Nenhum de nós é tudo aquilo que pensa de bom de si. Nem de mau. Contudo, essa projeção positiva compulsória também tem significativo potencial danoso. Nem os melhores de nós são isso tudo. Menos ainda, aqueles de quem pensamos isso tudo.
Continuam aqui, ainda que em silêncio, as palavras que pior nos definem: a decepção materna, os contragostos fraternos, as desilusões das enamoradas, as amarguras dos amigos.
Mesmo em análise relativista, ainda não somos isso tudo.
Por melhores que sejamos, nossos grandes amigos têm outros grandes amigos, alguns, talvez maiores que nós. Cada um de todos os amores de nossa vida já olhou com desejo alguém completamente irrelevante na rua, no ônibus, no trabalho. Talvez, até com afeto. Alguns, nem tão irrelevantes assim. Nossos pais já imaginaram a própria vida sem nós. E se sentiram bem. Para aqueles que creem, até mesmo Deus, que, em última instância, nos ama essencialmente, precisa exercitar extenuado um bom quinhão de piedade conosco, pois não? Amém.
Não somos isso tudo, mas somos de verdade tanto, e tantos! Tanto que só se revela na nossa maré baixa, com mar calmo, de barco no porto. Um tanto ignorado, frente à autoimposta aventura contra as ondas, entretanto real, carnal. E ainda somos tantos, tantos quantos não enxergamos, atrapalhados pelas selfies e pelos espelhos com os quais nos vestimos os olhos.
Quanto de nossa vaidade e presunção nos faria tão melhor se, após uma acariação com nossas falhas, saísse fantasiada de nós mesmos, num carnaval em praça pública, desimportante de nossas pretensões!
Seríamos tão melhores menos. Não menores, não encolhidos nem reduzidos: apenas menos. Menos tudo isso que nos cobramos ser. Inclusive, felizes. Só aí, assim, talvez fôssemos finalmente... felizes.
19/04/26

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