Número de sílabas (desde 11/2008)

counter
Mostrando postagens com marcador Fortaleza. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Fortaleza. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 24 de abril de 2026

A CHUVA DO SÉCULO

(Clique na imagem para ampliá-la.)

(Crônica de aniversário filha do diálogo com meu grande amigo, o professor e batera Pedro Carvalho, em 19 de abril, em virtude de um vídeo que ele me mandara em que pessoas, pobres como nós, divertiam-se na lama e nas águas da doença e da morte em que nossas gestões municipais têm tentado nos afogar desde que foram criadas as civilizações.)

     O ano era 1997. Fortaleza, bairro da Parquelândia.
    Deveria ter ido trabalhar no meu empreguinho mixuruca de auxiliar de escritório de contabilidade com meu bom amigo e patrão, o contador Sr. Antônio Pereira Fortes, o qual passava pela minha casa a caminho do escritório no Edifício Palácio Progresso, no Centro. Porém, a natureza e o destino tinham outros planos.
    Era, como hoje o é, meu aniversário, dia 24 de abril, e despencou sobre Fortaleza aquela que viria a ficar famosa como “a chuva do século”.
    Minha cidade nunca teve um sistema de esgotamento adequado. Ela crescera, mas a conduta de seus gestores sempre foi como a de antes da criação do porto e das grandes secas do XIX e do XX. Nesse sentido, éramos e talvez ainda sejamos provincianos como à época dos vendedores de água, leite e peixe de porta em porta, conduzindo seus burros e jumentos carregados de bilhas e odres.
    Foi uma catástrofe. Portões de alumínio foram arrancados das molduras, muros caíram — inclusive, o do Cenáculo que dava para a Gustavo Sampaio, minha rua, por cima do qual costumávamos pular a fim de roubar as mangas e os cajus das freiras, na quadra chuvosa, anualmente. Carros, motos, cães e gatos afogaram-se. Muitas pessoas ficaram desabrigadas, e registrou-se uma morte. Houve gente que perdeu tudo. Eu, não.



 
(Clique nas imagens para ampliá-las.)

    Ironicamente, havia ganhado meu presente catastrófico, o qual serviria de parâmetro para todos os meus futuros aniversários. Sr. Antônio, obviamente, não havia conseguido nem sair do Pirambu, bairro onde morava. As ruas eram rios, e aquela comunidade era das últimas no radar do saneamento básico municipal. Eu havia ganhado uma folga de um trabalho que, a despeito dos ótimos companheiros de escritório, detestava. E eu aproveitaria.
 


(Clique na imagem para ampliá-la.)

    Saí à rua como a um açude. Meu bairro fora, havia séculos, uma grande lagoa, a Lagoa do Alagadiço. As depressões do terreno nunca foram terraplanadas por obras públicas — Parquelândia já limitou o município, quando ainda se chamava Coqueirinho, um “ermo” de riachos e lagoinhas, de vegetação densa e frutífera; daí, “progrediu”, primeiro como periferia para depois começar a gentrificar-se a um bairro de remediados (minha condição) e, finalmente, à residência da burguesia que não tem condições de Aldeotas, Meireles ou Papicus. Isso, aliado ao abandono da CAGECE, garantia, sempre em grandes águas, laguinhos de esgoto que se tornavam balneários de moleques e suplícios de seus pais.
    No meio desse caos, estava eu dando braçadas onde, nos dias anteriores, voltava cabisbaixo e cansado de mais uma jornada de trabalho. Meus 23 anos não eram muito distantes, graças a Deus, dos meus 13 — era ainda um bom moleque. Abandonara alguma prudência e, apesar do medo, arriscava-me próximo às bocas de lobo e em subidas no meio corpo dos postes, dos quais alguns, já faiscantes.
    No curso dessas jamais antes empreendidas aventuras, eis que surgiram fraquinhos, mas indistinguíveis, gritos de socorro entre os trovões e os coiós da canalha de que fazia parte: eram as dançarinas da banda de forró Calango Aceso, as “calanguinhas”, que moravam numa casa alugada na parte baixa de minha rua, onde, àquela altura do dilúvio, a água dava no peito. Heroicamente, como boas ratazanas, nadamos entre os toletes e os guabirus, desviando de chinelas extraviadas de seus pares e de tocos de oitizeiros boiantes, torpedeados da alameda da Av. Bezerra de Menezes, no intuito invencível de resgatar as jovens daminhas. Chegando lá, vimos, como boas calangas que eram, umas cinco ou seis atrepadas no muro frontal, “em tempo de uma arte” ou de uma tragédia. A água que descia do oitão da casa já havia deitado abaixo o portão de canaletas e elevava-se mais ou menos a 1,60m, e o muro seria o próximo. Eu mesmo carreguei duas no tuntum até um plano seguro, dois quarteirões acima, recebendo beijoquinhas leptospiróticas por gratidão.
 
(Clique na imagem para ampliá-la.)

    Uma pena. Tinha apenas 23 anos, mas esperava mais. Um bocó, reconheço hoje. A segunda e a terceira maiores chuvas registradas em Fortaleza seriam em 2004, com 250mm registrados, e em 2024, com 215,1mm. Em 1977, choveram, em 02 de junho, 168mm. Essa, a do meu aniversário de 23 anos, foi de 270,6mm em apenas 13 horas, representando 79% de todo o esperado para aquele abril. Todas, no meu curso de vida — eparrei, Iansã! —, e uma, no meu aniversário, o melhor de minha vida, hoje bem sei. Outras bênçãos mandará Oyá, confio. Contudo, nunca mais choveu assim, por dentro do espírito, com enxurrada e navegações, nesta minha pobre, mas pouco comum, existência. Por isso, entre melancólico e grato, encerro esta croniquinha nestes meus, no dia de hoje, 52 anos de águas de Iansã, Nanã, Oxum e Iemanjá. Um agreste que nunca foi seco; um orvalho que nunca durou.

24/04/26

Fonte das imagens da catástrofe: sites dos jornais Diário do Nordeste e O Povo e página do Instagram @fortalezaantigamente.
Fonte das informações das chuvas: FUNCEME.
Fonte da imagem da capa do CD da banda Calango Aceso de 1997: site Letras.
Clique nas indicações para acessá-las.

segunda-feira, 13 de abril de 2026

300

 

Colagem fuleira do autor sobre cena de 300 (Zack Snyder, 2006) 
(Clique na imagem para ampliá-la.)

    Hoje, minha Fortaleza completa 300 aninhos de fundação (a data é uma  convenção controversa, mas não importa).
    Nem parece. A Desposada do Sol tem uma superfície moderna, às vezes, até demais, contrastando com sinais do abandono e do tempo, apinhada de lixo e de néon, de fios de poste à moda de Nova Deli e de arquitetura brega-futurista, de Porsches e de carrocinhas de cascas de geladeiras de tração desumana.
    Na profundidade, Fortaleza é velha e compulsoriamente desmemoriada. Desde as valas comuns com corpos de retirantes mortos nos campos de concentração encontrados nas obras do Metrofor até a cela de D. Bárbara de Alencar, não sabemos direito quem somos. Lembramos mal, à força.
    Ainda assim, persistimos na manutenção de uma identidade. Da pilhéria moleque ao pioneirismo em tantas áreas, ainda somos um povo, ainda podemos nos identificar uns nos outros.
    Feliz aniversário pra nós, parabéns à nossa capacidade de existir e de resistir, apesar dos perigos.

13/04/26

quinta-feira, 26 de maio de 2022

VERANIA

(Clique na imagem para ampliá-la e na legenda, para acessar a sua página de origem.)
 
a sombra tem cheiro de passos.
a calçada, atropelada,
embioca aos trambolhões numa ladeira
que tudo leva, meu Deus:

música, alma e cidade,
tudo despenca desimaginado
na correnteza empoeirada da rua,
que dá no mar.

a concha no ouvido me diz dos carros,
dos ônibus e caminhões.
na terra, mais gente que areia
é marulhada pela brisa que lhe espalha
o sal e as cinzas
pelo calçadão.

desconecta-se a orla
do mar que a produz.
muita gente, muita gente,
muitos muitos entulhados
no basculho da restinga urbana,
que incha
e avança ferozmente.

no céu, um domingo epitelial;
mal sabe o Sol, que não nasceu ontem,
do fiasco da vida de seus raios.

quem sabe, à noite,
a rua bêbada suba a maré
e permita que a fauna urbana
— a verdadeira —
retome a posse da vida
no vaivém indiferente e sanitário das hordas.

25-26/05/22

sábado, 3 de abril de 2021

É VERDADE ESTE “BILETE”

Foto: Fernando de Souza
(Clique na foto para ampliá-la.)

    Essa pandemia mudou completamente a maneira como compreendemos a vida que levamos dentro das alterações forçosas de rotina. As interações assumiram novos valores, e muitas delas acabaram por ser percebidas completamente inúteis. Entre as úteis, estão as laborais e as sentimentais. Amigos, família, amores e afetos empreciosaram-se na lonjura, e a internet acabou finalmente atingindo o seu objetivo mais nobre, que é o de aproximar o que importa nas pessoas. Imagino como devem ser — pois esse tempo já passou por mim — a necessidade da presença física, a urgência de abraços e beijos, a carência dos dedos nos cabelos, os ouvidos procurando nos cantos da casa o leque-leque das chinelas nas solas dos pés assinalando que não se está sozinho; e nada disso ser possível. Pelo menos, por agora.
    Eu, de certa forma, tenho a sorte de estar numa fase muito confortável de minha misantropia. Faltam-me meus amores perto, é óbvio. Porém, ter normalizada a minha necessidade de solidão é bastante redentor. Pela primeira vez, vejo uma utilidade prática para a minha saúde emocional em eu ser exatamente assim como sou.
    Acontecem também outras curiosidades, e algumas oscilam entre a surrealidade e a brasilidade, semissinônimos que se opõem pelo contexto apenas. Trasanteontem, dia 1º — é mesmo verdade este “bilete”! —, por volta de 18h, caminhava pela orla da Beira-Mar em direção a mais uma aula particular. É o fantasma da morte nos ônibus, nos supermercados, nos próprios apartamentos dos alunos, mas a precisão prevalece. Não parei de aproveitar em nenhum momento as oportunidades de aulas que surgiram. Em parte, sentia-me culpado por estar ali, já que afirmo e confirmo a obrigatoriedade do isolamento nestes tempos, mas, fazer o quê, preciso trabalhar. Melhor que seja pelo menos agradável o risco de morte, pois não? Pois bem. Pus Zé Rodrix para tocar nos fones de ouvido, sentei-me numas pedras ao lado de um dos espigões e comecei a comer o pão com mortadela que preparara em casa, pois tinha bastante tempo até o início da aula e antevi a fome. Olhei o mar, andei pela areia, observei algumas poucas famílias por ali, alguns namorados, vários solitários. Todos, meio que como eu: o olhar apreensivo, buscando qualquer coisa nas ondas que fizesse a vida valer a pena. Caminhei até o ponto no calçadão que ficava em frente ao prédio, ainda tinha uns 40 minutos. Sabia que ninguém deveria estar ali, mas, para mim, era o jeito. Pelo menos, não chovia. Máscara, viseira, álcool em gel, desconfiança e distância dos outros. No fone, já tocava outra coisa, mas eu queria ouvir de novo “soy latino-americano e nunca me engano, e nunca me engano”. No momento em que procurava, percebi de canto de olho uma linha humana preta, cinza e laranja se aproximando a pé, de moto e em camburões: era a polícia. Tirei os fones.
    — Senhor, estamos em lockdown — ele falou como eu, “loquidáun”, apesar de eu ter notado a polidez forçada pelo ambiente e ensinada pelo chefe da corporação para momentos em que se aborda alguém na “área nobre”.
    Sempre que vejo a polícia, lembro-me da noite em que o Miguel, meu filho, quebrou a clavícula num escorregão. Ele tinha então 2 anos, e fomos de Uber ao José Frota ele, a mãe e eu. Na pressa, o motorista foi pelo itinerário do aplicativo, o que nos meteu num lugar esquisito, deserto, miserável, típico ponto de desova. Na saída desse “cheiro do queijo”, uma viatura nos parou, todos apontando as automáticas. Apesar de estarmos de mãos para cima, calmos e afirmando que levávamos uma criança ao hospital, eles só baixaram as armas e a truculência quando viram o Miguel no banco de trás, improvisadamente tipoiado e no colo da mãe. Desde então, entendi que só estamos seguros de joelhos e com as mãos na cabeça. E olhe lá.
    — Ô, meu querido, eu entendo, mas estou esperando a hora de começar a trabalhar. Naquele prédio ali, veja.
    Apontei. Sempre ando como se ainda fosse estudante: jeans, tênis ou chinela, mochila, camiseta, boina, fone de ouvido. Acho que ele demorou a associar aquilo que viu a um trabalhador. Poderia ter dito que era professor, que ia dar aula particular, mas poderia piorar minha situação. Vai saber.
    — Meu senhor, a partir das 17 horas, está proibido ficar na área de lazer da praia.
    — Claro, eu concordo com tudo isso. Pode deixar.
    E fui andando. Eu adiei uns segundos o problema imediato: andaria para onde?
    — Meu amigo, me diga uma coisa: onde eu posso ficar?
    Acho que ele não esperava a pergunta óbvia. Acredito que só aí ele entendeu que não tinha escapatória senão revelar a brasilidade de nossas medidas legais, emergenciais e urgentes em meio a esta pandemia, que é deixar cair o biombo que esconde a macacada hipócrita que é o nosso comportamento geral. Nenhum de nós, mesmo aqueles que, como eu, perdemos parentes e amigos para o vírus, agimos como deveríamos nestes últimos 15 meses. Talvez não o tenhamos feito nunca, mas era de se esperar que pelo menos o medo da morte motivasse a responsabilidade que se espera de quem quer viver. O problema é que temos de sobreviver primeiro. Viver vem depois.
    — O senhor pode ficar do outro lado da rua.
    — Oi?
    — Ali, do outro lado da rua.
    Várias pessoas estavam lá. Semiaglomeradas. Quase todos que foram tangidos do calçadão, os moradores dos prédios, os seguranças, os porteiros… Isso, sem falar no pequeno engarrafamento causado pela baixa velocidade dos camburões e das motos, aboiando com as sirenes o gadinho magro. Era um cortejo fúnebre-carnavalesco de fardas, buzinas e xingamentos em voz baixa.
    A vontade de rir foi grande. A máscara me ajudou, escondendo o sorriso de nojo.
    — Ali pode?
    — Pode, só não pode ficar aqui, na área de lazer.
    Era uma aula de pragmatismo in loco. Proibido, para a proteção da própria população, era ficar apenas na área de lazer. Ficar aglomerado na calçada oposta já contava como lockdown, segundo o silêncio eloquente e desconcertado do policial.
    — É, meu amigo, tá certo. O ideal era que nenhum de nós precisasse estar aqui, né?
    — Isso. Nenhum de nós. Mas tem de trabalhar, né?
    — Pois é. Quem manda ser brasileiro, né? Bom trabalho aí.
    — Pro senhor também.
    Atravessei a rua, obedeci. Fiquei uns 20 minutos embaixo de uma árvore de calçada, tão bem podada que parecia de plástico como quase tudo por ali. Pensei nos que sofriam, nos que estavam morrendo, no meu irmão morto, nos meus filhos, que dependem de eu estar ali. Abri a playlist. Zé Rodrix não fazia mais sentido ali. Belchior, talvez… Acabei na minha pasta de samba, procurando o Roberto Ribeiro. “Coisas da Vida” sabia melhor naquele começo de noite, cheio de ausência de humanidade, inteligência e esperança: “e, se falar a verdade das coisas tristes da vida, no peito, tristeza que dói. Assim eu levo o meu canto, sangrado em desencanto, e, se me alerto pra vida, é obra de puro espanto”. A última faixa de um dos melhores discos de samba de todos os tempos, de um 1979 em que eu, com 5 anos, a mesma idade do Miguel, não tinha a menor ideia ainda do que era ser brasileiro.

03/04/21

sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

PRECIPITAÇÃO


foi um corisco numa noite
de falta de energia elétrica
— era Deus dizendo
que é mais bonito assim

foi a chuva subindo raios
do mar às nuvens
na praia de minha infância
— meu céu era feito de búzios salgados
e auroras

foi a rua molhada
com meus filhos
foi o sertão colorindo as virgens
foi a folga do trabalho
que a cidade inundou

foi uma chuva forte essa de quando
nem se notava
mas na hora certa
a semente guardada entendia
que sua casa era aquele chão
e que era possível raiar
naquele escuro

18/12/20

domingo, 8 de dezembro de 2019

O MILAGRE DE SANTA CLARA


    — Olha aquele um: não foi marcado. Feliz, sem marcas, quase santo. Nesse aí, a vida errou o tiro.
    — A vida não mata com bala não. Isso é sonho, Francisco. A vida mata lento, e é com veneno, e veneno no homem pode ser na veia ou na ampola. Esse não tem cara de quem porta porque administra.
    Sempre achei que era branca a pessoa da morte. Francisco ria disso e me dizia que a vida é que era branca, e os homens a sujavam. Esse outro lado que jamais atingiria me divertia nele. O amor é algo que também mora nesse outro lado. Ele era cheio de sorrisos venturosos, um peito de passarinho. Dizia em meus ouvidos que toda melancolia tinha o seu mel, e que eu era a “sua melancolia”. Francisco era um ponto brilhante que eu orbitava encolhida, enegrecida de sombras e crateras carbonizadas.
    Olhei de novo o homem, mais atenta, enquanto Francisco me recitava versinhos do Jeneci. Realmente, ele parecia uma versão definitiva e irretocável do Francisco. Era velho sem ser gasto, era branco e iluminado, andava como se se espalhasse pelo caminho e se tornasse mais completo a cada passo. Acredito que os polos, as extremidades de tudo, de alguma forma se encontram num paradoxo perfeito em algum lugar. Se aquele homem era, como dizia Francisco, um não-marcado, ele era, segundo eu mesma, todas as dores juntas. Contudo, o que era, naquela situação, diferente de nossa habitual discordância das coisas era que eu não acreditava que as marcas nele eram dele. Parecia que essas marcas eram aquilo que ele espalhava, tornando-se mais belo à medida que regava o mundo das dores, sombras e crateras que eu conhecia tão bem.
    Francisco, ele, sim, era um santo. Conversava comigo como se eu fosse um bichinho, punha flores em meus cabelos no final de um dia de trabalho. Aquela semicalva também parecia a do Santo, o Outro, e eu gostava de fingir arranhá-la com minhas unhas. Foi ele quem me ensinou a olhar o sol na hora certa, a tomar cerveja na hora certa, a fazer amor na hora certa. Talvez fosse isto o que me dificultasse amá-lo: não me sentia transformada, mas sim consertada. Aquele excesso de luz me aniquilando a escuridão acabava por tirar de mim o que poderia me fazer sentir-lhe amor: a necessidade. Francisco era onipresente. No universo, a escuridão é onipresente. A luz é que é pontual como postes iluminados numa estrada noturna e sertaneja, saindo ou entrando nas cidades. Naquele universo franciscano, a luz era insidiosa, e eu era obliterada em vez de iluminada. E eu sabia que não era assim com aquele velho. A luz que vinha dele não me obscurecia; eu era atraída por ela. Aquele homem branco era, sim, a morte, eu sabia. Sabia porque, quanto mais eu o olhava, mais eu mesma eu me sentia, e era tudo de uma claridade que não me matava, como a de Francisco fazia, mas que me revelava. Enquanto Francisco ia me contando das cores do sol na linha do mar atrás de mim, servindo como assento no qual me recostava na Ponte Metálica, eu ia me sentindo mais nua e distante, olhando para aquele homem branco passeando calmo na noite que purpurejava o céu crescente diante de mim. Aquele homem era a morte porque não me matava.
    — Francisco, eu preciso andar. Vamos até o Joca? A gente vai pela areia, molhando os pés.
    Isso era entrar na noite que entrava na cidade.
    — Vamos. De lá, a gente vai pros barcos, talvez ainda tenha camarão.
    Incomodou-me um pouco ele aceitar. Tinha a esperança de que ele dissesse não, e eu diria que tudo bem, que iria assim mesmo, que ele poderia voltar, que ele não me fazia falta, que eu não o queria. Encandeada, eu fui. Sabia que o velho tinha ido por ali. Sabia que eu tinha esse dom de rastrear gente, de farejar gente igual a mim. Talvez conseguisse. No mar, ele não entrou, estava em roupa de passeio. Há quem se banhe à noite, ainda mais naquele novembro quente dos infernos. O mar de Fortaleza tinha essa propriedade de esquentar o frio e resfriar o calor, além de ser um limite que só transpassam os barcos e os suicidas, e ele não era nenhum dos dois. Por que eu queria alcançá-lo? O que eu faria, o que eu diria? Diria? “Oi, boa noite, o senhor é muito bonito”. Ele não era bonito; era outra coisa. O que eu sentia era outra coisa. Não o queria como homem, não lhe cobiçava o corpo. Eu queria mesmo era perguntar “Oi, boa noite, o senhor me leva?”. Preciso ir. Preciso me escurecer de novo, preciso de mim negra para poder olhar as estrelas. E Francisco? Francisco era bom. Eu não o apagaria.
    — Você quer dar um mergulho?
    — Eu, não. Por quê?
    — Tá muito quente. Olha aquele lugar ali. Tem pouca gente.
    — Francisco, e se eu quiser, mas não contigo?
    — …
    — É, sozinha. E se eu quiser entrar, e não voltar?
    — Tá, tudo bem, a gente não vai. Não precisa apelar. É que a gente já andou tanto…
    — É, a gente andou muito. Aqui tá bom. Consegue uma água de coco?
    — E uma cervejnha?
    — Pode ser. Deve ter vendedor de camarão por aqui. Já vi gente vendendo ali, no Espigão.
    E se eu aproveitasse e entrasse mesmo? O homem branco deve estar lá… Ou chegando. Sei que andei mais rápido que ele. É quente mesmo, Francisco tem razão. Se bem que, sei lá… Estou respirando melhor. Nesse céu sem nuvens, já dá para ver as estrelas, apesar da cidade. Por que tem tanta luz em toda parte? Isso sufoca igual aos fios e aos postes e aos prédios. Igual ao Francisco. Sozinha, seria bom entrar. A água está boa, quase não há ondas. Aliás, nas ondas, eu penso melhor. Já consigo pensar melhor. O barulho das ondas não vira palavra, e a palavra atrapalha o pensamento, o verdadeiro pensamento. As palavras pesam como âncoras, como a que prende aquele navio lá… O barco lá longe, que, no mesmo corpo, espera e parte, sou eu, um estado fixo e itinerante, esta vontade de ir, indo, mas estática, ancorada, contemplando a jornada. Falar atrapalha a viagem.
    — Aqui, o coco. O rapaz lá vai trazer o camarão e as cervejas junto.
    — Então, pra quê o coco?
    — Ué, você pediu, ora. A cerveja foi ideia minha.
    — E o mar?
    — Olha aquele navio ali. Deve vir carregado de quinquilharia. Nessa recessão, é só o que se consegue vender. Deve ser bom ficar parado no mar, o vento, a espera… Sabia que, dependendo de onde eles vêm, eles podem esperar mais tempo pra aportar do que pra chegar aqui? Se vierem do Recife, com certeza… Olha, viuvinhas. Deve ser época de tatuí. Nem sei como ainda tem, com essa poluição.
    — Eles se adaptam, eu acho.
    — Olha aquele senhor de novo. Olha, sem preocupação, sem peso… Acho que não é rico. Gente rica anda torta ou dura, desfilando pra ninguém.
    — É…
    — Ué, não vai discordar não? Você tinha dito que o homem carregava veneno.
    — Acho que tem mais veneno no barco.
    — Opa, chegou a cervejinha, E o camarão. Valeu, irmão. Pedi pra você também, Clara. Olha, até o senhor lá vai dar um mergulhinho. Também, com esse calor…
    — É. Agora eu quero também. Vamos apostar quem nada mais longe?
    — E nossas coisas?
    — Deixa com o moço da cerveja.
    — Tá, mas isso de nadar…
    — Qualquer coisa, você me salva.
    — Certo.

08/12/19

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

TODAS AS CORES DO UIRAPURU


    Nem ligava mais se a entendiam. “Isso é gente que não chove”, dizia às rolinhas. Todos os dias, fazia pelo menos uma coisa sem sentido algum aos olhos tão acostumados com o pragmatismo da capital, e isso a tornava ridícula em seus farrapos de mendicância, mesmo aos outros desgraçados como ela. Vira e mexe, conversava numa língua pagã com uma árvore ou dedicava uma tarde incinerante a andar curvada pela Praça, catando os lixos minúsculos que os garis haviam ignorado. Talvez, fosse a sua infância iluminada por um sol diferente, a qual lhe ensinou como andar descalça e o tom de voz certo para chamar passarinho. Fortaleza era tão pobre de passarinho, só tinha pardal e bem-te-vi. Enojavam-na os pombos. Ela, que se acostumara a comer avoantes e hamburguesas no sertão de sua avó, sentia um certo ódio quieto daquela ave tão urbana. Achava-a feia como os prédios e os postes, e, pior, sentia-se oprimida de tal forma que se impressionava como se vendo uma visagem quando vinham em revoada, à semelhança de marimbondos enormes. A cidade inteira lhe era como um gigantesco arapuá que não podia queimar como o fazia seu avô, quando ia colher mel nos campos da vazante. Ali era sempre verde, mesmo na estiagem, e o aroma dos cravos-de-defunto, dos jasmins e das flores das mangueiras adoçava a atmosfera como uma grande roupa natural, como uma grande alma, dentro da qual brincava a dela. Já o pombo combinava com o poste, que combinava com o prédio, que combinava com o cinza quase tátil que se respirava no Centro.
    Na Praça do Ferreira, ela era a “doida do assobio”. A galhofa tão típica do fortalezense é, na verdade, a maior violência desta cidade, ensinada desde o berço e aplicada até o pós-túmulo. É como se todos existissem nos dois extremos apenas: os defeitos, laureados pelo coió — patrimônio imaterial —, e as virtudes, sempre associadas ao poder que inviabiliza o coió. Entre os polos, um pêndulo que dança entre a hostilidade e a subserviência. No sertão dela, também tinha disso, mas não era ambiental como aqui. Aqui, na falta da parede do açude, fugia assobiando para as viuvinhas e um ou outro sibite, que ornavam os velhos oitis da Avenida do Imperador.
    Também, com as décadas, fora perdendo a memória, tanto que não se lembrava mais do assassinato do pai pelo avô na ocasião em que aquele fora pego tentando estuprá-la. Não se lembrava mais das foiçadas e dos gritos, mas ainda guardava uma predileção inconsciente pelo vermelho. Também não se lembrava de ter sido expulsa pela mãe, que nunca lhe perdoara os ganidos que lhe roubaram o homem. Tampouco do desgosto do avô, que pegou maniconia e apaixonou-se pela morte, gemendo pela esposa finada no terreiro da cacimba, onde fora encontrado meses depois, mole e podre, os quartos quebrados. Viera de caminhão em caminhão, sempre pagando com a moeda que matara o pai, até dar em Horizonte, donde andou até sangrarem os pés na esperança de ver o mar. Viu. Era grande como lhe contara a avó, que guardara numa garrafa vazia de cachaça um litro de sua água, o seu bem mais precioso, atrepado na prateleira dos santos, ao lado de um Sagrado Coração de Jesus e de um Imaculado Coração de Maria, onde votava seus terços de saudade. Contudo, decepcionou-se com a solidão do mar. Esperava algo parecido com o que sabia de água, que era o Jaguaribe dando no Orós, algo como um encontro, uma comunhão. Sua alma doeu um pouco, pois rezara para aquela água em menina, e esperava uma espécie de Deus sertanejo, turvo, violento e bom, um Deus como seu avô. Em vez disso, encontrou imensidão e sal e não entendia como as pessoas adoravam se salgar naquela água de onde sempre se saía mais sujo do que quando se entrava. Nem entrou. Molhou os pés, que arderam nas lazeiras e nas unhas perdidas. Daquele dia lembrava-se bem. Começaram ali os coiós e as arengas. Nunca pensara que ser matuta era coisa que se usasse como ofensa, e era uma ofensa tão aguda, pungente como aquela ondinha suja que lhe chupava o sangue dos entrededos. Sem saber o que fazer, acentuou a matutice num esconde-não-mostra da cara entre os ombros, e foi-se andando torta pela dor do sal e das tampinhas de garrafa sob os pés. Subiu a rua da igreja, igreja feia demais, parecia um malassombro cinza, pontiagudo. Desde que entrara na cidade por Caucaia, sentiu um acinzentamento de tudo, do céu, do ar, das pessoas, até que, para não ficar também cinza, coloriu o ar à sua volta com os assobios, que era o seu jeito de passar pelos aperreios. Foi escorraçada de casa assobiando, assobiou enquanto os caminhoneiros e freteiros lhe comiam o resto de infância, assobiava para não se perder, pois seguia o som que projetava alma nas coisas que lhe tiravam, família, virtude, vida. Assim foi. Existia dentro das musiquinhas de menina e das imitações de sabiás, graúnas e bigodeiros, de que tanto o pai gostava. De alguma forma, nessa amnésia, sentia-se bem, como se um santo lhe houvesse agraciado com a percepção de um sentido íntimo das coisas passageiras e a dessignificação dos traumas, dos quais pareciam ser compostos todos os outros. Retinha os sorrisos das crianças filhas de outros mendigos como ela, aos quais retornava sempre uma imitação de passarinho, mas não perdia nem um momento considerando a própria miséria ou o olhar ascoso das outas crianças com as suas mães, que só não lhe passavam por cima por nojo, até porque, como não se lembrava como fora dar ali, não era capaz de pensamentos dessa profundidade. Lembrava o sertão iluminado, paraíso para o qual, um dia, voltaria. Lembrava a decepção do mar e o início e o então do cinza urbano, e isso era como o seu diabo. Para o resto, assobiava e se coloria toda, sem lhe atingirem os escárnios e os coiós cotidianos.
    Naquele cenário, no centro do Centro, no centro do início daquele aglomerado de fins, visitavam-na e aos outros mendigos, casualmente, voluntários de igrejas e assistentes sociais. Achava graça neles. Ninguém dizia coisa com coisa. Falavam de higiene e de Deus, como se ela não pudesse lhes ensinar assobiando a anatomia e a Bíblia, a ciência atômica dos corpos e a metafísica absoluta do universo. Contudo, numa manhã em que assobiava para um saco preto de lixo de lanchonete, de onde retirava os restos que lhe calavam momentaneamente os silvos, parou diante dela uma mulher velha, branca, mais ou menos da sua idade, com o olhar silente e duro como o de uma matriarca que manda o filho se calar. Assombrou-se de súbito, mas logo abriu um sorriso podre de volta, pois não viera dela nada de ruim. O olhar da velha dizia muito. Ela o ouviu atentamente. A velha abaixou-se, acocorando-se ao lado dela, sempre lhe dizendo o que ela sabia ser só para ela, pois não havia palavras nesse dito. Desabituara-se das palavras, pois o nome das coisas era música, e ninguém lhe dizia nada de importante. Sentiu que a velha se apequenava à medida que o diálogo prosseguia, esvaziando-se pelo olhar, que a preenchia de sons que nunca ouvira nem saberia imitar. Também lhe pareceu que ela não era mais velha, que ambas não eram mais velhas, que ambas iam suavemente se colorindo — uma, preenchendo o seu branco de laranjas e crisóstomos; outra, atenuando o seu negro em tons lilases e amagentados. Foram, no tecido daquele silêncio, vestindo-se uma da outra, tornando a ser quem foram, sob os umbuzeiros e entre as gravioleiras, ambas bebendo daquela sertania, tão misteriosa aos que as rodeavam — pois nunca enxergaram aqueles espectros luminosos nem ouviram aqueles segredos compartilhados de beira d’água —, mas tão identitária, e íntima, e telúrica, que pareciam ambas mãe e filha, filha e mãe, terra e planta, sertaneja e sertão. Seu coração crescia, e ia se lembrando de todas as coisas. Lembrou-se de outro mar, de outros pais, de outros crimes. Lembrou-se alegremente de quando era inconclusa, feita apenas de pensamentos e imaginações. Lembrou-se ainda mais distante, quando, na mais absurda liberdade, existia inimaginável, etérea e ampla, parte intrínseca de coisas que ainda nem existiam. A velha, já remoçada e multicolorida, confidenciava-lhe o segredo que guardava o que lhe diziam todo aquele tempo os passarinhos, quando ela os imitava declarante de si, mas ignorante deles. Ela compreendeu com a surpresa de quem não sabia como não percebera antes. Ali, ela, também moça, irradiante de tons de opala, iridescera finalmente àquilo tudo que poderia ter sido quando lhe roubaram corpo e alma e resplandeceu em cores impossíveis dentro dos ouvidos do chão, das árvores e das águas. Face a face, ambas se perpetuaram num trinado de uirapuru, bicho lendário que seu avô lhe contara ter visto com as oiças, uma vez só, sorrindo banguela as suas lembranças de São Saruê.

18/11/19

terça-feira, 12 de novembro de 2019

COLAR DE PÉROLAS


    — “A pérola é o câncer da ostra”, dizia para si mesmo àqueles dias.
    Bêbado de palavras, deixava voejarem os sentidos daquelas no fundo do seu mar fosco, poluído de guimbas, cacos de garrafas e roupas podres de suicidas.
    — “Não jogai pérolas aos porcos… Pérola, câncer, cancro, caranguejo, carcinoma… Ostra, ostracismo, óstraco, banimento, banner, exílio… Dias, aqueles dias…”, era esse o fluxo em que se embriagava, afogando-se.
    Lembrou-se do que ela lhe dissera uma vez, perdidos ambos um do outro, traçando rotas pelas estrelas:
    — Deixe meu espírito no frio, não mexa nele, não o aqueça. Você é covarde ao fogo e não sabe lidar com incêndios.
    Realmente. Ardia em febre. Beber só piorava. Rompia o limite que assegurava a integridade do pensamento e da memória, pois a cachaça tomava-lhes as mãos e conduzia-os dançando e gargalhando cruelmente entre os cardos e mandacarus do sertão do imaginário. Contudo, na febre, delirava, e isso era o seu incêndio e tinha lá os seus açoites. Misturavam-se verdades suas e dela, na recuperação mnêmica dos gritos e dos sussurros. O que teria de fato acontecido? Onde acabavam o feito e o dito e iniciava a percepção?
    Queimava-lhe também o remorso da inércia diante da febre epitelial que dela transcendera ao extrafísico. Ele, terrenal e salgado, era de um elemento diferente, um que virava vidro quando diante da chama, e, vidro que era, deixara-se transver, deformando o que estava além de si e codificando-se na sua própria invisibilidade. As labaredas eram nada mais que um balé ruivo e alucinado sobre seu corpo e espírito, ambos incapazes de arder com ela. Punia-se intimamente, tentando incinerar o que lhe sobrara de razão, a ver se, ao menos, nas cinzas, haveria um pouco da matéria que não tinha podido dar a ela nem com flores, vestidos e babilaques tecnológicos. A rocha de que era feito tinha baixíssimo grau de fragmentação, e viraria aço muito antes de ser magma. Entretanto, como se imolava mesmo sem línguas de fogo, crepitava em estalos, irradiava ondas de lamentações infernais e encandeava distâncias homéricas, tanto que, sem saberem ao certo por quê, afastavam-se amigos e familiares, e incomodavam-se meio enojados desconhecidos de toda sorte, inclusive os semelhantes.
    Comeu o enxofre durante meses. Numa manhã que teimava em não raiar, procurou-se no espelho enquanto escovava os dentes, pois o embaçado dos olhos fizera estes acordarem por último. Porém, o que lá estava era-lhe totalmente estranho, e não da estranheza aterrorizante dos despertados do coma ou dos mutilados por ácido. O que lá estava não era um “quem”, não lhe parecia uma pessoa. Sabia como era uma pessoa, sabia! A estrutura óssea, os músculos, a pele. Por conseguinte, ainda que fosse outro, saberia que seria ainda uma pessoa, um ser, mas não reconhecia nada, não havia semelhança com nada. O que estava à sua frente era um ineditismo, uma palavra sem letras, um símbolo sem remissão. Lavou o rosto com o medo de que, uma vez limpos os olhos, a imagem lhes sumisse. Esfregou-os, e lá estava ainda, entregando-lhe algo que lhe pareceu um sorriso, a imagem. Passou a mão no vidro, retirando com as unhas os perdigotos desidratados e as marcas de pasta de dente, e sentiu o contato frio da matéria que lhe tocava de volta. Sentiu uma vertigem como a que só sentira quando criança, quando o pai acelerava na antecipação do declive, e o corpo parecia, por uma fração de segundos, flutuar para depois ser recebido pelo assento da Belina, a sempre possibilitadora de suas viagens ao sertão. Em seguida, algo lhe ascendeu a espinha, ao que o corpo todo obedeceu como se nunca houvesse sido aquilo o seu costume, e desatou-o do chão de azulejos retangulares azul-celeste do seu banheiro, tomando-lhe a forma para outra, uma forma nova e definitiva, equivalendo-se ao que jamais fora nem pretendia ser naquela vida. De mãos dadas, desincompatibilizaram-se com todo o resto, pessoas e coisas, sentimentos e memória. Olharam em volta e viram tudo se obsoletar sem que tivesse havido uma querela sequer. Ninguém era vencedor ou vencido. Tudo, simplesmente, existira, e tudo aquilo que haviam sido estava posto em uma fotografia sobre o aparador da sala, onde também jaziam uma bonbonnière vazia, uns bichinhos de porcelana e um porta-joias de concha bivalve envernizada, presente que dera a ela havia anos, quando as pérolas eram só imaginadas.

12/11/19

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

A CANÇÃO DE MARIALVA

    Queria tanto saber tocar violão! Nas vezes em que tentara, sentiu que tinha dedos de capim, de pato, de anêmona. Suas amigas ou tocavam ou conheciam um boyzinho que tinha pelo menos um ukulelê, e sempre rolava um sonzinho na calçada, passando de mão em mão junto com os baseados e os vinhos baratos. Tinha esquecido muita coisa que queria com toda a força de uma criança que não tinha nada: dançar como as bailarinas de auditório, saber brigar para matar sem esforço, ter todos os brinquedos do mundo, e, é claro, ir à Disney. Crescera e, como toda criança pobre, entendera cedo que lugar lhe cabia. Conhecera os homens cedo, e à força. Contudo, embora o tempo e a normalidade do estupro entre suas amiguinhas lhe tentassem empurrar a aceitação de que era um objeto, assim como os veadinhos do bairro e até os que não eram, guardaria para sempre outro tipo de desejo, um novo, sem nome e sem alvo, um que sabia que nunca seria satisfeito. Este lhe incomodava amiúde, sobressaltando-lhe as pequenas felicidades e o sono, à moda de uma assombração ou do estouro dos rojões que anunciava a chegada da droga na favela. Associava essa vontade ao violão nem ela mesma sabia por quê. Vinha como uma melancolia inconsolável e breve e se esfumaçava na erva que tragava, queimando-se na bia que sobrara da solidão da calçada na noite anterior. Era sozinha de espírito. Nunca soube do pai, a mãe lhe deixara na avó para fabricar e parir mais solidões, que somavam oito e também desconheciam como e por que existiam. A avó morrera, o avô, antes. Sumiram tios e primos, e todos lhe aplaudiram os primeiros aniversários, e para nada! Nunca os perdoou. Porém, ela o fez à mãe, que aparecia só de vez em quando, sempre mais feia, mais murcha, mais usada, querendo saber como estavam ela e Elisabete — a única que se mantivera na casa após a diáspora dos irmãos sobreviventes —, desculpa que introduzia uma busca dissimulada em cuidados por coisas que pudessem ser convertidas em pedras de crack. De alguma forma, não a culpava. Acreditava de coração que ela saíra de casa para proteger as filhas restantes, já que o último a lhe ocupar o colchão e o corpo também queria as carnes mais novas balançando nas redes na sala-cozinha. Intuía que a diferença crucial entre si e sua mãe — a que protegera uma e desgraçara a outra — consistia na sua timidez absurda de concha, que contrastava com a profusão incinerante de D. Marleide, ainda presente apesar da ruína física e da mental, que já se insinuava.
    Se pelo menos soubesse uma música… Só uma! Quem sabe não se lhe soltasse a voz, que sempre escondia em bodejos baixinhos quando queria dizer algo importante… Elisabete, bem mais desenvolta, cobrava dela mais atitude. Ambas careciam de estudo, mas cozinhavam bem, e era o que lhes garantia o sustento: uma banquinha de porta, com pratinhos, bolos, salgadinhos e espetinhos, que alimentavam os passantes entre suas perdições. Incrementavam com cachaça e cerveja em latinhas, lenitivos de passagem que lhes pagavam água, gás e luz, já que o muquifo onde viviam era próprio.
    — Tu vai fazer o quê pra dar rumo à tua vida, Marialva?
    — Que é?
    — Amofinada desse jeito, ninguém te quer.
    — Cuide do seu priquito, que eu cuido do meu.
    — Deixa de ser grossa, porra! Vem cá, deixa eu te contar um negócio.
    E falava dos meninos amigos dos peguetes e dos PA que colecionava. Ambas eram bonitas, mas Elisabete, um ano mais velha, prerrogativa da qual sempre usava contra a irmã, tinha razão: Marialva se escondia a ponto de ser irrelevante mesmo entre os amigos. No entanto, Marialva só se incomodava com o excesso de expectativas. Deixassem-na em paz! Iria viver sua vida entre pessoas ou entre pulgas, contanto que pudesse manter seu único luxo, um aparelho celular usado, mas com 32 gigabytes de músicas, estendível por um memory card com o dobro da capacidade, e seus preciosos fones wireless, que mantinha escondidos da irmã. Ouvia Elisabete, fingindo-lhe atenção. Era bem intencionada, bem o sabia, mas lhe adivinhava um desmundo como o da mãe, sempre propensa a ser pingente de piroca. Seus sentidos só se atiçaram quando mencionou Flavinha, companheira de mágoas e de baseados.
    — Esse aí até a Flávia pegava, má!
    — Pegava era porra. A Flávia é direita.
    — Direita, sei. Dorme na caixa, isso sim.
    — E daí, que ela não gosta de homem? Que é que tem?
    — Tem nada não, mas daí tu dizer que ela é direita…
    — Rapaz, ninguém tem nada pra dizer dela. Trabalha, cria a filha sozinha, paga as contas.
    — Sim, e o tempo no Auri Moura Costa?
    — Já pagou pelo que fez, Bete. Te manca. A pessoa não pode mudar não?
    — Pode, mas também pode não. Ela só consegue trabalho noutro bairro, que o povo daqui não confia deixar ela fazer faxina nem no quintal. Dona Lisete que sabe! Vivia sumindo coisa quando ela limpava lá.
    — Mulher, aquilo tu sabe que era o Marquim que vendia pra dar pro Boca. A Lisete era era cega.
    Ficavam nisso, e nisso também ficava a sua revolta. Era fraca de verbalizar o universo de frases que acumulava das canções, assim como as suas próprias. Uma noite, já quase na hora de guardarem a banquinha, ajuntou-se o bando de sempre: todos com idades aproximadas, a maioria escondendo na EJA a humilhação do desemprego, e o restante vivendo de bicos. Entre estes, Flavinha, cheirando a sabonete depois do serviço e de botar a Maíra para dormir, abastecida do mingau grosso. Como de praxe, alguém sacou dum violão preto um Raul, depois a Legião e o Cazuza, e ficaram nessa, rodando um e outro beck e praguejando a vida em nome de Jah. Flavinha tinha uma voz tão bonita! Soubera por ela da Nazirê, da qual virou fã.
    — “Ê, acorda pra vida, mais um dia que acaba, alguma coisa aí dentro ainda não terminou…”, encoravam.
    Seu peito esquentava. Aquele desejo primitivo insurgia, mas o olhar louro da Flavinha logo afastava qualquer angústia de fatalidades. Isso e as tragadas no baseado imundo iam limpando a morte que lhe rondava a vida. Sentia acendendo uma palavra, que crepitou na outra, e deu-se uma fogueirinha branda cantarolante sem a necessidade da cortina do coro para se esconder.
    — “Cada dia que se passa, mais difícil vai ficando, todo dia um leão você tem que derrubar…”
    Alguém tinha dinheiro, e Bete botou na roda a cachaça que sobrara, o que amansou qualquer possibilidade de insurreição. Eram todos gente boa, evitaram a vida inteira meter-se com as gangues e cair na prostituição, e ali só rolava mesmo maconha. Uniam-se por esgueirarem-se entre os abismos da miséria e pela música, distintivo tribal de bom gosto, espécie de autoelitização conferida para existirem naquele excremento de cidade. Flavinha, ali do lado, comentava baixinho tudo que Marialva queria ouvir: como a banda empoderava as mulheres, como os homens eram sórdidos, ainda que fossem pais, irmãos, amigos, e como sua pele era lisinha, sua morenice era atraente… Algumas doses lubrificaram as bocas, que começaram a fumar umas as outras. Bete já havia guardado a banquinha em casa e lá dentro mesmo ficara com Valdir numa gemedeira baixinha e gostosa, e os restantes tocavam “Vamos fugir”. Foi o que Marialva e Flavinha fizeram, com meia garrafa de Pingo de Ouro e dois baseados na cabeça. Apesar de ser acostumada, Marialva perdia feio para Flavinha, que mantinha um andar de quem vinha do culto.
    — Encosta aqui, Alvinha…
    Amassaram-se, dedilharam-se como se fossem duas cuícas, e Marialva nem ligava mais se a viam ou ouviam, e gemia alto a voz que nem sabia que tinha, aqui e ali reprimida por Flavinha, que temia o que a polícia faria se as pegassem. Sabia de cor o ensinamento do cassetete em seus orifícios e já tinha engolido à força o esperma de todos os patrulheiros do Ronda e do Raio daquela quebrada o suficiente para ser cautelosa. Alvinha, mesmo assim, voava e estrebuchava, ela mesma, uma guitarra sendo solada pelos dedos e entre as coxas de Flavinha, que lhe chupava os gritos e os seios. Findas e aterrissadas, desceu uma a outra do parapeito baixo da casa da esquina e seguiram seus rumos, ignoradas pelo silêncio do violão que também virara sexo pelos cantos.
    Na manhã seguinte, a cabeça descolocada de Marialva sacudiu com a irmã socando os cadarços da rede, perguntando pelo seu celular. Demorou um pouco a sair da afasia, mas súbito apavorou-se num grito.
    — Tava junto do meu!
    Durante a bebedeira, todos tinham entrado na casa, fosse para mijar ou foder. Bete começou a socar tudo que não pudesse quebrar acidentalmente e só parou quando a parede arrancou-lhe umas lascas de unha. Marialva, zonza, grasnou que seus fones também sumiram.
    — Porra de fone! Merda de fone! Vivia me negando, e olha aí! Caralho! Caralhooooooooooo!!!
    Quem passava em frente achou que fosse fim de relacionamento, tamanho era o ódio verbal de uma e o bestialismo gritante da outra. Marialva parecia um suíno que fora amarrado para o abate. “Minhas músicas, meu fone!” era o que tentava vocalizar, mas o surto animalesco não articulava. Bete já apenas chorava entredentes o nome da Flávia, já a irmã desesperava como da primeira vez, como no primeiro estupro de um dos pais de um de seus irmãos mais novos, que morrera com o pescoço quebrado na mão da polícia. Lembrou-se do peso e do suor, do esmagamento e da asfixia, lembrou-se de não poder gritar e, justo por isso, gritava o que nunca pudera. Sentiu-se de novo uma coisa, um objeto roubado, ela mesma, e não os aparelhos. Bete já parara e apenas observava firme o desespero gutural da irmã. Pela primeira vez, sentiu-lhe o que sentia pela mãe, sempre escandalosa, sempre constrangedora.
    — Aprendeu, sapatão dos inferno? Aprendeu?
    Flávia dera um tempo do bairro. Soube-se que tinha sido pega pela patroa fazendo um boquete no marido, e a boca miúda cresceu o fato até as raias do crime passional, umas, e da fuga com o traidor, outras. Por meses, não se soube dela nem da filha, até darem notícia de que virara evangélica e vivia com um dono de bodega e a filha em Caucaia, onde ninguém que as conhecia morava, e só souberam disso acidentalmente, pois o próprio Marquinhos, indo fazer um avião de coca para o Boca pelas bandas de lá, foi atendido por ela no balcão da Mercearia El Shadai, cabelo longo e preto, olhar zangado, voz dura. Quase não a reconhecera. Quando perguntou como estava, recebeu um versículo de resposta e um “passar bem”. Marquinhos juraria a todos que ela estava muito bem, que nem parecia mais aquela ladrona das coisas de sua mãe e que, de fato, Deus agia certo por linhas tortas.

04/11/19