O ano era 1997. Fortaleza, bairro da Parquelândia.
Deveria ter ido trabalhar no meu empreguinho mixuruca de auxiliar de escritório de contabilidade com meu bom amigo e patrão, o contador Sr. Antônio Pereira Fortes, o qual passava pela minha casa a caminho do escritório no Edifício Palácio Progresso, no Centro. Porém, a natureza e o destino tinham outros planos.
Era, como hoje o é, meu aniversário, dia 24 de abril, e despencou sobre Fortaleza aquela que viria a ficar famosa como “a chuva do século”.
Minha cidade nunca teve um sistema de esgotamento adequado. Ela crescera, mas a conduta de seus gestores sempre foi como a de antes da criação do porto e das grandes secas do XIX e do XX. Nesse sentido, éramos e talvez ainda sejamos provincianos como à época dos vendedores de água, leite e peixe de porta em porta, conduzindo seus burros e jumentos carregados de bilhas e odres.
Foi uma catástrofe. Portões de alumínio foram arrancados das molduras, muros caíram — inclusive, o do Cenáculo que dava para a Gustavo Sampaio, minha rua, por cima do qual costumávamos pular a fim de roubar as mangas e os cajus das freiras, na quadra chuvosa, anualmente. Carros, motos, cães e gatos afogaram-se. Muitas pessoas ficaram desabrigadas, e registrou-se uma morte. Houve gente que perdeu tudo. Eu, não.
Ironicamente, havia ganhado meu presente catastrófico, o qual serviria de parâmetro para todos os meus futuros aniversários. Sr. Antônio, obviamente, não havia conseguido nem sair do Pirambu, bairro onde morava. As ruas eram rios, e aquela comunidade era das últimas no radar do saneamento básico municipal. Eu havia ganhado uma folga de um trabalho que, a despeito dos ótimos companheiros de escritório, detestava. E eu aproveitaria.
Saí à rua como a um açude. Meu bairro fora, havia séculos, uma grande lagoa, a Lagoa do Alagadiço. As depressões do terreno nunca foram terraplanadas por obras públicas — Parquelândia já limitou o município, quando ainda se chamava Coqueirinho, um “ermo” de riachos e lagoinhas, de vegetação densa e frutífera; daí, “progrediu”, primeiro como periferia para depois começar a gentrificar-se a um bairro de remediados (minha condição) e, finalmente, à residência da burguesia que não tem condições de Aldeotas, Meireles ou Papicus. Isso, aliado ao abandono da CAGECE, garantia, sempre em grandes águas, laguinhos de esgoto que se tornavam balneários de moleques e suplícios de seus pais.
No meio desse caos, estava eu dando braçadas onde, nos dias anteriores, voltava cabisbaixo e cansado de mais uma jornada de trabalho. Meus 23 anos não eram muito distantes, graças a Deus, dos meus 13 — era ainda um bom moleque. Abandonara alguma prudência e, apesar do medo, arriscava-me próximo às bocas de lobo e em subidas no meio corpo dos postes, dos quais alguns, já faiscantes.
No curso dessas jamais antes empreendidas aventuras, eis que surgiram fraquinhos, mas indistinguíveis, gritos de socorro entre os trovões e os coiós da canalha de que fazia parte: eram as dançarinas da banda de forró Calango Aceso, as “calanguinhas”, que moravam numa casa alugada na parte baixa de minha rua, onde, àquela altura do dilúvio, a água dava no peito. Heroicamente, como boas ratazanas, nadamos entre os toletes e os guabirus, desviando de chinelas extraviadas de seus pares e de tocos de oitizeiros boiantes, torpedeados da alameda da Av. Bezerra de Menezes, no intuito invencível de resgatar as jovens daminhas. Chegando lá, vimos, como boas calangas que eram, umas cinco ou seis atrepadas no muro frontal, “em tempo de uma arte” ou de uma tragédia. A água que descia do oitão da casa já havia deitado abaixo o portão de canaletas e elevava-se mais ou menos a 1,60m, e o muro seria o próximo. Eu mesmo carreguei duas no tuntum até um plano seguro, dois quarteirões acima, recebendo beijoquinhas leptospiróticas por gratidão.
Uma pena. Tinha apenas 23 anos, mas esperava mais. Um bocó, reconheço hoje. A segunda e a terceira maiores chuvas registradas em Fortaleza seriam em 2004, com 250mm registrados, e em 2024, com 215,1mm. Em 1977, choveram, em 02 de junho, 168mm. Essa, a do meu aniversário de 23 anos, foi de 270,6mm em apenas 13 horas, representando 79% de todo o esperado para aquele abril. Todas, no meu curso de vida — eparrei, Iansã! —, e uma, no meu aniversário, o melhor de minha vida, hoje bem sei. Outras bênçãos mandará Oyá, confio. Contudo, nunca mais choveu assim, por dentro do espírito, com enxurrada e navegações, nesta minha pobre, mas pouco comum, existência. Por isso, entre melancólico e grato, encerro esta croniquinha nestes meus, no dia de hoje, 52 anos de águas de Iansã, Nanã, Oxum e Iemanjá. Um agreste que nunca foi seco; um orvalho que nunca durou.
24/04/26
Fonte das imagens da catástrofe: sites dos jornais Diário do Nordeste e O Povo e página do Instagram @fortalezaantigamente.
Fonte das informações das chuvas: FUNCEME.
Fonte da imagem da capa do CD da banda Calango Aceso de 1997: site Letras.


















