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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

QUANDO SONHAR SE TORNA UMA CONQUISTA: UMA CRÍTICA AO FILME “SONHAR COM LEÕES”

Paolo Marinou-Blanco - Sonhar com leões (2024)
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    “Já não sonhava com tempestades, nem com mulheres, nem com grandes peixes, nem lutas, nem com provas de força, nem com sua mulher. Sonhava apenas com lugares e os leões na praia. Brincavam quais gatos pequenos no escuro, e gostava deles como gostava do rapaz.”
(Ernest Hemingway - O velho e o mar)

Ernest Hemingway - O velho e o mar
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    A palavra “eutanásia” vem do grego ευθανασία e é composta por dois radicais: “eu”, que significa “boa”; e “tanat(o)”, que significa “morte”. Permite-se aos animais em geral, quando estes se encontram em agonias e estertores irreversíveis, mas proíbe-se aos humanos, mesmo diante do mesmo fado. Já “suicídio” vem do latim suicidĭum, esta, uma derivada prefixal com dois morfemas principais: o reflexivo “sui” (“a si próprio”); e “cid(io)”, substantivação do verbo latino cæděre, que significa “cortar”, “deitar abaixo” ou “imolar” (“matar em sacrifício”). Desse verbo, também vêm os nossos “quedar” e “cair”, eufemismos bonitinhos para “morrer” — olha o “anjo caído” aí, geeeente! Há também uma relação conceitual entre cæděre e peccāre (“cortar/cair/matar” e “tropeçar/pecar”, nos sentidos originais) que é um pilar fundamental da moral cristã. Olhando graciosamente, o suicídio seria um tipo de “autotropeção” (fatal, por certo), como quando um arlequim finge uma queda em uma peça de commedia dell’arte, ao que se reergue em cambalhotas. Porém, quem, aqui ou além, vai aplaudir-lhe a audácia da acrobacia?

Paolo Marinou-Blanco - Sonhar com leões (2024)
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    O cinema costuma tratar ambas as mortes com bastante delicadeza. Às vezes, no sentido ruim da palavra. Ocorrem muitas pieguices, assim como dramalhões extensos e moralizantes, higienizados pela presunção de que os realizadores sabem mais sobre o tema do que ousariam revelar ao público geral. Sim, é necessário, além de cuidado, responsabilidade para não “tropeçar” na desumanidade da apologia à “automorte” ou ao “assassinato consensual”. E é justamente desse cuidado e dessa responsabilidade que está repleto o filme de 2024 Sonhar com leões, realização luso-brasileira dirigida por Paolo Marinou-Blanco e protagonizada pela maravilhosa Denise Fraga e pelo talentoso João Nunes Monteiro. Essa tragicomédia brinca com os tabus do suicídio e da eutanásia (enquanto suicídio assistido) e o faz com uma agudeza delicada, expondo de maneira — pelo menos, a mim — inédita no cinema. Gilda e Amadeu (Denise e João) padecem de cânceres terminais e frequentam um workshop de suicídios a fim de dar cabo aos seus respectivos flagelos. Contudo, fazem-no tanto incrédulos quanto desesperados, processo que o diretor conduz com o tom certo de caricatura debochada e de sensibilidade dramática. Nesse esteio, os dois compartilham suas experiências e angústias, além da certeza da insuportabilidade de suas “vidas” e do sofrimento pelo qual passarão até que elas, eventualmente, findem.

Paolo Marinou-Blanco - Sonhar com leões (2024)
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    As atuações de Denise e João são intensas, concentradas na realidade de pacientes terminais, porém com um fluxo quase literário (há uma citação, inclusive, da passagem de O velho e o mar, de Hemingway, que encabeça esta crítica-artigo). Denise também assume o papel de narradora onisciente (com quebra de 4ª parede e tudo), conduzindo as sensações de ambas as personagens de modo a nos fazer enxergar suas desventuras pelas suas próprias perspectivas, que transitam pela desesperança, pelo ridículo, pela empatia e, inclusive, pela moral. E é nesse ponto que o filme prima, ao meu ver, mais que em qualquer outro. A ótica moral desse assunto tão delicado não se submete à nossa aceitação; ela se impõe. É a dor, é o cansaço, é o medo dos protagonistas que são expostos em contraponto ao senso comum sobre o suicídio e a eutanásia. O roteiro trata a propriedade sobre a vida e a morte sem questionar o inerente pertencimento destas aos dois protagonistas, utilizando, para que isso fique bem claro, a canção Maracangalha, de Dorival Caymmi, cantarolada por Denise numa das cenas mais lindas do filme. Gilda e Amadeu nos dão uma lição de vida, de sobrevida e de morte que, mesmo com o tom sarcástico da obra, não nos pedem licença para ser aprendidas. É uma abordagem que fere (ainda que jocosamente, assim como o fez Mar adentro, filme de Alejandro Amenábar de 2004, ao qual me pareceu haver uma pequena homenagem) no cerne da moral cristã de uma sociedade que evita o debate sobre a propriedade do corpo, da vida e da morte, tratando o acesso a esse assunto como um pecado em si.

Paolo Marinou-Blanco - Sonhar com leões (2024)
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    Sonhar com leões é um filme, acima de tudo, corajoso de uma coragem rara: ele não apenas trilha caminhos “proibidos”, cinematograficamente falando, mas também os desbrava dentro de nós, mostrando que precisamos percorrê-los para compreender o valor da vida. Sua abordagem do pré-luto de uma morte galopante e da autonomia de quem é agônico dessa morte é feita não só com destreza, mas, principalmente, com respeito e cuidado, dada a responsabilidade com que devem ser tratados o suicídio e a eutanásia, fazendo que nós nos questionemos sobre a propriedade que precisamos ter de nossa própria vida, o que deve ser encarado como uma prova de amor a ela. Afinal, é necessária muita coragem para afirmar que “tropeçar” também é caminho. O único ponto negativo (é uma questão muito pessoal) do filme é a captação do som direto, principalmente das falas com o sotaque do português europeu, que me desconectou um pouco das cenas. Contudo, isso não desmerece em nada o valor de uma obra que me capturou do início ao fim, suscitando luzes em pântanos antigos de minha história.
 
Paolo Marinou-Blanco - Sonhar com leões (2024)
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    Assistam agradecidos.

15/02/26

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

GIGOT

Gigot (Gene Kelly, 1962)

      Fico me perguntando se a vida adulta consiste em arrependimentos e tentativas de fazer as pazes com a criança que se foi. E em inventar nos caminhos adiante — não se pode voltar — tesouros artificiais que substituam os verdadeiros, os que caíram e quebraram, os que foram varridos com o lixo da casa, os que se perderam nesse afunilamento que é envelhecer.
    Era a primeira metade dos anos 80, a “década perdida”, quando nós éramos “programados a receber o que vocês nos empurraram com os enlatados dos USA, de 9 às 6”. A diferença é que era madrugada. Minha mãe tinha esse hábito dos solitários, o de ver filmes enquanto todos dormiam. Valia a pena ser solitário junto dela. Minha mãe calava a revolta e as frustrações da vida simplificada no seu dia-a-dia de dona de casa cuja promessa de felicidade fora substituída pela servidão e pelo abandono matrimoniado. Em suas tentativas de conciliação inúteis, ensinou-me a calar também. Aprendi a revolta que vive nas covas do silêncio. Mas também foi nessa época que comecei a aprender o silêncio, a imaginação e as paixões que vivem dentro das estórias que começara a partilhar com ela na frente da tevê. Eram tantos filmes, e tão bons, tão ilimitados! Não havia quase nenhuma restrição de conteúdo; víamos de tudo: tragédias, épicos, pornochanchadas, comédias pastelão. Devo à minha mãe esse amor ao Cinema que tenho hoje, ainda que bastante empoeirado e desanimado, essa capacidade de viver outras vidas que roubou da Literatura e da Música o meu espírito.
    Hoje, assisti novamente, depois de uns quarenta anos, a um pedaço tão bonito dessa minha infância, um filme tão triste, tão tocante e revoltante, tão lindo. Pensando bem agora, talvez tenha sido a minha primeira experiência com o desespero e o desalento diante da injustiça e da hipocrisia. Claro, uma experiência projetada. As reais vieram a cavalo, em seguida. O filme se chama Gigot. É uma produção lançada em 1962, um clássico que tem lugar na França e foi idealizado e protagonizado por Jackie Gleason, que também compôs as músicas temáticas, e dirigido lindamente por Gene Kelly. A personagem principal, que intitula a obra — “perna” (de cordeiro, geralmente), em francês —, é um homem mudo, gordo, enorme e extremamente bondoso, simples e gentil, ridicularizado por todos do seu bairro, os quais, em virtude de sua incapacidade de se impor, se aproveitam dele com uma condescendência tardia, mas nunca suficiente para se tornar uma piedade. Tomado por deficiente mental, é envolvido numa cadência de desventuras que lembram as de Quasímodo, de O corcunda de Notre Dame (William Dieterle, 1939) — ao qual também assisti com minha mãe —, porém com um falso final trágico, em que ele é dado como morto, e o seu gorro, a sua única peça de roupa encontrada após uma perseguição cruel, é enterrada pela mesma multidão que o perseguia furiosa. Era típico dos roteiros estadunidenses dessa época tratar os dramas e as tragédias como intensidades que deveriam sempre ser quebradas, ou seja, havia alívios cômicos constantes durante as narrativas para que as obras, ao final, entretivessem mais do que chocassem o público. Isso sempre me incomodou. Filmes como Papillon (Franklin J. Schaffner, 1973), Os três mosqueteiros (George Sidney, 1948) e A ponte do Rio Kwai (David Lean, 1957), por exemplo, têm momentos de comédia salpicados na sua cadência, o que hoje cansa, desestimula e até atrapalha a imersão na trama principal. Contudo, a fusão do entretenimento à arte, o conservadorismo cultural e o excesso de musicalização e teatralização eram bastante normais para os espectadores dos cinemas, que talvez não digerissem bem uma obra mais densa sem esses “enquadramentos”, e isso poderia até significar o fracasso financeiro da obra.
    Por isso, é necessário sempre tentar, pelo menos, adaptar a percepção à do público-alvo da época do lançamento ou da publicação de qualquer obra artística. Se Gigot fosse feito hoje, respeitando-se o drama e a reflexão que ele visa promover, encontraria um cinéfilo diferente do de 62 neste aspecto: ele poderia apreciar a obra se ela se desvestisse da suavização e se apresentasse crua, amarga, naturalista, mais próxima da natureza humana e de suas patologias. Reconheço que o grande charme do filme não se perde, mas eu sou bastante suspeito nesta crítica, já que assisti a ele menos de 20 anos após o seu lançamento, e ainda era bastante usual se manterem aqueles recursos narrativos no início dos anos 80. Era uma transição. Star wars era uma grande novidade, e todo mundo queria ter a BMX do E. T., contudo ainda se possuía a grande inocência de se vibrar com os filmes de kung fu e de se pôr febril e amarelo com Emanuelle. E é nesse caldo de experiências que se está a delícia da redescoberta das obras. É assim que quem é da minha idade consegue habitar ao mesmo tempo dois, três, vários corações: catamos de volta os olhinhos de nós-meninos e, de novo, podemos chorar com a mesma legitimidade original, com o mesmo espírito que os filmes ajudaram a construir, e essa emoção é o que o cinema tem de mais precioso a oferecer. Minha mãe, meu silêncio e o dela, meus tesouros, tudo se reencontra aqui, nesta cama, com este laptop no colo, num único corpo repleto de espíritos.

?/2020-02/2021