Este blogue se destina ao uso artístico da linguagem e a quaisquer comentários e reflexões sobre esta que é a maior necessidade humana: a comunicação. Sejam todos bem-vindos, participantes ou apenas curiosos (a curiosidade e a necessidade são os principais geradores da evolução). A casa está aberta.
segunda-feira, 29 de junho de 2026
VIDAMORTE
segunda-feira, 27 de abril de 2026
OBLÍVIA
Sem palavra, a ideia é livre
para ser crida ou esquecida.
Nada é mais potente
que o espírito oblívio e incorpóreo
que define o desconhecido.
Palavra não é para crer.
Palavra é para esquecer de crer.
27/04/26
terça-feira, 27 de janeiro de 2026
TARDINHA SERTANEJA
(Clique na imagem para ampliá-la.)
(Poeminho encomendado pela minha grande amiga Mariana Noronha, que pediu um verso e ganhou três quadrinhas.)
O rosa encarnado pintado no céu
é a noite beijando esse dia meu,
cobrindo seu corpo de negro véu,
deitando com o filho que adormeceu.
A carnaubeira, que vela o sono,
dançando no vento que pestaneja,
afaga o cansaço e o abandono,
no aboio ao lar que me sertaneja.
O dia durou mais que deveria.
No corpo e na alma, o tempo, também.
Feliz é quem tem a benfeitoria
de ser bem guardado no sonho de alguém.
27/01/26
domingo, 28 de dezembro de 2025
ORIKI
(Clique na imagem para ampliá-la e na legenda, para acessar sua página de origem.)
a todos os que, sem saberem nunca
― pois que, a saberem, não talvez o fizessem ―,
pavimentam meus abismos,
desarmam minhas mãos
e resgatam-me do fundo do mar,
o meu muito obrigado
no guardarem-me os caminhos
ao toque de Exu.
Laroyê!
28/12/25
UMA LICENCINHA À NOSTALGIA
(Clique na imagem para ampliá-la e na legenda, para acessar sua página de origem.)
o vendedor de peixes passava com enfieiras de porta em porta;
o leiteiro, o verdureiro, o galego, o vendedor de vassouras,
todos eles trançavam os caminhos do bairro,
costurando o cotidiano.
havia um poço em meu quintal,
e era minha grande responsabilidade
fazer a manutenção da bomba d'água,
e ligar, e desligar diariamente,
e isso me fazia importante.
a rua era de pedras calçadas.
passavam poucos carros,
mas bastantes carroças e alguns cavalos,
e o som da rua me dava a impressão
de que a rua era viva,
e as casas, e nós todos
tínhamos uma vida a ver
uns com os outros.
Dona Edmilsa, pequeníssima, de sorriso bom,
puxava a arrumação de cadeiras e senhoras na calçada
ali pelas sete horas da noite,
e assim nos espalhávamos em pequenos apinhados de gente:
as crianças, os jovens, os adultos, as quengas, os bêbados, os maconheiros,
os vendedores de algodão-doce,
os compradores de garrafas vazias e metais velhos,
todos vivendo por dentro e por fora
o que ainda não sabíamos valer tanto a pena.
26/12/25
segunda-feira, 15 de dezembro de 2025
O PASSEIO
(Clique na imagem para ampliá-la.)
(Poeminho um pouco inspirado em “O grande passeio”, de Clarice Lispector.)
a tardinha ensombra a estrada
tudo o que fica, passa apressado:
a caatinga, as cercas do estado,
as gentes e seus Interiores,
mas as palavras desertoras,
queixosas no silêncio das frases imaterializadas,
essas viajam
passageiras de mim, assombradas
no rumo do mar
as paixões e o adeus,
a biografia,
as notas finais,
as orações,
são poeiras sem levante
das estradas que sequer existem,
mas cruzei,
e vão comigo
na matéria somente imaginada
que é o meu espírito
que longe é a praia!,
em que pese ela ser
este assento de ônibus
donde tudo se vê tão claro
e de onde tudo é tão bonito
15/12/25
quarta-feira, 19 de novembro de 2025
VISITA ANUNCIADA
(Clique na imagem para ampliá-la e na legenda, para acessar sua página de origem.)
Vem, chega mais perto.
Faze-te de ar e me falta,
que já não fazes mais falta.
És familiar
como esse eu
que transita impune pelos espelhos.
Porém, é só o que te imponho:
ao contrário de mim,
não excedas a tua forma,
pois, ao que transbordo e sobejo,
essencias-te;
ao que me fragmento e abandono,
eternizas-te;
ao que me vou,
aportas.
Não te incomodes:
deixa tudo o que não és sobre o aparador
e vem,
pés descalços,
mãos vazias,
ventre oco.
Guarda aí o espaço que me reservaste.
Vê, eu te trouxe pão e tapioca
de longe, de quando éramos todos
filhos de nossos pais.
Tenho aqui um café e um punhado de estórias
que bem dão uma constelação a mais
em tua Noite,
essa Noite enorme,
mais clara que o dia,
que, há tanto, me anunciaste.
Que não fales,
que não rias,
que não digas os sabores de tua vinda,
não me importo.
Hoje eu escolho a prosa e o sorriso,
o monólogo suave e casual
diverso de tudo,
feito apenas de palavras inéditas
de uma língua recém-nascida.
Senta-te ao meu lado esquerdo,
que é onde fica minha saudade
― tão antiga e exata como tu —,
e deixa que ela também te fale um pouco.
Já não desespera;
está em paz.
Aqui, fico eu assim, em portas de domingo:
um riachinho reabrindo
o velho rio de minha vida.
Só para ti.
16-19/11/25
terça-feira, 4 de novembro de 2025
CAMPO BRANCO
é preciso cuidar do invisível
do insensível aos amigos
à família
aos deuses
é preciso guardar o ofensivo
ainda que a ele infenso
mesmo que dele enfermo
que por ele constrangido
que a ele adverso
pois é no diverso
no contrapeso do que é útil
que sustenta o nosso frágil relicário
e resiste a sempre fina luz
da nossa impossível dança
que rejeita a festa
que enfeita a vida
no vento das solidões
é preciso deitar na água
é preciso desaprender a andar
é preciso captar a essência
anterior a si
mas que ainda vibra no gesto sem cálculo
na desordem suave
de um banho de mar
é preciso cuidar, enfim, do ignorado
mantê-lo dançando em salões vazios
sob a chuva fina por detrás dos olhos
por detrás da alma
nos campos brancos de nosso mais íntimo
sertão
04/11/25
domingo, 2 de novembro de 2025
PEGA
(Clique na imagem para ampliá-la e na legenda, para acessar a página de origem.)
ah, se fosse fácil
marcar com o ferro da luta
no couro da alma
o anagrama elucidado,
o fim do mistério do corpo
corpo vazio,
vagando sem dono no meio do mundo
rês indolente,
carne, sangue, osso e víscera
boi arruado,
bezerro de ouro desadorado,
sem cura no rastro,
sem sol nem malhada,
sem aboio,
sem abate
rompe o espírito,
esse cavaleiro encourado,
a reduzir sua criação
mor de que a noite, que guarda a onça,
esqueça na tarde a queda
e fique de longe a aurora assistindo
a esse encontro tardão,
ainda que certeiro,
que nasce em seu encalço.
02/11/25
CONSISTÊNCIA
mas, quando ali retorno o olhar de dentro,
vejo que mais estou do que pareço.
vejo que a porta aberta que esqueci sem chave
gravou de mim uma partida que é mais
do que fui quando cheguei.
há mais de mim mesmo onde só estive em pensamento.
nas ausências, nas impermanências, ali estou, vigilante,
marcando a estada,
prenhez e prole, eu mesmo, onipresente, populoso,
territorial.
só assim
para aguentar este deixar de ser
constante
em que me perco, hora a hora,
sem nunca acabar de ser inteiro.
sou porque não sou;
estou porque, em outros lugares,
me abandonei.
minha âncora é o mar.
02/11/25
sexta-feira, 31 de outubro de 2025
SUVENIR
frutos há muito arrancados
de pequenas felicidades
pistas, miolinhos de pão
marcando o caminho
sem volta
minhas pedrinhas miudinhas
me esqueceram de Aruanda
me esqueceram nos vasos de plantas
nos fundos dos bolsos
no fundo do mar
seja eu também, talvez
uma pedrinha miudinha
que nunca viu baladeira
nunca matou passarinho
nunca correu sobre as águas
na mão abandonada do menino
que me colheu como suvenir
para não crescer só
e que não cansa de olhar o mar
31/10/25
sexta-feira, 24 de outubro de 2025
MINHA RUA
que me trazia a casa
e era o meu lugar entre o meu mar e o meu sertão
hoje, asfaltou-se
como um rio assoreado,
onde o tráfego esmaga
o peixe em que a evolução errou
nem um centímetro a mais foi posto,
mas uma distância definitiva, invencível,
ilhou cada um de nós,
náufragos, aratus refugiados
em buracos na areia
perderam a graça as chuvas nas biqueiras
e as guerras de jambo
entre nós, os ribeirinhos acanalhados
a guerra de hoje é outra:
é entre o prédio e a gente;
é entre as facções e a gente;
é entre a polícia e a gente;
é entre a gente
o tempo passou pela minha rua em paradas militares,
em procissões de loucos,
em desfiles de Santos Reis
mas, principalmente, o tempo
arrastou sob seu ventre
nossas pegadas, nossa história,
nossas árvores,
como fazem máquinas compactadoras
terraplanando o futuro
ainda teimo em curiar
quem, dos que ficaram, ou suas crias,
que riscará a pedras de cal
o próprio nome na própria calçada
da própria casa,
mas, sem sucesso
não há mais basculhos
nem de muros nem de gentes
que se escrevam no chão
como quando a rua era uma tribo
e nela vadiavam selvagemente
os sonhos de quem nunca fomos
24/10/25
sábado, 17 de maio de 2025
SEIXO ACIDENTAL
(Clique na imagem para ampliá-la.)
de que sou sombra,
tampouco o chão
onde me deito
o é
esta tarde, este sol
e este equador evaporante
me carregam pelas calçadas,
por entre os carros
e por debaixo das portas:
folha e pó,
que o vento esquece por aí
em algum de seus quarenta graus
fico, me greto
nas falhas dos rodapés
me varrem,
e assim faço parte
das casas que visito
o que é meu
são o caminho para,
o espaço entre,
a divisão de
e a distância a
isso de ter de ser
é como dar nome a bicho,
a planta, a vento:
desculpa a vida
aceito o acidente de ser
apesar do corpo,
apesar das roupas
e dos bons-dias
e, apesar de todo o adeus
que me acompanha,
saúdo desconhecidos,
trabalho a palavra,
frequento hostilidades,
cato seixos de quartzo e mica,
búzios e refugos abandonados
por mudanças alheias
e me muno de luz e som
por toda parte
todo o tempo
ser por um acaso
e, por várias vezes,
deixar de ser
acabam por doer intenso,
mais que viver
propositalmente,
porém é daí que tiro
voz, palavra e silêncio,
e todo o pouco que sou
— sem corpo, sem chão,
sem nome —,
simplesmente, acontece
17/05/25
sábado, 10 de maio de 2025
TRANSAÇÕES MARÍTIMAS
lixo da melhor qualidade, do plástico mais cancerígeno
a mimos de MDF, bibelôs de cacos de vidro
e cartas, muitas cartas de amor terceirizadas
— narrativas meméticas elaboradas pela mais sintética IA
e balés tiktokeanos de hipnótica sensualidade.
da ilha, a maré que leva alma e conteúdos midiáticos
também remete fragmentos de pele e sangue,
além de pelos de toda sorte e cascabulhos de dentes
com destino aos recifes,
onde todo um viveiro de xaréus e anêmonas
fazem as vezes de pets e receptores.
há também extravios,
e calha de um tudo encalhar em outras ilhas;
e maravilhar etnias distintas de canibais, e pigmeus,
e outras gentes mais evoluídas,
que acreditam que o mar lhes prega peças
em que homens mimetizam horrores desconhecidos
e outras coisas incompreensíveis.
também há cartas e canções
que cabe ao vento compor em suas tempestades
e muitos, quase infinitos
olhares desendereçados
— cargueiros abarrotados de especiarias
e fartos desjejuns
que têm na ausência de destinatários
a sua própria e particular viagem.
deitam-se na preamar à espera da vazante,
garrafas prenhes de naufrágios que são,
e se lançam sonâmbulas,
engravidando-se ainda mais
à medida que mais naufragam.
a elas, o mar as deixa em paz,
que jaez de quem deriva é sonho
tal qual o de espírito que perambula
pelos cantos escuros de uma casa:
sonhar é deixar-se dormir,
e partir sem destino é como regressar.
10/05/25
domingo, 4 de maio de 2025
ESQUECER PARA LEMBRAR
(Clique na imagem para ampliá-la e na legenda, para acessar a página de origem.)
atravessa
como um equilibrista que pudesse correr
sobre a corda bamba.
um carro desacelera;
outros, não.
é assim todo dia, em toda parte:
cidades, e gentes, e chãos de navalha,
e riscos de morte que talham a vida.
pedaços que nunca se encaixam
e ondulam no vento
junto a sacolas plásticas, fuligem e folhas
despersonificam-se em paisagens e contextos,
em estatísticas incômodas,
em conteúdos produzidos para as redes sociais.
são muitos, tantos quanto os matinhos
que prefeituras mandam aparar de vez em vez,
e por aí estão, como os passinhos rápidos e inocentes
riscando de unhas negras a casca negra do asfalto.
é não se chegando ao outro lado
que se chega ao outro lado.
04/05/25
domingo, 30 de março de 2025
RASCUNHO DE ÍCARO
(Clique no vídeo para abri-lo em nova aba e na legenda, para acessar a página de origem.)
Com que mais foste, em tal estado,
a marca finda em tua casa,
deitaste a mão em planta rasa,
e um novamente é rabiscado.
E, traço a traço, lado a lado,
ergueste a ideia sobre a brasa
e deste adeus à velha casa
igual quem mora em chão roubado.
És todo sonho, és todo fado:
a pena antecedendo a asa,
batendo como quem se atrasa,
num céu que azula imaginado.
Donde vieste, um não! e um brado.
Onde acabaste, nada abrasa.
E, ao Sol, que acima te desasa:
renasces ar, sem ser alado.
30/03/25
segunda-feira, 24 de fevereiro de 2025
POLÍTICA INTERNA
(Clique na imagem para ampliá-la e na legenda, para acessar a página de origem.)
sábado, 1 de fevereiro de 2025
AGORA, A NOITE
(Clique na imagem para ampliá-la e na legenda, para acessar a página de origem.)
Bebo o café que é possível
com o pó da manhã e a água das horas.
Lá fora, tudo cidadeia,
e o espaço me comprime em minha casa verde,
velha e resistente.
Os urubus que me vigiam
pragalham da carne imputrefata
sitiando todas as vias de felicidade possível.
Não há madeira em minha porta,
ou horizonte, na janela.
Minha cortina de trepadeiras ainda tenta;
minhas espadas de Ogum ainda tentam;
e as de Iansã, também;
mas, aqui, neste quintal de trasantontem,
adormeceram já todas as guerras
— a paz que resta é mofo e cupins
e mijo de gatos nas calhas.
Amanhã, quando o sol me encontrar,
será de nós ambos o ocaso:
tempo em que nos deixaremos finalmente anoitecer
da noite que veio me buscar quando menino,
quando o paquete de minha rede me embalava sem fateixa
pelo Estige e pelo Pacoti,
pelo espaço e pelos abismos,
sem sonhar que as tempestades dormiam comigo
fetalmente, no porão sem escotilha.
Na casa velha, as tralhas acordarão limpas,
embaladas no porão da jangada que ela se tornou.
Um mar vesperal crepuscula prestes,
e um terral desancora a terra
de que já não sou mais feito.
Agora, a Noite.
30/01/25
sábado, 14 de dezembro de 2024
VINTE POR NOVE
escrever é um trabalho que me dou
sem a preposição a
objeto direto regido por verbo
bi
tran
si
ti
vo
presente que se dá
num acontecimento
maior que eu
porém e porque
carrega uma vida inteira pretérita
e imperfeita
não sou como o homem
que vai ali e compra pão
que atravessa a rua
que banha a quinta-feira
com sabonete para a sexta
monto o meu calendário de cubinhos
e o dia virado
é quando digiro o pão
comprado amanhã
a fome não cabe no texto
a fome é o texto
devorando tudo
enquanto escrevo, observo
como se não fosse só
a palavra que me veste
escrever é o trabalho de queimar
as roupas na fogueira
a identidade
os dentes de leite
é montar vigília à espera
da escuridão
14/12/24
quinta-feira, 26 de setembro de 2024
BEIRA
Beira da estrada,
beira do mar:
um olhar abraça o outro,
e duas solidões se beijam
— duas partidas sem porto,
duas jornadas sem retorno,
dois confins.
E uma só ida para viver.
26/09/24


















