 em que eu, com 5 anos, a mesma idade do Miguel, não tinha a menor ideia ainda do que era ser brasileiro.

03/04/21