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sábado, 14 de dezembro de 2019

A SOBREVIVENTE


    Eu já ouvi que era uma adolescente com a simpatia de uma velhinha. Queriam dizer, talvez, que meu comportamento não era atrevido nem arrogante como o das minhas amigas de então — porque essas coisas de amizade mudam! —, cheias de bravatas e crueldadezinhas com todos. De fato, eu sempre achei essa vitrine espinhuda em que as meninas costumavam transformar sua fala, seus gestos e suas atitudes um artifício tão pobre, um desperdício de ironia existencial tão grande A maioria era frágil, gentil e carente como é o natural nessa idade, assim como os meninos também, inclusive. Todavia, com estes, a vitrine era uma hipérbole macaqueada do que eles achavam que um homem deveria ser. Sempre achei que era mais prática a transparência prudente; e mais segura, a verdade encarada no espelho.
    Hoje isso me lembra minha avó, D. Menininha, que morreu sendo chamada por esse apelido, o qual carregava o sentido exato do que ela fora a vida inteira: uma ispilicute.  Minha avó foi uma ispilicute mesmo inválida em sua cadeira de balanço, no sopé da calçada alta, implicando com o povo da rua, dando coió para espantar morcego e fumando escondido até a morte um cigarro pé-duro que ninguém sabia como obtinha.
    — Invente seus mistérios e me deixe com os meus, Ritinha.
    Esse foi o melhor conselho que recebi na vida, junto com o outro de procurar homem só pela manhã.
    — É quando eles traem, minha filha. Melhor lado do chifre é o lado de fora. E procure homem da perna fina. Trabalha, que é um danado

    Adaptei esse conselho ali pelos catorze, quando dei em cima de alguém pela primeira vez. Maria Luíza, um chuchu. Perninha fina, mas uma cinturinha
Fiquei com vontade de contar para minha vó do alvoroço, da lambança de quem faz sem saber o que está fazendo, do susto e da carreira, da risadaria e do gozo, o primeiro de vera, o que me abriu uma greta lascada na pele e no juízo, que eu tinha de preencher pelo menos uma vez por semana, senão ficaria doida. D. Menininha nem sabia como era certo aquele conselho das pernas. A pessoa é mais ágil, sem ser bruta, é leve e maleável, sabe intuir onde colocar o corpo, uma delícia. Perna grossa vem normalmente com uma modorra inata, uma leseira, um arrastado de chinela. Peguei mais regra que exceção, posso afirmar: mulher de perna grossa só presta para homem.
    Malu foi a primeira que me disse aquilo de parecer uma velhinha, numa tarde de um falso trabalho escolar no seu quarto cheio de pelúcias. Ela queria dizer que eu era mais experiente, imaginei na época, mas depois a entendi. Isso de não fingir ser outra pessoa, não dissimular esse eu-mesma, que era de acordo com o ela-mesma, me atribuía uma aura de alegre segurança, me incluía num grupo do qual eu não escolhera fazer parte, mas já fazia: o dos guias, o dos conhecedores dos caminhos. O que aconteceu de verdade foi que eu intuí tanto quanto a Malu todos os toques, o tempo certo em que as minhas mãos deveriam ficar entre as suas pernas, a sucção adequada para cada beijo e chupão, a quantidade perfeita de saliva em cada linguada. A diferença foi que eu agi com a mesma naturalidade de quem faz uma traquinagem qualquer, como tocar a campainha da dona Lourdes — que a havia instalado para estabelecer a diferença entre ela, que se arrogava ares de evoluída, e nós, o canelau, os zés-povinhos —, a única que havia naquela época, e sair correndo, calculando o tempo e a velocidade, o risco e o prazer, e tudo isso com a consciência da subversão e sem me questionar um só segundo sobre a simbologia ou a aceitação daquela molecagem pelos adultos, o que sabiam os adultos de ser criança?, o que uma criança deveria sofrer por ser quem é? Foi assim, como uma perna que se põe após a outra numa carreira desabalada, que eu descobri a doçura do proibido e a urgência de mais, porque aquilo era eu, e aquilo era muito bom.
    Não foi fácil, contudo. Guaiúba era, naqueles anos setenta, a despeito de ser um interior perto da capital, de um atraso pouco possível de ser imaginado hoje, mesmo com este retrocesso mental que ascende contra pessoas como eu. O que hoje escandaliza era usual na época, era encartilhado e ensinado na fala e no cinturão. Escondi muito bem meu romance com a Malu, mesmo quando estávamos ulceradas pelas brigas que depois levaram ao rompimento. Escondi bem, porque possuo a arte de encaixar minhas máscaras sociais firmemente e de trocá-las com perfeição. Para meus pais, eu era só a moleca cheia de meiguice, estudiosa, boa filha, menina direita, porque era isso que eles precisavam saber de mim, e essa era a minha verdade para eles, a única. Não precisava ser
com outras pessoas quem eu era para a Malu. Para ser lasciva, depravada, puta, mulher, eu já tinha a Malu. Ninguém mais precisava me ver daquela maneira. Entretanto, já queria… Olhava as outras meninas da escola, fingia-lhes amizade para sondar possibilidades.
    No entanto, D. Menininha, por trás de sua quase cegueira desdentada e entrevada, me sentiu os guardados. Talvez pela sua própria experiência com a sexualidade, que continuo imaginando ter sido uma sequência de violências e resistências — porque ela, apesar de um conhecimento doutoral no assunto, que não hesitava em passar adiante desbocadamente, não falava do meu finado avô, por respeito ou nojo, os quais ela nunca deixou ninguém discernir exatamente, resguardando-se nessa dúvida —, ela adivinhava que eu já teria experimentado homem.
    — E aí, minha filha, já tá mexendo direitinho?, perguntava com uma cumplicidade e uma malícia que me emocionavam, porque eu sabia serem, daquele jeitinho dela, só para mim.
    — Oxe, vó, e eu lá mexo em nada? Sou bem quietinha, respondia no mesmo código.
    E ríamos, e assim nos entendíamos, cifradamente. Ela sabia de maneira sangrenta o preço da liberdade, pois esta lhe havia custado tempo, saúde e juízo, e, por isso mesmo, cuidou muito bem da minha durante aqueles dois anos em que o amor e o sexo cresceram em mim, e eu floresci. Quando ela morreu, experimentei uma solidão e um abandono que me amadureceram quase instantaneamente. No fundo da minha rede, enlutada, rasgando o desespero de uma órfã, acabei esquecendo a hora certa de trocar a máscara, e aquele rangido de dentes deu por faiscar na mamãe o corisco da desconfiança. Ela sempre soube que eu era mais próxima de sua mãe do que dela mesma, não que ela não fosse amorosa ou que fosse uma tirana, mas, simplesmente, porque estar ainda encoleirada ao meu pai limitava a mulher que ela era, e isso abria um abismo entre a sua subserviência sublimada e a minha liberdade vivenciada.
    Mamãe era um bastião, um arrimo, a viga mestra da casa. Papai, ocupado com a criação e com o açougue, homem honesto, muito limpo, bigode calado, devoto da Virgem, só era pai no manter-nos e no prover-nos. Éramos dignos em nossa vida de família pequena: eu, filha única, devido a mamãe ter perdido o útero no parto, eles e vovó, única sobrevivente de uma longa linhagem de maus-tratos. Isto ela ensinara à mamãe: “Pra mão de macho levantada, tem peixeira na cozinha. Ai de tu, se ficar igual a mim”. Sua filha, talvez por amor ou pelo buraco deixado pela morte do meu avô, anuíra a tudo, à simplificação, ao silêncio, até à usura, mas seu temperamento havia deixado bem claro a papai que, se ele sinalizasse qualquer menção de agressividade, não viveria muito. Eles haviam se casado logo depois que meu avô morrera por infecção generalizada devido ao cancro que contraíra nos puteiros e nas cocheiras de Guaiúba e Pacatuba, em cima e embaixo, de um lado e do outro da Aratanha, e só o fizeram porque, se ele ainda estivesse vivo, não o permitiria. De fato, namoraram em segredo, acoitados por vovó, que tentou fazer com minha mãe o que fazia comigo. Ela só não adivinhava que o temperamento medroso e adolescente do meu pai viesse a se transformar numa beatice azeda e numa anulação paulatina da mulher que minha mãe poderia vir a ser. Talvez, ele tenha se tornado assim para compensar o tipo de homem que meu avô era. Na tentativa de criar o seu oposto, assemelhou-se a ele, exceto na violência, a qual era tão típica sua que o fizera temido na região toda e, eu soube bem mais tarde, o havia tornado mais de uma vez contratado pelo prefeito para matar opositores, o que nunca lhe foi atribuído às claras devido ao temor criado pela sua figura alta e vermelha, seca e viperina. Dele herdei os olhos verdes e a chumbregagem, que já me latejava entre as pernas e viria a jorrar em xiringadas de sangradouro pouco tempo depois, quando vim dar em Fortaleza, à ocasião de minha fuga de casa.
    A cumeeira alta, ornada de morcegos amofinados, foi a testemunha. Mamãe chegou, olhou aquela desesperação de dois dias primeiro com piedade, com maternidade. Puxou o tamborete, sentou, esperou. Na ocasião da morte do pai, a culpa de havê-la desejado assombrava-a e lhe atravessava a barriga e lhe rasgava a garganta. Havia dor e amor em seu olhar, quando eu o encontrei. No meu, onde ela imaginara encontrar um semelhante ao dela, surpreendeu-a o medo. Mamãe não era boba. Sertaneja, silente uma vida inteira de suas dores, havia aprendido a ouvir bem os silêncios alheios. Adivinhava traições, anunciava intenções de crimes, compreendia martírios. Era mulher de ouvir escutando com os olhos, com a pele, a temperatura daquilo que lhe diziam e a frieza do que lhe calavam. Súbito, carregou-se de outro silêncio, beligerante, ameaçador, um silêncio de mãe. Olhou-me de cima abaixo, arrastou-me para fora da rede e começou a me arrancar as roupas, ao que eu, também já versada naquelas necromancias femininas em meus dezesseis anos, ao não me opor, ao não me proteger, dizia-lhe que nada encontraria. Mas ela já sabia que ali existia outra filha, uma que traíra, que dissimulara, ela não sabia o quê, mas estava ali, na carne, mesmo com a presença do cabaço, havia já uma mulher ali, onde ainda não deveria haver.
    Gritou-me por fim todos os nomes. Ameaçou-me de morte. Trancou-me no banheiro, onde me encolhi encostada na parede da cisterna. Abraçada aos joelhos, olhei a cuia velha pendurada na parede, olhei as teias recentes ainda vazias de muriçocas. O banheiro era frio como o riachinho que dividia o terreno da casa com a mata que antecipava a Serra. Eu também estava fria. Ali, sem saber, já havia decidido um fim, também não sabia de quê, mas amanhã eu não seria mais eu mesma. Malu me cobrava os olhares, os silêncios, as pequenas manifestações do que eu viria a ser, e aquilo me enervava como um cabresto que me queriam pôr. Sua família nem sonhava, graças unicamente à minha proficiência na dissimulação, que nos azunhávamos no quartinho, cavando a pele uma da outra, buscando o gozo da primeira vez, poucas vezes reencontrado. Contudo, aquilo, ao mesmo tempo em que me atava, começara a me enojar pelo mesmo motivo, e esse binário de opostos, somado à morte de minha avó, foi o que minha mãe quase adivinhou.
    Acalmei, entrei na cisterna, coisa que já havia apanhado para não repetir — “E nos outros que vão tomar banho, tu não pensa não?” —, e me entreguei àquele frio até os ossos, esperando o que já sabia. Meu pai chegou, minha mãe lhe expôs o caso, longo silêncio dele. Apesar de ele vestir a tradição de usar as calças na casa, temia de certa forma as três mulheres que viviam ali. Protegia-se naquele silêncio masculino, patriarcal, onipresente mesmo na ausência. Mas nos temia. O silêncio era o seu jeito de ser homem e de ser pai de forma efetiva e definitiva: o silêncio, naquela casa, não deixava dúvidas. Eu não sentia medo, mas sim uma espécie de ansiedade. Assim como minha mãe, eu adivinhava, e precisava daquela culminância que mudaria tudo. Nem cuidei de desfazer o engano, e, se o tentasse, de nada adiantaria. Mesmo constatando minha virgindade, minha mãe estava convencida de que eu já era mulher, e foi isso que meu pai entendeu.
    — Maria Rita, se vista.
    Minha mãe, com minhas roupas na mão, a porta entreaberta.
    — Seu pai quer conversar com você.
    Pelo vão, vi meu pai sentado, já com o relho de dar nos jumentos pendurado no pulso direito. Imediatamente, lembrei minha avó, mas não com o desamparo de havia pouco. Lembrei as vezes em que ela me dizia, repetindo as orientações que dera à mamãe: “De homem não se apanha nem na putaria”. Arregalei os olhos, e o ódio me tomou inteira e me levantou da cisterna, ensopada, tilintando de frio. Abri a porta, nua como estava, e desafiei, a boca crispando as palavras metálicas, inesperadas, firmes naquele tremor. Eu era já alta, e meu corpo já havia se arroliçado na formosura e na força. Meus olhos, como os de meu avô, eram dois punhais de esmeralda apontados na direção do meu pai, que lhes sentiu a pungência e calou o próprio silêncio, engolindo-o seco e engasgando-se numa tosse de cachorro que o fez sentar de novo, a mão no peito, a cara amarela.
    — Venha! Venha! Venha, se for homem!
    A isso, minha mãe, a boca aberta, avermelhada de repente, entendeu. Ali havia, sim, uma mulher, mas de outra forma. Não pelas mãos nem pela jeba de um homem, como havia sido com ela e como ela intuía. Eu era a mulher que ela poderia ter sido, eu era a antagonista do meu avô, eu era a força que ela nunca teve, a força que roubaram à minha avó, D. Menininha, a força que havia nascido da liberdade do corpo e da aceitação orgulhosa do espírito.
    Durou um instante apenas. Ela correu ao meu pai, que arquejava o malassombro de ser impotente diante daquela mulher-homem, como que para acudi-lo, mas, em vez disso, arrancou-lhe o relho do punho e surrou-me gritando, como um porco em agonia, “Morre, morre, morre!”, e me batia cada vez com mais fúria. Como o escrúpulo havia cedido à animalidade, ela não escolhia um alvo, como acontecera nas poucas vezes em que me surrara, quando mirava minhas pernas e minha bunda. Nas suas convulsões de égua, acertou-me um olho, que vazou imediatamente, lacerou-me os seios, esfolando-lhes os bicos com a ponta do chicote. Meu pai, de boca aberta, apavorado, gemia infantilmente que ela parasse, que já estava bom, que eu já tinha aprendido. Ela não parava. Ensanguentada já, acocorei-me e lhe cedi as costas, que receberam uns bons minutos de lambadas. Quando tudo acabou, foi a sua vez de desfalecer, mas de exaustão. Caiu no chão ao meu lado e foi socorrida pelo meu pai, que a levou à cama deles, me gritando que lhe levasse uma água com açúcar. Eu ardia. Juntei o que podia dos panos que estavam ali, me arrastei até a arca onde guardava minhas roupas, vesti uma bonitinha, de que Malu gostava, era a que estava mais em cima.
    Hoje, relembrando esse dia, não sinto remorso do derrame que vitimou minha mãe nem da depressão que meteu o meu pai na cachaça e o levou a uma morte solitária, somente descoberta bem depois, pelo mau cheiro na casa. Nunca mais vi Malu, a única que me negou guarida depois de minha fuga. Dei-lhe à porta, mais molambo do que gente, ao que ela gritou, primeiro de terror, depois de medo, “Vai embora, sua louca, meu pai tá aqui, vai embora!”. A bem da verdade, eu não havia ido a ela por motivos românticos. Hoje eu sei disso. É que a dela era a única casa com cujo endereço eu atinara, de tão esgarçada que estava. Seus gritos me despertaram, e o meu olho bom deseclipsou-se daquela sangria. Meu corpo vermelho de sangue debaixo do vestido amarelo me deixava com o aspecto de um enorme crisântemo no batente alto daquela casa. Passaram, me viram, me socorreram, quiseram prender meu pai, e só não o fizeram por se apiedarem daquela sua viuvez imediata. A tragédia virou causo, e falavam de minha mãe como de um fantasma, uma visagem que vinha surrar as filhas desviadas por macho. Sim, porque, para todos, aquilo havia sido por causa de um macho.
    Se me perguntassem hoje, tantos anos depois, eu diria que fora justamente pelo oposto. É uma pena que não haja ou eu não conheça uma palavra que signifique o oposto de macho. Não, não é fêmea nem é mulher. Homens e mulheres não são opostos, eu sei, provei ambos. São apenas dois universos diferentes, com um balanceamento diferente de forças e magnetismo. Entre os corpos celestes, o vácuo é o mesmo para os dois. Não, não faltava em meu pai a masculinidade que abundava em meu avô. Tampouco, havia em mim um excesso de mulher do qual carecia minha mãe. O que havia naquela casa era uma despolarização, uma desarmonia, uma balança corrompida que igualava a desigualdade de três contra um. Havia um organismo guenzo, uma deformidade da qual eu sou o único fruto e a única sobrevivente, condenada e abençoada a ser o oposto de mim mesma em cada corpo que possuo e ao qual me entrego. Justo eu, que nunca me neguei no espelho, vivo hoje a eterna aventura de me descobrir sempre diferente, sempre outra, como se fosse a mim mesma que eu buscasse nesses corpos. Mas eu não quero isso de me encontrar, não. Tomara Deus que, em vez disso, eu encontre de novo D. Menininha, fumando seu cigarro misterioso, enxuta mesmo sob aquela minha saudosa chuvinha serrana, sorrindo banguela um deboche qualquer, que eu completaria com uma gaitada que nos irmanaria e encaixaria de uma vez por todas e para sempre.

14/12/19

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

A CANÇÃO DE MARIALVA

    Queria tanto saber tocar violão! Nas vezes em que tentara, sentiu que tinha dedos de capim, de pato, de anêmona. Suas amigas ou tocavam ou conheciam um boyzinho que tinha pelo menos um ukulelê, e sempre rolava um sonzinho na calçada, passando de mão em mão junto com os baseados e os vinhos baratos. Tinha esquecido muita coisa que queria com toda a força de uma criança que não tinha nada: dançar como as bailarinas de auditório, saber brigar para matar sem esforço, ter todos os brinquedos do mundo, e, é claro, ir à Disney. Crescera e, como toda criança pobre, entendera cedo que lugar lhe cabia. Conhecera os homens cedo, e à força. Contudo, embora o tempo e a normalidade do estupro entre suas amiguinhas lhe tentassem empurrar a aceitação de que era um objeto, assim como os veadinhos do bairro e até os que não eram, guardaria para sempre outro tipo de desejo, um novo, sem nome e sem alvo, um que sabia que nunca seria satisfeito. Este lhe incomodava amiúde, sobressaltando-lhe as pequenas felicidades e o sono, à moda de uma assombração ou do estouro dos rojões que anunciava a chegada da droga na favela. Associava essa vontade ao violão nem ela mesma sabia por quê. Vinha como uma melancolia inconsolável e breve e se esfumaçava na erva que tragava, queimando-se na bia que sobrara da solidão da calçada na noite anterior. Era sozinha de espírito. Nunca soube do pai, a mãe lhe deixara na avó para fabricar e parir mais solidões, que somavam oito e também desconheciam como e por que existiam. A avó morrera, o avô, antes. Sumiram tios e primos, e todos lhe aplaudiram os primeiros aniversários, e para nada! Nunca os perdoou. Porém, ela o fez à mãe, que aparecia só de vez em quando, sempre mais feia, mais murcha, mais usada, querendo saber como estavam ela e Elisabete — a única que se mantivera na casa após a diáspora dos irmãos sobreviventes —, desculpa que introduzia uma busca dissimulada em cuidados por coisas que pudessem ser convertidas em pedras de crack. De alguma forma, não a culpava. Acreditava de coração que ela saíra de casa para proteger as filhas restantes, já que o último a lhe ocupar o colchão e o corpo também queria as carnes mais novas balançando nas redes na sala-cozinha. Intuía que a diferença crucial entre si e sua mãe — a que protegera uma e desgraçara a outra — consistia na sua timidez absurda de concha, que contrastava com a profusão incinerante de D. Marleide, ainda presente apesar da ruína física e da mental, que já se insinuava.
    Se pelo menos soubesse uma música… Só uma! Quem sabe não se lhe soltasse a voz, que sempre escondia em bodejos baixinhos quando queria dizer algo importante… Elisabete, bem mais desenvolta, cobrava dela mais atitude. Ambas careciam de estudo, mas cozinhavam bem, e era o que lhes garantia o sustento: uma banquinha de porta, com pratinhos, bolos, salgadinhos e espetinhos, que alimentavam os passantes entre suas perdições. Incrementavam com cachaça e cerveja em latinhas, lenitivos de passagem que lhes pagavam água, gás e luz, já que o muquifo onde viviam era próprio.
    — Tu vai fazer o quê pra dar rumo à tua vida, Marialva?
    — Que é?
    — Amofinada desse jeito, ninguém te quer.
    — Cuide do seu priquito, que eu cuido do meu.
    — Deixa de ser grossa, porra! Vem cá, deixa eu te contar um negócio.
    E falava dos meninos amigos dos peguetes e dos PA que colecionava. Ambas eram bonitas, mas Elisabete, um ano mais velha, prerrogativa da qual sempre usava contra a irmã, tinha razão: Marialva se escondia a ponto de ser irrelevante mesmo entre os amigos. No entanto, Marialva só se incomodava com o excesso de expectativas. Deixassem-na em paz! Iria viver sua vida entre pessoas ou entre pulgas, contanto que pudesse manter seu único luxo, um aparelho celular usado, mas com 32 gigabytes de músicas, estendível por um memory card com o dobro da capacidade, e seus preciosos fones wireless, que mantinha escondidos da irmã. Ouvia Elisabete, fingindo-lhe atenção. Era bem intencionada, bem o sabia, mas lhe adivinhava um desmundo como o da mãe, sempre propensa a ser pingente de piroca. Seus sentidos só se atiçaram quando mencionou Flavinha, companheira de mágoas e de baseados.
    — Esse aí até a Flávia pegava, má!
    — Pegava era porra. A Flávia é direita.
    — Direita, sei. Dorme na caixa, isso sim.
    — E daí, que ela não gosta de homem? Que é que tem?
    — Tem nada não, mas daí tu dizer que ela é direita…
    — Rapaz, ninguém tem nada pra dizer dela. Trabalha, cria a filha sozinha, paga as contas.
    — Sim, e o tempo no Auri Moura Costa?
    — Já pagou pelo que fez, Bete. Te manca. A pessoa não pode mudar não?
    — Pode, mas também pode não. Ela só consegue trabalho noutro bairro, que o povo daqui não confia deixar ela fazer faxina nem no quintal. Dona Lisete que sabe! Vivia sumindo coisa quando ela limpava lá.
    — Mulher, aquilo tu sabe que era o Marquim que vendia pra dar pro Boca. A Lisete era era cega.
    Ficavam nisso, e nisso também ficava a sua revolta. Era fraca de verbalizar o universo de frases que acumulava das canções, assim como as suas próprias. Uma noite, já quase na hora de guardarem a banquinha, ajuntou-se o bando de sempre: todos com idades aproximadas, a maioria escondendo na EJA a humilhação do desemprego, e o restante vivendo de bicos. Entre estes, Flavinha, cheirando a sabonete depois do serviço e de botar a Maíra para dormir, abastecida do mingau grosso. Como de praxe, alguém sacou dum violão preto um Raul, depois a Legião e o Cazuza, e ficaram nessa, rodando um e outro beck e praguejando a vida em nome de Jah. Flavinha tinha uma voz tão bonita! Soubera por ela da Nazirê, da qual virou fã.
    — “Ê, acorda pra vida, mais um dia que acaba, alguma coisa aí dentro ainda não terminou…”, encoravam.
    Seu peito esquentava. Aquele desejo primitivo insurgia, mas o olhar louro da Flavinha logo afastava qualquer angústia de fatalidades. Isso e as tragadas no baseado imundo iam limpando a morte que lhe rondava a vida. Sentia acendendo uma palavra, que crepitou na outra, e deu-se uma fogueirinha branda cantarolante sem a necessidade da cortina do coro para se esconder.
    — “Cada dia que se passa, mais difícil vai ficando, todo dia um leão você tem que derrubar…”
    Alguém tinha dinheiro, e Bete botou na roda a cachaça que sobrara, o que amansou qualquer possibilidade de insurreição. Eram todos gente boa, evitaram a vida inteira meter-se com as gangues e cair na prostituição, e ali só rolava mesmo maconha. Uniam-se por esgueirarem-se entre os abismos da miséria e pela música, distintivo tribal de bom gosto, espécie de autoelitização conferida para existirem naquele excremento de cidade. Flavinha, ali do lado, comentava baixinho tudo que Marialva queria ouvir: como a banda empoderava as mulheres, como os homens eram sórdidos, ainda que fossem pais, irmãos, amigos, e como sua pele era lisinha, sua morenice era atraente… Algumas doses lubrificaram as bocas, que começaram a fumar umas as outras. Bete já havia guardado a banquinha em casa e lá dentro mesmo ficara com Valdir numa gemedeira baixinha e gostosa, e os restantes tocavam “Vamos fugir”. Foi o que Marialva e Flavinha fizeram, com meia garrafa de Pingo de Ouro e dois baseados na cabeça. Apesar de ser acostumada, Marialva perdia feio para Flavinha, que mantinha um andar de quem vinha do culto.
    — Encosta aqui, Alvinha…
    Amassaram-se, dedilharam-se como se fossem duas cuícas, e Marialva nem ligava mais se a viam ou ouviam, e gemia alto a voz que nem sabia que tinha, aqui e ali reprimida por Flavinha, que temia o que a polícia faria se as pegassem. Sabia de cor o ensinamento do cassetete em seus orifícios e já tinha engolido à força o esperma de todos os patrulheiros do Ronda e do Raio daquela quebrada o suficiente para ser cautelosa. Alvinha, mesmo assim, voava e estrebuchava, ela mesma, uma guitarra sendo solada pelos dedos e entre as coxas de Flavinha, que lhe chupava os gritos e os seios. Findas e aterrissadas, desceu uma a outra do parapeito baixo da casa da esquina e seguiram seus rumos, ignoradas pelo silêncio do violão que também virara sexo pelos cantos.
    Na manhã seguinte, a cabeça descolocada de Marialva sacudiu com a irmã socando os cadarços da rede, perguntando pelo seu celular. Demorou um pouco a sair da afasia, mas súbito apavorou-se num grito.
    — Tava junto do meu!
    Durante a bebedeira, todos tinham entrado na casa, fosse para mijar ou foder. Bete começou a socar tudo que não pudesse quebrar acidentalmente e só parou quando a parede arrancou-lhe umas lascas de unha. Marialva, zonza, grasnou que seus fones também sumiram.
    — Porra de fone! Merda de fone! Vivia me negando, e olha aí! Caralho! Caralhooooooooooo!!!
    Quem passava em frente achou que fosse fim de relacionamento, tamanho era o ódio verbal de uma e o bestialismo gritante da outra. Marialva parecia um suíno que fora amarrado para o abate. “Minhas músicas, meu fone!” era o que tentava vocalizar, mas o surto animalesco não articulava. Bete já apenas chorava entredentes o nome da Flávia, já a irmã desesperava como da primeira vez, como no primeiro estupro de um dos pais de um de seus irmãos mais novos, que morrera com o pescoço quebrado na mão da polícia. Lembrou-se do peso e do suor, do esmagamento e da asfixia, lembrou-se de não poder gritar e, justo por isso, gritava o que nunca pudera. Sentiu-se de novo uma coisa, um objeto roubado, ela mesma, e não os aparelhos. Bete já parara e apenas observava firme o desespero gutural da irmã. Pela primeira vez, sentiu-lhe o que sentia pela mãe, sempre escandalosa, sempre constrangedora.
    — Aprendeu, sapatão dos inferno? Aprendeu?
    Flávia dera um tempo do bairro. Soube-se que tinha sido pega pela patroa fazendo um boquete no marido, e a boca miúda cresceu o fato até as raias do crime passional, umas, e da fuga com o traidor, outras. Por meses, não se soube dela nem da filha, até darem notícia de que virara evangélica e vivia com um dono de bodega e a filha em Caucaia, onde ninguém que as conhecia morava, e só souberam disso acidentalmente, pois o próprio Marquinhos, indo fazer um avião de coca para o Boca pelas bandas de lá, foi atendido por ela no balcão da Mercearia El Shadai, cabelo longo e preto, olhar zangado, voz dura. Quase não a reconhecera. Quando perguntou como estava, recebeu um versículo de resposta e um “passar bem”. Marquinhos juraria a todos que ela estava muito bem, que nem parecia mais aquela ladrona das coisas de sua mãe e que, de fato, Deus agia certo por linhas tortas.

04/11/19