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sexta-feira, 31 de outubro de 2025

SUVENIR

 
Chaveiros que comprei em Recife há uns 25 anos.
 
espalhei pela casa suvenires
frutos há muito arrancados
de pequenas felicidades

pistas, miolinhos de pão
marcando o caminho
sem volta

minhas pedrinhas miudinhas
me esqueceram de Aruanda
me esqueceram nos vasos de plantas
nos fundos dos bolsos
no fundo do mar

seja eu também, talvez
uma pedrinha miudinha
que nunca viu baladeira
nunca matou passarinho
nunca correu sobre as águas

na mão abandonada do menino
que me colheu como suvenir
para não crescer só

e que não cansa de olhar o mar

31/10/25

sábado, 17 de maio de 2025

SEIXO ACIDENTAL

Pedra de quartzo rosa coletada de um canteiro central de Fortaleza.
(Clique na imagem para ampliá-la.)

não é meu o corpo
de que sou sombra,

tampouco o chão
onde me deito
o é

esta tarde, este sol
e este equador evaporante
me carregam pelas calçadas,
por entre os carros
e por debaixo das portas:

folha e pó,
que o vento esquece por aí
em algum de seus quarenta graus

fico, me greto
nas falhas dos rodapés

me varrem,
e assim faço parte
das casas que visito

o que é meu
são o caminho para,
o espaço entre,
a divisão de
e a distância a

isso de ter de ser
é como dar nome a bicho,
a planta, a vento:
desculpa a vida

aceito o acidente de ser
apesar do corpo,
apesar das roupas
e dos bons-dias

e, apesar de todo o adeus
que me acompanha,
saúdo desconhecidos,
trabalho a palavra,
frequento hostilidades,
cato seixos de quartzo e mica,
búzios e refugos abandonados
por mudanças alheias
e me muno de luz e som
por toda parte
todo o tempo

ser por um acaso
e, por várias vezes,
deixar de ser
acabam por doer intenso,
mais que viver
propositalmente,

porém é daí que tiro
voz, palavra e silêncio,

e todo o pouco que sou
— sem corpo, sem chão,
sem nome —,
simplesmente, acontece

17/05/25

domingo, 30 de março de 2025

RASCUNHO DE ÍCARO

Pink Floyd - Us and Them
(Clique no vídeo para abri-lo em nova aba e na legenda, para acessar a página de origem.)

Com que mais foste, em tal estado,
a marca finda em tua casa,
deitaste a mão em planta rasa,
e um novamente é rabiscado.

E, traço a traço, lado a lado,
ergueste a ideia sobre a brasa
e deste adeus à velha casa
igual quem mora em chão roubado.

És todo sonho, és todo fado:
a pena antecedendo a asa,
batendo como quem se atrasa,
num céu que azula imaginado.

Donde vieste, um não! e um brado.
Onde acabaste, nada abrasa.
E, ao Sol, que acima te desasa:
renasces ar, sem ser alado.

30/03/25

quinta-feira, 6 de março de 2025

DO LADO OPOSTO DO MAR

Raimundo Cela
(Clique na imagem para ampliá-la e na legenda, para acessar sua página de origem.)

    Lembro de ouvir meu pai dizer, num desses diálogos que não têm âncora no tempo, que eu tinha uma bomba na perna esquerda. É dessas coisas que só pai nota e que só pai diz. E foi dita na hora certa, pois ficou. Atestou-me. Eu, apesar de destro, era um canhoteiro, decretara meu pai. Muita coisa importante virou vento, muita virou furacão: assim é a palavra, quando o portador é alicerce, coluna e teto. O vento motiva a vela, afresca a pele, seca a lágrima. Torna o dia um dia bom. O furacão averte o mar e cria homens de terra, de pedra, homens-recife. Dos ventos, eu me lembro disso e de ouvi-lo dizer coisas como “o mar não tem cabelos” e que nunca me deixaria afundar. Já aos furacões, resisto, e só.
    Que homem só foi o meu pai. Que homem só eu me tornei. Minha perna esquerda, que hoje é o meu tronco, o meu mourão, ainda me suporta. Na beira do mar, é ela que me ancora. Fateixa de pau-e-pedra, guardando as minhas partidas. Ainda assim, quando olho o mar, procurando não ver ninguém, eu os encontro no sargaço, na maresia, nas vagas. É na ausência que estão meu pai e todos os meus fantasmas. É no obscuro das saudades que arrebenta o furacão de quem não partiu.
    Digo isso da perna esquerda porque, há dias, as dores da direta me dilaceram. Há uns quinze anos, tive nesta um derrame que me custou a sustentação e causou o subsequente definhamento muscular. Além disso, quando tinha uns sete de idade, meu pé direito foi moído pelos raios de uma roda de bicicleta e nunca teve os ossos soldados corretamente, o que me fez conviver com a dor de ficar em pé desde então. Bem recentemente, talvez resultado da má prática de esportes, a articulação do meu ombro direito vive em eterno estado de inflamação, o que me limita os movimentos consideravelmente. Além do mais, tive as duas fraturas na mão direita: uma, resultado de um jogo de vôlei de rua; outra, de uma surra que dei num dos dois únicos ladrões que me roubaram. Isso, sem levar em conta os inúmeros acidentes com facas, anzóis, ferramentas e outras pequenas mutilações ao longo dos anos. Tudo, do lado direito. Agora, espasmos elétricos de punção e fogo na perna direita me agoniam e me fazem pensar se não é nesse lado, à guisa de tiracolo, que carrego meus furacões. Ou se é por aí que eles me carregam. Será que é o mar, o mar alto, a rota aonde eles me fustigam? Será que a minha firmeza, que me finca e sustenta, não me estaria negando o desdobramento de um confronto real com a procela? O que eu seria depois de todos os embates e massacres que nunca me foram impostos lá, após a arrebentação, passando a costa, no além da ausência dos espíritos?
    O que meu pai talvez sentira e nunca me dissera é que aquilo que resta ao homem que evita o mar é a erosão. É ir se desmanchando em areia e fazer parte do chão da praia, parte do mar, parte da terra. Talvez, por outro lado, existam muitos mares menores onde navegam os homens que são o que são, e nada mais: funcionários, pais, bêbados, vagabundos — homens de poucas metáforas. Ou ainda, que o mar grande seja uma maneira de existir ausente, um lar reservado apenas para o depois.
    Eu amei o mar por meio do meu pai. Pela sua mão, perdi e ganhei o medo dos afogamentos; pelo seu olhar, aprendi o respeito e a medida segura de atrevimento. Porém, hoje, aqui, seguro, sou fustigado pelos furacões que deveria haver apenas lá. Gostaria de lhe dizer que, como na maioria das coisas de que me lembro dele e das quais aprendi com ele, existem no homem e na vida dois lados, duas forças que se encontram sem muito conflito, mas cujos violência e desastre se acentuam conforme nelas se adentra
— sobretudo, quando essas forças são menosprezadas no cotidiano, na paciência com que a onda converte o recife em areia fina, na agressividade imóvel de quem olha o mar dolorosamente.
    Sem esse modo de amar, contudo, o outro que eu seria — talvez sem dores, talvez sem senso — não saberia o que é esse cruzamento da fronteira divisória do homem: tudo que sei de mim foi costurado e ponteado pela dor de permanecer e pela angústia de não partir. É possível que essa seja a condição real do homem e que não existam marinheiros, exceto em fantasias e delírios de poder. É possível, portanto, que a natureza da vida sejam este fremir de nervos e tendões, estes ossos tortos e toda a sorte de concretudes físicas que me ancoram na rocha do cais.
    Entretanto, é também possível que este modo de amar o mar seja a única coisa que possibilite a existência do mar. O largo imenso donde olho o mais imenso; e, nesse mais imenso, o verdadeiro outro lado. Não os sei, mas suponho os ventos que sopraram meu pai. Todavia, é da natureza dos homens sós, isso eu sei por certo, costurarem eles mesmos os farrapos de suas velas ao mesmo tempo em que trançam os cabos de suas fateixas. Resistir também é um modo de navegar.

06/03/25

sábado, 14 de dezembro de 2024

VINTE POR NOVE


escrever é um trabalho que me dou
sem a preposição a
objeto direto regido por verbo
bi
tran
si
ti
vo

presente que se dá
num acontecimento
maior que eu

porém e porque
carrega uma vida inteira pretérita
e imperfeita

não sou como o homem
que vai ali e compra pão
que atravessa a rua
que banha a quinta-feira
com sabonete para a sexta

monto o meu calendário de cubinhos
e o dia virado
é quando digiro o pão
comprado amanhã

a fome não cabe no texto
a fome é o texto
devorando tudo

enquanto escrevo, observo
como se não fosse só
a palavra que me veste

escrever é o trabalho de queimar
as roupas na fogueira
a identidade
os dentes de leite

é montar vigília à espera
da escuridão

14/12/24

quinta-feira, 21 de novembro de 2024

O MENINO E A NOITE

    Quando comecei a escrever poesia, tinha um pouco menos que a idade atual de meu filho, Miguel, e um pouco mais que a de minha Clarice. Fui incentivado pela minha irmã Malu a datilografar meus textinhos na velha Remington 25 que papai comprara para as filhas, na qual eu brincava de ser escritor. Honestamente, eu me divertia com isso muito mais que hoje. Era um pequeno calhamaço de poeminhas bobinhos que eu intitulei Poemas de uma criança, da Editora Estrelinha, meu único empreendimento digno. Nessa época, eu também comecei um romance que chamei de A guerra dos meninos. Nunca terminei. Talvez, porque já começava a me bandear ao lado do exército inimigo. Também me aventurava em histórias em quadrinhos que eu mesmo diagramava em bloquinhos que confeccionava com folhas velhas de meus cadernos escolares. A principal era a da águia Cry, que sempre mudava de forma entre os quadros. Desenhava o que me vinha à mente, fosse concreto ou abstrato. Peguei gosto pelos super-heróis, pela anatomia humana, animal, pelas formas geométricas, pelas flores. Sempre tentei, sem sucesso, desenhar a noite, mas foi na poesia que tive êxito. O caso é que, nesse momento, a Noite já era outra. A escuridão e o espaço, uma vez palavras, ganharam gravidade, peso, forma e força. Entendi, então, que eu era mais da Noite que do dia, que a ausência do meu amado sol de litoral era muito maior, muito mais íntima que minha relação com ele. Dei a Ela minhas mãos de já pré-adolescente e, a partir daí, ainda que sem saber, passei a dar a tudo que escrevia um tom de ausência, um adeus. Minha escrita caótica foi motejada pela despedida como se, em cada poema, eu me despedisse de mim, ou dos outros, ou das palavras, ou de tudo.
    Hoje, minha literatura tem o encargo de me explicar, de me narrar. O peso do testemunho de quem sou e fui, do que sinto, vejo, amo, penso e odeio tornou-se monumental de tal forma que escrever, há muito, vem deixando de ser produzir e passando a ser descarregar. Escrevo como se tirasse autoesculturas malfeitas de minhas costas, peças que me decompuseram e que me espedaçaram porque são feitas de mim, e que, por isso, me enfraqueceram o espírito mais que me aliviaram de sua sobrecarga. É por esse motivo que não me encontro mais no que escrevi. Em cada texto, em lugar de haver um reflexo ficcional do eu-autor, há os meus pedaços que ele deveria refletir. Eu estou lá, pois sei que eles são meus, mas sei sem sabê-los, sem me lembrar deles. Eu fiquei lá, esculpido, forjado, amalgamado, e a memória do que eu fui não os alcança mais. Ela ficou lá, encapsulada, criptografada. E é esse mistério, essa antologia de lacunas das quais também fui me despedindo, que me pesa ainda mais que quando elas estavam preenchidas aqui, em forma de lava. Lá fora, como vidro vulcânico, são obsidianas cortantes que me sangram ao toque. Revisitar velhos poemas, como fiz há pouco, é como um masoquismo, uma automutilação, uma nostalgia de algo que sempre me espanta e fere, pois o encontro com quem fui é sempre um encontro de estranhos: o eu-cá, curioso e pasmo; o outro, expatriado, arredio, indignado, beligerante.
    Mas, nem sempre. Há vezes em que escrever é confeccionar uma roupa, um uniforme ou um disfarce — às vezes, apenas um cobertor, quando preciso me apartar da Noite. Tirar a própria pele apenas para ver como sou. Depois, vesti-la sobre um eu-novo ainda anônimo e amorfo. Andar, então, pelo presente, vestido de passado, protegido por mim, disfarçado de mim. Escrever, assim, pode ser vestir-me com meu próprio fardo e crescer a carne nova em paz, sem que ela seja cicatrizes.
    Tão diferente vim me tornando quanto vim me descrevendo. À medida que me livrava de mim, vim me acumulando, obrigando-me a reconhecer-me em minha trilha de migalhas de pão. Quanta saudade de quando escrever era como acender velas na escuridão da casa, revelando a mim mesmo nas sombras projetadas na parede. Foi assim com o desenho, com a música e com os primeiros textos, antes que a Noite obsoletasse as paredes, a casa, a cidade, até mesmo, a noite lá de fora. Assim, toda tessitura e toda composição foram estruturando uma nova casa, que cresceu a uma cidade, que evoluiu a um país, assim como o reino dos cheiros de Jean-Baptiste Grenouille, com a diferença de que, lá, todos foram capturados, ao passo que, cá, fomos todos abandonados. Dessa forma, escrever também pode ser um fenômeno biológico como um tipo de meiose, por meio do qual cada texto, ainda que um haicai, é um eu diferente de mim, porém, um componente de mim exteriorizado, e, ao me fragmentar para compô-lo e livrar-me dele, acabo por tornar-me um organismo formado inteiramente de corpos estranhos, células oriundas de uma tentativa de amputação que culminaram numa espécie de eu-colônia ou eu-mosaico.
    Escrever sempre é tentar definir-me por meio de mim e do alheio. Coisas, lugares, pessoas ou experiências, por mais que eu tenha a intenção de denotá-las, acabam por ser uma escusa para falar de mim por intermédio delas, como se fossem todas lentes ou janelas que sempre dão aos cômodos da casa do eu-autor, incluindo-me eu próprio nessa mediação. Nesse último caso, a composição é uma viagem em que o eu-autor é o mar, o barco e o barqueiro, e, chegando lá, nessa terra nova, tenho a sensação muito nítida de descoberta e desbravamento, pois aportei numa revelação de mim mesmo completamente inédita: um eu-mesmo que é outro. Provavelmente, a cada novo texto, a cada novo desenho e a cada nova música, eu vinha criando a mim mesmo, gerando um eu-que-seria, mas, simultaneamente, vinha me despedaçando em vários eus-textos que deixava para trás. Por isto, é tão preciosa aquela criança que datilografava como quem pavimenta o próprio caminho: é dela que não posso me perder; é ela que busco nas releituras; é com ela que preciso me integrar para vagar na Noite. Portanto, escrever é o paradoxo de destruir-me para criar(-me). É multiplicar-me para diminuir-me. É sobrecarregar-me para ser leve. É crescer para tornar-me novamente criança.
    Procurei, outro dia, aquele calhamaço da Editora Estrelinha, sem sucesso. Sei que não o perdi. Está em alguma caixa ignorada em várias mudanças. Gosto de pensar, porém, que não é uma caixa ou um envelope. Gosto de pensar que é uma casa oculta nessa cidade que virou país, uma casa toda feita de lembranças, de onde foram retirados os tijolos para a construção de todas as outras, e, por isso mesmo, imaterial que se tornou, é tão difícil de se encontrar. Lá, quando regressar, vou reler os quartos, o quintal, os vãos de sonho que foram originalmente dormidos. Vou deitar novamente na rede em que as palavras me embalaram pela primeira vez e vou reconhecer-me como o mais distinto semelhante, o mais próximo distante, o mais eu-mesmo que o outro pode ser. A Noite, como agora há pouco, vai parir o dia, e poderemos, talvez, escrever sobre o sol que nasceu no mar e sobre a primeira vez em que nos vimos cara a cara.

21/11/24

quinta-feira, 26 de setembro de 2024

BEIRA

Beira da estrada,
beira do mar:
um olhar abraça o outro,
e duas solidões se beijam
— duas partidas sem porto,
duas jornadas sem retorno,
dois confins.
E uma só ida para viver.

26/09/24

terça-feira, 25 de junho de 2024

INESCAPÁVEL


o dia está lindo
não há mortos nas ruas
nem abandonos nos bares
todos os animais têm seus donos, e todos os bebês, seios
não há fome nos pratos
nem pobreza nas mãos
os carros, gentis, trafegam com o único ruído inevitável
os escritórios acolhem
as escolas acolhem
as igrejas sublimam
e tudo, cada qual com sua paz, resulta
na harmonia e na intransmutabilidade das almas
com os corpos
o ódio, a miséria dos homens,
a soberba e a egolatria
são contos em histórias de muito longe,
quando o mundo era apenas aqui
e nada era possível

hoje, o dia é lindo
e a vida é a grande certeza
inescapável

07/05/24

domingo, 23 de junho de 2024

O ESPELHO DA SALA


o espelho da sala precisa de mim
por isso, permito
que me desfragmente no conjunto imperfeito
das partes que, tão cuidadosamente,
rendi ao despedaçamento
de ir esquecendo-me
aqui e ali
no alheio dos cromos de espelhos estranhos
onde deixo refletidas
coisas que vou deixando de ser

todas, inúteis
talismãs num relicário
nenhuma, digna de fé

mas o espelho me agride
o espelho da sala me comprime
à unidade compreensível e inequívoca:
uma imagem para um nome
um papel-carbono certificante
de uma certidão de nascimento
de pequeninos diplomas
de menores ainda documentos
incontáveis e obsoletas células cartoriais
componentes do reflexo
de que precisa tão desgraçadamente
o espelho de minha sala

verifico as aranhas e suas teias
o mofo e o grelado
as gretas e os cupins:
tudo está conforme

asseio o cabelo e a barba
enchapelo-me
asseguro-me de meus patuás
e o abandono como de costume

mas o espelho sempre me aguarda
no escuro ou no claro de minha sala
no ofício pueril de precisar de mim
como se em si me resguardasse
como quem sabe, mais que eu,
a preciosidade de existir

22/06/24

quinta-feira, 9 de maio de 2024

A CAVERNA DE GRENOUILLE

(Clique na imagem para ampliá-la.)

    Em seu romance Das Parfum - Die Geschichte eines Mörders (Perfume - a história de um assassino), de 1985, Patrick Süskind cria uma personagem descrita por ele, exegeticamente, monstruosa desde o nascimento, quando, com seu primeiro choro por vida, condenou a mãe à morte pela tentativa de infanticídio. Porém, o autor também denota que a mãe era uma vítima da miséria, tendo, sifilítica que era, parido vários natimortos, com um dos quais, naquela ocasião, havia confundido Jean-Baptiste Grenouille, o qual deixara cair como supostamente morto entre as vísceras de peixe sob a sua banca de feira num dos lugares mais imundos da Paris do século XVIII. Essa dicotomia entre a “inata” maldade de Grenouille e suas posteriores misantropia, sociopatia, egolatria e, finalmente, psicopatia e criminalidade; e os fatores ambientais e sociais que tornavam a sua sobrevivência praticamente um milagre — os que não o tentaram matar tinham-lhe um asco imediato, o que lhe atribuía uma subumanidade — criou uma alegoria riquíssima de um continente, de uma época e das relações entre a marginalização e a criminalidade condensada em uma só personagem.
    O realismo mágico da história tem lugar na descrição dos “superpoderes” de Grenouille: seu olfato, que tinha uma apuração fantástica, transpondo os limites da realidade desse sentido a ponto de perceber tudo (inclusive o que, para pessoas normais, sequer tem cheiro) até mesmo através de paredes e a distâncias enormes; e sua resiliência a uma sociedade que lhe era ininterruptamente cruel e assassina. Esse superolfato tem sua contrapartida em outra característica mágica de Jean-Baptiste: a sua total ausência de cheiro, e isso, que era inexplicável a quem quer que tivesse contato com ele, visto que era impossível, tinha outra consequência, também mágica: a rejeição imediata àquela criatura, até mesmo pelo padre responsável por atribuir a alguma ama a manutenção da vida de Jean-Baptiste quando bebê.
    “Terrier tinha a impressão de que a criança o olhava com as narinas, o examinava sem complacência, mais implacavelmente do que poderia fazê-lo com o olhar, como se absorvesse pelo nariz algo que emanava de Terrier e que ele próprio era incapaz de reter ou dissimular… Esta criança sem odor passava impudentemente em revista os odores dele. Era bem isso! Farejava-o dos pés à cabeça! E Terrier sentiu-se repentinamente fedorento, a tresandar a suor e vinagre, a couve-roxa e a roupas sujas. Teve a sensação de se encontrar em toda a sua nudez e fealdade, perscrutado pelo olhar de alguém que o fixava sem nada revelar de si. Era como se esta exploração olfactiva lhe atravessasse a pele e lhe devassasse o íntimo.”
    A existência de Jean-Baptiste Grenouille, enquanto ser que tudo sente das pessoas pelo seu olfato e que, por sua vez, é imperceptível a elas pelo mesmo sentido, é a existência da nudez compulsória dos pecados da humanidade; da revelação forçosa de tudo o que é mais oculto, contra a qual nada se pode fazer; e da subsequente tentativa de eliminação dessa existência a fim da manutenção da vida aparente, assim como faz um perfume à fetidez do corpo. Grenouille é, como alegoria, aquele de quem nada se pode esconder; de quem ninguém consegue escapar; e quem, conforme se narra no clímax da história, ninguém pode matar, exceto se for de seu desejo morrer. Grenouille é aquele que não tem cheiro próprio, porém condensa em si mesmo todos os fedores do ser humano, e, por todos esses motivos, é uma das personagens mais fascinantes da Literatura.
    Grenouille fica anos ignorante de ser inodoro. Todavia, talvez (na minha leitura) por causa tanto dessa característica quanto dessa ignorância, passa a categorizar o mundo pelos aromas, a despeito de sempre ter sido insensível à vida ou à inanimação daquilo que os emitia. Os cheiros, uma vez sentidos, eram categorizados e possuídos como peças de um universo particular e íntimo, dentro do qual ele existia e imperava como um deus real, onipotente e tirânico. A fuga interna de Grenouille e sua capacidade de sobreviver a praticamente tudo amplificaram sua sociopatia num ódio à humanidade, cujos odores detestava até aquele momento, o que foi o primeiro passo para ele se tornar um assassino em série: a vida que portava o cheiro importava tanto quanto um frasco de perfume e tinha a mesma descartabilidade daquele. Após se sentir patologicamente atraído pela fragrância natural de uma jovem, ele a persegue e a mata a fim de se apoderar daquilo que, até então, era o mais precioso bem de suas posses interiores: o cheiro da beleza e do amor, a essência da única coisa que dava sentido àquela existência infernal à que estava preso (“Cem mil perfumes pareciam nada valer comparados com este. Este perfume único constituía o princípio-padrão a partir do qual se deviam classificar todos os outros. Era a beleza pura.”). A partir daí, seus atos eram todos direcionados à captura dessas essências. Aprendeu a profissão de perfumista, mudou-se para a cidade de Grasse e lá desenvolveu uma técnica particular para a materialização em óleos essenciais dos cheiros das mulheres que matava a fim de extraí-los.
    Porém, há uma chave para que ele se dispusesse a tal empreitada. Süskind cria um momento em que há uma percepção íntima de Grenouille de que era, de fato, um ser miserável, malgrado a divindade que manifestava onipresente em seu mundo interior, o único que, até então, importava. Em Grasse, ele sente o cheiro de uma jovem que se sobrepunha a todos os outros. O pai desta, pressentindo que a filha poderia ter o mesmo fim que as outras mulheres assassinadas misteriosamente até então, empreende uma mudança com ela para um local secreto, porém Grenouille parte em seu encalço, guiado pelo perfume da moça. Essa obra me capturou na primeira página e se mantém em mim desde a primeira leitura, ali no final dos anos 1990. Contudo, é nessa passagem da narrativa que ela se torna especial para mim por identificação e criação de uma intimidade com Grenouille, não, obviamente, pelos seus atos, mas sim por seu inferno. Durante a sua ida a Grasse, ele passa por uma região bastante inóspita e se dá conta de que está num lugar em que não há, absolutamente, cheiro de nenhum ser humano nem de civilização. Estava distante de tudo o que lhe era pérfido e deletério, estava desobrigado de sentir o que lhe sufocava naquela miséria de vida e de forçosa interação humana. Estava livre. Nesse ponto, sente-se inclinado a desistir de seu intento e passa a seguir o seu olfato neste sentido: iria para o lugar onde houvesse a mais intensa esterilidade. É nesse ponto que encontra a caverna. Nela, ele se entoca e ali passa um longo período a existir unicamente em seu reino interior, rodeado e servido pelos cheiros dos quais se apropriara até aquele momento, inclusive e principalmente, o da primeira mulher que matara. As outras funções e necessidades corporais não lhe importavam. Alimentava-se de musgos e bebia água da chuva apenas para manter exteriormente a viabilidade do paraíso interior. Ele mesmo ela um frasco de tudo aquilo que tirara do mundo que tanto tentara lhe tirar a vida. Estava, em suas particulares concepções, em paz. A história foi adaptada para o cinema em 2006, num filme homônimo muito bem dirigido por Tom Tykwer, 
roteirizado por Tom Tykwer, Andrew Birkin e Bernd Eichinger e protagonizado com excelência por Ben Whishaw, porém — não sei se por escolha ou por impossibilidade narrativa —, ele falha em retratar esse recorte. Não há, no filme, as imagens do paraíso interior de Grenouille: a servidão que ele impunha aos cheiros, os quais representavam todo o mundo que lhe era conhecido e dos quais se vingava em seu absolutismo divino; e as fantasias de poder que o assomavam em decorrência de uma vida inteira de sobrevivência a crueldades e à miséria, de privações e de desumanização. No livro, esse é o instante em que se percebe o quanto Grenouille representa a gigantesca “caterva” de miseráveis cuja existência deve ser aniquilada pela “normalidade” do mundo, exceto, é claro, se estes lhe servirem a algum propósito, como ele próprio servira a todos os que foram responsáveis por ele ou seus patrões, desde Madame Gaillard, que era paga para mantê-lo no orfanato, passando por Grimal, que lhe explorava em seu curtume, até Giuseppe Baldini, em sua perfumaria, todos mortos posteriormente ao seu desvínculo com Grenouille. Süskind nos mostra que, quando Jean-Baptiste se percebe vazio, desespera-se, pois há uma ruptura do limite entre o seu corpo, que era vítima do mundo, e seu espírito, que possuía um mundo ideal. Essa epifania o força a uma confrontação. A idealização desse mundo, na qual se dão as suas fantasias de poder e onde o amor e a aceitação por parte das essências escolhidas por ele do mundo acontecem conforme os seus comandos, não significa nada, pois, na realidade do mundo exterior, Jean-Baptiste percebe que nunca foi nem nunca será amado justamente por não possuir aquilo que vinha tornando possível amar o mundo: o cheiro. É, na narrativa, a deflagração dos atos posteriores que culminarão no clímax da obra, que não descreverei aqui.

(Clique na imagem para ampliá-la.)

    O motivo de O Perfume ter me marcado tão profundamente não se limita à inegável genialidade narrativa de Patrick Süskind. A relação entre o mundo exterior (o real) e o interior (o ideal) de Grenouille pode ser compreendida como a dicotomia significante-significado, ou seja, a dualidade entre a matéria e a transcendência, ou entre o mundo e as palavras, ou entre a crueldade da sociedade e a criação de monstros, ou ainda entre a natureza e a arte. Porém, para mim, ela atinge, quando o retrata, aquele sítio do espírito humano em que se constrói um mundo íntimo que torna possível a existência no mundo real. Esse universo interior começa como o refúgio de uma criança que não é aceita, que se sente deslocada num mundo que não lhe guarda nenhum segredo e que esse próprio mundo passa a tentar usar, a despeito do nojo que este nutre a ela por um medo intuitivo; ou descartar, quando esta não se lhe mostra mais útil. É o refúgio de Grenouille na caverna, para mim, o ponto mais alto da narrativa. Lá, ele abre mão da existência exterior, de seus desejos mais intensos, do trabalho de uma vida inteira, em prol de um isolamento no vazio da idealização. Não consigo encontrar na obra uma desesperança na vida da personagem que seja maior que essa, nem mesmo a desgraça, a miséria, a corrupção da vida e a morte. A fuga de Grenouille para dentro da caverna e para dentro de si é a desistência de si no mundo. A compreensão de que não possui um cheiro próprio é a morte de seu espírito, pois o entendimento de que, mesmo no ideal, a beleza e o amor daquela vida são ilusórios, uma vez posto que não há o que ser amado ou belo, destrói nele a única esperança de existência. A tragédia de O Perfume tem o seu apogeu no meio da narrativa, e todo o resto da história é uma tentativa do protagonista de reexistir, de se materializar, de trazer para o corpo o que, no espírito, era perfeito. Contudo, Grenouille não contava com o fato de que, assim como ele não possuía um cheiro a ser sentido (note-se: uma alma a ser consagrada ou um corpo a ser amado), a própria humanidade não possuía nenhum sentido que percebesse a sua essência (note-se: um céu para a alma ou um amor para o corpo). Aquela desesperança, que ele tentou aniquilar pela própria materialização, concretizou-se no total abandono de si, no vazio de existir num mundo em que a própria existência é vazia.
    Jean-Baptiste Grenouille nasceu só, viveu só e morreu na consumição de seu próprio vazio (atentem ao final do livro), vítima de um encadeamento de decorrências post mortem em vida, como um séquito em que o próprio cadáver carrega o seu próprio caixão. O filme vale muito a pena ser visto, principalmente como uma prévia do livro. Já o livro é uma obra para se ler depois de ser lida, para além de si, dentro de nós, na construção de pontes entre o real e o ideal, ou entre o corpo e os seus cheiros.

09/05/24

quarta-feira, 13 de março de 2024

JOÃO


(Inspirado em Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, e em Construção, de Chico Buarque)

    — Ando precisado de morte, mestre Caetano.
    Começava sempre assim o fim de seu dia, quando ia ter com mestre Caetano em seu boteco, que só abria depois do Angelus. Era um dos últimos antigos, com enorme balcão de sucupira, peitoril de milhares de vidas que a noite conduzia, intermediando seus êxodos e procissões.
    Trabalhava menos por necessidade que rotina. Não sabia quem era se não estivesse em alguma “empeleita” ou fazendo algum bico. Chegava primeiro ao balcão, olhava como sempre os calendários de várias décadas, alguns, com paisagens, outros, com santos, muitos, com mulheres nuas. O tempo era registrado com sonhos que não sabia como ter. Até tentava se imaginar através das imagens, como fazia com filmes e novelas que mestre Caetano compartilhava na tevê de tubo, de vez em quando. Para ele, as gravuras, as fotos e a tevê estavam em algum idioma que lhe era estrangeiro, vedado à sua pequena humanidade. Eram a lembrança de que aquele balcão era a fronteira além da qual, caso se aventurasse, seria preso pela estranheza, ou, por ela, morto. Costumava desfiar as lamúrias em conversa baixa, sem interlocução definida, alternando a destinação a quem transitava ou lhe parava ao lado acidentalmente. Mestre Caetano costumava lhe engendrar um arrazoado qualquer de sua experiência, e, assim, existia fixo, ancorado naquela confirmação de que vivia, de que era alguém apesar de si mesmo. Mestre Caetano aferia que ele era uma pessoa.
    — Não carece de precisar, João.
   — Por quê, não? Preciso de dinheiro, preciso de comida, preciso de roupa, de uma dose… Bote uma aí. Preciso de morte, mestre.
    — Sua ou de alguém?
    — E eu não sou alguém?
    — Então não precisa.
    — Já tenho muita, né? Essa vida sem nada, sem mim, já tá toda preenchida de morte, né isso? Hoje, tava lá, na laje do condomínio, arriando o cimento na massa, fungando o pó cinza. Tem mais cimento em mim do que naquele prédio. Olhei pra baixo, vi os carros, as pessoas, todo mundo indo e vindo de algum lugar a outro. A vida é isto, mestre: ter lugar de onde se vem e aonde se vai. O mestre sabe que não tenho o primeiro, até meu nome veio da rua. Meu barraco é só o jacaré, duas panelas, dois armadores de rede. Não tem eu na minha vida, mestre. O lugar de partida e de chegada é a pessoa, é a razão, diz quem se é. A vida é ser, mestre. Eu não sou. Então, já tenho morte de sobra neste buraco cimentado, não é?
    — É. Mas isso não é ruim não, João. Todo mundo é cheio de morte, todo mundo é vazio de si. A gente passa a vida se procurando pra se preencher, e isso é a vida. Morrer é não procurar, morrer é viver nesse buraco, sem fundo e sem corda. Tome aqui.
    — Quem vai morar naquele condomínio é vazio, mestre? Quer dizer, aquela gente anda mais, viaja, procura mais, como o senhor disse. Quem procura mais é mais morto do que eu? Ou mais vivo? E eu sou mais morto porque passo a vida construindo lugar que não é meu pra essa gente se encontrar nele? Eu sou mais morto porque não posso me procurar, mestre, e tenho de passar a vida fazendo chão e levantando parede e cavando piscina e plantando jardim pra gente que vive?
    — Sim.
    — E é por isso que não preciso de morte, mestre?
    — Sim.
    — Morte chama mais morte…
    — Morte não chama nada, João. Quem vive morre. Uns, mais, uns, menos. A vida é assim também. Uma é a falta da outra, como um casal casado há muito tempo que não sabe mais ser cada um. Não é amor, não é amizade. É uma argamassa. A construção é a gente. A gaiola, as aranhas, a malha, o esqueleto. Os tijolos. No final, o prédio. Depois, a ruína. Depois, o basculho. Depois, o alicerce. E tudo de novo, meu amigo, como esta sucupira. Isto aqui já foi semente. Esta morte desta madeira é uma morte de vera? Hoje ela é tudo que ela não era, ela era vazia disto. A vida que ela tinha era cheia desta morte. A morte que ela tem é cheia daquela vida.
    — Esperar cansa, mestre. Não saber é não ser, e não ser é morte.
    — Vida, também.
    — Que vida?
    — Vida apenas, João. Você, eu, a sucupira, os moradores do prédio. Morte, também. Tudo junto.
    — E isso é justo?
    — Só não é justo pra quem não vive. Sua vida é vazia de você, mas é vida. Você é este balcão, João. Ele não sabe quem foi, não é mais quem foi. Sabe menos ainda quem será. Mas ele é. Você é, João. Ignorar não é morrer. E quem diz que sabe mente. Ninguém sabe.
    — Nem as pessoas que fazem os calendários?
   — O tempo é como esta cachaça: entretém, embebeda, acalma, mata. É parte da vida. Tá boa? Quer mais uma?
    — Viver direito é morrer direito, né, mestre?
    — Disse melhor do que eu.
    — Então, bote outra. Vamos fazer as coisas como se deve.

13/03/24

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

CARACTERES

Gérard Dubois - Moby Dick
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eu sou Fabiano e sou Baleia
no sertão de preás gordos

sou Rebeca Buendía com seu saco de ossos
sua pele verde e olhos fosforescentes
sou José Arcadio louco atado ao castanheiro
e Úrsula diminuta na mentira de sua morte

sou Vadinho no chão do Domingo de Carnaval
sou Rozilda e seu fel de Quarta-Feira de Cinzas

sou Sancho crédulo de sua ilha
sou Quejada alucinado e só num mundo grande
grande demais

sou Ishmael lúcido entre loucos
sou Ahab inconcluso e espedaçado
pela irracionalidade branca

sou a Rosa na redoma
o baobá e o vulcão
no pequeno asteroide ao pôr do sol
esperando sem esperar
o ofício da Serpente

sou Flor, Gabriela e Dora
e o cansaço de guerra de Tereza
sou Maria do Carmo embuchada de inevitabilidades
na rede de João da Mata
e a faca de peixes de Bertoleza
libertando o próprio ventre
ante a possibilidade do horror

sou Margarida, vulgo Mocinha
pequena e escura
descansando da vida dos brancos
na pedra da fonte da estrada de Petrópolis
e a esvaziada Macabéa
preenchida por um Mercedes amarelo
na rua atravessada

sou Severino do finado Zacarias
indagando vida e morte à beira do Capibaribe
e sou Mestre Carpina
em cuja calma nasce outro Severino
que também sou eu

sou Amaro e Aleixo no porão do navio
e o punhal assassino de Crapiúna

sou a lavação dos peitos mortos de Diadorim
e a traição do torso nu de Luzia-Homem

sou o cínico Brás e seus emplastros
o inepto Bentinho em turvação
frente ao mar ressaqueado de Capitolina

sou tantos, e não sou nada
nem o sentimento do mundo tenho
nunca fui o infante sadio e grimpante
nunca guardei rebanhos
nunca fui a Pasárgada
nem conheço rei algum
ou felicidade, ainda que clandestina

sou um caractere apenas
um espaço-em-branco
vasilhame que o outro mundo preenche
e que este mundo rotula e enfileira na prateleira

sou também a boca que bebe
ora no copo, ora no gargalo, ora no mar
as pessoas que por mim trafegam
e transpassam como se meu único trabalho
fosse registrá-las
e esquecê-las

esquecendo, existo
e, através de mim, existem todos

22/02/24

segunda-feira, 1 de maio de 2023

NÃO TENHO TEMPO

(Clique na legenda para acessar a página de origem.)
 

As horas me chamam.
A raiva e a fome, a tesura e a inércia, a solidão e as hordas,
elas me chamam.
Não tenho tempo.
Não tenho tempo de sangrar meu nome na boca alheia.
Não tenho tempo de esfacelar-me em relações
nem de esfacelá-las,
não tenho.
Tudo é muito breve, e o sal
— que habita tanto a onda quanto a lágrima original
e a fibra seca do cadáver —
está em meus pulmões, meu hálito e minha voz
e crispa na minha sombra e no meu rastro
como um rastilho de pólvora.

Não tenho tempo de pensar no que é cáustico ou doce
— minha boca não tem tempo para o que não é palavra,
por isso as guarda todas
e reza nelas a voz que não é minha,
que nunca foi minha,
porque não tive tempo de dizê-las.
Não atendo a porta, o telefone, a súplica, o insulto.
Não tenho tempo para as palavras
que não são verdadeiramente minhas.

O eu que trabalha e dialoga
e o eu que dá bons-dias e que manda à merda,
também não tenho tempo para eles.
Tudo é muito breve, e as horas me chamam:
não tenho tempo para reprises,
apesar do moto-contínuo da vida.
O novamente das oportunidades perdidas não me interessa,
e o novo é um átomo num universo de possibilidades.
Não tenho tempo para pequenezas,
e das grandiosidades que cuide a metafísica.

O presente é enorme e me requer inteiro
— o meu tempo é a palavra indefesa, anacolútica,
enjaulada na infinita enciclopédia de um tempo maior,
alheio a mim.
O passado não é senão fumaça,
e o futuro, o vento que ainda não é ar.
Não tenho tempo para o que não é chama,
não tenho olhos para o que não é luz.
Por isso, leio-me atentamente,
infenso ou exultante ao fluxo do que sou,
e nada mais:
pois o que sou não tem tempo para o que não fui;
o que sou é o próprio tempo,
tempo este, sim!,
que tenho infinitamente.

01/05/23

quarta-feira, 15 de março de 2023

CRÍTICA DE "O MENINO, A TOUPEIRA, A RAPOSA E O CAVALO"


     O vencedor do Oscar 2023 de melhor animação em curta foi O menino, a toupeira, a raposa e o cavalo, filme inglês dirigido por Peter Baynton e Charlie Mackesy, inspirado no livro homônimo escrito por este último, em 2019.
     Li o livro e vi o filme e tenho de dizer que eles dialogam com alguém que já não sou mais, porém que, graças a eles, sei que não está morto, apenas muito desgraçadamente melancólico. O filme, principalmente, cavou umas lágrimas que tinha me esquecido, há muito, de chorar.
     Eu vi dublado (que espetáculo de dublagem!), logo não posso dizer nada das interpretações do quarteto Jude Coward Nicoll (o menino), Tom Hollander (a toupeira), Idris Elba (a raposa) e Gabriel Byrne (o cavalo).
      Contudo, é um filme lindo, uma obra-prima de delicadeza que preservou os traços do livro, com diálogos e silêncios perfeitamente certeiros em seus significados, e que tem na diversidade, na amizade e na gentileza (mesmo e principalmente nas adversidades) a sustentação de uma história que é feita pra ser sentida muito mais que compreendida.
     O único (mas muito marcante) problema é a sensação de abandono que dá na gente quando termina, como se alguém muito amado partisse de nunca mais voltar, o que não é, de todo, apenas uma sensação.
      Assistam leves.
15/03/23

quarta-feira, 8 de março de 2023

SERAFIM

 

(Citação de O. de Andrade em Serafim Ponte Grande.)

O Brasil é uma enorme segunda-feira que entardece num domingo.
 
06/03/23

PAUSA PARA UM CAFÉ

Jongensspelen (aprox. 1860-1870) – Jogos de meninos anônimos: histórias para jovens.
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— Chegamos bem perto desta vez.
— Nunca tão perto, nunca tão longe. De onde estamos, há mais léguas entre nós que uma vida inteira de caminhada.
— Mas eu te sinto aqui.
— Esse não sou eu.
— Quem, então? Eu próprio? Meu reflexo, minha criação?
— Olhando daqui, estás só. Percebo-te outro, indissociável de ti, porém, outro. Tens mudado muito.
— Não é a mim que olhas. Estás de cabeça baixa.
— Pois é. É a ti que olho.
— Não pode ser! Vejo-te diante de mim! Quem és tu, senão tu mesmo, tu, que eu vejo?
— Teu olhar também não é o mesmo. Ele te ilude as medidas. Crês mesmo no que vês?
— Queres me enlouquecer!
— Não. Como disse, estás só. Nisso, em tudo, em ti. Só, como sempre.
— Então, com quem falo? Com quem grito? A quem tenho, como uma sombra, manejado minha caminhada?
— A mim.
— Então?
— Não existo mais sob teus olhos nem mais sou a teu lado. Tenho me movido muito pouco, alguns passos, apenas. És tu que giras e danças e saracoteias em carreiras infantis. Eu apenas cresci. Tu…
— Espera! Não cresceste! Vejo-te aqui, a meu lado, à minha altura.
— Já disse: estás só. Escolheste estar.
— Estou louco, então! Falo com quem não existe, vejo o invisível!
— Não. Eu existo. Tu, por outro lado…
— Estou morto?
— Não. Pior. És memória.
— …
— Terminei meu café. Podes voltar a brincar agora.
— Contigo?
— Como sempre.
— Pega-pega?
— Polícia-e-ladrão.

08/03/23

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

O PROBLEMA DO CORAÇÃO É QUE ELE BATE

Jaseon deCaires Taylor - The Garden of Hope
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Desacostumado.
Pedaços de cores
reclamam olhos,
e onde estão?
— invisíveis no tempo.
O cheiro da terra, das roupas, do sol!
Há uma guia,
um cordame em que a memória se desondeia.
Um rio.
As águas batem cada vez mais forte,
e as cores vão se desvelando em punhais de luzes:
uma espiral cadente feita de lâminas brilhantes,
um vórtice aniquilador
do tempo presente.

Enfim, deságuo, e o mar é enorme,
e as ondas, gentis.
Estou sozinho, e tudo é horizonte.

Escrevo histórias
de peixes e abismos,
deito tudo no leito
e descanso.

E eu sei que é unicamente meu
o eu que ali adormeço.

22/02/23

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

QUARTO MINGUANTE


Não espero que me adormeça
— há aqui já noites suficientes.
Velo eu mesmo o cadáver do sonho,
fantasma de si mesmo, que hoje assombro.

Dentro das luzes, a mística persiste,
e me cego de excessos
até que me desapareça de vez
a carne da memória dele
no mundilhão de novidades.

O sono vem, ceifa o que resta,
e, todas as noites, vou desaprendendo a dormir.
Sou no mar o Sol que se pôs
antes da primeira aurora,
antes da Serpente,
antes de Deus.
Sou longe,
Mas estou onde sou.

Guardo apenas a distância,
que aprendi que sou eu.
A noite, esta, olha o esquife ao meu lado
e me diz que não há mais sonhos,
mas que o pesadelo acabou.

08/02/23

domingo, 5 de fevereiro de 2023

SOB O CÉU

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Então vamos dizer
que a noite só é noite
porque há as estrelas
e a lua, e as almas, e a insônia?
Mas,
não é a noite mais
o modo como se desnudam
a pele sob a roupa
e a carne sob a pele,
e a alma sob a carne
ante a liberdade ou o inferno
de se estar só?
A noite é um útero
que vestimos para dormir
antes e depois de nascer
compulsoriamente.

05/02/23

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

CANTOCHÃO

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   Deitou o copo na mesa, levemente. Reconheceu, no xadrez da infância, a concessão da derrota que lhe ensinaram no internato: “tombe-se o rei!”. A mesa do boteco servia-lhe perfeitamente de tabuleiro: bispos hereges, torres de alvenaria caiada e muitos, muitos peões cascabulhados pelas longas partidas da vida. Havia ali também muitas rainhas, todas de coroas preteridas. O baralho da mesa ao lado lhe despertou as copas que tão bem conhecia. Também, algumas de paus e de espadas de sua meninice nos terreiros. Mas, de ouros, nunca! Nenhuma! Nem ela!
   — Mais uma aqui, por favor.
   Já passara do ponto do crédito havia muito. Da pena, também. Virara um “costumeiro”, um item ornamental, um identificador do Santa Edwiges, o bar de Seu Xavier. Sem ele, a mesa do choro não tinha para quem puxar o Odeon nem a Escadaria. Ele fluía com a tarde, ronqueava com a voz gostosa seus salves, sempre carinhosos, às figurinhas ali também desgastadas pelo tempo: Martins, o do violão sempre prestes, o bêbado Tarcísio, coro sempre certo à dor de cotovelo das dez, a cambista Heloísa, que sempre o esperava chegar para encerrar atrasada as pules, e o garçom Liberato, que aprendera a cuidar da dignidade daquele mistério. Parecia ser a licença que se dava ao Santa para ser um bar: um alvará, uma bênção. Até mesmo a clientela encorpava depois de sua chegada. A sinuca, inclusive, só ficava séria depois que ele cumprimentava os jogadores, que passavam a casar as apostas na mão da Heloísa. Era a alma do lugar, uma essência que justificava frequentarem-no os bambas e os febris, as memórias que tomavam zinebra no balcão e as novidades que gargarejavam cervejinhas na calçada de anedotas. Sentava-se à esquerda da porta, ali pelas seis, após a permissão do angelus do rádio do Xavier.
   — Aqui, Seu Cordeiro. O Seu Xavier perguntou se vai pagar.
   — Diga a ele o de sempre: quem manda é o dia.
   — E o dia foi bom?
   — Me trouxe até aqui. Como sempre.
   — Vai de canja hoje?
   — Deus lhe pague, Liberato.
   — Ô Seu Xavier, mande uma canjinha aqui pro Seu Cordeiro, que ele precisa.
   O violão chorou um sambinha, chegou um pandeiro da mesa dos novatos, Seu Xavier sacou o cavaquinho e o rendeu ao grupo, pedindo “manda uma do Paulinho, gente!”. A música ali era sempre boa. Arrumaram Desilusão, e o peito de Seu Cordeiro batucou atrás, meio surdo. Parecia adoçar a derrota no sangue a cada bombada, sincopando ali o regional improvisado.
   Chegou a canja com um pão do dia. O primeiro de seu dia. Seu Cordeiro parecia um griô, na sua elegância imane e inata de preto-velho. Cruzava as pernas frágeis para fora da mesa, sentado de lado na cadeira, recostado à parede, que guardava, com a sua mancha de suor e poeira, o seu lugar em sua ausência.
   — Os meninos querem que o senhor cante. A rapaziada nova.
   — Deixe o santo baixar, Liberato. Ainda não cheguei.
   — Deixe o dia lá fora, meu camarada. Aqui dentro, é sempre noite. Dona Marlene perguntou se está boa a canja.
   — Melhor que a vida, meu amigo. Entregue a ela uma lembrancinha, faz favor?
   Deu a Liberato um pacotinho de papel-bíblia, uma página arrancada de um catecismo velhíssimo.
   — Diga a ela que achei.
   Aquilo não era uma novidade, exceto pelo último pedido. Sempre levava babilaques, coisinhas, presentinhos para Seu Xavier e sua esposa, Dona Marlene. Porém, o segredo impresso no “achei” ativou a experiência malandra de garçom acumulada por Liberato em décadas de torpedinhos e leva-e-traz entre as mesas.
   — O que é isso, Seu Cordeiro?
   — É um pedido dela. Uma encomenda pessoal.
   — Pessoal? E se o Seu Xavier quiser saber o que é, digo o quê?
   — Que é de antes dele. Que não se preocupe não, que nenhum mal foi feito. E que este negro aqui só lhe guarda amizade e gratidão. E que minha vigília e minha obrigação finalmente acabaram.
   Era coisa demais para o velho garçom. Ainda tocavam o “danço eu, dança você”, e Liberato intuiu. Pensou em devolver, mas adivinhou a proporção do momento no olhar de Seu Cordeiro, que nunca vira tão expectante em sua mansidão. Baixou a cabeça, penitente. Seu Cordeiro enxugava a última laminha de caldo da tigela com o miolo do pão, que levava à boca como uma hóstia. O sagrado de tudo aquilo que, sem ser dito, reverberava nas paredes do Santa Edwiges convenceu por fim o garçom de levar a cabo aquele rito.
   — O senhor ainda vai voltar? — perguntou.
   — Eu nunca fui a lugar nenhum, meu amigo…
   Apesar de suas roupas e pele estabelecerem o oposto, Liberato entendeu profundamente.
   — Pois adeus, meu velho. Fique com Deus.
   Cruzou o bar convertido, por seus passos, em uma nave, parou de cabeça baixa à frente do balcão, a mão posta em oferenda:
   — Seu Cordeiro mandou pra senhora,
   — O Cordeiro ainda acha que tem de pagar alguma coisa aqui? — sorriu vermelho Seu Xavier. — Tu acha, Marlene?
   Dona Marlene, de pele branca salpicada de sinaizinhos da idade, reconheceu aquela página amarelada de catecismo quase imediatamente, translucidando-se. Disfarçou o tremor e ergueu o olhar para o marido, que não entendeu aquele pedido de perdão. A mesa do choro já tinha engatado Não tenho lágrimas, e o bar ficara frio de repente. Lá fora, uma chuva fina lavava um corpo negro, delicadamente deitado no outro lado da rua, a mão esquerda ao peito, as pernas cruzadas, como se houvesse descido em rodopio de mestre-sala. Um grito seguiu-se a outros, precipitando todos ao cruzamento esvaziado de trânsito, fremindo no ar os ai-meu-Deus de suspensão.
   Seu Xavier nunca entendeu a explicação da esposa, que sobreveio e sobreviria até o fim sem lágrimas, sem medo e sem culpa, ainda que purpurecida de saudade:
   — Foi antes, quando eu ainda era mocinha, no internato. Padre Honório que me deu, e eu tinha perdido. Seu Cordeiro achou não sei como… Não sei como.
   O pequeno terço cor de rosa, com ave-marias peroladas e crucifixo de osso, fazia ainda menos sentido naquela fatalidade.
   No dedo anelar esquerdo do morto, uma antes nunca percebida aliança de finíssimos acabamentos, filigranada de ouro, sepultava ali tudo: a vida, o samba, o bar, a morte. Sobranceava na neblina um vento que pareceu a Liberato, naquele momento, um cantochão assobiado.
   — Adeus, meu velho — repetiu.

01/02/23