Se for para crer, desescreva.
Sem palavra, a ideia é livre
para ser crida ou esquecida.
Nada é mais potente
que o espírito oblívio e incorpóreo
que define o desconhecido.
Palavra não é para crer.
Palavra é para esquecer de crer.
27/04/26
Este blogue se destina ao uso artístico da linguagem e a quaisquer comentários e reflexões sobre esta que é a maior necessidade humana: a comunicação. Sejam todos bem-vindos, participantes ou apenas curiosos (a curiosidade e a necessidade são os principais geradores da evolução). A casa está aberta.
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segunda-feira, 27 de abril de 2026
quarta-feira, 26 de junho de 2024
DICIONARIZAÇÃO
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A cada dia, a palavra se distancia um pouco mais do que seria saudável a si mesma. Pensar e rememorar de acordo com o que dói e com o que se ama vão se encorpando em textos tanto mais físicos quanto fugentes e incapturáveis. O pensamento é um corpo que nasce adulto e velho, broca nas paredes, range-se nas portas e se escalavra em vincos e cunhas nas linhas do teto, substituindo a casa, impossibilitando-se como lar, para, em seguida, fragmentar-se em vapores de mormaço e amuo que enodam a garganta e criam afasias irrecuperáveis, além de cujos danos ele não deixa registro de sua existência.
A palavra surge como sempre se processou: retratista, descritiva, exploradora, ousada, irresponsável. Contudo, rareia. Deve ser parte do fim da cadeia de eventos sobre os quais ela tem tentado iluminar sentidos, ou apenas um cansaço de existir sozinha, tendo nesse fim sua principal razão de ser. A palavra diz sem dizer há tempo demais, em sua opinião, talvez. Entretanto, como aqui, ela falha e tem falhado, criando mais confusão verborrágica do que a reflexão, provavelmente, precise. Já o pensar, sozinho e autônomo, sem sequer recorrer à memória e aos traumas, encorpa-se inconfundível, utilizando-se destes mais como adereços, sendo ele mesmo pai de sua própria pele. Ele se faz no desfazimento. Cria-se na desconstrução. E, nesse trânsito, no tempo dado à palavra para que ela o converta em corpo, o que fica são, no máximo, rastros, uma pedra virada pelo calcanhar, uma capoeira, uma vereda breve, tornada logo pelo mato no nada verde da inexistência de forma.
Então, deixa-se para trás, passo a passo, o que motiva a palavra: a vida para além da experiência, o registro que, aos outros — o alheio, o relativo, o amigo, o circunstante —, certifica, informa e ressignifica a própria vida. Obsoleta-se vagarosamente a palavra, e o mundo que ela descreve vai perdendo a necessidade, assim como se insignificam os seus eixos mais profundos: os relacionamentos, as filiações, os afetos e desafetos. O pensar torna o viver uma espera por ondulações de diferentes intensidades e comprimentos que afligem os sentidos e tangem a vida para cada vez mais longe do próprio viver. São ermos em que a palavra, vendo-se inútil, recorre à sua subsequente única forma possível: nomes para as coisas; verbos para as ações; adjetivos para os estados; advérbios para os modos. O enorme mausoléu do vocabulário, o cálcio dos ossos das palavras. O verbete. O lexema.
A palavra se esvaece e dá-se a compor túneis e câmaras, às quais recorre primeiro como abrigo, depois, como residência, para, enfim, passar à existência de dicionário. Dicionários são túmulos: um memorial de esqueletos descarnados, uma aula de anatomia que desconsidera as vidas que a palavra encarnou.
Nessa caverna, o então pensamento — agora fantasma —, livre da necessidade alheia de que tivesse forma, segmentos, sintaxe, livre do próprio pensar, oscila sem juízo ou fim, explorando a profundidade sem se dar conta de si, do tempo e dos limites — foi vária a palavra. No fim, os termos são outros: o próprio fim, assim como foram ela mesma e a vida, é só uma palavra.
26/06/24
A palavra surge como sempre se processou: retratista, descritiva, exploradora, ousada, irresponsável. Contudo, rareia. Deve ser parte do fim da cadeia de eventos sobre os quais ela tem tentado iluminar sentidos, ou apenas um cansaço de existir sozinha, tendo nesse fim sua principal razão de ser. A palavra diz sem dizer há tempo demais, em sua opinião, talvez. Entretanto, como aqui, ela falha e tem falhado, criando mais confusão verborrágica do que a reflexão, provavelmente, precise. Já o pensar, sozinho e autônomo, sem sequer recorrer à memória e aos traumas, encorpa-se inconfundível, utilizando-se destes mais como adereços, sendo ele mesmo pai de sua própria pele. Ele se faz no desfazimento. Cria-se na desconstrução. E, nesse trânsito, no tempo dado à palavra para que ela o converta em corpo, o que fica são, no máximo, rastros, uma pedra virada pelo calcanhar, uma capoeira, uma vereda breve, tornada logo pelo mato no nada verde da inexistência de forma.
Então, deixa-se para trás, passo a passo, o que motiva a palavra: a vida para além da experiência, o registro que, aos outros — o alheio, o relativo, o amigo, o circunstante —, certifica, informa e ressignifica a própria vida. Obsoleta-se vagarosamente a palavra, e o mundo que ela descreve vai perdendo a necessidade, assim como se insignificam os seus eixos mais profundos: os relacionamentos, as filiações, os afetos e desafetos. O pensar torna o viver uma espera por ondulações de diferentes intensidades e comprimentos que afligem os sentidos e tangem a vida para cada vez mais longe do próprio viver. São ermos em que a palavra, vendo-se inútil, recorre à sua subsequente única forma possível: nomes para as coisas; verbos para as ações; adjetivos para os estados; advérbios para os modos. O enorme mausoléu do vocabulário, o cálcio dos ossos das palavras. O verbete. O lexema.
A palavra se esvaece e dá-se a compor túneis e câmaras, às quais recorre primeiro como abrigo, depois, como residência, para, enfim, passar à existência de dicionário. Dicionários são túmulos: um memorial de esqueletos descarnados, uma aula de anatomia que desconsidera as vidas que a palavra encarnou.
Nessa caverna, o então pensamento — agora fantasma —, livre da necessidade alheia de que tivesse forma, segmentos, sintaxe, livre do próprio pensar, oscila sem juízo ou fim, explorando a profundidade sem se dar conta de si, do tempo e dos limites — foi vária a palavra. No fim, os termos são outros: o próprio fim, assim como foram ela mesma e a vida, é só uma palavra.
26/06/24
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sexta-feira, 12 de junho de 2020
TOLERÂNCIA
Sempre odiei o verbo “tolerar”. Oriundo do latim tolěrare (suportar, aguentar), e este, do tollere (levantar), o verbo “tolerar” sobrecarrega o seu objeto direto com a semântica odiosa do erro, da incorreção, da ausência de enquadramento, e o seu sujeito, com a perigosíssima posição de juiz paternalista detentor do poder da “tolerância”, substantivo ainda pior que o verbo. Essas palavras são exemplos tanto da hipocrisia quanto dos preconceitos estruturados na língua e, consequentemente, na cultura (pois a primeira antecede a segunda como causa desta). Pessoas, sexualidades, religiões, etnias, culturas não devem ser “toleradas”, mas sim legitimadas como soberanas em suas singularidades. Somente assim, na pluralidade legítima, poderá haver um legítimo Estado democrático de direito, pois o “tolerante” nada mais é do que um hipócrita com uma casa cheia de tapetes sob os quais apodrecem os esqueletos de seus preconceitos.
09/06/20
09/06/20
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Tolerância
domingo, 19 de abril de 2020
BASTANTE
Atila Iamarino disse em entrevista que o mundo como conhecemos não existe mais. Neste confinamento, influencers e blogueiros postam TBT de um mundo que nunca vi, onde nunca estive, um mundo outro, vedado a quem sou. Nada disso me enfada. Até mesmo o confinamento a que chamam quarentena quase não me é novo ou anormal. O que me atormenta nem é o desaparecimento do mundo que conheci, que eu, individual e unicamente, experienciei. Porque esse mundo, raríssimas vezes registrado em fotos, mudou, aterrou-se, enterrou-se, mas, como é matéria, continua lá, numa matéria diferente. Pode ser escavado, limpo, polido, exposto novamente à luz do Sol. Quem não existe mais sou eu. Não existo como existi nas fotos, não pertenço como, um dia, com um fôlego heroico, tomei posse. Hoje, memórias escavacadas nessa arqueologia rústica, às pressas, apavorada pelo desaparecimento possível do que, intimamente, nem creio mais haver, são envasadas em álcool, penduradas numa parede de manipansos incompletos. O meu pavor é, após tudo isto, se teimar a nostalgia retornar à guisa de reencontro, perder-me definitivamente, mudo e pasmo, engasgado com um ar que só existe para engasgar-me, estrangeiro ilegal pedindo asilo num país de vento. Como andei tanto, estando imóvel? Como me perdi trancado na clausura do comodismo? Quem fui, quem quer que tenha sido, é um processo prescrito, uma injustiça irreparável. Dói. Sabe amaríssimo, insuportável. Exige, impõe obliteração. Mas dói-me ainda mais matar o cadáver, pois que sei a profundidade da cova em que jaz, donde preciso arrancá-lo, olhar-lhe as cavas cranianas onde orbitaram as retinas que viram o que não sou capaz de esquecer e deixá-lo em paz. Tremo, juro que tremo. Não há volta. Sou agora o que não deve mais lembrar, e esvaziar-me o peso e as horas requer todo o tempo restante. Serei bastante?
18/04/20
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sexta-feira, 10 de abril de 2020
DISTRAÇÃO
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pois é.
a poesia veio,
passou,
e eu nem vi.
daí, eu me pergunto:
teria sido aquele incômodo profundo,
aquela raiva
de causa inindentificável
ou aquela vontade imensa de me exilar
dentro de uma garrafa?
teria sido a angústia? a apatia?
teria estado ao meu lado
à espera
de que eu a percebesse
ou teria me ignorado
(como de praxe)?
teria se cansado?
teria me abandonado?
10/04/20
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FOME
devagarzinho, ela veio
e mais me esvaziava
quanto mais me preenchia
tirou-me a paz
e impossibilitou a luta,
desarmando-me de minhas forças
e meus princípios
somente os dentes e as unhas
restaram.
com eles, eu, caninamente,
persigo pelos desvãos da noite compacta,
cego e sem faro,
em minha bestialidade,
as ganas de matá-la.
10/04/20
quarta-feira, 25 de março de 2020
O CORPO
o silêncio é o verdadeiro corpo
daquilo que chamamos alma.
gritar, gemer, sussurrar, escrever,
tudo isso é roupa,
babilaques adornosos e rudimentares
que se esganiçam na construção de uma forma
que mais deforma que define
o eremita silente
que dorme como as estrelas das crianças
num céu apenas imaginado.
é no silêncio que existe
o deus que nos mendiga.
25/03/20
daquilo que chamamos alma.
gritar, gemer, sussurrar, escrever,
tudo isso é roupa,
babilaques adornosos e rudimentares
que se esganiçam na construção de uma forma
que mais deforma que define
o eremita silente
que dorme como as estrelas das crianças
num céu apenas imaginado.
é no silêncio que existe
o deus que nos mendiga.
25/03/20
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domingo, 23 de fevereiro de 2020
FAXINA
Há que se deixar em paz um sentimento até ele deixar de ser. É preciso cuidar de deixar de sentir assim como de sentir. Somente assim, nessa retroação, podem-se faxinar dos cantos e desvãos os restos mortos dos que esperam no além pela paz do desamor. Funciona assim como com as sombras, que, estendendo-se nas superfícies onde estamos ausentes, continuam os corpos, como uma noite de um dia, e é preciso viver com os dois juntos, em harmonia. As sombras são a nossa presença ausente, a interseção do que somos e do que não somos. Contudo, não se fala nem se come nem se faz amor com sombras, muito menos se pode ter medo delas, principalmente da sua própria. Contemplam-se e esquecem-se, para que se possa depois contemplá-las devidamente.
13/12/19
13/12/19
segunda-feira, 16 de dezembro de 2019
FANTASMAS
Estou plenamente convencido da existência dos fantasmas. Não falo de alma nem de espírito. Fantasmas. Aqueles de lençol branco, não, nem correntes. Acho que um morto tem muito pouco que fazer, aliás, nada a fazer. Os mortos gastam a eternidade tentando ser, eles gastam todo o tempo tentando ser. Dessa forma, acho que um morto não tem a intenção de metaforizar nada. Os males da vida e também os seus bens ficam na história, que já é um fantasma em si, mas de outro tipo, o que assombra, pois nunca existiu como deveria. A morte tem seus próprios sofrimentos, suas próprias revelações, sua própria dinâmica, que é incompreensível a quem não consegue enxergar as revoluções dentro da estagnação que é tudo o que não é aqui.
Eles existem. Pensam, sofrem, amam, odeiam, gozam, entediam-se, acima de tudo, entediam-se e desenlaçam os nós emocionais a fim de tecer longuíssimas imaginações, cidades, continentes de tecido cosido de fiapos de fome e sede, inveja e desesperança, mas também de exaltação e euforia, orgulho e ternura, um mantel universal fruto de todos os escrutínios que existiram, e não esqueçamos aqueles que foram imaginados, as ilusões, ah, as ilusões... Há tantas, no fantasmário escalonado, que se confundem com a própria inexistência da matéria e dos movimentos.
Tudo, para eles, é em desacordo com os movimentos. Houve um que me visitou, pensamento que era, quando eu estava ocupado em tentar não pensar, o que sempre dá muito trabalho. Invadiu, maçadoramente, minha tentativa frustrada de ausência e ficou a encarar-me, envolvendo-me com os fios que desatava e tecia na minha frente. Não fluía. Espalhava-se. Quando dei por conta, ele era uma série de pensamentos que não eram nem nunca foram os meus, sendo pensados sem a minha permissão, como um filme diante de mim num cinema sem portas. O fio narrativo que se desenrolava na tela e me envolvia vestindo-me, ao mesmo tempo em que me desnudava de mim mesmo, ia contando coisas que sucederiam possíveis apenas se fosse eu o roteirista da película, se, como num sonho, a irrealidade substituísse com a mais aceitável perfeição a totalidade da falta de estratégia do exército mundano das horas marchantes que é a minha vida, mas dando-me controle sobre o seu curso, dando-me a divindade de criar um mar e um vento, e pondo-me náufrago numa ilha de espectros mutáveis ao meu comando, na qual eu seria o imperador e o náufrago, o deus exilado. Nesse ponto, espantado com tanta liberdade, perguntei-lhe "isto é a morte?", ao que, numa gargalhada condescendente, silenciou outros tantos fios, todos coloridos com minha ignorância de tudo aquilo. Entendi a estupidez da pergunta, sentei-me na poltrona mais ao centro da sala e me deixei ser contado na tela.
Mostrou-me misturas de sensações que nunca imaginei serem possíveis. No momento exato do medo, vinha a preguiça. Quando atingi a vertigem em seu máximo, deu-me a indiferença. Mesmo as cores e as outras percepções sensoriais que substituíam a imagem e a forma eram inéditas, impossíveis. O mínimo som que emanava metálico do que me parecia ser um carrilhão brotava do imprevisível, e onde deveria haver o subsequente espanto, instalava-se algo como uma memória embaçada pela vida, pelas formas que me cercam, pelos nomes das coisas. Eu mesmo, naquela narrativa, não tinha a minha forma nem o meu nome. Meu peso era aéreo, e eu respirava o líquido que era o ar. As chamas eram sedas cálidas, e o frio era agradável como uma tarde na praia. Havia, afinal, um enredo. O sol era uma ideia morna que eu deveria atingir, como um Ícaro exitoso. Porém, atingi-lo demandava esforço, e vários outros fantasmas que se desfiavam sólidos e inconstantes ora auxiliavam-me, ora me ignoravam, e a solidão como eu conhecia se personificava ao meu lado, um fantasma novo, sorridente e compreensivo, com o meu próprio rosto, dando uma nova perspectiva a cada fracasso. Ali, eu comecei a entender, estava a mensagem, impossível de ser dita, inviável de ser exemplificada. Foi-me assim instruindo que nada se opõe e tudo se complementa, existindo, ainda, independentemente, como os vários eus que todos os outros fantasmas se configuraram, trocando de lugar conforme a conveniência do que eu queria que acontecesse.
Assim como num sonho, senti despertar ao fim do filme. Ali estava ele com os mesmos olhos, instruindo-me em silêncio que não devia procurar os pensamentos, que pensar é o mesmo que prender-se à cadeia do tempo. A morte tem a sua própria forma de viver, disse-me com os olhos. Hesitei em lhe fazer uma última pergunta. Queria saber se a morte seria uma sequência interminável de lições que daria a mim mesmo. Ele o percebeu como percebera tudo o que eu tentara pensar, desobedecendo-lhe. Isso lhe foi suficiente para antecipar-se numa nova gargalhada, ainda mais humilhante. Em seguida, foi-se da mesma forma como veio, incômodo e tirano.
Deixou-me vazio, e senti que me roubara algo. Corri ao papel e tomei-me o pulso, medindo. Certificado, tentei escrever. Só então, percebi o que me fora furtado. Sem que eu me desse do que ele pretendia, ao me encher de significados, não me dera palavra alguma que lhes fosse corpo, e nenhuma das que possuía se prestava ao trabalho. Ali, entendi. Deitei, epifanizado. Fantasmas existem sim. Não têm nome, não têm forma, não têm idealização possível. Mas existem mais reais que a sua própria ausência, que somos nós e que é a íntima essência da vida.
15-16/12/19
Eles existem. Pensam, sofrem, amam, odeiam, gozam, entediam-se, acima de tudo, entediam-se e desenlaçam os nós emocionais a fim de tecer longuíssimas imaginações, cidades, continentes de tecido cosido de fiapos de fome e sede, inveja e desesperança, mas também de exaltação e euforia, orgulho e ternura, um mantel universal fruto de todos os escrutínios que existiram, e não esqueçamos aqueles que foram imaginados, as ilusões, ah, as ilusões... Há tantas, no fantasmário escalonado, que se confundem com a própria inexistência da matéria e dos movimentos.
Tudo, para eles, é em desacordo com os movimentos. Houve um que me visitou, pensamento que era, quando eu estava ocupado em tentar não pensar, o que sempre dá muito trabalho. Invadiu, maçadoramente, minha tentativa frustrada de ausência e ficou a encarar-me, envolvendo-me com os fios que desatava e tecia na minha frente. Não fluía. Espalhava-se. Quando dei por conta, ele era uma série de pensamentos que não eram nem nunca foram os meus, sendo pensados sem a minha permissão, como um filme diante de mim num cinema sem portas. O fio narrativo que se desenrolava na tela e me envolvia vestindo-me, ao mesmo tempo em que me desnudava de mim mesmo, ia contando coisas que sucederiam possíveis apenas se fosse eu o roteirista da película, se, como num sonho, a irrealidade substituísse com a mais aceitável perfeição a totalidade da falta de estratégia do exército mundano das horas marchantes que é a minha vida, mas dando-me controle sobre o seu curso, dando-me a divindade de criar um mar e um vento, e pondo-me náufrago numa ilha de espectros mutáveis ao meu comando, na qual eu seria o imperador e o náufrago, o deus exilado. Nesse ponto, espantado com tanta liberdade, perguntei-lhe "isto é a morte?", ao que, numa gargalhada condescendente, silenciou outros tantos fios, todos coloridos com minha ignorância de tudo aquilo. Entendi a estupidez da pergunta, sentei-me na poltrona mais ao centro da sala e me deixei ser contado na tela.
Mostrou-me misturas de sensações que nunca imaginei serem possíveis. No momento exato do medo, vinha a preguiça. Quando atingi a vertigem em seu máximo, deu-me a indiferença. Mesmo as cores e as outras percepções sensoriais que substituíam a imagem e a forma eram inéditas, impossíveis. O mínimo som que emanava metálico do que me parecia ser um carrilhão brotava do imprevisível, e onde deveria haver o subsequente espanto, instalava-se algo como uma memória embaçada pela vida, pelas formas que me cercam, pelos nomes das coisas. Eu mesmo, naquela narrativa, não tinha a minha forma nem o meu nome. Meu peso era aéreo, e eu respirava o líquido que era o ar. As chamas eram sedas cálidas, e o frio era agradável como uma tarde na praia. Havia, afinal, um enredo. O sol era uma ideia morna que eu deveria atingir, como um Ícaro exitoso. Porém, atingi-lo demandava esforço, e vários outros fantasmas que se desfiavam sólidos e inconstantes ora auxiliavam-me, ora me ignoravam, e a solidão como eu conhecia se personificava ao meu lado, um fantasma novo, sorridente e compreensivo, com o meu próprio rosto, dando uma nova perspectiva a cada fracasso. Ali, eu comecei a entender, estava a mensagem, impossível de ser dita, inviável de ser exemplificada. Foi-me assim instruindo que nada se opõe e tudo se complementa, existindo, ainda, independentemente, como os vários eus que todos os outros fantasmas se configuraram, trocando de lugar conforme a conveniência do que eu queria que acontecesse.
Assim como num sonho, senti despertar ao fim do filme. Ali estava ele com os mesmos olhos, instruindo-me em silêncio que não devia procurar os pensamentos, que pensar é o mesmo que prender-se à cadeia do tempo. A morte tem a sua própria forma de viver, disse-me com os olhos. Hesitei em lhe fazer uma última pergunta. Queria saber se a morte seria uma sequência interminável de lições que daria a mim mesmo. Ele o percebeu como percebera tudo o que eu tentara pensar, desobedecendo-lhe. Isso lhe foi suficiente para antecipar-se numa nova gargalhada, ainda mais humilhante. Em seguida, foi-se da mesma forma como veio, incômodo e tirano.
Deixou-me vazio, e senti que me roubara algo. Corri ao papel e tomei-me o pulso, medindo. Certificado, tentei escrever. Só então, percebi o que me fora furtado. Sem que eu me desse do que ele pretendia, ao me encher de significados, não me dera palavra alguma que lhes fosse corpo, e nenhuma das que possuía se prestava ao trabalho. Ali, entendi. Deitei, epifanizado. Fantasmas existem sim. Não têm nome, não têm forma, não têm idealização possível. Mas existem mais reais que a sua própria ausência, que somos nós e que é a íntima essência da vida.
15-16/12/19
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sábado, 26 de maio de 2018
VAMPIRISMO
Existem dificuldades na vida de qualquer um. O tamanho delas é sim relativo à resistência e à resiliência de quem as encara todo dia.
Tenho as minhas.
Não espero que me ergam do chão nem que me sustentem do outro lado da corda.
Sim, sou orgulhoso.
Herdei isso de meu pai.
Sofro o mais silenciosamente possível.
O que espero daqueles que gastam comigo a palavra amigo é uma memória, um pensamento e, no máximo, um olhar de camaradagem. Empatia. Isso me basta, pois me confirma a amizade.
O que me revira as tripas é me chamarem amigo sem serem capazes de se solidarizarem não materialmente, mas sim (pois é o que me importa) humanamente. O que me enoja é a superfície, o chão ordinário onde arrastam no meio dos egos inflados a palavra amizade e o meu nome, encangados em filigranas e louçanias de falsidades. O que me esgota o espírito é esse egocentrismo radiado em teias que capturam somente o que é agradável ao paladar exigentíssimo de caráteres que espelhem apenas as anuências, as concórdias, os sim-senhores. Não sou comida de ego. Não sou alimento de aranha.
Meus amigos todos são indivíduos. Todos têm defeitos e peças faltantes. Todos são, à sua maneira, inadequados. Mantenho de todos uma certa distância, pois não sou fácil e não quero fatigá-los, mas olho para todos com olhos e coração. Sinto falta deles legitimamente, pois amo-os legitimamente e, também legitimamente, quero-lhes o melhor. Vale-me mais a mão que vai ao peito de seu próprio corpo em meu nome que aquela esfregada na perna da calça após me ajudar a levantar do chão. Sim, entendo a rejeição e aceito rejeitarem-me. É humana a fraqueza e é humana a covardia. Deixem-me onde estou, pois estes são os meus pés. Porém, olhem-me como seus corações me olharam quando estive ao seu lado e vejam quem sou. Não me ergam por obrigação. Nunca os reduziria assim.
Que não se desperdice, enfim, a palavra amigo. Se não os tem, guarde-a honestamente para si. Se é extensa a sua teia e numeroso o enxame de insetos nela, entenda que sou pesado e insustentável. Não me insulte com a magnanimidade de sua esmola falsa. Deixe-me, por fim, em paz, que a minha pobreza é o que tenho de melhor neste mundo de deidades.
Tenho as minhas.
Não espero que me ergam do chão nem que me sustentem do outro lado da corda.
Sim, sou orgulhoso.
Herdei isso de meu pai.
Sofro o mais silenciosamente possível.
O que espero daqueles que gastam comigo a palavra amigo é uma memória, um pensamento e, no máximo, um olhar de camaradagem. Empatia. Isso me basta, pois me confirma a amizade.
O que me revira as tripas é me chamarem amigo sem serem capazes de se solidarizarem não materialmente, mas sim (pois é o que me importa) humanamente. O que me enoja é a superfície, o chão ordinário onde arrastam no meio dos egos inflados a palavra amizade e o meu nome, encangados em filigranas e louçanias de falsidades. O que me esgota o espírito é esse egocentrismo radiado em teias que capturam somente o que é agradável ao paladar exigentíssimo de caráteres que espelhem apenas as anuências, as concórdias, os sim-senhores. Não sou comida de ego. Não sou alimento de aranha.
Meus amigos todos são indivíduos. Todos têm defeitos e peças faltantes. Todos são, à sua maneira, inadequados. Mantenho de todos uma certa distância, pois não sou fácil e não quero fatigá-los, mas olho para todos com olhos e coração. Sinto falta deles legitimamente, pois amo-os legitimamente e, também legitimamente, quero-lhes o melhor. Vale-me mais a mão que vai ao peito de seu próprio corpo em meu nome que aquela esfregada na perna da calça após me ajudar a levantar do chão. Sim, entendo a rejeição e aceito rejeitarem-me. É humana a fraqueza e é humana a covardia. Deixem-me onde estou, pois estes são os meus pés. Porém, olhem-me como seus corações me olharam quando estive ao seu lado e vejam quem sou. Não me ergam por obrigação. Nunca os reduziria assim.
Que não se desperdice, enfim, a palavra amigo. Se não os tem, guarde-a honestamente para si. Se é extensa a sua teia e numeroso o enxame de insetos nela, entenda que sou pesado e insustentável. Não me insulte com a magnanimidade de sua esmola falsa. Deixe-me, por fim, em paz, que a minha pobreza é o que tenho de melhor neste mundo de deidades.
26/05/18
sexta-feira, 19 de setembro de 2014
COLEÇÃO
Colecione o mundo com seus olhos, e seu silêncio será repleto das vozes que você quer ouvir. A solidão não é a ausência das gentes, mas sim a cegueira do próprio espírito.
16\09\14
16\09\14
quinta-feira, 21 de agosto de 2014
LITERATURA E LINGUÍSTICA
Comparar Literatura a Linguística é como comparar uma casa às ferramentas que a construíram, ou uma pintura às tintas e aos pincéis. A ferramenta existe para inúmeras tarefas, incluindo a arte. Pessoas que deificam os livros, mas pisoteiam as palavras, sempre me pareceram aquelas caricaturas azedas existentes nas igrejas: adoram o ouro das estátuas e as filigranas dos escapulários, mas afetam-se diante das chinelas roídas dos pobres que ergueram o templo.
Estudantes de Letras, melhorem! Vocês não existem por tributos, não nasceram para adorar um Olimpo de deuses, porque são humanas as palavras, e é suor o que as une nos textos. Escrever, meus caros idiotas, nada mais é do que verbalizar o mundo invisível por trás da mera existência humana, processo no qual as ferramentas e a obra partilham igual importância; e por meio do qual são igualmente sublimes.
21/08/14
sexta-feira, 1 de agosto de 2014
REGISTRO
O passado, essa coleção de letras, sons e imagens gravados, é o único que me interessa. Porque há um outro, um passado que me bate na porta das experiências presentes, alterando-lhes o sabor, fazendo delas memórias falsas.
Este é nada mais que fantasmas, cadáveres de gaveta que perambulam dentro dos olhos, arrastando correntes, gemendo frases alteradas que se confundem com as minhas, redizendo-as cheias de culpa e rancor.
Quando me sobra o tempo, falta-me; quando sou em paz, amarga-me; feliz, entristece-me. Viver bem é esquecer e lembrar sempre à toa, sempre sem querer, como se lembra e esquece um sonho. O resto é registro e tempo presente, e só.
01/08/14
segunda-feira, 16 de junho de 2014
DA DINÂMICA DOS SONHOS
Não me importam quantas nem quais. Qualquer um que realize um sonho sobe um degrau de existência que lhe confere o direito de se sentir bem consigo mesmo a despeito das multidões e das estatísticas. É possível, dessa forma, sair do viver ordinário, esse viver medindo-se e comparando-se a outrem, pois, mesmo em companhia de outro de igual feito, sente a singularidade de seu nome reinventado em sua carne, pela primeira vez, mais que letras impressas numa cédula de identidade ou vocativos de cimento social.
Realizar um sonho é nunca mais precisar do espelho de seu nome para existir.
16/06/14
segunda-feira, 9 de junho de 2014
ORAÇÃO
Hei de ser grande para resistir
e pequeno, para evitar.
No meio de todos,
ter o tamanho da prudência e da coragem,
ainda que não caiba no mundo
nem o comporte.
Porém, acima de tudo,
devo me desvencilhar de tudo que não sou,
pois não devo ser estrangeiro
em meu próprio coração.
09/06/14
segunda-feira, 8 de julho de 2013
quarta-feira, 5 de dezembro de 2012
segunda-feira, 16 de julho de 2012
domingo, 4 de março de 2012
LA VIDA DE MERCEDES
(A Natália Pinheiro, que lo compuso en diálogo conmigo. Gracias, mujer.)
04/03/12
terça-feira, 28 de fevereiro de 2012
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