Deitou o copo na mesa, levemente. Reconheceu, no xadrez da infância, a concessão da derrota que lhe ensinaram no internato: “tombe-se o rei!”. A mesa do boteco servia-lhe perfeitamente de tabuleiro: bispos hereges, torres de alvenaria caiada e muitos, muitos peões cascabulhados pelas longas partidas da vida. Havia ali também muitas rainhas, todas de coroas preteridas. O baralho da mesa ao lado lhe despertou as copas que tão bem conhecia. Também, algumas de paus e de espadas de sua meninice nos terreiros. Mas, de ouros, nunca! Nenhuma! Nem ela!
— Mais uma aqui, por favor.
Já passara do ponto do crédito havia muito. Da pena, também. Virara um “costumeiro”, um item ornamental, um identificador do Santa Edwiges, o bar de Seu Xavier. Sem ele, a mesa do choro não tinha para quem puxar o Odeon nem a Escadaria. Ele fluía com a tarde, ronqueava com a voz gostosa seus salves, sempre carinhosos, às figurinhas ali também desgastadas pelo tempo: Martins, o do violão sempre prestes, o bêbado Tarcísio, coro sempre certo à dor de cotovelo das dez, a cambista Heloísa, que sempre o esperava chegar para encerrar atrasada as pules, e o garçom Liberato, que aprendera a cuidar da dignidade daquele mistério. Parecia ser a licença que se dava ao Santa para ser um bar: um alvará, uma bênção. Até mesmo a clientela encorpava depois de sua chegada. A sinuca, inclusive, só ficava séria depois que ele cumprimentava os jogadores, que passavam a casar as apostas na mão da Heloísa. Era a alma do lugar, uma essência que justificava frequentarem-no os bambas e os febris, as memórias que tomavam zinebra no balcão e as novidades que gargarejavam cervejinhas na calçada de anedotas. Sentava-se à esquerda da porta, ali pelas seis, após a permissão do angelus do rádio do Xavier.
— Aqui, Seu Cordeiro. O Seu Xavier perguntou se vai pagar.
— Diga a ele o de sempre: quem manda é o dia.
— E o dia foi bom?
— Me trouxe até aqui. Como sempre.
— Vai de canja hoje?
— Deus lhe pague, Liberato.
— Ô Seu Xavier, mande uma canjinha aqui pro Seu Cordeiro, que ele precisa.
O violão chorou um sambinha, chegou um pandeiro da mesa dos novatos, Seu Xavier sacou o cavaquinho e o rendeu ao grupo, pedindo “manda uma do Paulinho, gente!”. A música ali era sempre boa. Arrumaram Desilusão, e o peito de Seu Cordeiro batucou atrás, meio surdo. Parecia adoçar a derrota no sangue a cada bombada, sincopando ali o regional improvisado.
Chegou a canja com um pão do dia. O primeiro de seu dia. Seu Cordeiro parecia um griô, na sua elegância imane e inata de preto-velho. Cruzava as pernas frágeis para fora da mesa, sentado de lado na cadeira, recostado à parede, que guardava, com a sua mancha de suor e poeira, o seu lugar em sua ausência.
— Os meninos querem que o senhor cante. A rapaziada nova.
— Deixe o santo baixar, Liberato. Ainda não cheguei.
— Deixe o dia lá fora, meu camarada. Aqui dentro, é sempre noite. Dona Marlene perguntou se está boa a canja.
— Melhor que a vida, meu amigo. Entregue a ela uma lembrancinha, faz favor?
Deu a Liberato um pacotinho de papel-bíblia, uma página arrancada de um catecismo velhíssimo.
— Diga a ela que achei.
Aquilo não era uma novidade, exceto pelo último pedido. Sempre levava babilaques, coisinhas, presentinhos para Seu Xavier e sua esposa, Dona Marlene. Porém, o segredo impresso no “achei” ativou a experiência malandra de garçom acumulada por Liberato em décadas de torpedinhos e leva-e-traz entre as mesas.
— O que é isso, Seu Cordeiro?
— É um pedido dela. Uma encomenda pessoal.
— Pessoal? E se o Seu Xavier quiser saber o que é, digo o quê?
— Que é de antes dele. Que não se preocupe não, que nenhum mal foi feito. E que este negro aqui só lhe guarda amizade e gratidão. E que minha vigília e minha obrigação finalmente acabaram.
Era coisa demais para o velho garçom. Ainda tocavam o “danço eu, dança você”, e Liberato intuiu. Pensou em devolver, mas adivinhou a proporção do momento no olhar de Seu Cordeiro, que nunca vira tão expectante em sua mansidão. Baixou a cabeça, penitente. Seu Cordeiro enxugava a última laminha de caldo da tigela com o miolo do pão, que levava à boca como uma hóstia. O sagrado de tudo aquilo que, sem ser dito, reverberava nas paredes do Santa Edwiges convenceu por fim o garçom de levar a cabo aquele rito.
— O senhor ainda vai voltar? — perguntou.
— Eu nunca fui a lugar nenhum, meu amigo…
Apesar de suas roupas e pele estabelecerem o oposto, Liberato entendeu profundamente.
— Pois adeus, meu velho. Fique com Deus.
Cruzou o bar convertido, por seus passos, em uma nave, parou de cabeça baixa à frente do balcão, a mão posta em oferenda:
— Seu Cordeiro mandou pra senhora,
— O Cordeiro ainda acha que tem de pagar alguma coisa aqui? — sorriu vermelho Seu Xavier. — Tu acha, Marlene?
Dona Marlene, de pele branca salpicada de sinaizinhos da idade, reconheceu aquela página amarelada de catecismo quase imediatamente, translucidando-se. Disfarçou o tremor e ergueu o olhar para o marido, que não entendeu aquele pedido de perdão. A mesa do choro já tinha engatado Não tenho lágrimas, e o bar ficara frio de repente. Lá fora, uma chuva fina lavava um corpo negro, delicadamente deitado no outro lado da rua, a mão esquerda ao peito, as pernas cruzadas, como se houvesse descido em rodopio de mestre-sala. Um grito seguiu-se a outros, precipitando todos ao cruzamento esvaziado de trânsito, fremindo no ar os ai-meu-Deus de suspensão.
Seu Xavier nunca entendeu a explicação da esposa, que sobreveio e sobreviria até o fim sem lágrimas, sem medo e sem culpa, ainda que purpurecida de saudade:
— Foi antes, quando eu ainda era mocinha, no internato. Padre Honório que me deu, e eu tinha perdido. Seu Cordeiro achou não sei como… Não sei como.
O pequeno terço cor de rosa, com ave-marias peroladas e crucifixo de osso, fazia ainda menos sentido naquela fatalidade.
No dedo anelar esquerdo do morto, uma antes nunca percebida aliança de finíssimos acabamentos, filigranada de ouro, sepultava ali tudo: a vida, o samba, o bar, a morte. Sobranceava na neblina um vento que pareceu a Liberato, naquele momento, um cantochão assobiado.
— Adeus, meu velho — repetiu.
01/02/23
Este blogue se destina ao uso artístico da linguagem e a quaisquer comentários e reflexões sobre esta que é a maior necessidade humana: a comunicação. Sejam todos bem-vindos, participantes ou apenas curiosos (a curiosidade e a necessidade são os principais geradores da evolução). A casa está aberta.
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023
CANTOCHÃO
terça-feira, 17 de maio de 2022
DE VEZ
esticada sobre a pedra,
quarando sob o sol:
cada letra, ciente de sua inutilidade futura,
e seus sons evolando, na manhã amarela,
sua alma prematura,
dismorfa e incoerente.
é comum que a verdade caia verde do pé
e morra azeda sem ser chupada.
e a terra?
amargurece.
01-04/22
domingo, 20 de fevereiro de 2022
RECORDAREMOS
Não há no espaço do mundo agora — este espaço, esta causticidade de tudo que se toca, fala e vê —
lugar para ternuras, canteiro de amizades ou santuário de amores.
A estrada se converteu no destino, e estamos descalços no asfalto quente sem nuvens nem juazeiros.
Contudo, não há estrada hemisférica neste mundo; todas derivam; algumas vicinam;
e nossas mãos e pés constroem aquelas que o chão ignora.
Quase não há flores, mas ainda não houve tempestade nas estórias da noite que extinguisse as borboletas.
Hão de revoar, farfalhando-se como risadinhas de crianças brincando sem medo
Com as águas, voltarão os rios e as cachoeiras a mostrar como soa o amor de Oxum,
e tudo aquilo que deve descer para o mar se desmanchará devagarinho, rolando nos seixos até virar pó,
tornado estéril pelo sal marinho de Iemanjá.
Então, poemas serão reescritos e enviados como antigamente,
rangendo nas dobradiças dos peitos e nas juntas das mãos
as emoções ancestrais e os sentimentos renovados.
Amigos, num bar, contarão histórias que não deixarão esquecer quem perderam, quem se perdeu,
e estes, sob o calor das memórias, desmorrerão em árvores e passarinhos
cuja sombra e canto darão a toda parte o que dá um quintal a um menino recém-desperto,
que começa a lembrar como se colhe uma flor que se destina à mãe.
Começaremos a lembrar.
Voltaremos a saber tudo que eles sempre ignoraram.
20/02/22
quarta-feira, 23 de dezembro de 2020
AURORA Nº 1
(Para Clarice, minha filha, minha Aurora e minha vidinha.)
foi a tua voz feiinha, gritante, zangada,
que fez nascer o dia
e ressignificar-se o silêncio,
que antes não sabia nada de ti
foram os teus olhinhos grandes,
ictéricos,
que, ao se livrarem das ataduras
da agonia,
raiaram nos meus um sol inédito
nas manhãs ordinárias de dor e sono
foi o teu cheirinho, foi a tua pele,
foi teu cabelinho acastanhado
que ensinaram o beijo
aos sentidos desabitados de ti
e sentaram praça
como a Aurora faz com a serra
e dá à flor lições de vida
foi a própria vida,
que acordou brincando
com aquela grande novidade de estar viva:
— eis que nós e o mundo
tivemos de aceitar o apenas
de sermos para ti brinquedos
e objetos de transformação
como o Sol, que de tudo extrai as cores
e com todas traquina na sombra,
desordenadas como tua risada,
as reinações de estarem vivas
20/12/20
quarta-feira, 25 de novembro de 2020
CONJURAÇÃO
— Tem coisa que é palavra demais.
— Como assim?
— Coisa que só acontece quando a gente diz.
— Isso é conjuração, Alberto.
— Coisa de outro plano…
— Então, quando disse que me amava, foi pra acontecer ali?
— Isso. No mesmo instante, aconteceu.
— E quando a gente terminou, foi assim também? Que eu me danasse, que eu sumisse?
— Não. Ali a palavra atrasou. Queria dizer eu te amo, mas não sei por que não disse. Acho que era pequeno demais.
25/11/20
domingo, 22 de novembro de 2020
CONTENDA
a vingança da memória
é matar o amor:
— ai, coração, tu
é que não sabes fazer outra coisa
senão matar-me todo dia…
21/11/20
sexta-feira, 23 de outubro de 2020
ARMORIAL
(Em homenagem a Susassuna, o Ariano armorial, e ao meu primeiro grande amor, que me sertanejou a vida.)
a cultura que renegas
eu, íntimo, abraço:
um abraço feito de pele e fome,
tapioca agreste e macia com café
na manhã nevada e serrana de minha casa.
nela, eu, antigo e novo,
encavaleiro-me,
vestido com o gibão de minha própria pele
cosido com as histórias de meus pais
e armado com o delírio dos cegos:
cravejada em meus olhos,
a alucinação solar que nos norteia.
minha morte é minha vida:
é cobra que me rasteja;
é a onça espreitando por mim;
mas também é a montaria,
égua encarnada e ligeira,
que pisoteia o que não é vida
e me galopa os segredos
dos sertões adiante.
pelejo por esporte
e sobrevivo por profissão.
comigo, levo pouco de meu:
minhas letras, meu nome,
meu silêncio.
mas, no sangue
— moto-perpétuo ancestral —,
trago aboios e novenas,
incelenças e cordéis,
litanias e tiranas,
canções de nascer nos corpos
as almas de antes,
cheias de novidades de cacimbas
e maravilhas do além-mar.
a cultura que renegas
é o mandacaru que te dá flor,
mas te rasga na pele o atrevimento
de te achares
— tu, que és seco e estéril de poesia —
o inverno
de que ela é chuva.
não é palavra nem silêncio
o sertão que não carregas.
é o olhar cheiroso que não tens,
é a saudade mansa que não sentes,
é o orgulho fibroso que não te acocha
esse peito mole sem amor nem ódio,
sem jeito de amar mordendo,
sem pátria onde querer morrer.
23/10/20
segunda-feira, 20 de julho de 2020
REUNIFICAÇÃO
(Ao meu querido Rafael Sousa, que me instigou a escrevê-lo.)
eu me desaparelhei
como uma flor que se despetala
— um malmequer desses da vida.
hoje, nem sou nem tenho.
perdi todos nesta última década,
meus dez últimos anos de amor,
e sê-lo esqueceu-me.
o vento curou no rastro
e me achou o estame hirto, seco,
a face voltada para o muro,
uma sombra sob a sombra.
no caminho, apagou-me as pegadas,
e parece que nasci aqui.
não importa.
ao tocar-me, voejou-me,
e amanhã serei vento também,
um movimento sem começo e sem fim,
que tem uma tendência linda,
indiferente e justa
à reunificação.
20/07/20
quinta-feira, 9 de julho de 2020
O AMOR
uma angústia
a desesperação de uma fragilidade
recém-nascida no sal crispante do lajedo
tem uma dor aqui
que me chama dentro dela
e o meu nome é grito e sussurro
e a única palavra que ela conhece
meu deus, como eu queria
saber falar a língua dela!
tem uma dor aqui
que quer doer só para mim
e meu coração se enche todo
de amor por ela
do outro lado, que importa o outro lado?
não importa se ele existe
tem uma dor aqui
que é uma casa de mil quartos
de mil jardins
e de cornucópias na despensa
e só sabe dizer meu nome, tadinha
08/07/20
quinta-feira, 2 de julho de 2020
POEMA CRÔNICO DE DESAMOR
Há coisas que doem, como derramar sal nas chagas ou enterrar os mortos.
Desamar não é nada disso.
Tampouco, lavrar a terra nova depois da fazenda incinerada.
Muito menos, conjurar nuvens que renasçam essa terra.
Desamar não é renascer.
Não é um processo de cura.
Não é ajoelhar-se ante o deus dos tolos, condescendente e perdulário de perdões mal ajuizados.
Não é fazer as pazes com o eu-menino que foi violentado durante o mau amor.
Desamar requer muito mais do que a esperança cândida das madalenas arrependidas.
Desamar não é arrepender-se.
No eito da vida, das estórias dentro da história, jazem nas valas abertas de beira de estrada todos os instantes que a memória cuida de tecer, fiar e refiar em tecidos quase corpóreos, de tão tangíveis que são em sua malha.
Eles são as mortalhas com que se vela o amor morto, e carpida-se, e destroça-se a alma dentro dos ossos que se remoem em desesperação.
Isto ainda não é desamar.
Desamar não é autoflagelação.
Desamar dói muito mais.
Mais que o ciúme e a injustiça, que as injúrias e as humilhações.
Dói muito mais que a simplificação medíocre que é o apodrecer silente na alucinação da rotina que não se escolheu, porém se arrasta bovinamente em carroças de madeira rangentes num sertão sem horizontes.
Infinitamente mais.
Desamar viola todas as leis naturais, viola Deus e o Inferno, posto que, de ambos, ignora os dogmas e as maldições, sendo-lhe inócuo tudo isso.
Desamar é o retrocesso do que não tem retorno.
E, nesse estraçalhar impossível de engrenagens impossíveis, reinventa a máquina, recodifica os protocolos, oprime com o peso absoluto da invariabilidade a explosão do amor, até que ela se reconfigure em combustível; e a chama vulcânica da paixão, em nada, como se nada nunca houvera sido.
Desamar exige mais que a morte, visto que esta traz apenas repouso e transformação.
Depois dela, o mistério.
Desamar é mais que a morte.
Desamar é matar todos os mistérios na gênese, inexistindo-os sob todas as análises.
Tudo que concerne à vida e às amálgamas sensoriais que proliferam como ondas entre os corpos, tudo que é sentimento e intuição, tudo que edifica a casa em que o amor se torna, simplesmente, inexiste.
E inexistir não é esquecer.
Não é obliterar.
Inexistir é alterar o fluxo natural do tempo, coagindo-o a uma progressão instantânea ao seu próprio reverso até chegar à sua origem e, ali, atar-lhe novamente o fio e maculá-lo tão intimamente que ele próprio não terá nunca existido antes daquele ponto.
Desamar é forçar a inexistência do amor.
E, depois disso, não há mais o que falar.
02/07/20



