Se for para crer, desescreva.
Sem palavra, a ideia é livre
para ser crida ou esquecida.
Nada é mais potente
que o espírito oblívio e incorpóreo
que define o desconhecido.
Palavra não é para crer.
Palavra é para esquecer de crer.
27/04/26
Este blogue se destina ao uso artístico da linguagem e a quaisquer comentários e reflexões sobre esta que é a maior necessidade humana: a comunicação. Sejam todos bem-vindos, participantes ou apenas curiosos (a curiosidade e a necessidade são os principais geradores da evolução). A casa está aberta.
segunda-feira, 27 de abril de 2026
sexta-feira, 24 de abril de 2026
A CHUVA DO SÉCULO
(Crônica de aniversário filha do diálogo com meu grande amigo, o professor e batera Pedro Carvalho, em 19 de abril, em virtude de um vídeo que ele me mandara em que pessoas, pobres como nós, divertiam-se na lama e nas águas da doença e da morte em que nossas gestões municipais têm tentado nos afogar desde que foram criadas as civilizações.)
O ano era 1997. Fortaleza, bairro da Parquelândia.
Deveria ter ido trabalhar no meu empreguinho mixuruca de auxiliar de escritório de contabilidade com meu bom amigo e patrão, o contador Sr. Antônio Pereira Fortes, o qual passava pela minha casa a caminho do escritório no Edifício Palácio Progresso, no Centro. Porém, a natureza e o destino tinham outros planos.
Era, como hoje o é, meu aniversário, dia 24 de abril, e despencou sobre Fortaleza aquela que viria a ficar famosa como “a chuva do século”.
Minha cidade nunca teve um sistema de esgotamento adequado. Ela crescera, mas a conduta de seus gestores sempre foi como a de antes da criação do porto e das grandes secas do XIX e do XX. Nesse sentido, éramos e talvez ainda sejamos provincianos como à época dos vendedores de água, leite e peixe de porta em porta, conduzindo seus burros e jumentos carregados de bilhas e odres.
Foi uma catástrofe. Portões de alumínio foram arrancados das molduras, muros caíram — inclusive, o do Cenáculo que dava para a Gustavo Sampaio, minha rua, por cima do qual costumávamos pular a fim de roubar as mangas e os cajus das freiras, na quadra chuvosa, anualmente. Carros, motos, cães e gatos afogaram-se. Muitas pessoas ficaram desabrigadas, e registrou-se uma morte. Houve gente que perdeu tudo. Eu, não.
O ano era 1997. Fortaleza, bairro da Parquelândia.
Deveria ter ido trabalhar no meu empreguinho mixuruca de auxiliar de escritório de contabilidade com meu bom amigo e patrão, o contador Sr. Antônio Pereira Fortes, o qual passava pela minha casa a caminho do escritório no Edifício Palácio Progresso, no Centro. Porém, a natureza e o destino tinham outros planos.
Era, como hoje o é, meu aniversário, dia 24 de abril, e despencou sobre Fortaleza aquela que viria a ficar famosa como “a chuva do século”.
Minha cidade nunca teve um sistema de esgotamento adequado. Ela crescera, mas a conduta de seus gestores sempre foi como a de antes da criação do porto e das grandes secas do XIX e do XX. Nesse sentido, éramos e talvez ainda sejamos provincianos como à época dos vendedores de água, leite e peixe de porta em porta, conduzindo seus burros e jumentos carregados de bilhas e odres.
Foi uma catástrofe. Portões de alumínio foram arrancados das molduras, muros caíram — inclusive, o do Cenáculo que dava para a Gustavo Sampaio, minha rua, por cima do qual costumávamos pular a fim de roubar as mangas e os cajus das freiras, na quadra chuvosa, anualmente. Carros, motos, cães e gatos afogaram-se. Muitas pessoas ficaram desabrigadas, e registrou-se uma morte. Houve gente que perdeu tudo. Eu, não.
(Clique nas imagens para ampliá-las.)
Ironicamente, havia ganhado meu presente catastrófico, o qual serviria de parâmetro para todos os meus futuros aniversários. Sr. Antônio, obviamente, não havia conseguido nem sair do Pirambu, bairro onde morava. As ruas eram rios, e aquela comunidade era das últimas no radar do saneamento básico municipal. Eu havia ganhado uma folga de um trabalho que, a despeito dos ótimos companheiros de escritório, detestava. E eu aproveitaria.
Saí à rua como a um açude. Meu bairro fora, havia séculos, uma grande lagoa, a Lagoa do Alagadiço. As depressões do terreno nunca foram terraplanadas por obras públicas — Parquelândia já limitou o município, quando ainda se chamava Coqueirinho, um “ermo” de riachos e lagoinhas, de vegetação densa e frutífera; daí, “progrediu”, primeiro como periferia para depois começar a gentrificar-se a um bairro de remediados (minha condição) e, finalmente, à residência da burguesia que não tem condições de Aldeotas, Meireles ou Papicus. Isso, aliado ao abandono da CAGECE, garantia, sempre em grandes águas, laguinhos de esgoto que se tornavam balneários de moleques e suplícios de seus pais.
No meio desse caos, estava eu dando braçadas onde, nos dias anteriores, voltava cabisbaixo e cansado de mais uma jornada de trabalho. Meus 23 anos não eram muito distantes, graças a Deus, dos meus 13 — era ainda um bom moleque. Abandonara alguma prudência e, apesar do medo, arriscava-me próximo às bocas de lobo e em subidas no meio corpo dos postes, dos quais alguns, já faiscantes.
No curso dessas jamais antes empreendidas aventuras, eis que surgiram fraquinhos, mas indistinguíveis, gritos de socorro entre os trovões e os coiós da canalha de que fazia parte: eram as dançarinas da banda de forró Calango Aceso, as “calanguinhas”, que moravam numa casa alugada na parte baixa de minha rua, onde, àquela altura do dilúvio, a água dava no peito. Heroicamente, como boas ratazanas, nadamos entre os toletes e os guabirus, desviando de chinelas extraviadas de seus pares e de tocos de oitizeiros boiantes, torpedeados da alameda da Av. Bezerra de Menezes, no intuito invencível de resgatar as jovens daminhas. Chegando lá, vimos, como boas calangas que eram, umas cinco ou seis atrepadas no muro frontal, “em tempo de uma arte” ou de uma tragédia. A água que descia do oitão da casa já havia deitado abaixo o portão de canaletas e elevava-se mais ou menos a 1,60m, e o muro seria o próximo. Eu mesmo carreguei duas no tuntum até um plano seguro, dois quarteirões acima, recebendo beijoquinhas leptospiróticas por gratidão.
(Clique na imagem para ampliá-la.)
Uma pena. Tinha apenas 23 anos, mas esperava mais. Um bocó, reconheço hoje. A segunda e a terceira maiores chuvas registradas em Fortaleza seriam em 2004, com 250mm registrados, e em 2024, com 215,1mm. Em 1977, choveram, em 02 de junho, 168mm. Essa, a do meu aniversário de 23 anos, foi de 270,6mm em apenas 13 horas, representando 79% de todo o esperado para aquele abril. Todas, no meu curso de vida — eparrei, Iansã! —, e uma, no meu aniversário, o melhor de minha vida, hoje bem sei. Outras bênçãos mandará Oyá, confio. Contudo, nunca mais choveu assim, por dentro do espírito, com enxurrada e navegações, nesta minha pobre, mas pouco comum, existência. Por isso, entre melancólico e grato, encerro esta croniquinha nestes meus, no dia de hoje, 52 anos de águas de Iansã, Nanã, Oxum e Iemanjá. Um agreste que nunca foi seco; um orvalho que nunca durou.
24/04/26
Fonte das imagens da catástrofe: sites dos jornais Diário do Nordeste e O Povo e página do Instagram @fortalezaantigamente.
Fonte das informações das chuvas: FUNCEME.
Fonte da imagem da capa do CD da banda Calango Aceso de 1997: site Letras.
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domingo, 19 de abril de 2026
ISSO TUDO
Nenhum de nós é tudo aquilo que pensa de bom de si. Nem de mau. Contudo, essa projeção positiva compulsória também tem significativo potencial danoso. Nem os melhores de nós são isso tudo. Menos ainda, aqueles de quem pensamos isso tudo.
Continuam aqui, ainda que em silêncio, as palavras que pior nos definem: a decepção materna, os contragostos fraternos, as desilusões das enamoradas, as amarguras dos amigos.
Mesmo em análise relativista, ainda não somos isso tudo.
Por melhores que sejamos, nossos grandes amigos têm outros grandes amigos, alguns, talvez maiores que nós. Cada um de todos os amores de nossa vida já olhou com desejo alguém completamente irrelevante na rua, no ônibus, no trabalho. Talvez, até com afeto. Alguns, nem tão irrelevantes assim. Nossos pais já imaginaram a própria vida sem nós. E se sentiram bem. Para aqueles que creem, até mesmo Deus, que, em última instância, nos ama essencialmente, precisa exercitar extenuado um bom quinhão de piedade conosco, pois não? Amém.
Não somos isso tudo, mas somos de verdade tanto, e tantos! Tanto que só se revela na nossa maré baixa, com mar calmo, de barco no porto. Um tanto ignorado, frente à autoimposta aventura contra as ondas, entretanto real, carnal. E ainda somos tantos, tantos quantos não enxergamos, atrapalhados pelas selfies e pelos espelhos com os quais nos vestimos os olhos.
Quanto de nossa vaidade e presunção nos faria tão melhor se, após uma acareação com nossas falhas, saísse fantasiada de nós mesmos, num carnaval em praça pública, desimportante de nossas pretensões!
Seríamos tão melhores menos. Não menores, não encolhidos nem reduzidos: apenas menos. Menos tudo isso que nos cobramos ser. Inclusive, felizes. Só aí, assim, talvez fôssemos finalmente... felizes.
19/04/26
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segunda-feira, 13 de abril de 2026
300
Colagem fuleira do autor sobre cena de 300 (Zack Snyder, 2006)
(Clique na imagem para ampliá-la.)
Hoje, minha Fortaleza completa 300 aninhos de fundação (a data é uma convenção controversa, mas não importa).
Nem parece. A Desposada do Sol tem uma superfície moderna, às vezes, até demais, contrastando com sinais do abandono e do tempo, apinhada de lixo e de néon, de fios de poste à moda de Nova Deli e de arquitetura brega-futurista, de Porsches e de carrocinhas de cascas de geladeiras de tração desumana.
Na profundidade, Fortaleza é velha e compulsoriamente desmemoriada. Desde as valas comuns com corpos de retirantes mortos nos campos de concentração encontrados nas obras do Metrofor até a cela de D. Bárbara de Alencar, não sabemos direito quem somos. Lembramos mal, à força.
Ainda assim, persistimos na manutenção de uma identidade. Da pilhéria moleque ao pioneirismo em tantas áreas, ainda somos um povo, ainda podemos nos identificar uns nos outros.
Feliz aniversário pra nós, parabéns à nossa capacidade de existir e de resistir, “apesar dos perigos”.
13/04/26
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domingo, 5 de abril de 2026
ALMOÇO
Depois de meses (parecem décadas; talvez sejam), hoje, preparei algo pra mim mesmo, pra comer sozinho, sem as circunstâncias de compartilhar ou de armazenar pra semana. Um macarrão simples, com molho de tomate e calabresa, temperado com cebola-roxa e alho, fora o meu sal temperado, tudo ao forno. Servi com uma farofa de couro de frango e uma sobrecoxa assada, pingada de limão-taiti e molho de pimenta industrializado. Comi tarde. Sem fotos. Sem música. Sem necessidade. Ficou bom. Fiquei bem. Foi um bom domingo.
05/04/26
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