(Poeminho linguisticoso e recalcado de fim)
A Gramática determina
que a saudade é valente
Palavra de substância, de um argumento só,
o qual, preposicionado por um de,
a complementa
Já eu digo
que valente sou eu,
cujo nome, avalente e intransitivo,
nada completa
E que o que foi, indiretamente, objetificado,
que jaza! entre os tantos nomes outros
que actam apenas semânticos
nas ruminâncias da memória
Saudade não tem objeto
Saudade não se mata
nem vira livro
Saudade se organiza entre os outros abstratos inúteis
no concreto dos neurônios mais velhos,
onde não há nenhuma sintaxe possível
de complementação
Ao final, é verbete apenas,
irremissível e estrutural
que a língua professa lacônica
e — por que não? —
saudosisticamente
07/11/23
Este blogue se destina ao uso artístico da linguagem e a quaisquer comentários e reflexões sobre esta que é a maior necessidade humana: a comunicação. Sejam todos bem-vindos, participantes ou apenas curiosos (a curiosidade e a necessidade são os principais geradores da evolução). A casa está aberta.
terça-feira, 7 de novembro de 2023
MORTE À VALÊNCIA DA SAUDADE
quarta-feira, 6 de janeiro de 2021
POEMA PARA MIM SÓ
e eis que assim se me termina tudo
todas as noites:
este suor seco, cola fria na colcha áspera,
os engasgos no peito,
estes imensos silêncios nas mãos,
a medula que range malassombros,
estes pés estragados pela multiplicação do peso
e pelas pedras descalças esfolados,
fronteiriços de mim com o mundo,
do qual só sabia com andá-lo.
gentes restaram por toda parte.
tomaram-me as mãos como alças de esquife,
velaram-me em beijos de adeus precoce.
sobejaram os olhares, as mercês, as piedades e os escárnios.
nunca me faltou ninguém,
mas faltei eu
em de alguém ser.
por isso mesmo, existo apenas em mim
e naquilo com que se enganam.
meu corpo também se enganou
e tomou-me por morbidez a resignação,
adiantando-se a mim
e escapulindo das suas obrigações físicas
de conter-me.
ora ele adormece sua própria noite
na escuridão vermelha da carne,
sem lua nem estrelas,
sonhando no estômago e nos intestinos
antecipações funestas de banquetes canibalescos
em que se entredevoram minhas memórias.
espero, grave, amnésico,
a carta de mim mesmo que atrasou
por falecimento do carteiro,
inanido em algum ponto do meu labirinto até aqui.
trá-la, por dó, o vento, disfarçado embora
de guinchos, roncos e silvos
da cantiga dos armadores da rede
com que costumava voar sobre o mundo
na forma de abismos.
nela, presumo, vêm codificadas instruções
de procedimentos e métodos
acerca da retomada das rotinas originais:
qual o jeito certo de mover as nuvens;
de vestir-se de vento;
de discernir o sol;
de correr com a lua;
de se unir à noite;
e de beijar o mar.
reaprender a ler
será o meu último trabalho
e o meu maior desafio.
05/01/21
sábado, 9 de maio de 2020
O COLECIONADOR
08/05/20
