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segunda-feira, 13 de abril de 2026

300

 

Colagem fuleira do autor sobre cena de 300 (Zack Snyder, 2006) 
(Clique na imagem para ampliá-la.)

    Hoje, minha Fortaleza completa 300 aninhos de fundação (a data é uma  convenção controversa, mas não importa).
    Nem parece. A Desposada do Sol tem uma superfície moderna, às vezes, até demais, contrastando com sinais do abandono e do tempo, apinhada de lixo e de néon, de fios de poste à moda de Nova Deli e de arquitetura brega-futurista, de Porsches e de carrocinhas de cascas de geladeiras de tração desumana.
    Na profundidade, Fortaleza é velha e compulsoriamente desmemoriada. Desde as valas comuns com corpos de retirantes mortos nos campos de concentração encontrados nas obras do Metrofor até a cela de D. Bárbara de Alencar, não sabemos direito quem somos. Lembramos mal, à força.
    Ainda assim, persistimos na manutenção de uma identidade. Da pilhéria moleque ao pioneirismo em tantas áreas, ainda somos um povo, ainda podemos nos identificar uns nos outros.
    Feliz aniversário pra nós, parabéns à nossa capacidade de existir e de resistir, apesar dos perigos.

13/04/26

domingo, 5 de abril de 2026

ALMOÇO

    Depois de meses (parecem décadas; talvez sejam), hoje, preparei algo pra mim mesmo, pra comer sozinho, sem as circunstâncias de compartilhar ou de armazenar pra semana. Um macarrão simples, com molho de tomate e calabresa, temperado com cebola-roxa e alho, fora o meu sal temperado, tudo ao forno. Servi com uma farofa de couro de frango e uma sobrecoxa assada, pingada de limão-taiti e molho de pimenta industrializado. Comi tarde. Sem fotos. Sem música. Sem necessidade. Ficou bom. Fiquei bem. Foi um bom domingo.


05/04/26

sexta-feira, 3 de julho de 2020

POLIGLOTA DE ALMAS


    Ler é ouvir de si mesmo as palavras de todos os outros e tornar-se daí um poliglota de almas.
    Não ler é trocar todas as vozes do mundo pelos gemidos dos fantasmas da casa assombrada pelo próprio silêncio.
    Ler não é só decodificar os signos, tampouco um bom leitor o é pela quantidade ou pela diversidade de temas, gêneros ou idiomas a que se dedica.
    Ler de verdade é ser generoso com o universo alheio a ponto de partilhar do que é oferecido, mesmo completamente diferente, mesmo que choque, mesmo que leve a conflitos e impasses. Ler não é apenas “colher” do texto, mas sim trabalhar a terra, semeá-la, enfrentar o estio e as águas, matar as pragas, para, somente assim, compreender o que se colhe e, por conseguinte, o valor do alimento que os dois, autor e leitor, levaram à mesa.
    Dessa forma, um bom leitor não pode ser como um glutão, guiado apenas pelo prazer da mesa posta. Muito pelo contrário. Um bom leitor é aquele que senta à margem do rio sob o sol, enfia os dedos na terra imunda de vida e compreende assim, totalmente sensorial, o milagre na semente.

03/07/20