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terça-feira, 17 de maio de 2022

DE VEZ


e ali foi deixada a palavra, verde ainda,
esticada sobre a pedra,
quarando sob o sol:
cada letra, ciente de sua inutilidade futura,
e seus sons evolando, na manhã amarela,
sua alma prematura,
dismorfa e incoerente.

é comum que a verdade caia verde do pé
e morra azeda sem ser chupada.
e a terra?
amargurece.

01-04/22

terça-feira, 19 de janeiro de 2021

TEIMA

não teime em ficar.
você é a estória da estória
e já mudou três vezes só neste verso.

de quantas voltas de chave
é feito um adeus?
ou ele é portas abertas
numa casa sem miolo?

no pátio, as rolinhas bicam
o último grão de arroz que nos choveram.
já é tarde demais, diz o café frio,
e eu concordo.

porém, à noite,
debaixo do gume cego do tempo,
rasgam-se as horas,
e é lá, nesse desvão,
que ainda se lê o seu nome
— e o que ele diz sou eu.

19/01/21

sábado, 16 de janeiro de 2021

CONTENÇÃO

 os dedos estancam
 — é a memória em seus calos —
a efusão cardíaca
antes que as palavras deem-se ao touchscreen
como suicidas de penhascos.

inertes, emuralham como um dique
o sentimentalismo esquizoide
— caramelo de frigideira —
até que a água cumpra o seu papel,
que é o de abandonar os corpos.

16/01/21

sábado, 26 de setembro de 2020

DA BELEZA

Alexandre Cabanel - The Birth of Venus (1864)
(Clique na imagem para ampliá-la.)

não posso aceitar beleza
que não faça sofrer.
ser belo é ser,
nos olhos dos outros,
a angústia da miséria do corpo
e a mendicância do amor.

eis que a fome,
até então incógnita, sem prenúncio,
crava os dentes na traqueia
e surra o baixo-ventre,
socando a boca do estômago:
é lá que passa a beleza
no vento maldito das saias.

beleza que não faz sofrer
é faca cega
passando margarina em pão seco
numa tarde faminta de banquetes.

25/09/20

quinta-feira, 9 de julho de 2020

O AMOR

tem uma dor aqui
uma angústia
a desesperação de uma fragilidade
recém-nascida no sal crispante do lajedo

tem uma dor aqui
que me chama dentro dela
e o meu nome é grito e sussurro
e a única palavra que ela conhece

meu deus, como eu queria
saber falar a língua dela!

tem uma dor aqui
que quer doer só para mim
e meu coração se enche todo
de amor por ela

do outro lado, que importa o outro lado?
não importa se ele existe
tem uma dor aqui
que é uma casa de mil quartos
de mil jardins
e de cornucópias na despensa

e só sabe dizer meu nome, tadinha

08/07/20

quinta-feira, 2 de julho de 2020

POEMA CRÔNICO DE DESAMOR

Dói muito mais desamar.
Há coisas que doem, como derramar sal nas chagas ou enterrar os mortos.
Desamar não é nada disso.
Tampouco, lavrar a terra nova depois da fazenda incinerada.
Muito menos, conjurar nuvens que renasçam essa terra.
Desamar não é renascer.
Não é um processo de cura.
Não é ajoelhar-se ante o deus dos tolos, condescendente e perdulário de perdões mal ajuizados.
Não é fazer as pazes com o eu-menino que foi violentado durante o mau amor.
Desamar requer muito mais do que a esperança cândida das madalenas arrependidas.
Desamar não é arrepender-se.
No eito da vida, das estórias dentro da história, jazem nas valas abertas de beira de estrada todos os instantes que a memória cuida de tecer, fiar e refiar em tecidos quase corpóreos, de tão tangíveis que são em sua malha.
Eles são as mortalhas com que se vela o amor morto, e carpida-se, e destroça-se a alma dentro dos ossos que se remoem em desesperação.
Isto ainda não é desamar.
Desamar não é autoflagelação.
Desamar dói muito mais.
Mais que o ciúme e a injustiça, que as injúrias e as humilhações.
Dói muito mais que a simplificação medíocre que é o apodrecer silente na alucinação da rotina que não se escolheu, porém se arrasta bovinamente em carroças de madeira rangentes num sertão sem horizontes.
Infinitamente mais.
Desamar viola todas as leis naturais, viola Deus e o Inferno, posto que, de ambos, ignora os dogmas e as maldições, sendo-lhe inócuo tudo isso.

Desamar é o retrocesso do que não tem retorno.
E, nesse estraçalhar impossível de engrenagens impossíveis, reinventa a máquina, recodifica os protocolos, oprime com o peso absoluto da invariabilidade a explosão do amor, até que ela se reconfigure em combustível; e a chama vulcânica da paixão, em nada, como se nada nunca houvera sido.
Desamar exige mais que a morte, visto que esta traz apenas repouso e transformação.
Depois dela, o mistério.
Desamar é mais que a morte.
Desamar é matar todos os mistérios na gênese, inexistindo-os sob todas as análises.
Tudo que concerne à vida e às amálgamas sensoriais que proliferam como ondas entre os corpos, tudo que é sentimento e intuição, tudo que edifica a casa em que o amor se torna, simplesmente, inexiste.
E inexistir não é esquecer.
Não é obliterar.
Inexistir é alterar o fluxo natural do tempo, coagindo-o a uma progressão instantânea ao seu próprio reverso até chegar à sua origem e, ali, atar-lhe novamente o fio e maculá-lo tão intimamente que ele próprio não terá nunca existido antes daquele ponto.
Desamar é forçar a inexistência do amor.
E, depois disso, não há mais o que falar.

02/07/20