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sábado, 3 de abril de 2021

É VERDADE ESTE “BILETE”

Foto: Fernando de Souza
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    Essa pandemia mudou completamente a maneira como compreendemos a vida que levamos dentro das alterações forçosas de rotina. As interações assumiram novos valores, e muitas delas acabaram por ser percebidas completamente inúteis. Entre as úteis, estão as laborais e as sentimentais. Amigos, família, amores e afetos empreciosaram-se na lonjura, e a internet acabou finalmente atingindo o seu objetivo mais nobre, que é o de aproximar o que importa nas pessoas. Imagino como devem ser — pois esse tempo já passou por mim — a necessidade da presença física, a urgência de abraços e beijos, a carência dos dedos nos cabelos, os ouvidos procurando nos cantos da casa o leque-leque das chinelas nas solas dos pés assinalando que não se está sozinho; e nada disso ser possível. Pelo menos, por agora.
    Eu, de certa forma, tenho a sorte de estar numa fase muito confortável de minha misantropia. Faltam-me meus amores perto, é óbvio. Porém, ter normalizada a minha necessidade de solidão é bastante redentor. Pela primeira vez, vejo uma utilidade prática para a minha saúde emocional em eu ser exatamente assim como sou.
    Acontecem também outras curiosidades, e algumas oscilam entre a surrealidade e a brasilidade, semissinônimos que se opõem pelo contexto apenas. Trasanteontem, dia 1º — é mesmo verdade este “bilete”! —, por volta de 18h, caminhava pela orla da Beira-Mar em direção a mais uma aula particular. É o fantasma da morte nos ônibus, nos supermercados, nos próprios apartamentos dos alunos, mas a precisão prevalece. Não parei de aproveitar em nenhum momento as oportunidades de aulas que surgiram. Em parte, sentia-me culpado por estar ali, já que afirmo e confirmo a obrigatoriedade do isolamento nestes tempos, mas, fazer o quê, preciso trabalhar. Melhor que seja pelo menos agradável o risco de morte, pois não? Pois bem. Pus Zé Rodrix para tocar nos fones de ouvido, sentei-me numas pedras ao lado de um dos espigões e comecei a comer o pão com mortadela que preparara em casa, pois tinha bastante tempo até o início da aula e antevi a fome. Olhei o mar, andei pela areia, observei algumas poucas famílias por ali, alguns namorados, vários solitários. Todos, meio que como eu: o olhar apreensivo, buscando qualquer coisa nas ondas que fizesse a vida valer a pena. Caminhei até o ponto no calçadão que ficava em frente ao prédio, ainda tinha uns 40 minutos. Sabia que ninguém deveria estar ali, mas, para mim, era o jeito. Pelo menos, não chovia. Máscara, viseira, álcool em gel, desconfiança e distância dos outros. No fone, já tocava outra coisa, mas eu queria ouvir de novo “soy latino-americano e nunca me engano, e nunca me engano”. No momento em que procurava, percebi de canto de olho uma linha humana preta, cinza e laranja se aproximando a pé, de moto e em camburões: era a polícia. Tirei os fones.
    — Senhor, estamos em lockdown — ele falou como eu, “loquidáun”, apesar de eu ter notado a polidez forçada pelo ambiente e ensinada pelo chefe da corporação para momentos em que se aborda alguém na “área nobre”.
    Sempre que vejo a polícia, lembro-me da noite em que o Miguel, meu filho, quebrou a clavícula num escorregão. Ele tinha então 2 anos, e fomos de Uber ao José Frota ele, a mãe e eu. Na pressa, o motorista foi pelo itinerário do aplicativo, o que nos meteu num lugar esquisito, deserto, miserável, típico ponto de desova. Na saída desse “cheiro do queijo”, uma viatura nos parou, todos apontando as automáticas. Apesar de estarmos de mãos para cima, calmos e afirmando que levávamos uma criança ao hospital, eles só baixaram as armas e a truculência quando viram o Miguel no banco de trás, improvisadamente tipoiado e no colo da mãe. Desde então, entendi que só estamos seguros de joelhos e com as mãos na cabeça. E olhe lá.
    — Ô, meu querido, eu entendo, mas estou esperando a hora de começar a trabalhar. Naquele prédio ali, veja.
    Apontei. Sempre ando como se ainda fosse estudante: jeans, tênis ou chinela, mochila, camiseta, boina, fone de ouvido. Acho que ele demorou a associar aquilo que viu a um trabalhador. Poderia ter dito que era professor, que ia dar aula particular, mas poderia piorar minha situação. Vai saber.
    — Meu senhor, a partir das 17 horas, está proibido ficar na área de lazer da praia.
    — Claro, eu concordo com tudo isso. Pode deixar.
    E fui andando. Eu adiei uns segundos o problema imediato: andaria para onde?
    — Meu amigo, me diga uma coisa: onde eu posso ficar?
    Acho que ele não esperava a pergunta óbvia. Acredito que só aí ele entendeu que não tinha escapatória senão revelar a brasilidade de nossas medidas legais, emergenciais e urgentes em meio a esta pandemia, que é deixar cair o biombo que esconde a macacada hipócrita que é o nosso comportamento geral. Nenhum de nós, mesmo aqueles que, como eu, perdemos parentes e amigos para o vírus, agimos como deveríamos nestes últimos 15 meses. Talvez não o tenhamos feito nunca, mas era de se esperar que pelo menos o medo da morte motivasse a responsabilidade que se espera de quem quer viver. O problema é que temos de sobreviver primeiro. Viver vem depois.
    — O senhor pode ficar do outro lado da rua.
    — Oi?
    — Ali, do outro lado da rua.
    Várias pessoas estavam lá. Semiaglomeradas. Quase todos que foram tangidos do calçadão, os moradores dos prédios, os seguranças, os porteiros… Isso, sem falar no pequeno engarrafamento causado pela baixa velocidade dos camburões e das motos, aboiando com as sirenes o gadinho magro. Era um cortejo fúnebre-carnavalesco de fardas, buzinas e xingamentos em voz baixa.
    A vontade de rir foi grande. A máscara me ajudou, escondendo o sorriso de nojo.
    — Ali pode?
    — Pode, só não pode ficar aqui, na área de lazer.
    Era uma aula de pragmatismo in loco. Proibido, para a proteção da própria população, era ficar apenas na área de lazer. Ficar aglomerado na calçada oposta já contava como lockdown, segundo o silêncio eloquente e desconcertado do policial.
    — É, meu amigo, tá certo. O ideal era que nenhum de nós precisasse estar aqui, né?
    — Isso. Nenhum de nós. Mas tem de trabalhar, né?
    — Pois é. Quem manda ser brasileiro, né? Bom trabalho aí.
    — Pro senhor também.
    Atravessei a rua, obedeci. Fiquei uns 20 minutos embaixo de uma árvore de calçada, tão bem podada que parecia de plástico como quase tudo por ali. Pensei nos que sofriam, nos que estavam morrendo, no meu irmão morto, nos meus filhos, que dependem de eu estar ali. Abri a playlist. Zé Rodrix não fazia mais sentido ali. Belchior, talvez… Acabei na minha pasta de samba, procurando o Roberto Ribeiro. “Coisas da Vida” sabia melhor naquele começo de noite, cheio de ausência de humanidade, inteligência e esperança: “e, se falar a verdade das coisas tristes da vida, no peito, tristeza que dói. Assim eu levo o meu canto, sangrado em desencanto, e, se me alerto pra vida, é obra de puro espanto”. A última faixa de um dos melhores discos de samba de todos os tempos, de um 1979 em que eu, com 5 anos, a mesma idade do Miguel, não tinha a menor ideia ainda do que era ser brasileiro.

03/04/21

ISOLAMENTO


de que me serve a constatação das horas
progressivas no relógio da parede?
continuar aqui ou extraviar-me
não importarão dentro de uma hora.

de mim, estagna uma poça
a imagem de ontem
onde a chuva choveu,
enquanto passado e futuro brincam
de bandido e mocinho
nos meus terreiros.

o meu tempo é a parede.

a vida perdeu toda a aventura possível.

03/04/21

terça-feira, 9 de junho de 2020

ROUPA DE SAIR

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de tanto mudar a roupa
de sair
fiz que o domingo passasse
que todos os dias fossem a experimentação
teórica apenas
da rua e do mundo

na agonia da nudez
é que vivia
e o entra-e-sai n(d)os tecidos
polia a pele
para um sol que nunca me viu

09/06/20

sábado, 9 de maio de 2020

O COLECIONADOR


    E se ele fosse desses homens que são definidos pelas posses? Desses, a quem a vida só marcou na coleção de canecas ou nos discos acumulados na estante? Agora, quando tudo parecia estar se pondo a termo, inclusive lá fora, a vida dos outros, inclusive a terra, o ar, os pandas-vermelhos, agora, ele seria desses com gavetas no caixão? Sofreria em vida com a avareza dos mortos, que, não mais tendo outra coisa que não a própria matéria, reconstroem-se no fetiche que outros poderão vir a sentir pela matéria acumulada por eles? A matéria, essa sim guarda os acontecimentos, porque acontecimentos, para serem memória, precisam estar documentados, registrados — “Aqui, esta pedra eu catei no jardim do passadiço que dava na entrada da casa dela, naquela noite de tanto medo e fatalidade, que se converteram em cãs, filhos, barriga e dívidas, inclusive e principalmente comigo mesmo…”. Disso ninguém saberá? Inaceitável! Mas são coisas demais… Tudo parece demais. Andou tendo amnésias do que não poderia esquecer, do antes, do imaterializado, do sem registro. Sua incomunicabilidade não lhe permitia passar adiante essas coisas. Mas essas coisas… essas coisas não se passam adiante, soa até errado, como um contágio, um espargimento de moléstias, ainda que sejam, de fato, em sua maioria, lástimas, lástimas pelo que não teve, pela consciência da impossibilidade de ter, lástima pelas perdas, e foram tantas… O que seria dele sem suas perdas? Havia por certo de mantê-las, mesmo que fossem materializadas em expressões, em silêncios e em inações. Haveriam de ser vistas, todos haveriam de sabê-las, elas não se perderiam no tempo. Lembrou Blade runner, estava chovendo. Onde estariam os pombos naquela chuva? Mas pombos espalham doenças, e lhe vieram de novo as visões de pragas e pandemias. E se escrevesse? E se rabiscasse tudo em alegorias floreadas, acumulasse as brochuras e deixasse, como último bilhete, o desejo de que fosse tudo incinerado junto com seu corpo, tornando-se tudo uma só matéria, esfumaçando a atmosfera em fuligem e pó, que incomodariam, que fariam todos saberem? Mas, de certa forma, a memória das coisas que incomodam tende a só ser recuperada na presença da causa. Ele, como causa, nunca mais seria presente… Tornou-se sem efeito sua divagação. Não havia jeito. Tinha de desfazer-se de tudo. Deletar-se, aniquilar-se. Na inexistência, talvez, na lacuna deixada como uma pergunta — “Ué, cadê?” —, causasse o efeito que tanto temia não causar. Talvez, inexistindo, existisse. Pôs em prática imediatamente o projeto. Etiquetou o que dava, arrolou tudo em listas, que deixou em locais estratégicos. Não faria estardalhaços. Nada de bilhetes, e-mails nem gritos na janela. Haviam de achar tudo, haviam de testemunhar seu desaparecimento em todas as coisas testamentadas, e só. Ao final, aflito e orgulhoso, abandonou-se no sofá. Diante dele, a tevê. Sentiu vontade de assistir à última programação, que era sempre a de costume. Endilemou-se entre ligá-la ou não, já que estava com alguns post-its no monitor. Pensou em como odiava a maneira canalha como a língua inglesa havia feito embaixada em sua vida. Post-it! Seria lembrado como aquele que deixara post-its? Arrefeceu, achou melhor ler alguma coisa na internet ou algum e-book de estimação. Os livros já estavam encaixotados, o celular teria de dar conta. Levantaria, abriria a caixinha original, colocaria de volta o chip e o cartão de memória — dera-lhe tanto trabalho etiquetá-los! —, veria alguma coisa… Não, era enfadonho demais. Olhou em volta, havia papeizinhos por toda parte. Pensou em sair, em fugir, em realizar o desejo do José, o do Drummond. Sorriu. Também não tinha parede nua para se encostar. Quem sabe, uma mulher nua, então? Àquelas horas, mas… não há tempo em que elas não trabalhem. Precisou de ar. Percorreu a sala, chegou à porta, mudou o último post-it de lugar a contragosto — dera-lhe tanto trabalho! —, saiu. Sentiu vontade de comer pão passado com café. Adorava café. Ao lado da padaria, haviam aberto uma papelaria moderninha, com esses post-its coreanos. Quem sabe, não seriam colecionáveis?

08/05/20

domingo, 19 de abril de 2020

BASTANTE

Foto: Fernando de Souza

Atila Iamarino disse em entrevista que o mundo como conhecemos não existe mais. Neste confinamento, influencers e blogueiros postam TBT de um mundo que nunca vi, onde nunca estive, um mundo outro, vedado a quem sou. Nada disso me enfada. Até mesmo o confinamento a que chamam quarentena quase não me é novo ou anormal. O que me atormenta nem é o desaparecimento do mundo que conheci, que eu, individual e unicamente, experienciei. Porque esse mundo, raríssimas vezes registrado em fotos, mudou, aterrou-se, enterrou-se, mas, como é matéria, continua lá, numa matéria diferente. Pode ser escavado, limpo, polido, exposto novamente à luz do Sol. Quem não existe mais sou eu. Não existo como existi nas fotos, não pertenço como, um dia, com um fôlego heroico, tomei posse. Hoje, memórias escavacadas nessa arqueologia rústica, às pressas, apavorada pelo desaparecimento possível do que, intimamente, nem creio mais haver, são envasadas em álcool, penduradas numa parede de manipansos incompletos. O meu pavor é, após tudo isto, se teimar a nostalgia retornar à guisa de reencontro, perder-me definitivamente, mudo e pasmo, engasgado com um ar que só existe para engasgar-me, estrangeiro ilegal pedindo asilo num país de vento. Como andei tanto, estando imóvel? Como me perdi trancado na clausura do comodismo? Quem fui, quem quer que tenha sido, é um processo prescrito, uma injustiça irreparável. Dói. Sabe amaríssimo, insuportável. Exige, impõe obliteração. Mas dói-me ainda mais matar o cadáver, pois que sei a profundidade da cova em que jaz, donde preciso arrancá-lo, olhar-lhe as cavas cranianas onde orbitaram as retinas que viram o que não sou capaz de esquecer e deixá-lo em paz. Tremo, juro que tremo. Não há volta. Sou agora o que não deve mais lembrar, e esvaziar-me o peso e as horas requer todo o tempo restante. Serei bastante?

18/04/20