Este blogue se destina ao uso artístico da linguagem e a quaisquer comentários e reflexões sobre esta que é a maior necessidade humana: a comunicação. Sejam todos bem-vindos, participantes ou apenas curiosos (a curiosidade e a necessidade são os principais geradores da evolução). A casa está aberta.
segunda-feira, 27 de abril de 2026
OBLÍVIA
Sem palavra, a ideia é livre
para ser crida ou esquecida.
Nada é mais potente
que o espírito oblívio e incorpóreo
que define o desconhecido.
Palavra não é para crer.
Palavra é para esquecer de crer.
27/04/26
domingo, 28 de dezembro de 2025
ORIKI
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a todos os que, sem saberem nunca
― pois que, a saberem, não talvez o fizessem ―,
pavimentam meus abismos,
desarmam minhas mãos
e resgatam-me do fundo do mar,
o meu muito obrigado
no guardarem-me os caminhos
ao toque de Exu.
Laroyê!
28/12/25
UMA LICENCINHA À NOSTALGIA
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o vendedor de peixes passava com enfieiras de porta em porta;
o leiteiro, o verdureiro, o galego, o vendedor de vassouras,
todos eles trançavam os caminhos do bairro,
costurando o cotidiano.
havia um poço em meu quintal,
e era minha grande responsabilidade
fazer a manutenção da bomba d'água,
e ligar, e desligar diariamente,
e isso me fazia importante.
a rua era de pedras calçadas.
passavam poucos carros,
mas bastantes carroças e alguns cavalos,
e o som da rua me dava a impressão
de que a rua era viva,
e as casas, e nós todos
tínhamos uma vida a ver
uns com os outros.
Dona Edmilsa, pequeníssima, de sorriso bom,
puxava a arrumação de cadeiras e senhoras na calçada
ali pelas sete horas da noite,
e assim nos espalhávamos em pequenos apinhados de gente:
as crianças, os jovens, os adultos, as quengas, os bêbados, os maconheiros,
os vendedores de algodão-doce,
os compradores de garrafas vazias e metais velhos,
todos vivendo por dentro e por fora
o que ainda não sabíamos valer tanto a pena.
26/12/25
segunda-feira, 15 de dezembro de 2025
O PASSEIO
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(Poeminho um pouco inspirado em “O grande passeio”, de Clarice Lispector.)
a tardinha ensombra a estrada
tudo o que fica, passa apressado:
a caatinga, as cercas do estado,
as gentes e seus Interiores,
mas as palavras desertoras,
queixosas no silêncio das frases imaterializadas,
essas viajam
passageiras de mim, assombradas
no rumo do mar
as paixões e o adeus,
a biografia,
as notas finais,
as orações,
são poeiras sem levante
das estradas que sequer existem,
mas cruzei,
e vão comigo
na matéria somente imaginada
que é o meu espírito
que longe é a praia!,
em que pese ela ser
este assento de ônibus
donde tudo se vê tão claro
e de onde tudo é tão bonito
15/12/25
quarta-feira, 19 de novembro de 2025
VISITA ANUNCIADA
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Vem, chega mais perto.
Faze-te de ar e me falta,
que já não fazes mais falta.
És familiar
como esse eu
que transita impune pelos espelhos.
Porém, é só o que te imponho:
ao contrário de mim,
não excedas a tua forma,
pois, ao que transbordo e sobejo,
essencias-te;
ao que me fragmento e abandono,
eternizas-te;
ao que me vou,
aportas.
Não te incomodes:
deixa tudo o que não és sobre o aparador
e vem,
pés descalços,
mãos vazias,
ventre oco.
Guarda aí o espaço que me reservaste.
Vê, eu te trouxe pão e tapioca
de longe, de quando éramos todos
filhos de nossos pais.
Tenho aqui um café e um punhado de estórias
que bem dão uma constelação a mais
em tua Noite,
essa Noite enorme,
mais clara que o dia,
que, há tanto, me anunciaste.
Que não fales,
que não rias,
que não digas os sabores de tua vinda,
não me importo.
Hoje eu escolho a prosa e o sorriso,
o monólogo suave e casual
diverso de tudo,
feito apenas de palavras inéditas
de uma língua recém-nascida.
Senta-te ao meu lado esquerdo,
que é onde fica minha saudade
― tão antiga e exata como tu —,
e deixa que ela também te fale um pouco.
Já não desespera;
está em paz.
Aqui, fico eu assim, em portas de domingo:
um riachinho reabrindo
o velho rio de minha vida.
Só para ti.
16-19/11/25
terça-feira, 4 de novembro de 2025
CAMPO BRANCO
é preciso cuidar do invisível
do insensível aos amigos
à família
aos deuses
é preciso guardar o ofensivo
ainda que a ele infenso
mesmo que dele enfermo
que por ele constrangido
que a ele adverso
pois é no diverso
no contrapeso do que é útil
que sustenta o nosso frágil relicário
e resiste a sempre fina luz
da nossa impossível dança
que rejeita a festa
que enfeita a vida
no vento das solidões
é preciso deitar na água
é preciso desaprender a andar
é preciso captar a essência
anterior a si
mas que ainda vibra no gesto sem cálculo
na desordem suave
de um banho de mar
é preciso cuidar, enfim, do ignorado
mantê-lo dançando em salões vazios
sob a chuva fina por detrás dos olhos
por detrás da alma
nos campos brancos de nosso mais íntimo
sertão
04/11/25
domingo, 2 de novembro de 2025
PEGA
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ah, se fosse fácil
marcar com o ferro da luta
no couro da alma
o anagrama elucidado,
o fim do mistério do corpo
corpo vazio,
vagando sem dono no meio do mundo
rês indolente,
carne, sangue, osso e víscera
boi arruado,
bezerro de ouro desadorado,
sem cura no rastro,
sem sol nem malhada,
sem aboio,
sem abate
rompe o espírito,
esse cavaleiro encourado,
a reduzir sua criação
mor de que a noite, que guarda a onça,
esqueça na tarde a queda
e fique de longe a aurora assistindo
a esse encontro tardão,
ainda que certeiro,
que nasce em seu encalço.
02/11/25
CONSISTÊNCIA
mas, quando ali retorno o olhar de dentro,
vejo que mais estou do que pareço.
vejo que a porta aberta que esqueci sem chave
gravou de mim uma partida que é mais
do que fui quando cheguei.
há mais de mim mesmo onde só estive em pensamento.
nas ausências, nas impermanências, ali estou, vigilante,
marcando a estada,
prenhez e prole, eu mesmo, onipresente, populoso,
territorial.
só assim
para aguentar este deixar de ser
constante
em que me perco, hora a hora,
sem nunca acabar de ser inteiro.
sou porque não sou;
estou porque, em outros lugares,
me abandonei.
minha âncora é o mar.
02/11/25
sexta-feira, 31 de outubro de 2025
SUVENIR
frutos há muito arrancados
de pequenas felicidades
pistas, miolinhos de pão
marcando o caminho
sem volta
minhas pedrinhas miudinhas
me esqueceram de Aruanda
me esqueceram nos vasos de plantas
nos fundos dos bolsos
no fundo do mar
seja eu também, talvez
uma pedrinha miudinha
que nunca viu baladeira
nunca matou passarinho
nunca correu sobre as águas
na mão abandonada do menino
que me colheu como suvenir
para não crescer só
e que não cansa de olhar o mar
31/10/25
sexta-feira, 24 de outubro de 2025
MINHA RUA
que me trazia a casa
e era o meu lugar entre o meu mar e o meu sertão
hoje, asfaltou-se
como um rio assoreado,
onde o tráfego esmaga
o peixe em que a evolução errou
nem um centímetro a mais foi posto,
mas uma distância definitiva, invencível,
ilhou cada um de nós,
náufragos, aratus refugiados
em buracos na areia
perderam a graça as chuvas nas biqueiras
e as guerras de jambo
entre nós, os ribeirinhos acanalhados
a guerra de hoje é outra:
é entre o prédio e a gente;
é entre as facções e a gente;
é entre a polícia e a gente;
é entre a gente
o tempo passou pela minha rua em paradas militares,
em procissões de loucos,
em desfiles de Santos Reis
mas, principalmente, o tempo
arrastou sob seu ventre
nossas pegadas, nossa história,
nossas árvores,
como fazem máquinas compactadoras
terraplanando o futuro
ainda teimo em curiar
quem, dos que ficaram, ou suas crias,
que riscará a pedras de cal
o próprio nome na própria calçada
da própria casa,
mas, sem sucesso
não há mais basculhos
nem de muros nem de gentes
que se escrevam no chão
como quando a rua era uma tribo
e nela vadiavam selvagemente
os sonhos de quem nunca fomos
24/10/25
sábado, 17 de maio de 2025
SEIXO ACIDENTAL
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de que sou sombra,
tampouco o chão
onde me deito
o é
esta tarde, este sol
e este equador evaporante
me carregam pelas calçadas,
por entre os carros
e por debaixo das portas:
folha e pó,
que o vento esquece por aí
em algum de seus quarenta graus
fico, me greto
nas falhas dos rodapés
me varrem,
e assim faço parte
das casas que visito
o que é meu
são o caminho para,
o espaço entre,
a divisão de
e a distância a
isso de ter de ser
é como dar nome a bicho,
a planta, a vento:
desculpa a vida
aceito o acidente de ser
apesar do corpo,
apesar das roupas
e dos bons-dias
e, apesar de todo o adeus
que me acompanha,
saúdo desconhecidos,
trabalho a palavra,
frequento hostilidades,
cato seixos de quartzo e mica,
búzios e refugos abandonados
por mudanças alheias
e me muno de luz e som
por toda parte
todo o tempo
ser por um acaso
e, por várias vezes,
deixar de ser
acabam por doer intenso,
mais que viver
propositalmente,
porém é daí que tiro
voz, palavra e silêncio,
e todo o pouco que sou
— sem corpo, sem chão,
sem nome —,
simplesmente, acontece
17/05/25
sábado, 10 de maio de 2025
TRANSAÇÕES MARÍTIMAS
lixo da melhor qualidade, do plástico mais cancerígeno
a mimos de MDF, bibelôs de cacos de vidro
e cartas, muitas cartas de amor terceirizadas
— narrativas meméticas elaboradas pela mais sintética IA
e balés tiktokeanos de hipnótica sensualidade.
da ilha, a maré que leva alma e conteúdos midiáticos
também remete fragmentos de pele e sangue,
além de pelos de toda sorte e cascabulhos de dentes
com destino aos recifes,
onde todo um viveiro de xaréus e anêmonas
fazem as vezes de pets e receptores.
há também extravios,
e calha de um tudo encalhar em outras ilhas;
e maravilhar etnias distintas de canibais, e pigmeus,
e outras gentes mais evoluídas,
que acreditam que o mar lhes prega peças
em que homens mimetizam horrores desconhecidos
e outras coisas incompreensíveis.
também há cartas e canções
que cabe ao vento compor em suas tempestades
e muitos, quase infinitos
olhares desendereçados
— cargueiros abarrotados de especiarias
e fartos desjejuns
que têm na ausência de destinatários
a sua própria e particular viagem.
deitam-se na preamar à espera da vazante,
garrafas prenhes de naufrágios que são,
e se lançam sonâmbulas,
engravidando-se ainda mais
à medida que mais naufragam.
a elas, o mar as deixa em paz,
que jaez de quem deriva é sonho
tal qual o de espírito que perambula
pelos cantos escuros de uma casa:
sonhar é deixar-se dormir,
e partir sem destino é como regressar.
10/05/25
domingo, 4 de maio de 2025
ESQUECER PARA LEMBRAR
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atravessa
como um equilibrista que pudesse correr
sobre a corda bamba.
um carro desacelera;
outros, não.
é assim todo dia, em toda parte:
cidades, e gentes, e chãos de navalha,
e riscos de morte que talham a vida.
pedaços que nunca se encaixam
e ondulam no vento
junto a sacolas plásticas, fuligem e folhas
despersonificam-se em paisagens e contextos,
em estatísticas incômodas,
em conteúdos produzidos para as redes sociais.
são muitos, tantos quanto os matinhos
que prefeituras mandam aparar de vez em vez,
e por aí estão, como os passinhos rápidos e inocentes
riscando de unhas negras a casca negra do asfalto.
é não se chegando ao outro lado
que se chega ao outro lado.
04/05/25
segunda-feira, 24 de fevereiro de 2025
POLÍTICA INTERNA
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sábado, 1 de fevereiro de 2025
AGORA, A NOITE
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Bebo o café que é possível
com o pó da manhã e a água das horas.
Lá fora, tudo cidadeia,
e o espaço me comprime em minha casa verde,
velha e resistente.
Os urubus que me vigiam
pragalham da carne imputrefata
sitiando todas as vias de felicidade possível.
Não há madeira em minha porta,
ou horizonte, na janela.
Minha cortina de trepadeiras ainda tenta;
minhas espadas de Ogum ainda tentam;
e as de Iansã, também;
mas, aqui, neste quintal de trasantontem,
adormeceram já todas as guerras
— a paz que resta é mofo e cupins
e mijo de gatos nas calhas.
Amanhã, quando o sol me encontrar,
será de nós ambos o ocaso:
tempo em que nos deixaremos finalmente anoitecer
da noite que veio me buscar quando menino,
quando o paquete de minha rede me embalava sem fateixa
pelo Estige e pelo Pacoti,
pelo espaço e pelos abismos,
sem sonhar que as tempestades dormiam comigo
fetalmente, no porão sem escotilha.
Na casa velha, as tralhas acordarão limpas,
embaladas no porão da jangada que ela se tornou.
Um mar vesperal crepuscula prestes,
e um terral desancora a terra
de que já não sou mais feito.
Agora, a Noite.
30/01/25
quinta-feira, 21 de novembro de 2024
O MENINO E A NOITE
Quando comecei a escrever poesia, tinha um pouco menos que a idade atual de meu filho, Miguel, e um pouco mais que a de minha Clarice. Fui incentivado pela minha irmã Malu a datilografar meus textinhos na velha Remington 25 que papai comprara para as filhas, na qual eu brincava de ser escritor. Honestamente, eu me divertia com isso muito mais que hoje. Era um pequeno calhamaço de poeminhas bobinhos que eu intitulei Poemas de uma criança, da Editora Estrelinha, meu único empreendimento digno. Nessa época, eu também comecei um romance que chamei de A guerra dos meninos. Nunca terminei. Talvez, porque já começava a me bandear ao lado do exército inimigo. Também me aventurava em histórias em quadrinhos que eu mesmo diagramava em bloquinhos que confeccionava com folhas velhas de meus cadernos escolares. A principal era a da águia Cry, que sempre mudava de forma entre os quadros. Desenhava o que me vinha à mente, fosse concreto ou abstrato. Peguei gosto pelos super-heróis, pela anatomia humana, animal, pelas formas geométricas, pelas flores. Sempre tentei, sem sucesso, desenhar a noite, mas foi na poesia que tive êxito. O caso é que, nesse momento, a Noite já era outra. A escuridão e o espaço, uma vez palavras, ganharam gravidade, peso, forma e força. Entendi, então, que eu era mais da Noite que do dia, que a ausência do meu amado sol de litoral era muito maior, muito mais íntima que minha relação com ele. Dei a Ela minhas mãos de já pré-adolescente e, a partir daí, ainda que sem saber, passei a dar a tudo que escrevia um tom de ausência, um adeus. Minha escrita caótica foi motejada pela despedida como se, em cada poema, eu me despedisse de mim, ou dos outros, ou das palavras, ou de tudo.
Hoje, minha literatura tem o encargo de me explicar, de me narrar. O peso do testemunho de quem sou e fui, do que sinto, vejo, amo, penso e odeio tornou-se monumental de tal forma que escrever, há muito, vem deixando de ser produzir e passando a ser descarregar. Escrevo como se tirasse autoesculturas malfeitas de minhas costas, peças que me decompuseram e que me espedaçaram porque são feitas de mim, e que, por isso, me enfraqueceram o espírito mais que me aliviaram de sua sobrecarga. É por esse motivo que não me encontro mais no que escrevi. Em cada texto, em lugar de haver um reflexo ficcional do eu-autor, há os meus pedaços que ele deveria refletir. Eu estou lá, pois sei que eles são meus, mas sei sem sabê-los, sem me lembrar deles. Eu fiquei lá, esculpido, forjado, amalgamado, e a memória do que eu fui não os alcança mais. Ela ficou lá, encapsulada, criptografada. E é esse mistério, essa antologia de lacunas das quais também fui me despedindo, que me pesa ainda mais que quando elas estavam preenchidas aqui, em forma de lava. Lá fora, como vidro vulcânico, são obsidianas cortantes que me sangram ao toque. Revisitar velhos poemas, como fiz há pouco, é como um masoquismo, uma automutilação, uma nostalgia de algo que sempre me espanta e fere, pois o encontro com quem fui é sempre um encontro de estranhos: o eu-cá, curioso e pasmo; o outro, expatriado, arredio, indignado, beligerante.
Mas, nem sempre. Há vezes em que escrever é confeccionar uma roupa, um uniforme ou um disfarce — às vezes, apenas um cobertor, quando preciso me apartar da Noite. Tirar a própria pele apenas para ver como sou. Depois, vesti-la sobre um eu-novo ainda anônimo e amorfo. Andar, então, pelo presente, vestido de passado, protegido por mim, disfarçado de mim. Escrever, assim, pode ser vestir-me com meu próprio fardo e crescer a carne nova em paz, sem que ela seja cicatrizes.
Tão diferente vim me tornando quanto vim me descrevendo. À medida que me livrava de mim, vim me acumulando, obrigando-me a reconhecer-me em minha trilha de migalhas de pão. Quanta saudade de quando escrever era como acender velas na escuridão da casa, revelando a mim mesmo nas sombras projetadas na parede. Foi assim com o desenho, com a música e com os primeiros textos, antes que a Noite obsoletasse as paredes, a casa, a cidade, até mesmo, a noite lá de fora. Assim, toda tessitura e toda composição foram estruturando uma nova casa, que cresceu a uma cidade, que evoluiu a um país, assim como o reino dos cheiros de Jean-Baptiste Grenouille, com a diferença de que, lá, todos foram capturados, ao passo que, cá, fomos todos abandonados. Dessa forma, escrever também pode ser um fenômeno biológico como um tipo de meiose, por meio do qual cada texto, ainda que um haicai, é um eu diferente de mim, porém, um componente de mim exteriorizado, e, ao me fragmentar para compô-lo e livrar-me dele, acabo por tornar-me um organismo formado inteiramente de corpos estranhos, células oriundas de uma tentativa de amputação que culminaram numa espécie de eu-colônia ou eu-mosaico.
Escrever sempre é tentar definir-me por meio de mim e do alheio. Coisas, lugares, pessoas ou experiências, por mais que eu tenha a intenção de denotá-las, acabam por ser uma escusa para falar de mim por intermédio delas, como se fossem todas lentes ou janelas que sempre dão aos cômodos da casa do eu-autor, incluindo-me eu próprio nessa mediação. Nesse último caso, a composição é uma viagem em que o eu-autor é o mar, o barco e o barqueiro, e, chegando lá, nessa terra nova, tenho a sensação muito nítida de descoberta e desbravamento, pois aportei numa revelação de mim mesmo completamente inédita: um eu-mesmo que é outro. Provavelmente, a cada novo texto, a cada novo desenho e a cada nova música, eu vinha criando a mim mesmo, gerando um eu-que-seria, mas, simultaneamente, vinha me despedaçando em vários eus-textos que deixava para trás. Por isto, é tão preciosa aquela criança que datilografava como quem pavimenta o próprio caminho: é dela que não posso me perder; é ela que busco nas releituras; é com ela que preciso me integrar para vagar na Noite. Portanto, escrever é o paradoxo de destruir-me para criar(-me). É multiplicar-me para diminuir-me. É sobrecarregar-me para ser leve. É crescer para tornar-me novamente criança.
Procurei, outro dia, aquele calhamaço da Editora Estrelinha, sem sucesso. Sei que não o perdi. Está em alguma caixa ignorada em várias mudanças. Gosto de pensar, porém, que não é uma caixa ou um envelope. Gosto de pensar que é uma casa oculta nessa cidade que virou país, uma casa toda feita de lembranças, de onde foram retirados os tijolos para a construção de todas as outras, e, por isso mesmo, imaterial que se tornou, é tão difícil de se encontrar. Lá, quando regressar, vou reler os quartos, o quintal, os vãos de sonho que foram originalmente dormidos. Vou deitar novamente na rede em que as palavras me embalaram pela primeira vez e vou reconhecer-me como o mais distinto semelhante, o mais próximo distante, o mais eu-mesmo que o outro pode ser. A Noite, como agora há pouco, vai parir o dia, e poderemos, talvez, escrever sobre o sol que nasceu no mar e sobre a primeira vez em que nos vimos cara a cara.
21/11/24
quinta-feira, 26 de setembro de 2024
BEIRA
Beira da estrada,
beira do mar:
um olhar abraça o outro,
e duas solidões se beijam
— duas partidas sem porto,
duas jornadas sem retorno,
dois confins.
E uma só ida para viver.
26/09/24
quarta-feira, 25 de setembro de 2024
O VOO DO ÚLTIMO PARDAL-AZUL
I
Onde, o espaço, Clarice?
No fim .
II
Sair para deixar entrar
e ir saindo de tudo
e ir indo
indo
o ido inteiro
até só restar chegar.
III
Sentia frio nos pés
mesmo no pingo do meidia:
pronde ia o sangue
que no corpo se calava?
Do céu, caía morto
sem nenhum alvoroço
e sem deixar saudade
o último pardal-azul.
IV
Falta um anjo conceder
o que deixou de me guardar:
na testa, nunca mais, o beijo;
no corpo, ausente o desejo;
e o sono, sem adeus a dar.
V
A casa acerta com o tempo
uma aposta de compadres.
Volta e meia, vem um vento,
e o casado se descasa
na volante de um instante.
Pelo chão, o lixo sorridente
futuriza o despassado:
não são mais cédulas,
na voragem do torvelinho;
é a paga do tempo,
que a casa sempre vence.
11/09/24
domingo, 7 de julho de 2024
A FOGUEIRA INVISÍVEL
a fogueira invisível
traz as chamas multicoloridas
flameja ocra e vermelha
pungindo ardor
na íris vária e escancarada
porém
a grande noite é a todos
espetáculo melhor que o incêndio
e a estrela distantina
deu de sequestrar todos os olhos
ascendem nela sublimíssimos
desatmosferizam-se purificados
projetam-se na matéria escura
para longe do mundano
e do escrutínio terrenal
que a pele inquere ao cérebro
a todo o tempo
— olha! que é?
a fogueira invisível
coitadinha
não tem quem lhe sente ao redor
e lhe asse estórias
não tem quem lhe sinta o calor
não tem quem se lhe sirva na pele
nem quem lhe ceda o frio
em sacrifício
queima e arde
inexistente na noite enorme
ignota na transcendência dos corpos
e inútil para o além insensível das almas
mas há no chão
e há no lenho e no fumo
e no ar dos mosquitos
há pequena
na noite pequena
das coisas pequenas
a fogueira invisível
compõe com o mato inútil
com a árvore macha, a pedra de seixo
com as cigarras e os grilos
a multitude das ausências
que permite às coisas inúteis
a inutilidade de serem belas
e o desgosto orgulhoso
de existirem sujas
e puras
07/07/24
terça-feira, 25 de junho de 2024
INESCAPÁVEL
o dia está lindo
não há mortos nas ruas
nem abandonos nos bares
todos os animais têm seus donos, e todos os bebês, seios
não há fome nos pratos
nem pobreza nas mãos
os carros, gentis, trafegam com o único ruído inevitável
os escritórios acolhem
as escolas acolhem
as igrejas sublimam
e tudo, cada qual com sua paz, resulta
na harmonia e na intransmutabilidade das almas
com os corpos
o ódio, a miséria dos homens,
a soberba e a egolatria
são contos em histórias de muito longe,
quando o mundo era apenas aqui
e nada era possível
hoje, o dia é lindo
e a vida é a grande certeza
inescapável
07/05/24

















