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domingo, 7 de julho de 2024

A FOGUEIRA INVISÍVEL

(Clique na imagem para ampliá-la e na legenda, para acessar a página de origem.)

a fogueira invisível
traz as chamas multicoloridas
flameja ocra e vermelha
pungindo ardor
na íris vária e escancarada

porém
a grande noite é a todos
espetáculo melhor que o incêndio
e a estrela distantina
deu de sequestrar todos os olhos

ascendem nela sublimíssimos
desatmosferizam-se purificados
projetam-se na matéria escura
para longe do mundano
e do escrutínio terrenal
que a pele inquere ao cérebro
a todo o tempo
— olha! que é?

a fogueira invisível
coitadinha
não tem quem lhe sente ao redor
e lhe asse estórias
não tem quem lhe sinta o calor
não tem quem se lhe sirva na pele
nem quem lhe ceda o frio
em sacrifício

queima e arde
inexistente na noite enorme
ignota na transcendência dos corpos
e inútil para o além insensível das almas

mas há no chão
e há no lenho e no fumo
e no ar dos mosquitos

há pequena
na noite pequena
das coisas pequenas

a fogueira invisível
compõe com o mato inútil
com a árvore macha, a pedra de seixo
com as cigarras e os grilos
a multitude das ausências
que permite às coisas inúteis
a inutilidade de serem belas

e o desgosto orgulhoso
de existirem sujas
e puras

07/07/24

terça-feira, 7 de novembro de 2023

MORTE À VALÊNCIA DA SAUDADE

(Clique na imagem para vê-la no tamanho original e na legenda, para acessar a página de origem.) 

(Poeminho linguisticoso e recalcado de fim)

A Gramática determina
que a saudade é valente
Palavra de substância, de um argumento só,
o qual, preposicionado por um de,
a complementa

Já eu digo
que valente sou eu,
cujo nome, avalente e intransitivo,
nada completa

E que o que foi, indiretamente, objetificado,
que jaza! entre os tantos nomes outros
que actam apenas semânticos
nas ruminâncias da memória

Saudade não tem objeto
Saudade não se mata
nem vira livro

Saudade se organiza entre os outros abstratos inúteis
no concreto dos neurônios mais velhos,
onde não há nenhuma sintaxe possível
de complementação

Ao final, é verbete apenas,
irremissível e estrutural
que a língua professa lacônica
e — por que não? —
saudosisticamente

07/11/23