Número de sílabas (desde 11/2008)

counter
Mostrando postagens com marcador Memória. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Memória. Mostrar todas as postagens

domingo, 2 de novembro de 2025

CONSISTÊNCIA


há mais de mim nas coisas do que em mim.
nos lugares, no cheiro do vento.
onde dormi, mais que o sulco temporário de meu corpo,
que a fina camada de gordura e pele,
há o sonho e o assombro.
lá ficaram.

mas, quando ali retorno o olhar de dentro,
vejo que mais estou do que pareço.
vejo que a porta aberta que esqueci sem chave
gravou de mim uma partida que é mais
do que fui quando cheguei.

há mais de mim mesmo onde só estive em pensamento.
nas ausências, nas impermanências, ali estou, vigilante,
marcando a estada,
prenhez e prole, eu mesmo, onipresente, populoso,
territorial.

só assim
para aguentar este deixar de ser
constante
em que me perco, hora a hora,
sem nunca acabar de ser inteiro.

sou porque não sou;
estou porque, em outros lugares,
me abandonei.

minha âncora é o mar.

02/11/25

sábado, 1 de fevereiro de 2025

AGORA, A NOITE

Criança amazonense no embalo da rede. - Divulgação/Caminhos da Reportagem (Modificada.)
(Clique na imagem para ampliá-la e na legenda, para acessar a página de origem.)

Bebo o café que é possível
com o pó da manhã e a água das horas.
Lá fora, tudo cidadeia,
e o espaço me comprime em minha casa verde,
velha e resistente.
Os urubus que me vigiam
pragalham da carne imputrefata
sitiando todas as vias de felicidade possível.

Não há madeira em minha porta,
ou horizonte, na janela.
Minha cortina de trepadeiras ainda tenta;
minhas espadas de Ogum ainda tentam;
e as de Iansã, também;
mas, aqui, neste quintal de trasantontem,
adormeceram já todas as guerras

— a paz que resta é mofo e cupins
e mijo de gatos nas calhas.

Amanhã, quando o sol me encontrar,
será de nós ambos o ocaso:
tempo em que nos deixaremos finalmente anoitecer
da noite que veio me buscar quando menino,

quando o paquete de minha rede me embalava sem fateixa
pelo Estige e pelo Pacoti,
pelo espaço e pelos abismos,
sem sonhar que as tempestades dormiam comigo
fetalmente, no porão sem escotilha.

Na casa velha, as tralhas acordarão limpas,
embaladas no porão da jangada que ela se tornou.
Um mar vesperal crepuscula prestes,
e um terral desancora a terra
de que já não sou mais feito.

Agora, a Noite.

30/01/25

quinta-feira, 21 de novembro de 2024

O MENINO E A NOITE

    Quando comecei a escrever poesia, tinha um pouco menos que a idade atual de meu filho, Miguel, e um pouco mais que a de minha Clarice. Fui incentivado pela minha irmã Malu a datilografar meus textinhos na velha Remington 25 que papai comprara para as filhas, na qual eu brincava de ser escritor. Honestamente, eu me divertia com isso muito mais que hoje. Era um pequeno calhamaço de poeminhas bobinhos que eu intitulei Poemas de uma criança, da Editora Estrelinha, meu único empreendimento digno. Nessa época, eu também comecei um romance que chamei de A guerra dos meninos. Nunca terminei. Talvez, porque já começava a me bandear ao lado do exército inimigo. Também me aventurava em histórias em quadrinhos que eu mesmo diagramava em bloquinhos que confeccionava com folhas velhas de meus cadernos escolares. A principal era a da águia Cry, que sempre mudava de forma entre os quadros. Desenhava o que me vinha à mente, fosse concreto ou abstrato. Peguei gosto pelos super-heróis, pela anatomia humana, animal, pelas formas geométricas, pelas flores. Sempre tentei, sem sucesso, desenhar a noite, mas foi na poesia que tive êxito. O caso é que, nesse momento, a Noite já era outra. A escuridão e o espaço, uma vez palavras, ganharam gravidade, peso, forma e força. Entendi, então, que eu era mais da Noite que do dia, que a ausência do meu amado sol de litoral era muito maior, muito mais íntima que minha relação com ele. Dei a Ela minhas mãos de já pré-adolescente e, a partir daí, ainda que sem saber, passei a dar a tudo que escrevia um tom de ausência, um adeus. Minha escrita caótica foi motejada pela despedida como se, em cada poema, eu me despedisse de mim, ou dos outros, ou das palavras, ou de tudo.
    Hoje, minha literatura tem o encargo de me explicar, de me narrar. O peso do testemunho de quem sou e fui, do que sinto, vejo, amo, penso e odeio tornou-se monumental de tal forma que escrever, há muito, vem deixando de ser produzir e passando a ser descarregar. Escrevo como se tirasse autoesculturas malfeitas de minhas costas, peças que me decompuseram e que me espedaçaram porque são feitas de mim, e que, por isso, me enfraqueceram o espírito mais que me aliviaram de sua sobrecarga. É por esse motivo que não me encontro mais no que escrevi. Em cada texto, em lugar de haver um reflexo ficcional do eu-autor, há os meus pedaços que ele deveria refletir. Eu estou lá, pois sei que eles são meus, mas sei sem sabê-los, sem me lembrar deles. Eu fiquei lá, esculpido, forjado, amalgamado, e a memória do que eu fui não os alcança mais. Ela ficou lá, encapsulada, criptografada. E é esse mistério, essa antologia de lacunas das quais também fui me despedindo, que me pesa ainda mais que quando elas estavam preenchidas aqui, em forma de lava. Lá fora, como vidro vulcânico, são obsidianas cortantes que me sangram ao toque. Revisitar velhos poemas, como fiz há pouco, é como um masoquismo, uma automutilação, uma nostalgia de algo que sempre me espanta e fere, pois o encontro com quem fui é sempre um encontro de estranhos: o eu-cá, curioso e pasmo; o outro, expatriado, arredio, indignado, beligerante.
    Mas, nem sempre. Há vezes em que escrever é confeccionar uma roupa, um uniforme ou um disfarce — às vezes, apenas um cobertor, quando preciso me apartar da Noite. Tirar a própria pele apenas para ver como sou. Depois, vesti-la sobre um eu-novo ainda anônimo e amorfo. Andar, então, pelo presente, vestido de passado, protegido por mim, disfarçado de mim. Escrever, assim, pode ser vestir-me com meu próprio fardo e crescer a carne nova em paz, sem que ela seja cicatrizes.
    Tão diferente vim me tornando quanto vim me descrevendo. À medida que me livrava de mim, vim me acumulando, obrigando-me a reconhecer-me em minha trilha de migalhas de pão. Quanta saudade de quando escrever era como acender velas na escuridão da casa, revelando a mim mesmo nas sombras projetadas na parede. Foi assim com o desenho, com a música e com os primeiros textos, antes que a Noite obsoletasse as paredes, a casa, a cidade, até mesmo, a noite lá de fora. Assim, toda tessitura e toda composição foram estruturando uma nova casa, que cresceu a uma cidade, que evoluiu a um país, assim como o reino dos cheiros de Jean-Baptiste Grenouille, com a diferença de que, lá, todos foram capturados, ao passo que, cá, fomos todos abandonados. Dessa forma, escrever também pode ser um fenômeno biológico como um tipo de meiose, por meio do qual cada texto, ainda que um haicai, é um eu diferente de mim, porém, um componente de mim exteriorizado, e, ao me fragmentar para compô-lo e livrar-me dele, acabo por tornar-me um organismo formado inteiramente de corpos estranhos, células oriundas de uma tentativa de amputação que culminaram numa espécie de eu-colônia ou eu-mosaico.
    Escrever sempre é tentar definir-me por meio de mim e do alheio. Coisas, lugares, pessoas ou experiências, por mais que eu tenha a intenção de denotá-las, acabam por ser uma escusa para falar de mim por intermédio delas, como se fossem todas lentes ou janelas que sempre dão aos cômodos da casa do eu-autor, incluindo-me eu próprio nessa mediação. Nesse último caso, a composição é uma viagem em que o eu-autor é o mar, o barco e o barqueiro, e, chegando lá, nessa terra nova, tenho a sensação muito nítida de descoberta e desbravamento, pois aportei numa revelação de mim mesmo completamente inédita: um eu-mesmo que é outro. Provavelmente, a cada novo texto, a cada novo desenho e a cada nova música, eu vinha criando a mim mesmo, gerando um eu-que-seria, mas, simultaneamente, vinha me despedaçando em vários eus-textos que deixava para trás. Por isto, é tão preciosa aquela criança que datilografava como quem pavimenta o próprio caminho: é dela que não posso me perder; é ela que busco nas releituras; é com ela que preciso me integrar para vagar na Noite. Portanto, escrever é o paradoxo de destruir-me para criar(-me). É multiplicar-me para diminuir-me. É sobrecarregar-me para ser leve. É crescer para tornar-me novamente criança.
    Procurei, outro dia, aquele calhamaço da Editora Estrelinha, sem sucesso. Sei que não o perdi. Está em alguma caixa ignorada em várias mudanças. Gosto de pensar, porém, que não é uma caixa ou um envelope. Gosto de pensar que é uma casa oculta nessa cidade que virou país, uma casa toda feita de lembranças, de onde foram retirados os tijolos para a construção de todas as outras, e, por isso mesmo, imaterial que se tornou, é tão difícil de se encontrar. Lá, quando regressar, vou reler os quartos, o quintal, os vãos de sonho que foram originalmente dormidos. Vou deitar novamente na rede em que as palavras me embalaram pela primeira vez e vou reconhecer-me como o mais distinto semelhante, o mais próximo distante, o mais eu-mesmo que o outro pode ser. A Noite, como agora há pouco, vai parir o dia, e poderemos, talvez, escrever sobre o sol que nasceu no mar e sobre a primeira vez em que nos vimos cara a cara.

21/11/24

domingo, 9 de junho de 2024

LAPSOS

Fabrizio Torchia - The Phantoms of the Brain
(Clique na imagem para ampliá-la e na legenda, para acessar a página de origem.)

a memória é isto:

fantasmas de afetos e desafetos
em corpos que não se lembram mais de mim;

é existir em lugares
que não existem mais;

é ser um país de apátridas
em exílio;

é a súbita queda findando um sonho,
que não é súbita nem é queda,
mas continua caindo e caindo;

é dormir sem remissão;

é acordar sem consciência;

é esmolar sem esperança;

é viver sem a matéria;

é morrer sem a matéria
e deixar que a matéria me resgate;

é um corromper-se sádica
em punição a mim;

é um ser exata e maquinal
em detrimento de mim;

é, quando o agora colapsa,
o amontoado de lapsos
de todos os colapsos anteriores;

é, por fim, um disfarçar-se
em pensamento intrusivo,
em ideia desastrada,
em consideração absurda,
em projeção fantástica,
em autoanálise impiedosa,
em fantasia de poder,
em escape,
em fuga,
em mim.

08/06/24

quinta-feira, 30 de novembro de 2023

DESENCAIXE



Todo dia, um pedaço de mim sai de casa
Vai à rua, pega ônibus, toma sol
Compra café
E se perde como aquelas peças de quebra-cabeças
Do Corcovado e do Cristo Redentor
Que minha mãe me comprou
Tirando do dinheiro reservado ao mercantil

Cento e vinte peças, todas miudinhas

Muitas mais sou eu

Muito mais me perco

A despeito de todo o desencaixe

30/11/23

domingo, 20 de fevereiro de 2022

RECORDAREMOS

Há de chegar o dia em que voltaremos a saber mais do que eles ignoram.
Não há no espaço do mundo agora — este espaço, esta causticidade de tudo que se toca, fala e vê —
lugar para ternuras, canteiro de amizades ou santuário de amores.
A estrada se converteu no destino, e estamos descalços no asfalto quente sem nuvens nem juazeiros.
Contudo, não há estrada hemisférica neste mundo; todas derivam; algumas vicinam;
e nossas mãos e pés constroem aquelas que o chão ignora.
Quase não há flores, mas ainda não houve tempestade nas estórias da noite que extinguisse as borboletas.
Hão de revoar, farfalhando-se como risadinhas de crianças brincando sem medo
nas capoeiras que a chuva recente vicejou.
Com as águas, voltarão os rios e as cachoeiras a mostrar como soa o amor de Oxum,
e tudo aquilo que deve descer para o mar se desmanchará devagarinho, rolando nos seixos até virar pó,
tornado estéril pelo sal marinho de Iemanjá.
Então, poemas serão reescritos e enviados como antigamente,
rangendo nas dobradiças dos peitos e nas juntas das mãos
as emoções ancestrais e os sentimentos renovados.
Amigos, num bar, contarão histórias que não deixarão esquecer quem perderam, quem se perdeu,
e estes, sob o calor das memórias, desmorrerão em árvores e passarinhos
cuja sombra e canto darão a toda parte o que dá um quintal a um menino recém-desperto,
que começa a lembrar como se colhe uma flor que se destina à mãe.
Começaremos a lembrar.
Voltaremos a saber tudo que eles sempre ignoraram.

20/02/22

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

O NOME DE DONA IRENE

Imagem digitalizada por Francisco Carlos.
(Clique na imagem para ampliá-la e no nome do autor para acessar a sua página.)

     Memória é, no meu caso, primariamente um negócio afetivo. Vejamos um exemplo. Estudei por pouco tempo numa escola que não existe mais, chamada XV de Novembro, quando muito criança, ali pelos 6, 7 anos, início dos anos 1980. A diretora se chamava Rita, minhas professoras eram Sônia e Cláudia. Meu melhor amigo era o Jairo. Eu era apaixonado por uma menina chamada Márcia. A zeladora era a Dona Irene, e o porteiro, o Seu Geraldo. Não lembro de me contarem, lembro porque lembro, lembro porque eu assimilava o mundo ao meu redor com o coração, com a imaginação, como deveria ser com toda criança. Em 2019, encerrei 10 anos de contrato de trabalho numa escola X, como professor de Português. Por esses 10 anos, eu convivi com algumas pessoas ótimas, outras, detestáveis, porém o meu afeto não me permitiu (ou não permite) lhes guardar devidamente os nomes. Preciso fazer um longo esforço de reconstituição de cenas para lembrar que a senhora da copa se chamava Lourdinha, por exemplo. No entanto, com um falecido porteiro — pai de um aluno meu muito querido, chamado Maurício —, que se chamava Seu Marcos, não tive sucesso; precisei da ajuda da Vivi, ex-colega de trabalho, que me corrigiu — achei que fosse Seu Mauro. Porque isso acontece, não sei; gostava igualmente dos dois. Mas a D. Irene, aquela do XV, que ficou uma vez esperando comigo sozinha na escola porque meu irmão Cláudio se esquecera de me buscar, está gravada permanentemente na minha memória. Já os nomes de muitos outros eram tão circunstanciais que eu precisava inquiri-los a terceiros, de cujos nomes, por sua vez, só me lembrava por sorte. Sorte, no sentido etimológico do radical: aleatoriedade. O afeto me permite recuperar-lhes os rostos, a camaradagem, ser-lhes solidário nos votos de boa-aventurança. Já seus nomes, estes se perderam na voragem sucessiva das coisas ordinárias dos dias iguais.
    Talvez, eu tenha me tornado um cínico, ou um escapista, ou um misantropo, ou uma espécie de sociopata, como sugeriu certa vez Dona Fátima, mãe do Hálinson e da Natália, esposa do Seu Messias, todos muito queridos meus. Conversávamos sempre com muita alegria, e, numa tarde, falando sobre esses “apagões” mnemônicos, eu tinha dito a ela que não conseguia me lembrar dos nomes de algumas ruas do meu próprio bairro nem de alguns dos meus amigos, muitos, de infância, até, e que me perdia com facilidade, por não gravar os caminhos. Ela me ouviu pacientemente, analiticamente. Ouviu como mãe. Respondeu como juíza. “Isso acontece porque você não se importa com nada”. Dona Fátima, com o pragmatismo de uma contadora — que ela é —, asseverou o encadeamento de palavras que, na minha autodefinição, ainda não eram sequer letras. Porém, lá estavam, epigrafadas: “ele não se importa com nada”.
    Como acertara D. Fátima… Ali, de certa forma, deram-se tanto uma epifania quanto uma libertação. Não levei a mal, muito pelo contrário. Eu tinha agora uma frase que me definia bem, e só quem vive a perturbação da busca constante sabe o quanto isso é difícil de se encontrar. Não era um problema meu de afeto, não era eu que não sabia sentir as pessoas, não era um aleijão sentimental. Era, isso sim, o oposto da posse. Era um olhar de transeunte permanente, de constante temporariedade, era a janela do ônibus com a vida em curso nas avenidas, ruas, calçadas, botecos, olhares, contatos. Tudo passando, tudo fugaz. Ou quase tudo. D. Irene, não. Ela, cabelo grisalho, vestido de chita, pés apressadinhos nas chinelas, fez mais que o seu trabalho quando outros negligenciaram os seus. Dona Irene, que já deve estar no céu das Irenes, junto à de Manuel Bandeira, é nome que não passa na janela. Fica sentada junto de mim, com todos os outros nomes que, sei lá por quê, me acompanham nesses ônibus circulares desta cidade provinciana que sou eu.

23/02/21

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

GIGOT

Gigot (Gene Kelly, 1962)

      Fico me perguntando se a vida adulta consiste em arrependimentos e tentativas de fazer as pazes com a criança que se foi. E em inventar nos caminhos adiante — não se pode voltar — tesouros artificiais que substituam os verdadeiros, os que caíram e quebraram, os que foram varridos com o lixo da casa, os que se perderam nesse afunilamento que é envelhecer.
    Era a primeira metade dos anos 80, a “década perdida”, quando nós éramos “programados a receber o que vocês nos empurraram com os enlatados dos USA, de 9 às 6”. A diferença é que era madrugada. Minha mãe tinha esse hábito dos solitários, o de ver filmes enquanto todos dormiam. Valia a pena ser solitário junto dela. Minha mãe calava a revolta e as frustrações da vida simplificada no seu dia-a-dia de dona de casa cuja promessa de felicidade fora substituída pela servidão e pelo abandono matrimoniado. Em suas tentativas de conciliação inúteis, ensinou-me a calar também. Aprendi a revolta que vive nas covas do silêncio. Mas também foi nessa época que comecei a aprender o silêncio, a imaginação e as paixões que vivem dentro das estórias que começara a partilhar com ela na frente da tevê. Eram tantos filmes, e tão bons, tão ilimitados! Não havia quase nenhuma restrição de conteúdo; víamos de tudo: tragédias, épicos, pornochanchadas, comédias pastelão. Devo à minha mãe esse amor ao Cinema que tenho hoje, ainda que bastante empoeirado e desanimado, essa capacidade de viver outras vidas que roubou da Literatura e da Música o meu espírito.
    Hoje, assisti novamente, depois de uns quarenta anos, a um pedaço tão bonito dessa minha infância, um filme tão triste, tão tocante e revoltante, tão lindo. Pensando bem agora, talvez tenha sido a minha primeira experiência com o desespero e o desalento diante da injustiça e da hipocrisia. Claro, uma experiência projetada. As reais vieram a cavalo, em seguida. O filme se chama Gigot. É uma produção lançada em 1962, um clássico que tem lugar na França e foi idealizado e protagonizado por Jackie Gleason, que também compôs as músicas temáticas, e dirigido lindamente por Gene Kelly. A personagem principal, que intitula a obra “perna” (de cordeiro, geralmente), em francês , é um homem mudo, gordo, enorme e extremamente bondoso, simples e gentil, ridicularizado por todos do seu bairro, os quais, em virtude de sua incapacidade de se impor, se aproveitam dele com uma condescendência tardia, mas nunca suficiente para se tornar uma piedade. Tomado por deficiente mental, é envolvido numa cadência de desventuras que lembram as de Quasímodo, de O corcunda de Notre Dame (William Dieterle, 1939) ao qual também assisti com minha mãe , porém com um falso final trágico, em que ele é dado como morto, e o seu gorro, a sua única peça de roupa encontrada após uma perseguição cruel, é enterrada pela mesma multidão que o perseguia furiosa. Era típico dos roteiros estadunidenses dessa época tratar os dramas e as tragédias como intensidades que deveriam sempre ser quebradas, ou seja, havia alívios cômicos constantes durante as narrativas para que as obras, ao final, entretivessem mais do que chocassem o público. Isso sempre me incomodou. Filmes como Papillon (Franklin J. Schaffner, 1973), Os três mosqueteiros (George Sidney, 1948) e A ponte do Rio Kwai (David Lean, 1957), por exemplo, têm momentos de comédia salpicados na sua cadência, o que hoje cansa, desestimula e até atrapalha a imersão na trama principal. Contudo, a fusão do entretenimento à arte, o conservadorismo cultural e o excesso de musicalização e teatralização eram bastante normais para os espectadores dos cinemas, que talvez não digerissem bem uma obra mais densa sem esses “enquadramentos”, e isso poderia até significar o fracasso financeiro da obra.
    Por isso, é necessário sempre tentar, pelo menos, adaptar a percepção à do público-alvo da época do lançamento ou da publicação de qualquer obra artística. Se Gigot fosse feito hoje, respeitando-se o drama e a reflexão que ele visa promover, encontraria um cinéfilo diferente do de 62 neste aspecto: ele poderia apreciar a obra se ela se desvestisse da suavização e se apresentasse crua, amarga, naturalista, mais próxima da natureza humana e de suas patologias. Reconheço que o grande charme do filme não se perde, mas eu sou bastante suspeito nesta crítica, já que assisti a ele menos de 20 anos após o seu lançamento, e ainda era bastante usual se manterem aqueles recursos narrativos no início dos anos 80. Era uma transição. Star wars era uma grande novidade, e todo mundo queria ter a BMX do E. T., contudo ainda se possuía a grande inocência de se vibrar com os filmes de kung fu e de se pôr febril e amarelo com Emanuelle. E é nesse caldo de experiências que se está a delícia da redescoberta das obras. É assim que quem é da minha idade consegue habitar ao mesmo tempo dois, três, vários corações: catamos de volta os olhinhos de nós-meninos e, de novo, podemos chorar com a mesma legitimidade original, com o mesmo espírito que os filmes ajudaram a construir, e essa emoção é o que o cinema tem de mais precioso a oferecer. Minha mãe, meu silêncio e o dela, meus tesouros, tudo se reencontra aqui, nesta cama, com este laptop no colo, num único corpo repleto de espíritos.

?/2020-02/2021

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

POEMA PARA MIM SÓ

e eis que assim se me termina tudo
todas as noites:
este suor seco, cola fria na colcha áspera,
os engasgos no peito,
estes imensos silêncios nas mãos,
a medula que range malassombros,
estes pés estragados pela multiplicação do peso
e pelas pedras descalças esfolados,
fronteiriços de mim com o mundo,
do qual só sabia com andá-lo.

gentes restaram por toda parte.
tomaram-me as mãos como alças de esquife,
velaram-me em beijos de adeus precoce.
sobejaram os olhares, as mercês, as piedades e os escárnios.
nunca me faltou ninguém,
mas faltei eu
em de alguém ser.
por isso mesmo, existo apenas em mim
e naquilo com que se enganam.

meu corpo também se enganou
e tomou-me por morbidez a resignação,
adiantando-se a mim
e escapulindo das suas obrigações físicas
de conter-me.
ora ele adormece sua própria noite
na escuridão vermelha da carne,
sem lua nem estrelas,
sonhando no estômago e nos intestinos
antecipações funestas de banquetes canibalescos
em que se entredevoram minhas memórias.

espero, grave, amnésico,
a carta de mim mesmo que atrasou
por falecimento do carteiro,
inanido em algum ponto do meu labirinto até aqui.
trá-la, por dó, o vento, disfarçado embora
de guinchos, roncos e silvos
da cantiga dos armadores da rede
com que costumava voar sobre o mundo
na forma de abismos.

nela, presumo, vêm codificadas instruções
de procedimentos e métodos
acerca da retomada das rotinas originais:
qual o jeito certo de mover as nuvens;
de vestir-se de vento;
de discernir o sol;
de correr com a lua;
de se unir à noite;
e de beijar o mar.

reaprender a ler
será o meu último trabalho
e o meu maior desafio.

05/01/21

sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

PRECIPITAÇÃO


foi um corisco numa noite
de falta de energia elétrica
— era Deus dizendo
que é mais bonito assim

foi a chuva subindo raios
do mar às nuvens
na praia de minha infância
— meu céu era feito de búzios salgados
e auroras

foi a rua molhada
com meus filhos
foi o sertão colorindo as virgens
foi a folga do trabalho
que a cidade inundou

foi uma chuva forte essa de quando
nem se notava
mas na hora certa
a semente guardada entendia
que sua casa era aquele chão
e que era possível raiar
naquele escuro

18/12/20

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

CARTA-CRÔNICA AO MEU AMIGO JOÃO, ANIVERSARIANTE HOJE (NASCIDA DE UM DIÁLOGO COM NOSSA AMIGA NAIANA)

Gambiarra Blues Band - Foto: Bruno Marques.
(Clique na foto para ampliá-la.)
 
Fortaleza, 25 de novembro de 2020.

    Hoje, você faria cinquenta anos. Com o tempo, a distância entre nossas idades — a minha, 46 — se tornou irrelevante. Nossas experiências nos aproximaram, e nossas diferenças não eram maiores que um copo de cerveja. A música, em minha vida, ocupou vários corpos: primeiro, o de minha mãe, minha cantora do rádio; em meu pai, o baixo patriarcal cantarolando o “Zé Marmita” enquanto se barbeava; meus irmãos e irmãs, com o prenúncio do que me seriam a juventude e a rebeldia; e, depois de tantas pessoas, você, com o conhecimento e a vontade de fazer o que gostávamos de ouvir.
    Sinto falta, meu amigo, imensamente. Todos os dias, eu penso em você. Gravamos aquele blues no microfone do seu computador de mesa, ainda na época da Gambiarra. Um canal, microfone ruim, eu, na gaita, você, no violão. “Rascunho de blues” eu batizei. É minha música sagrada, é uma de minhas melhores memórias. Nunca mais toquei como então, nem minhas dúvidas historiográfico-musicais tiveram lugar em nossas conversas. Foi um silêncio que se instalou, foi a incomunicabilidade de uma grande amizade que não aceita monólogos nem simples remissões transcendentais. Como cantou Belchior, “eu quero corpo, tenho pressa de viver”. Comprei uma guitarra, tentei um aprendizado. Você falta aqui. Às vezes, toco um berimbau solene, o que me parece mais adequado. Acredito que você ouve, mas ri dos descompassos. E eu rio, acreditando que rio junto de você. Elaboro uma molecagem com os nossos amigos que estão aqui, e, ao compartilhar, faz falta encaminhá-la a você. Rio da risada que você daria. Todos os dias.
    Foram tantas músicas, tantas conversas, tanta intimidade e parceria que não houve jeito de você se acomodar em minha lembrança apenas, com a vida seguindo seu curso em outras mesas, outras cervejas, outras canções. Não deu pé, compadre. Contudo, a vida seguiu, ainda que capenga, e o 2018 provou ser o início de uma provação que você me anunciou, em todos os sentidos. Você anteviu até cinicamente o Brasil que nos esperava e alertou sobre a derrocada em minha vida pessoal. Foram como piscadelas que sinalizavam um segredo, e eu percebi. Você talvez só não imaginasse a dimensão do desastre. Depois de você, perdi mais, muito mais. Emprego, família, parentes, saúde, juízo. Perdi, no final de tudo, a minha vontade de cantar, de tocar, de criar música. Parece que tudo só era possível se canalizado por você. Nossos amigos estão aqui e por aí, dando aulas, escrevendo livros, musicando a vida o melhor que podem. Eu, não… Mas espero que saiba isto: por onde você esteve, só houve alegria, música, amizade e vida, muita vida. Sem você, haveria pouca felicidade que se lembrasse na escuridão destes dias. Espero também que me perdoe toda esta pieguice, estas palavras que foram tanto economizadas, e à toa… Nas minhas contas, faltam muitas cervejas a tomarmos. Não sei como é o tempo fora de mim, não sei nem se há alguma possibilidade de espera, mas, como só nos resta a esperança, eu espero. Espere você aí por mim, que eu chego já. Quero saber se São Saruê é mesmo bonito como você me descreveu. Até mais, meu irmão, e feliz aniversário.

Um abraço fraterno,

Fernando de Souza

25/11/20

domingo, 22 de novembro de 2020

CONTENDA


a vingança da memória
é matar o amor:
— ai, coração, tu
é que não sabes fazer outra coisa
senão matar-me todo dia…

21/11/20

domingo, 1 de novembro de 2020

MEMÓRIA DA PELE

 (Clique na legenda para acessar a página de origem.)

esta é a memória da pele:
do aço, a faca sempre deixa um pouco da pedra mansa
pavimentando o corte,
assim como há o mugido distante do boi
no sulco da chicotada,
e a sombra da árvore ainda entardece na solda do osso
partido pelo porrete.

a pele lembra melhor
à tarde, à tardinha,
quando os dedos buscam nela,
dedilhando notas casuais,
a música de adormecer o espírito.

31/10/20

domingo, 27 de setembro de 2020

FUNERAL

Foto: Fernando de Souza

àqueles que perderam
ou foram amputados:
é outro o tempo das almas;
aqui
é o tempo dos corpos.

27/09/20

sábado, 9 de maio de 2020

O COLECIONADOR


    E se ele fosse desses homens que são definidos pelas posses? Desses, a quem a vida só marcou na coleção de canecas ou nos discos acumulados na estante? Agora, quando tudo parecia estar se pondo a termo, inclusive lá fora, a vida dos outros, inclusive a terra, o ar, os pandas-vermelhos, agora, ele seria desses com gavetas no caixão? Sofreria em vida com a avareza dos mortos, que, não mais tendo outra coisa que não a própria matéria, reconstroem-se no fetiche que outros poderão vir a sentir pela matéria acumulada por eles? A matéria, essa sim guarda os acontecimentos, porque acontecimentos, para serem memória, precisam estar documentados, registrados — “Aqui, esta pedra eu catei no jardim do passadiço que dava na entrada da casa dela, naquela noite de tanto medo e fatalidade, que se converteram em cãs, filhos, barriga e dívidas, inclusive e principalmente comigo mesmo…”. Disso ninguém saberá? Inaceitável! Mas são coisas demais… Tudo parece demais. Andou tendo amnésias do que não poderia esquecer, do antes, do imaterializado, do sem registro. Sua incomunicabilidade não lhe permitia passar adiante essas coisas. Mas essas coisas… essas coisas não se passam adiante, soa até errado, como um contágio, um espargimento de moléstias, ainda que sejam, de fato, em sua maioria, lástimas, lástimas pelo que não teve, pela consciência da impossibilidade de ter, lástima pelas perdas, e foram tantas… O que seria dele sem suas perdas? Havia por certo de mantê-las, mesmo que fossem materializadas em expressões, em silêncios e em inações. Haveriam de ser vistas, todos haveriam de sabê-las, elas não se perderiam no tempo. Lembrou Blade runner, estava chovendo. Onde estariam os pombos naquela chuva? Mas pombos espalham doenças, e lhe vieram de novo as visões de pragas e pandemias. E se escrevesse? E se rabiscasse tudo em alegorias floreadas, acumulasse as brochuras e deixasse, como último bilhete, o desejo de que fosse tudo incinerado junto com seu corpo, tornando-se tudo uma só matéria, esfumaçando a atmosfera em fuligem e pó, que incomodariam, que fariam todos saberem? Mas, de certa forma, a memória das coisas que incomodam tende a só ser recuperada na presença da causa. Ele, como causa, nunca mais seria presente… Tornou-se sem efeito sua divagação. Não havia jeito. Tinha de desfazer-se de tudo. Deletar-se, aniquilar-se. Na inexistência, talvez, na lacuna deixada como uma pergunta — “Ué, cadê?” —, causasse o efeito que tanto temia não causar. Talvez, inexistindo, existisse. Pôs em prática imediatamente o projeto. Etiquetou o que dava, arrolou tudo em listas, que deixou em locais estratégicos. Não faria estardalhaços. Nada de bilhetes, e-mails nem gritos na janela. Haviam de achar tudo, haviam de testemunhar seu desaparecimento em todas as coisas testamentadas, e só. Ao final, aflito e orgulhoso, abandonou-se no sofá. Diante dele, a tevê. Sentiu vontade de assistir à última programação, que era sempre a de costume. Endilemou-se entre ligá-la ou não, já que estava com alguns post-its no monitor. Pensou em como odiava a maneira canalha como a língua inglesa havia feito embaixada em sua vida. Post-it! Seria lembrado como aquele que deixara post-its? Arrefeceu, achou melhor ler alguma coisa na internet ou algum e-book de estimação. Os livros já estavam encaixotados, o celular teria de dar conta. Levantaria, abriria a caixinha original, colocaria de volta o chip e o cartão de memória — dera-lhe tanto trabalho etiquetá-los! —, veria alguma coisa… Não, era enfadonho demais. Olhou em volta, havia papeizinhos por toda parte. Pensou em sair, em fugir, em realizar o desejo do José, o do Drummond. Sorriu. Também não tinha parede nua para se encostar. Quem sabe, uma mulher nua, então? Àquelas horas, mas… não há tempo em que elas não trabalhem. Precisou de ar. Percorreu a sala, chegou à porta, mudou o último post-it de lugar a contragosto — dera-lhe tanto trabalho! —, saiu. Sentiu vontade de comer pão passado com café. Adorava café. Ao lado da padaria, haviam aberto uma papelaria moderninha, com esses post-its coreanos. Quem sabe, não seriam colecionáveis?

08/05/20

domingo, 19 de abril de 2020

MEL


Minha mãe era fã da Bethania. Nesse álbum, percebe-se, quase destruída pelo tempo e pelos maus cuidados, a dedicatória feita a ela pelo meu pai, no ano seguinte ao seu lançamento, 1980. Era costume dele assinar os discos da casa, ainda não sei se como uma forma de protegê-los de extravios (e foram muitos) ou como uma segunda autoria, um registro de que ele mesmo pertencia aos discos, pois estes diziam dele o que ele nunca fora capaz de dizer. "Mel" é especial pra mim, pois, dentre os que sobreviveram às décadas e à ruína do que nossa família fora, ele "me incomodava" porque era sinestésico. Só hoje sei atribuir-lhe esse adjetivo. As canções têm cheiro, sabor, textura. Ouvi-las é ser eu menino, observando minha mãe comendo a voz da Bethania com os olhos, os ouvidos, os poros, uma voz que abria outra dentro dela, silente, e esta eu ouvia, e é a que canta pra mim de novo e de novo. Dói bastante, mas dói a dor humana de saber-se pequeno diante do sentimento, que é tão grande, e tão bom.

18/04/20

BASTANTE

Foto: Fernando de Souza

Atila Iamarino disse em entrevista que o mundo como conhecemos não existe mais. Neste confinamento, influencers e blogueiros postam TBT de um mundo que nunca vi, onde nunca estive, um mundo outro, vedado a quem sou. Nada disso me enfada. Até mesmo o confinamento a que chamam quarentena quase não me é novo ou anormal. O que me atormenta nem é o desaparecimento do mundo que conheci, que eu, individual e unicamente, experienciei. Porque esse mundo, raríssimas vezes registrado em fotos, mudou, aterrou-se, enterrou-se, mas, como é matéria, continua lá, numa matéria diferente. Pode ser escavado, limpo, polido, exposto novamente à luz do Sol. Quem não existe mais sou eu. Não existo como existi nas fotos, não pertenço como, um dia, com um fôlego heroico, tomei posse. Hoje, memórias escavacadas nessa arqueologia rústica, às pressas, apavorada pelo desaparecimento possível do que, intimamente, nem creio mais haver, são envasadas em álcool, penduradas numa parede de manipansos incompletos. O meu pavor é, após tudo isto, se teimar a nostalgia retornar à guisa de reencontro, perder-me definitivamente, mudo e pasmo, engasgado com um ar que só existe para engasgar-me, estrangeiro ilegal pedindo asilo num país de vento. Como andei tanto, estando imóvel? Como me perdi trancado na clausura do comodismo? Quem fui, quem quer que tenha sido, é um processo prescrito, uma injustiça irreparável. Dói. Sabe amaríssimo, insuportável. Exige, impõe obliteração. Mas dói-me ainda mais matar o cadáver, pois que sei a profundidade da cova em que jaz, donde preciso arrancá-lo, olhar-lhe as cavas cranianas onde orbitaram as retinas que viram o que não sou capaz de esquecer e deixá-lo em paz. Tremo, juro que tremo. Não há volta. Sou agora o que não deve mais lembrar, e esvaziar-me o peso e as horas requer todo o tempo restante. Serei bastante?

18/04/20