Quando comecei a escrever poesia, tinha um pouco menos que a idade atual de meu filho, Miguel, e um pouco mais que a de minha Clarice. Fui incentivado pela minha irmã Malu a datilografar meus textinhos na velha Remington 25 que papai comprara para as filhas, na qual eu brincava de ser escritor. Honestamente, eu me divertia com isso muito mais que hoje. Era um pequeno calhamaço de poeminhas bobinhos que eu intitulei Poemas de uma criança, da Editora Estrelinha, meu único empreendimento digno. Nessa época, eu também comecei um romance que chamei de A guerra dos meninos. Nunca terminei. Talvez, porque já começava a me bandear ao lado do exército inimigo. Também me aventurava em histórias em quadrinhos que eu mesmo diagramava em bloquinhos que confeccionava com folhas velhas de meus cadernos escolares. A principal era a da águia Cry, que sempre mudava de forma entre os quadros. Desenhava o que me vinha à mente, fosse concreto ou abstrato. Peguei gosto pelos super-heróis, pela anatomia humana, animal, pelas formas geométricas, pelas flores. Sempre tentei, sem sucesso, desenhar a noite, mas foi na poesia que tive êxito. O caso é que, nesse momento, a Noite já era outra. A escuridão e o espaço, uma vez palavras, ganharam gravidade, peso, forma e força. Entendi, então, que eu era mais da Noite que do dia, que a ausência do meu amado sol de litoral era muito maior, muito mais íntima que minha relação com ele. Dei a Ela minhas mãos de já pré-adolescente e, a partir daí, ainda que sem saber, passei a dar a tudo que escrevia um tom de ausência, um adeus. Minha escrita caótica foi motejada pela despedida como se, em cada poema, eu me despedisse de mim, ou dos outros, ou das palavras, ou de tudo.
Hoje, minha literatura tem o encargo de me explicar, de me narrar. O peso do testemunho de quem sou e fui, do que sinto, vejo, amo, penso e odeio tornou-se monumental de tal forma que escrever, há muito, vem deixando de ser produzir e passando a ser descarregar. Escrevo como se tirasse autoesculturas malfeitas de minhas costas, peças que me decompuseram e que me espedaçaram porque são feitas de mim, e que, por isso, me enfraqueceram o espírito mais que me aliviaram de sua sobrecarga. É por esse motivo que não me encontro mais no que escrevi. Em cada texto, em lugar de haver um reflexo ficcional do eu-autor, há os meus pedaços que ele deveria refletir. Eu estou lá, pois sei que eles são meus, mas sei sem sabê-los, sem me lembrar deles. Eu fiquei lá, esculpido, forjado, amalgamado, e a memória do que eu fui não os alcança mais. Ela ficou lá, encapsulada, criptografada. E é esse mistério, essa antologia de lacunas das quais também fui me despedindo, que me pesa ainda mais que quando elas estavam preenchidas aqui, em forma de lava. Lá fora, como vidro vulcânico, são obsidianas cortantes que me sangram ao toque. Revisitar velhos poemas, como fiz há pouco, é como um masoquismo, uma automutilação, uma nostalgia de algo que sempre me espanta e fere, pois o encontro com quem fui é sempre um encontro de estranhos: o eu-cá, curioso e pasmo; o outro, expatriado, arredio, indignado, beligerante.
Mas, nem sempre. Há vezes em que escrever é confeccionar uma roupa, um uniforme ou um disfarce — às vezes, apenas um cobertor, quando preciso me apartar da Noite. Tirar a própria pele apenas para ver como sou. Depois, vesti-la sobre um eu-novo ainda anônimo e amorfo. Andar, então, pelo presente, vestido de passado, protegido por mim, disfarçado de mim. Escrever, assim, pode ser vestir-me com meu próprio fardo e crescer a carne nova em paz, sem que ela seja cicatrizes.
Tão diferente vim me tornando quanto vim me descrevendo. À medida que me livrava de mim, vim me acumulando, obrigando-me a reconhecer-me em minha trilha de migalhas de pão. Quanta saudade de quando escrever era como acender velas na escuridão da casa, revelando a mim mesmo nas sombras projetadas na parede. Foi assim com o desenho, com a música e com os primeiros textos, antes que a Noite obsoletasse as paredes, a casa, a cidade, até mesmo, a noite lá de fora. Assim, toda tessitura e toda composição foram estruturando uma nova casa, que cresceu a uma cidade, que evoluiu a um país, assim como o reino dos cheiros de Jean-Baptiste Grenouille, com a diferença de que, lá, todos foram capturados, ao passo que, cá, fomos todos abandonados. Dessa forma, escrever também pode ser um fenômeno biológico como um tipo de meiose, por meio do qual cada texto, ainda que um haicai, é um eu diferente de mim, porém, um componente de mim exteriorizado, e, ao me fragmentar para compô-lo e livrar-me dele, acabo por tornar-me um organismo formado inteiramente de corpos estranhos, células oriundas de uma tentativa de amputação que culminaram numa espécie de eu-colônia ou eu-mosaico.
Escrever sempre é tentar definir-me por meio de mim e do alheio. Coisas, lugares, pessoas ou experiências, por mais que eu tenha a intenção de denotá-las, acabam por ser uma escusa para falar de mim por intermédio delas, como se fossem todas lentes ou janelas que sempre dão aos cômodos da casa do eu-autor, incluindo-me eu próprio nessa mediação. Nesse último caso, a composição é uma viagem em que o eu-autor é o mar, o barco e o barqueiro, e, chegando lá, nessa terra nova, tenho a sensação muito nítida de descoberta e desbravamento, pois aportei numa revelação de mim mesmo completamente inédita: um eu-mesmo que é outro. Provavelmente, a cada novo texto, a cada novo desenho e a cada nova música, eu vinha criando a mim mesmo, gerando um eu-que-seria, mas, simultaneamente, vinha me despedaçando em vários eus-textos que deixava para trás. Por isto, é tão preciosa aquela criança que datilografava como quem pavimenta o próprio caminho: é dela que não posso me perder; é ela que busco nas releituras; é com ela que preciso me integrar para vagar na Noite. Portanto, escrever é o paradoxo de destruir-me para criar(-me). É multiplicar-me para diminuir-me. É sobrecarregar-me para ser leve. É crescer para tornar-me novamente criança.
Procurei, outro dia, aquele calhamaço da Editora Estrelinha, sem sucesso. Sei que não o perdi. Está em alguma caixa ignorada em várias mudanças. Gosto de pensar, porém, que não é uma caixa ou um envelope. Gosto de pensar que é uma casa oculta nessa cidade que virou país, uma casa toda feita de lembranças, de onde foram retirados os tijolos para a construção de todas as outras, e, por isso mesmo, imaterial que se tornou, é tão difícil de se encontrar. Lá, quando regressar, vou reler os quartos, o quintal, os vãos de sonho que foram originalmente dormidos. Vou deitar novamente na rede em que as palavras me embalaram pela primeira vez e vou reconhecer-me como o mais distinto semelhante, o mais próximo distante, o mais eu-mesmo que o outro pode ser. A Noite, como agora há pouco, vai parir o dia, e poderemos, talvez, escrever sobre o sol que nasceu no mar e sobre a primeira vez em que nos vimos cara a cara.
21/11/24
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quinta-feira, 21 de novembro de 2024
O MENINO E A NOITE
quinta-feira, 9 de maio de 2024
A CAVERNA DE GRENOUILLE
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Em seu romance Das Parfum - Die Geschichte eines Mörders (Perfume - a história de um assassino), de 1985, Patrick Süskind cria uma personagem descrita por ele, exegeticamente, monstruosa desde o nascimento, quando, com seu primeiro choro por vida, condenou a mãe à morte pela tentativa de infanticídio. Porém, o autor também denota que a mãe era uma vítima da miséria, tendo, sifilítica que era, parido vários natimortos, com um dos quais, naquela ocasião, havia confundido Jean-Baptiste Grenouille, o qual deixara cair como supostamente morto entre as vísceras de peixe sob a sua banca de feira num dos lugares mais imundos da Paris do século XVIII. Essa dicotomia entre a “inata” maldade de Grenouille e suas posteriores misantropia, sociopatia, egolatria e, finalmente, psicopatia e criminalidade; e os fatores ambientais e sociais que tornavam a sua sobrevivência praticamente um milagre — os que não o tentaram matar tinham-lhe um asco imediato, o que lhe atribuía uma subumanidade — criou uma alegoria riquíssima de um continente, de uma época e das relações entre a marginalização e a criminalidade condensada em uma só personagem.
O realismo mágico da história tem lugar na descrição dos “superpoderes” de Grenouille: seu olfato, que tinha uma apuração fantástica, transpondo os limites da realidade desse sentido a ponto de perceber tudo (inclusive o que, para pessoas normais, sequer tem cheiro) até mesmo através de paredes e a distâncias enormes; e sua resiliência a uma sociedade que lhe era ininterruptamente cruel e assassina. Esse superolfato tem sua contrapartida em outra característica mágica de Jean-Baptiste: a sua total ausência de cheiro, e isso, que era inexplicável a quem quer que tivesse contato com ele, visto que era impossível, tinha outra consequência, também mágica: a rejeição imediata àquela criatura, até mesmo pelo padre responsável por atribuir a alguma ama a manutenção da vida de Jean-Baptiste quando bebê.
“Terrier tinha a impressão de que a criança o olhava com as narinas, o examinava sem complacência, mais implacavelmente do que poderia fazê-lo com o olhar, como se absorvesse pelo nariz algo que emanava de Terrier e que ele próprio era incapaz de reter ou dissimular… Esta criança sem odor passava impudentemente em revista os odores dele. Era bem isso! Farejava-o dos pés à cabeça! E Terrier sentiu-se repentinamente fedorento, a tresandar a suor e vinagre, a couve-roxa e a roupas sujas. Teve a sensação de se encontrar em toda a sua nudez e fealdade, perscrutado pelo olhar de alguém que o fixava sem nada revelar de si. Era como se esta exploração olfactiva lhe atravessasse a pele e lhe devassasse o íntimo.”
A existência de Jean-Baptiste Grenouille, enquanto ser que tudo sente das pessoas pelo seu olfato e que, por sua vez, é imperceptível a elas pelo mesmo sentido, é a existência da nudez compulsória dos pecados da humanidade; da revelação forçosa de tudo o que é mais oculto, contra a qual nada se pode fazer; e da subsequente tentativa de eliminação dessa existência a fim da manutenção da vida aparente, assim como faz um perfume à fetidez do corpo. Grenouille é, como alegoria, aquele de quem nada se pode esconder; de quem ninguém consegue escapar; e quem, conforme se narra no clímax da história, ninguém pode matar, exceto se for de seu desejo morrer. Grenouille é aquele que não tem cheiro próprio, porém condensa em si mesmo todos os fedores do ser humano, e, por todos esses motivos, é uma das personagens mais fascinantes da Literatura.
Grenouille fica anos ignorante de ser inodoro. Todavia, talvez (na minha leitura) por causa tanto dessa característica quanto dessa ignorância, passa a categorizar o mundo pelos aromas, a despeito de sempre ter sido insensível à vida ou à inanimação daquilo que os emitia. Os cheiros, uma vez sentidos, eram categorizados e possuídos como peças de um universo particular e íntimo, dentro do qual ele existia e imperava como um deus real, onipotente e tirânico. A fuga interna de Grenouille e sua capacidade de sobreviver a praticamente tudo amplificaram sua sociopatia num ódio à humanidade, cujos odores detestava até aquele momento, o que foi o primeiro passo para ele se tornar um assassino em série: a vida que portava o cheiro importava tanto quanto um frasco de perfume e tinha a mesma descartabilidade daquele. Após se sentir patologicamente atraído pela fragrância natural de uma jovem, ele a persegue e a mata a fim de se apoderar daquilo que, até então, era o mais precioso bem de suas posses interiores: o cheiro da beleza e do amor, a essência da única coisa que dava sentido àquela existência infernal à que estava preso (“Cem mil perfumes pareciam nada valer comparados com este. Este perfume único constituía o princípio-padrão a partir do qual se deviam classificar todos os outros. Era a beleza pura.”). A partir daí, seus atos eram todos direcionados à captura dessas essências. Aprendeu a profissão de perfumista, mudou-se para a cidade de Grasse e lá desenvolveu uma técnica particular para a materialização em óleos essenciais dos cheiros das mulheres que matava a fim de extraí-los.
Porém, há uma chave para que ele se dispusesse a tal empreitada. Süskind cria um momento em que há uma percepção íntima de Grenouille de que era, de fato, um ser miserável, malgrado a divindade que manifestava onipresente em seu mundo interior, o único que, até então, importava. Em Grasse, ele sente o cheiro de uma jovem que se sobrepunha a todos os outros. O pai desta, pressentindo que a filha poderia ter o mesmo fim que as outras mulheres assassinadas misteriosamente até então, empreende uma mudança com ela para um local secreto, porém Grenouille parte em seu encalço, guiado pelo perfume da moça. Essa obra me capturou na primeira página e se mantém em mim desde a primeira leitura, ali no final dos anos 1990. Contudo, é nessa passagem da narrativa que ela se torna especial para mim por identificação e criação de uma intimidade com Grenouille, não, obviamente, pelos seus atos, mas sim por seu inferno. Durante a sua ida a Grasse, ele passa por uma região bastante inóspita e se dá conta de que está num lugar em que não há, absolutamente, cheiro de nenhum ser humano nem de civilização. Estava distante de tudo o que lhe era pérfido e deletério, estava desobrigado de sentir o que lhe sufocava naquela miséria de vida e de forçosa interação humana. Estava livre. Nesse ponto, sente-se inclinado a desistir de seu intento e passa a seguir o seu olfato neste sentido: iria para o lugar onde houvesse a mais intensa esterilidade. É nesse ponto que encontra a caverna. Nela, ele se entoca e ali passa um longo período a existir unicamente em seu reino interior, rodeado e servido pelos cheiros dos quais se apropriara até aquele momento, inclusive e principalmente, o da primeira mulher que matara. As outras funções e necessidades corporais não lhe importavam. Alimentava-se de musgos e bebia água da chuva apenas para manter exteriormente a viabilidade do paraíso interior. Ele mesmo ela um frasco de tudo aquilo que tirara do mundo que tanto tentara lhe tirar a vida. Estava, em suas particulares concepções, em paz. A história foi adaptada para o cinema em 2006, num filme homônimo muito bem dirigido por Tom Tykwer, roteirizado por Tom Tykwer, Andrew Birkin e Bernd Eichinger e protagonizado com excelência por Ben Whishaw, porém — não sei se por escolha ou por impossibilidade narrativa —, ele falha em retratar esse recorte. Não há, no filme, as imagens do paraíso interior de Grenouille: a servidão que ele impunha aos cheiros, os quais representavam todo o mundo que lhe era conhecido e dos quais se vingava em seu absolutismo divino; e as fantasias de poder que o assomavam em decorrência de uma vida inteira de sobrevivência a crueldades e à miséria, de privações e de desumanização. No livro, esse é o instante em que se percebe o quanto Grenouille representa a gigantesca “caterva” de miseráveis cuja existência deve ser aniquilada pela “normalidade” do mundo, exceto, é claro, se estes lhe servirem a algum propósito, como ele próprio servira a todos os que foram responsáveis por ele ou seus patrões, desde Madame Gaillard, que era paga para mantê-lo no orfanato, passando por Grimal, que lhe explorava em seu curtume, até Giuseppe Baldini, em sua perfumaria, todos mortos posteriormente ao seu desvínculo com Grenouille. Süskind nos mostra que, quando Jean-Baptiste se percebe vazio, desespera-se, pois há uma ruptura do limite entre o seu corpo, que era vítima do mundo, e seu espírito, que possuía um mundo ideal. Essa epifania o força a uma confrontação. A idealização desse mundo, na qual se dão as suas fantasias de poder e onde o amor e a aceitação por parte das essências escolhidas por ele do mundo acontecem conforme os seus comandos, não significa nada, pois, na realidade do mundo exterior, Jean-Baptiste percebe que nunca foi nem nunca será amado justamente por não possuir aquilo que vinha tornando possível amar o mundo: o cheiro. É, na narrativa, a deflagração dos atos posteriores que culminarão no clímax da obra, que não descreverei aqui.
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O motivo de O Perfume ter me marcado tão profundamente não se limita à inegável genialidade narrativa de Patrick Süskind. A relação entre o mundo exterior (o real) e o interior (o ideal) de Grenouille pode ser compreendida como a dicotomia significante-significado, ou seja, a dualidade entre a matéria e a transcendência, ou entre o mundo e as palavras, ou entre a crueldade da sociedade e a criação de monstros, ou ainda entre a natureza e a arte. Porém, para mim, ela atinge, quando o retrata, aquele sítio do espírito humano em que se constrói um mundo íntimo que torna possível a existência no mundo real. Esse universo interior começa como o refúgio de uma criança que não é aceita, que se sente deslocada num mundo que não lhe guarda nenhum segredo e que esse próprio mundo passa a tentar usar, a despeito do nojo que este nutre a ela por um medo intuitivo; ou descartar, quando esta não se lhe mostra mais útil. É o refúgio de Grenouille na caverna, para mim, o ponto mais alto da narrativa. Lá, ele abre mão da existência exterior, de seus desejos mais intensos, do trabalho de uma vida inteira, em prol de um isolamento no vazio da idealização. Não consigo encontrar na obra uma desesperança na vida da personagem que seja maior que essa, nem mesmo a desgraça, a miséria, a corrupção da vida e a morte. A fuga de Grenouille para dentro da caverna e para dentro de si é a desistência de si no mundo. A compreensão de que não possui um cheiro próprio é a morte de seu espírito, pois o entendimento de que, mesmo no ideal, a beleza e o amor daquela vida são ilusórios, uma vez posto que não há o que ser amado ou belo, destrói nele a única esperança de existência. A tragédia de O Perfume tem o seu apogeu no meio da narrativa, e todo o resto da história é uma tentativa do protagonista de reexistir, de se materializar, de trazer para o corpo o que, no espírito, era perfeito. Contudo, Grenouille não contava com o fato de que, assim como ele não possuía um cheiro a ser sentido (note-se: uma alma a ser consagrada ou um corpo a ser amado), a própria humanidade não possuía nenhum sentido que percebesse a sua essência (note-se: um céu para a alma ou um amor para o corpo). Aquela desesperança, que ele tentou aniquilar pela própria materialização, concretizou-se no total abandono de si, no vazio de existir num mundo em que a própria existência é vazia.
Jean-Baptiste Grenouille nasceu só, viveu só e morreu na consumição de seu próprio vazio (atentem ao final do livro), vítima de um encadeamento de decorrências post mortem em vida, como um séquito em que o próprio cadáver carrega o seu próprio caixão. O filme vale muito a pena ser visto, principalmente como uma prévia do livro. Já o livro é uma obra para se ler depois de ser lida, para além de si, dentro de nós, na construção de pontes entre o real e o ideal, ou entre o corpo e os seus cheiros.
09/05/24

