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sábado, 31 de janeiro de 2026

A BELEZA DO QUE NÃO SE VÊ (UMA PEQUENA CRÍTICA A "A NATUREZA DAS COISAS INVISÍVEIS", DE RAFAELA CAMELO)

Rafaela Camelo - A natureza das coisas invisíveis (2025)
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    Rafaela Camelo escreveu e dirigiu essa delicadeza crua como quem resgata junto consigo toda uma legião de sentimentos extremamente frágeis, além de complicados de se abordarem, que concernem à maternidade, ao matriarcado, à infância, à transgeneridade, à morte, à transcendência, à espiritualidade, ao tecido da vida, suave como uma cicatriz exposta no peito de uma menina. O filme segue à risca a Lei da Arma de Tchekhov desde a primeira cena e segue se bordando numa cadência quase musical, em que o naturalismo e o realismo fantástico se organizam como harmonia e melodia, o que também se aplica às dualidades vida-morte e cidade-sertão.
    O elenco é maravilhoso (assim como a direção deste) e entrega interpretações que, além de cativantes, fogem dos lugares-comuns de seus papéis (mães solo, crianças deslocadas, idosos enfermos), já que suas personagens têm uma originalidade que anda paralela à verossimilhança, o que me convenceu de sua existência provável, mesmo com os elementos metafísicos presentes nelas. Destacam-se Larissa Mauro e Camila Márdila (as mães), Laura Brandão e Serena (as filhas), e Aline Marta Maia (a bisavó), além da deliciosa participação final de Chico Sant’Anna
(o bisavô).
    Além do mais, é um filme que usa na mesma trilha Milton Nascimento cantando Fazenda (Nelson Ângelo), Quero ser locomotiva (Jorge Mautner), por ele mesmo, e Fernando Mendes mandando Eu queria dizer que te amo numa canção (Fernando Mendes, Iracema Pinto e Miguel) com um sentido novo e muito mais lindo que o original, que nunca mais vai sair da minha memória. Não bastasse isso, conta com o auxílio luxuoso das Encomendadoras de Alma de Santana dos Brejos-BA, numa sequência tão carregada de significado que, por si só, já torna o filme extremamente interessante.
    É do ano passado, mas, certamente, já está entre os melhores que vi este ano. Assistam de coração exposto.

30/01/26

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

TARDINHA SERTANEJA

Foto: Mariana Noronha
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(Poeminho encomendado pela minha grande amiga Mariana Noronha, que pediu um verso e ganhou três quadrinhas.)

O rosa encarnado pintado no céu
é a noite beijando esse dia meu,
cobrindo seu corpo de negro véu,
deitando com o filho que adormeceu.

A carnaubeira, que vela o sono,
dançando no vento que pestaneja,
afaga o cansaço e o abandono,
no aboio ao lar que me sertaneja.

O dia durou mais que deveria.
No corpo e na alma, o tempo, também.
Feliz é quem tem a benfeitoria
de ser bem guardado no sonho de alguém.

27/01/26

domingo, 28 de dezembro de 2025

ORIKI

 

Ben Mackay - Wine Break
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a todos os que, sem saber nunca
― pois que, a saberem, não talvez o fizessem ―,
pavimentam meus abismos,
desarmam minhas mãos
e resgatam-me do fundo do mar,
o meu muito obrigado
no guardarem-me os caminhos
ao toque de Exu.
Laroyê!

28/12/25

UMA LICENCINHA À NOSTALGIA

Casa de Saúde São Gerardo, na Av. Bezerra de Menezes, em Fortaleza-CE (Arquivo Nirez - aprox. 1949).

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quando era criança, havia uma feira na rua cruzada com a minha.
o vendedor de peixes passava com enfieiras de porta em porta;
o leiteiro, o verdureiro, o galego, o vendedor de vassouras,
todos eles trançavam os caminhos do bairro,
costurando o cotidiano.

havia um poço em meu quintal,
e era minha grande responsabilidade
fazer a manutenção da bomba d'água,
e ligar, e desligar diariamente,
e isso me fazia importante.

a rua era de pedras calçadas.
passavam poucos carros,
mas bastantes carroças e alguns cavalos,

e o som da rua me dava a impressão
de que a rua era viva,
e as casas, e nós todos
tínhamos uma vida a ver
uns com os outros.

Dona Edmilsa, pequeníssima, de sorriso bom,
puxava a arrumação de cadeiras e senhoras na calçada
ali pelas sete horas da noite,

e assim nos espalhávamos em pequenos apinhados de gente:
as crianças, os jovens, os adultos, as quengas, os bêbados, os maconheiros,
os vendedores de algodão-doce,
os compradores de garrafas vazias e metais velhos,

todos vivendo por dentro e por fora
o que ainda não sabíamos valer tanto a pena.

26/12/25


quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

ESTRELAS DE NATAL

Estrelas-do-mar
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    É mais que compreensível a aversão ao Natal, assim como a todas as datas aniversárias. Há nelas um compromisso acordado por outros de que, compulsoriamente, os sentimentos devem ser sentidos e convertidos em pensamentos, e estes devem-se converter em interações, e estas, em autenticidade social.
    Desde as vésperas, já se força uma troca do eu natural ― este que se usa ordinariamente com os outros — por um alheio a qualquer naturalidade. Salvas as óbvias exceções, fala-se diariamente com as pessoas por conveniência, por contrato ou por afeto, e isso as situa nas agências e nas circunstâncias da vida. Dependendo de como funcionaram os traumas na socialização de cada um, essas interações ocupam lugares de cores e tamanhos bem distintos, e mesmo o desconforto de algumas delas se enquadra no que é a verdade de cada indivíduo, e isso tudo está muito bem.
    Porém, à chegada do Natal, que nem natalício é de veras, que nem relativo ao aniversariante também o é, colonizam-se os espíritos por um povo completamente estranho, estrangeiros de seus corpos, conduzindo estes a paródias chapa-branca dos que neles habitavam no dia anterior.
    Assim amputados, resta aos espíritos ver o outro, o incorpóreo, fraudar as verdades de que são feitos, em nome de estabelecimentos de sentimentos e ações pré-fabricados, importados, esterilizados.
    As redes sociais agravaram a tortura. Antes delas, podiam-se as pessoas esconder, fugir, sumir e reaparecer constrangidas, ou não, após as roedeiras dos ossos dos perus. Hoje, elas tornaram o escape uma ofensa ainda maior ao grupo mais solidário aos Jingle Bells. A vida virtual, o nosso presente 1984, tornou inviável a existência, ou, pelo menos, uma parte mínima, saudável, dela, apartada das agregações humanas. Nunca a solitude foi tão mal vista, nem a individualidade, tão ofensiva. Há sempre, ali pelas 22h, mensagens, videochamadas, ligações que instam o pobre escapista à reintegração às ocupações “festivas”, empurrando-lhe olhos, ouvidos e pele adentro um espírito que não é seu, ou melhor: que se escolheu não acolher.
    Todos os anos, a esta época, apinham-se picos de pressão arterial e de ansiedade à mera lembrança do estorvo que é não poder escapar ― exceto aos afortunados prévia ou geograficamente ilhados — dos assaltos, das invasões e dos sequestros a suas individualidades. Como consequência desse ultraje, assomam-se os ataques de pânico social, o surgimento e a potencialização da depressão e as violências autocometidas, que, por ocasião do “aniversariante”, são julgadas como consequências atribuídas à rejeição d’Este.
    Tenho muita pena de mim mesmo neste período do ano. Mesmo este texto, escrito tensionado como um arco de serra, requer a minha piedade. Nada em mim é como deveria ser. Não há espaço nesta vida, sob a qual tive pouquíssimo controle, para a manifestação do que poderia vir a ser o “meu” Natal, e acho que também não o há na vida dos incontáveis reféns de um zeitgeist tão tirânico e invencível.
    Resta a mim ― e acredito que a esses outros, também — a submersão desobediente num fundo inegociável do espírito. Daqui (ou de lá), como patéticos escafandristas, caminhamos com o peso das botas de aço no leito de nós mesmos, esperando contrafeitos a passagem da tempestade, dos trenós e das orações hipócritas que fustigam a linha d’água. No entanto, aqui, também há estrelas. Vivas e rudes, belas em sua natureza de autorregeneração, elas são capazes de nos lembrar de nossa íntima verdade: mais importante que nascer (e renascer) é Ser.

24/12/25

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

O PASSEIO

Amanhecer em Jati-CE, em 13/10/2025 (foto do autor).
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(Poeminho um pouco inspirado em “O grande passeio”, de Clarice Lispector.)

a tardinha ensombra a estrada
tudo o que fica, passa apressado:
a caatinga, as cercas do estado,
as gentes e seus Interiores,

mas as palavras desertoras,
queixosas no silêncio das frases imaterializadas,
essas viajam
passageiras de mim, assombradas

no rumo do mar

as paixões e o adeus,
a biografia,
as notas finais,
as orações,

são poeiras sem levante
das estradas que sequer existem,
mas cruzei,

e vão comigo
na matéria somente imaginada
que é o meu espírito

que longe é a praia!,
em que pese ela ser
este assento de ônibus
donde tudo se vê tão claro
e de onde tudo é tão bonito

15/12/25

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

O PARA-SEMPRE DO EXTRAORDINÁRIO

Cássia Eller - Espírito do som, 2021 (com alterações.)
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    Depois de tudo, resta a quase atingida esperança: o som há de ser a sublimação do extraordinário. O som, não a voz. Não o canto, o sussurro, a gargalhada. O som. O espírito, se fosse mensurado pela Física, seria finalmente revelado em sua consistência imaterial: ondas sonoras finalmente livres de sua fonte de emissão e, a despeito da eventual inexistência dessa origem, eternas como almas desprendidas do corpo.
    A ideia própria do som, o pensamento amorfo que antecede a palavra, presente na memória de uma voz ou de uma canção que persiste mesmo após a amnésia do que foram seus corpos — os verbos, as frases, os textos —: isso é a verdadeira essência. Lembro minha mãe cantando, mas sei lá qual música, sei lá os versos, a letra, nada!, só a voz, pura, cristalina. Da voz de meu pai, idem: um trovão confortável que nos guarnecia e assegurava a todos nós a firmeza de uma árvore. Combinados, os dois eram uma espécie de deus vibrante e primordial. Mas, nada de palavras; o som, apenas. Esse é o para-sempre do extraordinário.
    Ao longo da vida, tão barulhenta, tão ruidosa, os sons podem acabar se confundindo no caos — um Cronos devorando seus filhos: vão-se, um a um, os espíritos do maravilhoso sendo absorvidos pelas máquinas e pelos demônios que se apossam das pessoas e das frases. A indústria do mundo e suas engrenagens só são possíveis na insensibilidade da surdez. É necessário estrugir as almas dos homens para que se contentem com suas funções, para que o estrupício do mundo ocupe os ocos onde se calaram suas vozes, ecoando como pianolas autômatas compassando o dia a dia marcial do trabalho, da funcionalidade, da produtividade. Surdos a nós próprios, vagamos pragmaticamente, dançando no tempo marcado pelo chicote e pelo metrônomo.
    Há que se guardar o “espírito do som”, como diz a canção de Péricles Cavalcanti e Chico Evangelista, imortalizada pela Cássia Eller. Ocorre muito de imagens acústicas de uma canção se repetirem e repetirem no pensamento, enquanto realizo as tarefas diárias. Afinal, “o espírito do som brinca o tempo todo e é muito bom e feliz”, e a criança que eu fui é que a canta e depois escolhe outra, e outra… Ela não se entrega. Ela não me permite a rendição. Ela é que me salva os ouvidos do zumbido industrial do mundo e me permite a poesia.
    De som em som, vamos nos resgatando. O nosso destino é um aboio, solto e livre, condutor de nós mesmos. Uma sinfonia sertaneja, feita de rios em meio à caatinga. Há de ser.

04/12/25

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

VISITA ANUNCIADA

Vem, chega mais perto.
Faze-te de ar e me falta,
que já não fazes mais falta.

És familiar
como esse eu
que transita impune pelos espelhos.

Porém, é só o que te imponho:
ao contrário de mim,
não excedas a tua forma,

pois, ao que transbordo e sobejo,
essencias-te;
ao que me fragmento e abandono,
eternizas-te;
ao que me vou,
aportas.

Não te incomodes:
deixa tudo o que não és sobre o aparador
e vem,
pés descalços,
mãos vazias,
ventre oco.

Guarda aí o espaço que me reservaste.

Vê, eu te trouxe pão e tapioca
de longe, de quando éramos todos
filhos de nossos pais.
Tenho aqui um café e um punhado de estórias
que bem dão uma constelação a mais
em tua Noite,

essa Noite enorme,
mais clara que o dia,
que, há tanto, me anunciaste.

Que não fales,
que não rias,
que não digas os sabores de tua vinda,
não me importo.

Hoje eu escolho a prosa e o sorriso,
o monólogo suave e casual
diverso de tudo,
feito apenas de palavras inéditas
de uma língua recém-nascida.

Senta-te ao meu lado esquerdo,
que é onde fica minha saudade
― tão antiga e exata como tu —,
e deixa que ela também te fale um pouco.

Já não desespera;
está em paz.

Aqui, fico eu assim, em portas de domingo:
um riachinho reabrindo
o velho rio de minha vida.

Só para ti.

16-19/11/25

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

17 ANOS


    No dia de hoje, há 17 anos, fiz a primeira postagem do blogue. Escrever, até então, era uma retroalimentação afetiva e um eterno encher de gavetas reais e virtuais. Depois de assistir a uma palestra da escritora Ana Miranda com minha amiga Carmélia Aragão, na qual a autora falou sobre a importância dos silêncios da narrativa, nos quais o leitor tinha função criativa, decidi dar a cara a tapa (ou botar a cara no sol, o que, em Fortaleza, dá no mesmo) e me expor à leitura alheia. Desde então, eu me ocupo em imaginar quantas coautorias consigo provocar com esse compartilhamento de mim mesmo.
    Há 17 anos, resolvi começar a mostrar que sou, desde menino, outros, vários, múltiplos, infinitos, até quando durar.
    Obrigado a todo mundo pela complementação do meu silêncio e por tantos outros silêncios de que se faz a poesia.

06/11/25

terça-feira, 4 de novembro de 2025

CAMPO BRANCO

Foto: Gerardo Filho
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é preciso cuidar do invisível
do insensível aos amigos
à família
aos deuses

é preciso guardar o ofensivo
ainda que a ele infenso
mesmo que dele enfermo
que por ele constrangido
que a ele adverso

pois é no diverso
no contrapeso do que é útil
que sustenta o nosso frágil relicário
e resiste a sempre fina luz
da nossa impossível dança

que rejeita a festa
que enfeita a vida
no vento das solidões

é preciso deitar na água
é preciso desaprender a andar
é preciso captar a essência
anterior a si
mas que ainda vibra no gesto sem cálculo
na desordem suave
de um banho de mar

é preciso cuidar, enfim, do ignorado
mantê-lo dançando em salões vazios
sob a chuva fina por detrás dos olhos
por detrás da alma
nos campos brancos de nosso mais íntimo
sertão

04/11/25