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domingo, 2 de novembro de 2025

PEGA

Luciana Brito Araújo - Vaqueiro na pega do boi da caatinga
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ah, se fosse fácil
marcar com o ferro da luta
no couro da alma
o anagrama elucidado,
o fim do mistério do corpo

corpo vazio,
vagando sem dono no meio do mundo

rês indolente,
carne, sangue, osso e víscera

boi arruado,
bezerro de ouro desadorado,
sem cura no rastro,
sem sol nem malhada,
sem aboio,
sem abate

rompe o espírito,
esse cavaleiro encourado,
a reduzir sua criação
mor de que a noite, que guarda a onça,
esqueça na tarde a queda

e fique de longe a aurora assistindo
a esse encontro tardão,
ainda que certeiro,
que nasce em seu encalço.

02/11/25

sábado, 17 de maio de 2025

SEIXO ACIDENTAL

Pedra de quartzo rosa coletada de um canteiro central de Fortaleza.
(Clique na imagem para ampliá-la.)

não é meu o corpo
de que sou sombra,

tampouco o chão
onde me deito
o é

esta tarde, este sol
e este equador evaporante
me carregam pelas calçadas,
por entre os carros
e por debaixo das portas:

folha e pó,
que o vento esquece por aí
em algum de seus quarenta graus

fico, me greto
nas falhas dos rodapés

me varrem,
e assim faço parte
das casas que visito

o que é meu
são o caminho para,
o espaço entre,
a divisão de
e a distância a

isso de ter de ser
é como dar nome a bicho,
a planta, a vento:
desculpa a vida

aceito o acidente de ser
apesar do corpo,
apesar das roupas
e dos bons-dias

e, apesar de todo o adeus
que me acompanha,
saúdo desconhecidos,
trabalho a palavra,
frequento hostilidades,
cato seixos de quartzo e mica,
búzios e refugos abandonados
por mudanças alheias
e me muno de luz e som
por toda parte
todo o tempo

ser por um acaso
e, por várias vezes,
deixar de ser
acabam por doer intenso,
mais que viver
propositalmente,

porém é daí que tiro
voz, palavra e silêncio,

e todo o pouco que sou
— sem corpo, sem chão,
sem nome —,
simplesmente, acontece

17/05/25

sábado, 10 de maio de 2025

TRANSAÇÕES MARÍTIMAS

Pequena ilha

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na ilha, são as ondas que trazem novidades:
lixo da melhor qualidade, do plástico mais cancerígeno
a mimos de MDF, bibelôs de cacos de vidro
e cartas, muitas cartas de amor terceirizadas
— narrativas meméticas elaboradas pela mais sintética IA
e balés tiktokeanos de hipnótica sensualidade.

da ilha, a maré que leva alma e conteúdos midiáticos
também remete fragmentos de pele e sangue,
além de pelos de toda sorte e cascabulhos de dentes
com destino aos recifes,
onde todo um viveiro de xaréus e anêmonas
fazem as vezes de pets e receptores.

há também extravios,
e calha de um tudo encalhar em outras ilhas;
e maravilhar etnias distintas de canibais, e pigmeus,
e outras gentes mais evoluídas,
que acreditam que o mar lhes prega peças
em que homens mimetizam horrores desconhecidos
e outras coisas incompreensíveis.

também há cartas e canções
que cabe ao vento compor em suas tempestades
e muitos, quase infinitos
olhares desendereçados
— cargueiros abarrotados de especiarias
e fartos desjejuns
que têm na ausência de destinatários
a sua própria e particular viagem.

deitam-se na preamar à espera da vazante,
garrafas prenhes de naufrágios que são,
e se lançam sonâmbulas,
engravidando-se ainda mais
à medida que mais naufragam.

a elas, o mar as deixa em paz,
que jaez de quem deriva é sonho
tal qual o de espírito que perambula
pelos cantos escuros de uma casa:
sonhar é deixar-se dormir,
e partir sem destino é como regressar.

10/05/25

domingo, 30 de março de 2025

RASCUNHO DE ÍCARO

Pink Floyd - Us and Them
(Clique no vídeo para abri-lo em nova aba e na legenda, para acessar a página de origem.)

Com que mais foste, em tal estado,
a marca finda em tua casa,
deitaste a mão em planta rasa,
e um novamente é rabiscado.

E, traço a traço, lado a lado,
ergueste a ideia sobre a brasa
e deste adeus à velha casa
igual quem mora em chão roubado.

És todo sonho, és todo fado:
a pena antecedendo a asa,
batendo como quem se atrasa,
num céu que azula imaginado.

Donde vieste, um não! e um brado.
Onde acabaste, nada abrasa.
E, ao Sol, que acima te desasa:
renasces ar, sem ser alado.

30/03/25

sábado, 14 de dezembro de 2024

VINTE POR NOVE


escrever é um trabalho que me dou
sem a preposição a
objeto direto regido por verbo
bi
tran
si
ti
vo

presente que se dá
num acontecimento
maior que eu

porém e porque
carrega uma vida inteira pretérita
e imperfeita

não sou como o homem
que vai ali e compra pão
que atravessa a rua
que banha a quinta-feira
com sabonete para a sexta

monto o meu calendário de cubinhos
e o dia virado
é quando digiro o pão
comprado amanhã

a fome não cabe no texto
a fome é o texto
devorando tudo

enquanto escrevo, observo
como se não fosse só
a palavra que me veste

escrever é o trabalho de queimar
as roupas na fogueira
a identidade
os dentes de leite

é montar vigília à espera
da escuridão

14/12/24

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

CARACTERES

Gérard Dubois - Moby Dick
(Clique na imagem para ampliá-la.)

eu sou Fabiano e sou Baleia
no sertão de preás gordos

sou Rebeca Buendía com seu saco de ossos
sua pele verde e olhos fosforescentes
sou José Arcadio louco atado ao castanheiro
e Úrsula diminuta na mentira de sua morte

sou Vadinho no chão do Domingo de Carnaval
sou Rozilda e seu fel de Quarta-Feira de Cinzas

sou Sancho crédulo de sua ilha
sou Quejada alucinado e só num mundo grande
grande demais

sou Ishmael lúcido entre loucos
sou Ahab inconcluso e espedaçado
pela irracionalidade branca

sou a Rosa na redoma
o baobá e o vulcão
no pequeno asteroide ao pôr do sol
esperando sem esperar
o ofício da Serpente

sou Flor, Gabriela e Dora
e o cansaço de guerra de Tereza
sou Maria do Carmo embuchada de inevitabilidades
na rede de João da Mata
e a faca de peixes de Bertoleza
libertando o próprio ventre
ante a possibilidade do horror

sou Margarida, vulgo Mocinha
pequena e escura
descansando da vida dos brancos
na pedra da fonte da estrada de Petrópolis
e a esvaziada Macabéa
preenchida por um Mercedes amarelo
na rua atravessada

sou Severino do finado Zacarias
indagando vida e morte à beira do Capibaribe
e sou Mestre Carpina
em cuja calma nasce outro Severino
que também sou eu

sou Amaro e Aleixo no porão do navio
e o punhal assassino de Crapiúna

sou a lavação dos peitos mortos de Diadorim
e a traição do torso nu de Luzia-Homem

sou o cínico Brás e seus emplastros
o inepto Bentinho em turvação
frente ao mar ressaqueado de Capitolina

sou tantos, e não sou nada
nem o sentimento do mundo tenho
nunca fui o infante sadio e grimpante
nunca guardei rebanhos
nunca fui a Pasárgada
nem conheço rei algum
ou felicidade, ainda que clandestina

sou um caractere apenas
um espaço-em-branco
vasilhame que o outro mundo preenche
e que este mundo rotula e enfileira na prateleira

sou também a boca que bebe
ora no copo, ora no gargalo, ora no mar
as pessoas que por mim trafegam
e transpassam como se meu único trabalho
fosse registrá-las
e esquecê-las

esquecendo, existo
e, através de mim, existem todos

22/02/24

terça-feira, 7 de novembro de 2023

MORTE À VALÊNCIA DA SAUDADE

(Clique na imagem para vê-la no tamanho original e na legenda, para acessar a página de origem.) 

(Poeminho linguisticoso e recalcado de fim)

A Gramática determina
que a saudade é valente
Palavra de substância, de um argumento só,
o qual, preposicionado por um de,
a complementa

Já eu digo
que valente sou eu,
cujo nome, avalente e intransitivo,
nada completa

E que o que foi, indiretamente, objetificado,
que jaza! entre os tantos nomes outros
que actam apenas semânticos
nas ruminâncias da memória

Saudade não tem objeto
Saudade não se mata
nem vira livro

Saudade se organiza entre os outros abstratos inúteis
no concreto dos neurônios mais velhos,
onde não há nenhuma sintaxe possível
de complementação

Ao final, é verbete apenas,
irremissível e estrutural
que a língua professa lacônica
e — por que não? —
saudosisticamente

07/11/23

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

O PROBLEMA DO CORAÇÃO É QUE ELE BATE

Jaseon deCaires Taylor - The Garden of Hope
(Clique na imagem para ampliá-la e na legenda, para acessar a página de origem.)

Desacostumado.
Pedaços de cores
reclamam olhos,
e onde estão?
— invisíveis no tempo.
O cheiro da terra, das roupas, do sol!
Há uma guia,
um cordame em que a memória se desondeia.
Um rio.
As águas batem cada vez mais forte,
e as cores vão se desvelando em punhais de luzes:
uma espiral cadente feita de lâminas brilhantes,
um vórtice aniquilador
do tempo presente.

Enfim, deságuo, e o mar é enorme,
e as ondas, gentis.
Estou sozinho, e tudo é horizonte.

Escrevo histórias
de peixes e abismos,
deito tudo no leito
e descanso.

E eu sei que é unicamente meu
o eu que ali adormeço.

22/02/23

segunda-feira, 13 de junho de 2022

METAPOEMA-MANIFESTO PELOS QUE VIVERAM

(por Bruno Araújo Pereira e Dom Phillips, assassinados pelo Brasil e encontrados no dia de hoje amarrados em árvores na região do Vale do Javari.)

queria fazer uma poesia engajada,
militando na letra como quem sangra na vida,
como quem salva a onça dos lobos,
o curumim, do trator,
a favela, do aço e do chumbo;
como quem morre num igarapé, mangueando-se
no mercúrio e no fascismo da Ordem e do Progresso.

queria dizer na pauta que aqui se luta
pelo espaço da fala, pelo centímetro quadrado
das calçadas crackeadas
e das covas severinas;
que aqui se é esmagado todo dia
pelo crente, pelo caubói, pelo cidadão de bem,
pelos perdigotos presidenciais.

queria escarafunchar a lepra urbana,
a leptospirose política, o cancro
do pastorado, do apostolado, do messiado,
como quem rasga a própria pele na esperança da dó,
mas na certeza do nojo.

queria fazer com os mortos o que se faz
com os fatos:
expô-los em varais, pregá-los nos postes,
fazê-los choverem nos tetos de vidro,
atear com eles o crematório de todas as mentiras
e enfiá-las goela adentro das bocas que as geraram.

mas isto não é poesia,
nem a poesia é nada disso.

a poesia não acha nunca o seu alvo
ainda que seja faca, mesmo que seja turba;
a poesia é só palavra,
e não se ressuscita o índio, não se desestupra a criança,
não se desmiserabiliza o miserável
com as palavras.

este papel não será nem cobertor nem fogueira
nos invernos que virão.

mesmo a poesia que grita, que manifesta
o silêncio morto do jornalista,
os ossos quebrados do indigenista,
o ânus rompido da criança afogada,
a carne queimada do babalorixá e do pajé
que não se fuma nos leblons,
essa poesia não muda nada, pois,
ainda que as palavras arrebatassem
e transcendessem a memória e o registro,
não encontrariam peitos, ombros, ossos,
olhos nem ouvidos,
embora exponha corpos e arremesse cadáveres
em todas as direções.

eu queria fazer poesia
como quem teima,
como quem, a despeito da vida, vive,
a despeito do dinheiro, vive,
apesar de Deus e dos evangélicos,
apesar da direita e da burguesia,
vive.
eu queria fazer poesia como quem morre,
porém vive
e existe, e continua, e incomoda, e cresce,
e periga revoluções.

13/06/22

terça-feira, 17 de maio de 2022

SEMEADURA


eu, um velho anacoluto,
que sou letra sincopada
da palavra que refuto,
encarno o matuto puto
da caatinga inventada

e uso a palavra molhada
para irrigar o meu luto:
nutro a terra, escalavrada
(de nua, a esferografadas),
com o meu rascunho enxuto.

à maniva dou indulto,
e a vagem salpicada
brota no mesmo minuto
em que a flor do milho hirsuto
pendurica, embonecada.

a tessitura enramada
viceja em estado bruto
— ora estame, ora fruto,
ora bulba açucarada:
ora nada; ora vulto.

14/11/18, 10-16/05/22

DE VEZ


e ali foi deixada a palavra, verde ainda,
esticada sobre a pedra,
quarando sob o sol:
cada letra, ciente de sua inutilidade futura,
e seus sons evolando, na manhã amarela,
sua alma prematura,
dismorfa e incoerente.

é comum que a verdade caia verde do pé
e morra azeda sem ser chupada.
e a terra?
amargurece.

01-04/22

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

POEMINHO VAGABUNDO

era um dia comum, banal,
mas banalzinho mesmo,
sem fazer falta ao calendário
nem dos santos nem dos pecadores:
um dia sem milagres, sem heresia,
vazio de horas,
um encadeamento de passos curtos
e dores nos pés.

somente à noite,
o tédio acumulado sortiu do espírito
um caco agudo de ócio
— lâmina primitiva do homem —
e sangrou da pele macilenta um poeminho
que dizia

“tenho pena das horas que me perderam;
nunca mais, vadias, nos encontraremos”

e o corte, torrente, exclamava do corpo estuporado
a indignação dos vagabundos:

— maldita és tu!, poesia,
sempre a forçar-se contra mim!,
sempre a arrancar-me os trapos!,
sempre a querer-me nu, a frio!,
sempre a tirar-me a fome,
que é tudo que tenho de meu!

24/11/20

quarta-feira, 21 de outubro de 2020

FORNICAÇÃO

(Clique na imagem para ampliá-la e na legenda, para acessar a página de origem.)

só,
ou em meio a números
— casal, ménage, swing, bacanal —,
o artista é,
essencialmente,
um sozinho.
 

caso não,
erra das duas uma:
a arte
ou a conta.

21/10/20

sexta-feira, 10 de abril de 2020

DISTRAÇÃO

(Clique na imagem para ampliá-la e na legenda para acessar a página do autor.) 

pois é.
a poesia veio,
passou,
e eu nem vi.
daí, eu me pergunto:
teria sido aquele incômodo profundo,
aquela raiva
de causa inindentificável
ou aquela vontade imensa de me exilar
dentro de uma garrafa?
teria sido a angústia? a apatia?
teria estado ao meu lado
à espera
de que eu a percebesse
ou teria me ignorado
(como de praxe)?
teria se cansado?
teria me abandonado?

10/04/20

quarta-feira, 25 de março de 2020

O CORPO

o silêncio é o verdadeiro corpo
daquilo que chamamos alma.

gritar, gemer, sussurrar, escrever,
tudo isso é roupa,
babilaques adornosos e rudimentares
que se esganiçam na construção de uma forma
que mais deforma que define
o eremita silente
que dorme como as estrelas das crianças
num céu apenas imaginado.

é no silêncio que existe
o deus que nos mendiga.

25/03/20

sábado, 2 de novembro de 2019

DO LADO DE DENTRO DAS PALAVRAS


do lado de dentro das palavras
ocorre um conselho secreto de sentidos
às vezes, guerra, e lacunas se abrem com as trincheiras
sentidos morrem para sempre
ou até a ressurreição semântica

às vezes, os sentidos se entendem, e reina a paz
aconteceu com a palavra “peremptória”
palavrinha chata do caralho
— não duraria três segundos descalça na roça ou na favela
onde seria comida de porradas, esquartejada a foice
e martelada à gosma viva nos lajedos e nas lajes —
imóvel, inerte como um cadáver embalado a vácuo
utilizável apenas em aulas de anatomia vocabular
e nos estupros vernaculares dos tribunais de justiça

às vezes, os sentidos se embiocam em orgias
e estendem suas genitálias trespassadas de metáforas e sinestesias
até sangrar rios de esperma e traços
numa semiose putificada e profusa
como um ovo eclodido de aranhas

de toda forma, às palavras, intimamente
gozam a fruição de si mesmas
velas breves ou círios eternos
prenhas de tudo o que não somos:
mistérios ajuntados nos discursos
fragor luminoso no obscurantismo dos textos
e de nossas vozes
deslugares de fala que nunca se ocupam
e que tudo têm a dizer

02/11/19