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quarta-feira, 13 de março de 2024

JOÃO


(Inspirado em Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, e em Construção, de Chico Buarque)

    — Ando precisado de morte, mestre Caetano.
    Começava sempre assim o fim de seu dia, quando ia ter com mestre Caetano em seu boteco, que só abria depois do Angelus. Era um dos últimos antigos, com enorme balcão de sucupira, peitoril de milhares de vidas que a noite conduzia, intermediando seus êxodos e procissões.
    Trabalhava menos por necessidade que rotina. Não sabia quem era se não estivesse em alguma “empeleita” ou fazendo algum bico. Chegava primeiro ao balcão, olhava como sempre os calendários de várias décadas, alguns, com paisagens, outros, com santos, muitos, com mulheres nuas. O tempo era registrado com sonhos que não sabia como ter. Até tentava se imaginar através das imagens, como fazia com filmes e novelas que mestre Caetano compartilhava na tevê de tubo, de vez em quando. Para ele, as gravuras, as fotos e a tevê estavam em algum idioma que lhe era estrangeiro, vedado à sua pequena humanidade. Eram a lembrança de que aquele balcão era a fronteira além da qual, caso se aventurasse, seria preso pela estranheza, ou, por ela, morto. Costumava desfiar as lamúrias em conversa baixa, sem interlocução definida, alternando a destinação a quem transitava ou lhe parava ao lado acidentalmente. Mestre Caetano costumava lhe engendrar um arrazoado qualquer de sua experiência, e, assim, existia fixo, ancorado naquela confirmação de que vivia, de que era alguém apesar de si mesmo. Mestre Caetano aferia que ele era uma pessoa.
    — Não carece de precisar, João.
   — Por quê, não? Preciso de dinheiro, preciso de comida, preciso de roupa, de uma dose… Bote uma aí. Preciso de morte, mestre.
    — Sua ou de alguém?
    — E eu não sou alguém?
    — Então não precisa.
    — Já tenho muita, né? Essa vida sem nada, sem mim, já tá toda preenchida de morte, né isso? Hoje, tava lá, na laje do condomínio, arriando o cimento na massa, fungando o pó cinza. Tem mais cimento em mim do que naquele prédio. Olhei pra baixo, vi os carros, as pessoas, todo mundo indo e vindo de algum lugar a outro. A vida é isto, mestre: ter lugar de onde se vem e aonde se vai. O mestre sabe que não tenho o primeiro, até meu nome veio da rua. Meu barraco é só o jacaré, duas panelas, dois armadores de rede. Não tem eu na minha vida, mestre. O lugar de partida e de chegada é a pessoa, é a razão, diz quem se é. A vida é ser, mestre. Eu não sou. Então, já tenho morte de sobra neste buraco cimentado, não é?
    — É. Mas isso não é ruim não, João. Todo mundo é cheio de morte, todo mundo é vazio de si. A gente passa a vida se procurando pra se preencher, e isso é a vida. Morrer é não procurar, morrer é viver nesse buraco, sem fundo e sem corda. Tome aqui.
    — Quem vai morar naquele condomínio é vazio, mestre? Quer dizer, aquela gente anda mais, viaja, procura mais, como o senhor disse. Quem procura mais é mais morto do que eu? Ou mais vivo? E eu sou mais morto porque passo a vida construindo lugar que não é meu pra essa gente se encontrar nele? Eu sou mais morto porque não posso me procurar, mestre, e tenho de passar a vida fazendo chão e levantando parede e cavando piscina e plantando jardim pra gente que vive?
    — Sim.
    — E é por isso que não preciso de morte, mestre?
    — Sim.
    — Morte chama mais morte…
    — Morte não chama nada, João. Quem vive morre. Uns, mais, uns, menos. A vida é assim também. Uma é a falta da outra, como um casal casado há muito tempo que não sabe mais ser cada um. Não é amor, não é amizade. É uma argamassa. A construção é a gente. A gaiola, as aranhas, a malha, o esqueleto. Os tijolos. No final, o prédio. Depois, a ruína. Depois, o basculho. Depois, o alicerce. E tudo de novo, meu amigo, como esta sucupira. Isto aqui já foi semente. Esta morte desta madeira é uma morte de vera? Hoje ela é tudo que ela não era, ela era vazia disto. A vida que ela tinha era cheia desta morte. A morte que ela tem é cheia daquela vida.
    — Esperar cansa, mestre. Não saber é não ser, e não ser é morte.
    — Vida, também.
    — Que vida?
    — Vida apenas, João. Você, eu, a sucupira, os moradores do prédio. Morte, também. Tudo junto.
    — E isso é justo?
    — Só não é justo pra quem não vive. Sua vida é vazia de você, mas é vida. Você é este balcão, João. Ele não sabe quem foi, não é mais quem foi. Sabe menos ainda quem será. Mas ele é. Você é, João. Ignorar não é morrer. E quem diz que sabe mente. Ninguém sabe.
    — Nem as pessoas que fazem os calendários?
   — O tempo é como esta cachaça: entretém, embebeda, acalma, mata. É parte da vida. Tá boa? Quer mais uma?
    — Viver direito é morrer direito, né, mestre?
    — Disse melhor do que eu.
    — Então, bote outra. Vamos fazer as coisas como se deve.

13/03/24

segunda-feira, 11 de dezembro de 2023

DOIS SÓIS


Cícero R. C. Omena - Catadoras
(Clique na imagem para ampliá-la e na legenda, para acessar a página de origem.)

Existe uma grande diferença
entre o sol que me entra pela janela
que é meu
e confere cor a tudo que sua luz toca
e me diz nas retinas
da beleza de minhas plantas
e dos cabelos de minha filha

e o sol que diz nas costas
dos catadores de material reciclável
dos pedreiros sem carteira assinada
dos mendigos e abandonados
as cores da cidade
e a verdadeira aparência
do amor de deus

O primeiro chega com vento
e vaza pelas frestas do telhado
Romantiza os cantos da casa
e diz ao mandacaru no meu quintal
que já é hora de flor

O segundo chaga, punge e mata
quem não é patrão e alguns empregados
porque a maioria é semente bruta
que adia e realiza a morte
que se acostumou a chamar de vida

Dois sóis, superpostos em perspectiva
brilham num só
Menos são meus olhos que os dividem
que a injustiça deste mundo
que os conjura

Cruza a rua, além do parapeito
onde meus pequenos cactos, devidamente hidratados
fotossintetizam
e me apaziguam
o Seu Aquino, 35 anos, já avô
puxando sua caçamba feita de uma geladeira
o qual me vendera por 20 reais
um patinete velho e verde
com que presenteei meu filho

Dois pobres, ele e eu
mas cada um, nesta flora selvagem da urbe
reflete luzes diferentes
que se prismam em pequenas distorções de luz
por este horroroso vitral metropolitano
— pequena e miserável catedral provinciana
onde ainda se rezam nas missas
novenas em prol da moral
e dos bons costumes

10/12/23

segunda-feira, 13 de junho de 2022

TUA FORMA

deixa a forma que têm as coisas que te sustentam
esmorecer, colapsar, ruir.
a estrutura envelhece e te ilude que és tu que o fazes.
teu corpo, teus hábitos, tuas manias,
tudo são apenas as roupas
que as traças do tempo roem.

o café que se oxida no copo americano
no boteco da esquina
fala de abraços quentes que nunca tiveste,
mas que te protegem nas manhãs urbanas.
contudo, ele azeda, mofa, apodrece na borra e na barriga,
e tu pensas que és tu que te amarguras.

não te permitas sofrer
pela epiderme que se afina,
pelos ossos que se afinam,
pelas ruas que te afinam.
as formas de ti e do mundo
apenas te contêm,
e não permitas que te formem
nem que te deformem,

pois tu não és esse corpo
nem essa vida miserável.
tu não existes porque um número te registra
ou te cancela.
tu não vives porque respiras
ou te reproduzes,
tampouco porque te disseram os patrões
que a vida é trabalho,
e trabalhaste.

nem mesmo o sangue que te pulsa
e te materializa na carne que ama,
que teme e que odeia,
nem mesmo isso és tu,

pois o amor, o ódio e o medo,
tudo isso passa.
as ruas passam, os pontos, as camas,
a fome e o prato cheio,
assim como o corpo e suas consequências,
passam.
só tu duras.

inócuo, incógnito, rejeitado, ignorado:
tu és a tua grande novidade,
a surpresa no fim da escalada
à eventual e definitiva revelação.

tu és aquilo que acontece nos intervalos de ti,
desse tu falso:

chegas inesperado, sentas, a despeito do chão,
e emerges a casta submarina
de todas as etapas que cruzaste;
contemplas, plácido,
em seguida, suspiras,
tornas a mergulhar
e desapareces,
ondeando no mar a promessa
de que existes mais, muito mais e maior
que a urna em que te acomodaram.

10/06/22

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

TODAS AS CORES DO UIRAPURU


    Nem ligava mais se a entendiam. “Isso é gente que não chove”, dizia às rolinhas. Todos os dias, fazia pelo menos uma coisa sem sentido algum aos olhos tão acostumados com o pragmatismo da capital, e isso a tornava ridícula em seus farrapos de mendicância, mesmo aos outros desgraçados como ela. Vira e mexe, conversava numa língua pagã com uma árvore ou dedicava uma tarde incinerante a andar curvada pela Praça, catando os lixos minúsculos que os garis haviam ignorado. Talvez, fosse a sua infância iluminada por um sol diferente, a qual lhe ensinou como andar descalça e o tom de voz certo para chamar passarinho. Fortaleza era tão pobre de passarinho, só tinha pardal e bem-te-vi. Enojavam-na os pombos. Ela, que se acostumara a comer avoantes e hamburguesas no sertão de sua avó, sentia um certo ódio quieto daquela ave tão urbana. Achava-a feia como os prédios e os postes, e, pior, sentia-se oprimida de tal forma que se impressionava como se vendo uma visagem quando vinham em revoada, à semelhança de marimbondos enormes. A cidade inteira lhe era como um gigantesco arapuá que não podia queimar como o fazia seu avô, quando ia colher mel nos campos da vazante. Ali era sempre verde, mesmo na estiagem, e o aroma dos cravos-de-defunto, dos jasmins e das flores das mangueiras adoçava a atmosfera como uma grande roupa natural, como uma grande alma, dentro da qual brincava a dela. Já o pombo combinava com o poste, que combinava com o prédio, que combinava com o cinza quase tátil que se respirava no Centro.
    Na Praça do Ferreira, ela era a “doida do assobio”. A galhofa tão típica do fortalezense é, na verdade, a maior violência desta cidade, ensinada desde o berço e aplicada até o pós-túmulo. É como se todos existissem nos dois extremos apenas: os defeitos, laureados pelo coió — patrimônio imaterial —, e as virtudes, sempre associadas ao poder que inviabiliza o coió. Entre os polos, um pêndulo que dança entre a hostilidade e a subserviência. No sertão dela, também tinha disso, mas não era ambiental como aqui. Aqui, na falta da parede do açude, fugia assobiando para as viuvinhas e um ou outro sibite, que ornavam os velhos oitis da Avenida do Imperador.
    Também, com as décadas, fora perdendo a memória, tanto que não se lembrava mais do assassinato do pai pelo avô na ocasião em que aquele fora pego tentando estuprá-la. Não se lembrava mais das foiçadas e dos gritos, mas ainda guardava uma predileção inconsciente pelo vermelho. Também não se lembrava de ter sido expulsa pela mãe, que nunca lhe perdoara os ganidos que lhe roubaram o homem. Tampouco do desgosto do avô, que pegou maniconia e apaixonou-se pela morte, gemendo pela esposa finada no terreiro da cacimba, onde fora encontrado meses depois, mole e podre, os quartos quebrados. Viera de caminhão em caminhão, sempre pagando com a moeda que matara o pai, até dar em Horizonte, donde andou até sangrarem os pés na esperança de ver o mar. Viu. Era grande como lhe contara a avó, que guardara numa garrafa vazia de cachaça um litro de sua água, o seu bem mais precioso, atrepado na prateleira dos santos, ao lado de um Sagrado Coração de Jesus e de um Imaculado Coração de Maria, onde votava seus terços de saudade. Contudo, decepcionou-se com a solidão do mar. Esperava algo parecido com o que sabia de água, que era o Jaguaribe dando no Orós, algo como um encontro, uma comunhão. Sua alma doeu um pouco, pois rezara para aquela água em menina, e esperava uma espécie de Deus sertanejo, turvo, violento e bom, um Deus como seu avô. Em vez disso, encontrou imensidão e sal e não entendia como as pessoas adoravam se salgar naquela água de onde sempre se saía mais sujo do que quando se entrava. Nem entrou. Molhou os pés, que arderam nas lazeiras e nas unhas perdidas. Daquele dia lembrava-se bem. Começaram ali os coiós e as arengas. Nunca pensara que ser matuta era coisa que se usasse como ofensa, e era uma ofensa tão aguda, pungente como aquela ondinha suja que lhe chupava o sangue dos entrededos. Sem saber o que fazer, acentuou a matutice num esconde-não-mostra da cara entre os ombros, e foi-se andando torta pela dor do sal e das tampinhas de garrafa sob os pés. Subiu a rua da igreja, igreja feia demais, parecia um malassombro cinza, pontiagudo. Desde que entrara na cidade por Caucaia, sentiu um acinzentamento de tudo, do céu, do ar, das pessoas, até que, para não ficar também cinza, coloriu o ar à sua volta com os assobios, que era o seu jeito de passar pelos aperreios. Foi escorraçada de casa assobiando, assobiou enquanto os caminhoneiros e freteiros lhe comiam o resto de infância, assobiava para não se perder, pois seguia o som que projetava alma nas coisas que lhe tiravam, família, virtude, vida. Assim foi. Existia dentro das musiquinhas de menina e das imitações de sabiás, graúnas e bigodeiros, de que tanto o pai gostava. De alguma forma, nessa amnésia, sentia-se bem, como se um santo lhe houvesse agraciado com a percepção de um sentido íntimo das coisas passageiras e a dessignificação dos traumas, dos quais pareciam ser compostos todos os outros. Retinha os sorrisos das crianças filhas de outros mendigos como ela, aos quais retornava sempre uma imitação de passarinho, mas não perdia nem um momento considerando a própria miséria ou o olhar ascoso das outas crianças com as suas mães, que só não lhe passavam por cima por nojo, até porque, como não se lembrava como fora dar ali, não era capaz de pensamentos dessa profundidade. Lembrava o sertão iluminado, paraíso para o qual, um dia, voltaria. Lembrava a decepção do mar e o início e o então do cinza urbano, e isso era como o seu diabo. Para o resto, assobiava e se coloria toda, sem lhe atingirem os escárnios e os coiós cotidianos.
    Naquele cenário, no centro do Centro, no centro do início daquele aglomerado de fins, visitavam-na e aos outros mendigos, casualmente, voluntários de igrejas e assistentes sociais. Achava graça neles. Ninguém dizia coisa com coisa. Falavam de higiene e de Deus, como se ela não pudesse lhes ensinar assobiando a anatomia e a Bíblia, a ciência atômica dos corpos e a metafísica absoluta do universo. Contudo, numa manhã em que assobiava para um saco preto de lixo de lanchonete, de onde retirava os restos que lhe calavam momentaneamente os silvos, parou diante dela uma mulher velha, branca, mais ou menos da sua idade, com o olhar silente e duro como o de uma matriarca que manda o filho se calar. Assombrou-se de súbito, mas logo abriu um sorriso podre de volta, pois não viera dela nada de ruim. O olhar da velha dizia muito. Ela o ouviu atentamente. A velha abaixou-se, acocorando-se ao lado dela, sempre lhe dizendo o que ela sabia ser só para ela, pois não havia palavras nesse dito. Desabituara-se das palavras, pois o nome das coisas era música, e ninguém lhe dizia nada de importante. Sentiu que a velha se apequenava à medida que o diálogo prosseguia, esvaziando-se pelo olhar, que a preenchia de sons que nunca ouvira nem saberia imitar. Também lhe pareceu que ela não era mais velha, que ambas não eram mais velhas, que ambas iam suavemente se colorindo — uma, preenchendo o seu branco de laranjas e crisóstomos; outra, atenuando o seu negro em tons lilases e amagentados. Foram, no tecido daquele silêncio, vestindo-se uma da outra, tornando a ser quem foram, sob os umbuzeiros e entre as gravioleiras, ambas bebendo daquela sertania, tão misteriosa aos que as rodeavam — pois nunca enxergaram aqueles espectros luminosos nem ouviram aqueles segredos compartilhados de beira d’água —, mas tão identitária, e íntima, e telúrica, que pareciam ambas mãe e filha, filha e mãe, terra e planta, sertaneja e sertão. Seu coração crescia, e ia se lembrando de todas as coisas. Lembrou-se de outro mar, de outros pais, de outros crimes. Lembrou-se alegremente de quando era inconclusa, feita apenas de pensamentos e imaginações. Lembrou-se ainda mais distante, quando, na mais absurda liberdade, existia inimaginável, etérea e ampla, parte intrínseca de coisas que ainda nem existiam. A velha, já remoçada e multicolorida, confidenciava-lhe o segredo que guardava o que lhe diziam todo aquele tempo os passarinhos, quando ela os imitava declarante de si, mas ignorante deles. Ela compreendeu com a surpresa de quem não sabia como não percebera antes. Ali, ela, também moça, irradiante de tons de opala, iridescera finalmente àquilo tudo que poderia ter sido quando lhe roubaram corpo e alma e resplandeceu em cores impossíveis dentro dos ouvidos do chão, das árvores e das águas. Face a face, ambas se perpetuaram num trinado de uirapuru, bicho lendário que seu avô lhe contara ter visto com as oiças, uma vez só, sorrindo banguela as suas lembranças de São Saruê.

18/11/19

domingo, 17 de novembro de 2019

O HEREGE

    — E quem te disse que eu queria?
    — Não quer?
    — Não é da sua conta.
    — Claro que é da minha conta. Quem vai ou não te dar sou eu. Aliás, essa marra toda não tá te ajudando em nada. Gente assim acaba tendo o que não espera.
    — Você não me conhece pra nada. Não preciso de ti! E vá baixando essa bolinha murcha de juiz, certo? Marra é cabeça de bode e mãozada na cara.
    — Já engrossou… Como é que, só pra efeito de lógica, você vai me dar essa mãozada?
    — Tem uma infinidade de maneiras de te quebrar a cara e a pose. Só você, debaixo desse manto sagrado, acredita que é inatingível. Você é a criatura mais cheia de expectativa que existe! Quando não é do seu jeito, lá vêm fogo e enxofre, sete anos disso, sete daquilo, dilúvio e o caralho a quatro. Quem sabe é a Lilith…
    — Ah, agora vai citar os renegados… Essa é a tua violência?
    — Não.
    — Não vai vomitar as tuas blasfêmias agora mais não?
    — Não.
    — Sei. Monossílabos. Acabar, o misterioso sou eu.
    — Não tem mistério, Vossa Onisciência. E, se tem, que diabo é que tu tá fazendo conversando comigo? Quer respostas?
    — Sei todas, criatura.
    — Então me responde. Por que não é da tua conta?
    — Orgulho.
    — Mas é muito arrogante mesmo… Cheguei até aqui me despedaçando, arrastando minha miséria por décadas, mendigando existência, evitando contrariar o que o padre me disse quando eu tinha sete anos, sete anos! Que pecado um cristão consegue ver numa criança de sete anos pra dizer a ela que a vida dela é de outro? E não fazer nada além da ameaça? Não é orgulho! Nunca foi isso, que isso eu nunca tive! Nem agora! É independência! Independência, entendeu? Esta vida aqui, esta merda de vida, é minha! Se sou mais desgraçado que ela, é porque a graça não me importa! A graça foi pra todos os outros que me desgraçaram, inclusive pra ti. Pois não me interessa mais a tua graça, não quero mais, porque querer foi o que mais me desgraçou. Lembra aquele teu silêncio quando eu era roído pelos ratos e disputava comida com eles? Aquele teu silêncio era tão alto, mais, muito mais alto que o meu choro e os meus gritos. Quando apanhei, quando calei todas as injustiças, onde é que tu estava? Me dando graças? Ou era eu que devia me ajoelhar na merda enquanto apanhava e era mijado pelos outros e te dar graças?
    — Entendi a referência. Você quer fazer o que acha que meu filho deveria ter feito.
    — Pobre homem! Coitado! Fez tudo, tudo! Morreu pela gente uma porra! Morreu por ti! Porque foi tua ordem!
    — Sei que isso é muito pra tua capacidade de imaginação, mas já se esqueceu de que eu sou três?
    — Olha, essa história pode ter colado pra Maria. Nem teus padres acreditam nisso. Zeus, pelo menos, era honesto. Descia, estuprava e ia embora, como todo bom canalha, e não negava! Mas dava sempre uma ajudinha aos filhos. Já tu…
    — Hum. Agora, vamos apelar pra poesia…
    — Que é que tu entende de poesia?
    — Olha, você já está ficando irracional. Antes que perca a capacidade de articular as ideias, me responda: quer ou não?
    — Não se preocupe, que eu tô mais lúcido que Lúcifer. N Ã O   T E   I N T E R E S S A.
    — Ok, depois não acrescente mais este à sua lista de arrependimentos. Estou aqui pra te ajudar. Depois daqui, pela minha lei, não pode mais contar comigo. Pra onde vai, não tem volta.
    — Meu querido, se eu, por uma recaída de falta de amor-próprio, sonhasse com uma redenção vinda de você, uma redenção de um crime que você mesmo inventou chamar de crime, igual a uma dondoquinha rica dando esmola no sinal, fingindo ignorar o seu peso no esmagamento dos pobres, essa sua redençãozinha automasturbatória, essa sua merdinha de redenção pra se manter branquinho e limpinho no seu troninho, calando a boca da oposição a cada dia mais crescente e perigosa, apesar dos esforços do Francisco, se eu fosse contar com essa sua redenção, eu seria mais besta que a pobre da Madalena, acreditando naquele teatro das pedras.
    — Olha o respeito com a minha mulher!
    — Arrá, olha aí! Olha aí, rá, rá, rá rarrarrarrarrá!!! Vai pro céu, patriarca de merda, vai pro teu mundinho de reizinho! Aqui, não! Aqui, só tem liberdade! Vai fazer o quê, me matar de novo? Hein? E vai fazer isso como? Minha alma é minha, porra! Minha! Besta foi quem caiu na tua e tá aí azedando na espera do teu juízo. Quem me julgou fui eu, e eu me libertei!
    — Pois bem, seu herege. Agora, nem que tu quisesse. É feita a minha justiça! Vai-te!
    Caiu rindo, caiu sabendo que toda queda é um voo, e todo voo é a administração de uma queda. Sentiu o calor pela primeira vez e ardeu, mas não como o prometido. Ardeu gostoso, ardeu aceso como uma lamparina sertaneja numa noite fria de bacuraus, mochos e caborés piando nos juás e nas barrigudas. Sabia que não haveria mais vento que lhe apagasse a chama, nem de boca, nem de céu, nem de mar. Naquela infinitude de si e de mais ninguém, lembrou-se de quando dormia no papelão molhado sob a marquise dos fumadores de crack, lembrou-se do frio que a fome fazia sentir mesmo sob o sol cearense. Olhou em volta e sorriu, manso, inteiro, concluso. O que nunca fez em vida deu-lhe a morte: dormiu em paz pela primeira vez.

17/11/19

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

A CANÇÃO DE MARIALVA

    Queria tanto saber tocar violão! Nas vezes em que tentara, sentiu que tinha dedos de capim, de pato, de anêmona. Suas amigas ou tocavam ou conheciam um boyzinho que tinha pelo menos um ukulelê, e sempre rolava um sonzinho na calçada, passando de mão em mão junto com os baseados e os vinhos baratos. Tinha esquecido muita coisa que queria com toda a força de uma criança que não tinha nada: dançar como as bailarinas de auditório, saber brigar para matar sem esforço, ter todos os brinquedos do mundo, e, é claro, ir à Disney. Crescera e, como toda criança pobre, entendera cedo que lugar lhe cabia. Conhecera os homens cedo, e à força. Contudo, embora o tempo e a normalidade do estupro entre suas amiguinhas lhe tentassem empurrar a aceitação de que era um objeto, assim como os veadinhos do bairro e até os que não eram, guardaria para sempre outro tipo de desejo, um novo, sem nome e sem alvo, um que sabia que nunca seria satisfeito. Este lhe incomodava amiúde, sobressaltando-lhe as pequenas felicidades e o sono, à moda de uma assombração ou do estouro dos rojões que anunciava a chegada da droga na favela. Associava essa vontade ao violão nem ela mesma sabia por quê. Vinha como uma melancolia inconsolável e breve e se esfumaçava na erva que tragava, queimando-se na bia que sobrara da solidão da calçada na noite anterior. Era sozinha de espírito. Nunca soube do pai, a mãe lhe deixara na avó para fabricar e parir mais solidões, que somavam oito e também desconheciam como e por que existiam. A avó morrera, o avô, antes. Sumiram tios e primos, e todos lhe aplaudiram os primeiros aniversários, e para nada! Nunca os perdoou. Porém, ela o fez à mãe, que aparecia só de vez em quando, sempre mais feia, mais murcha, mais usada, querendo saber como estavam ela e Elisabete — a única que se mantivera na casa após a diáspora dos irmãos sobreviventes —, desculpa que introduzia uma busca dissimulada em cuidados por coisas que pudessem ser convertidas em pedras de crack. De alguma forma, não a culpava. Acreditava de coração que ela saíra de casa para proteger as filhas restantes, já que o último a lhe ocupar o colchão e o corpo também queria as carnes mais novas balançando nas redes na sala-cozinha. Intuía que a diferença crucial entre si e sua mãe — a que protegera uma e desgraçara a outra — consistia na sua timidez absurda de concha, que contrastava com a profusão incinerante de D. Marleide, ainda presente apesar da ruína física e da mental, que já se insinuava.
    Se pelo menos soubesse uma música… Só uma! Quem sabe não se lhe soltasse a voz, que sempre escondia em bodejos baixinhos quando queria dizer algo importante… Elisabete, bem mais desenvolta, cobrava dela mais atitude. Ambas careciam de estudo, mas cozinhavam bem, e era o que lhes garantia o sustento: uma banquinha de porta, com pratinhos, bolos, salgadinhos e espetinhos, que alimentavam os passantes entre suas perdições. Incrementavam com cachaça e cerveja em latinhas, lenitivos de passagem que lhes pagavam água, gás e luz, já que o muquifo onde viviam era próprio.
    — Tu vai fazer o quê pra dar rumo à tua vida, Marialva?
    — Que é?
    — Amofinada desse jeito, ninguém te quer.
    — Cuide do seu priquito, que eu cuido do meu.
    — Deixa de ser grossa, porra! Vem cá, deixa eu te contar um negócio.
    E falava dos meninos amigos dos peguetes e dos PA que colecionava. Ambas eram bonitas, mas Elisabete, um ano mais velha, prerrogativa da qual sempre usava contra a irmã, tinha razão: Marialva se escondia a ponto de ser irrelevante mesmo entre os amigos. No entanto, Marialva só se incomodava com o excesso de expectativas. Deixassem-na em paz! Iria viver sua vida entre pessoas ou entre pulgas, contanto que pudesse manter seu único luxo, um aparelho celular usado, mas com 32 gigabytes de músicas, estendível por um memory card com o dobro da capacidade, e seus preciosos fones wireless, que mantinha escondidos da irmã. Ouvia Elisabete, fingindo-lhe atenção. Era bem intencionada, bem o sabia, mas lhe adivinhava um desmundo como o da mãe, sempre propensa a ser pingente de piroca. Seus sentidos só se atiçaram quando mencionou Flavinha, companheira de mágoas e de baseados.
    — Esse aí até a Flávia pegava, má!
    — Pegava era porra. A Flávia é direita.
    — Direita, sei. Dorme na caixa, isso sim.
    — E daí, que ela não gosta de homem? Que é que tem?
    — Tem nada não, mas daí tu dizer que ela é direita…
    — Rapaz, ninguém tem nada pra dizer dela. Trabalha, cria a filha sozinha, paga as contas.
    — Sim, e o tempo no Auri Moura Costa?
    — Já pagou pelo que fez, Bete. Te manca. A pessoa não pode mudar não?
    — Pode, mas também pode não. Ela só consegue trabalho noutro bairro, que o povo daqui não confia deixar ela fazer faxina nem no quintal. Dona Lisete que sabe! Vivia sumindo coisa quando ela limpava lá.
    — Mulher, aquilo tu sabe que era o Marquim que vendia pra dar pro Boca. A Lisete era era cega.
    Ficavam nisso, e nisso também ficava a sua revolta. Era fraca de verbalizar o universo de frases que acumulava das canções, assim como as suas próprias. Uma noite, já quase na hora de guardarem a banquinha, ajuntou-se o bando de sempre: todos com idades aproximadas, a maioria escondendo na EJA a humilhação do desemprego, e o restante vivendo de bicos. Entre estes, Flavinha, cheirando a sabonete depois do serviço e de botar a Maíra para dormir, abastecida do mingau grosso. Como de praxe, alguém sacou dum violão preto um Raul, depois a Legião e o Cazuza, e ficaram nessa, rodando um e outro beck e praguejando a vida em nome de Jah. Flavinha tinha uma voz tão bonita! Soubera por ela da Nazirê, da qual virou fã.
    — “Ê, acorda pra vida, mais um dia que acaba, alguma coisa aí dentro ainda não terminou…”, encoravam.
    Seu peito esquentava. Aquele desejo primitivo insurgia, mas o olhar louro da Flavinha logo afastava qualquer angústia de fatalidades. Isso e as tragadas no baseado imundo iam limpando a morte que lhe rondava a vida. Sentia acendendo uma palavra, que crepitou na outra, e deu-se uma fogueirinha branda cantarolante sem a necessidade da cortina do coro para se esconder.
    — “Cada dia que se passa, mais difícil vai ficando, todo dia um leão você tem que derrubar…”
    Alguém tinha dinheiro, e Bete botou na roda a cachaça que sobrara, o que amansou qualquer possibilidade de insurreição. Eram todos gente boa, evitaram a vida inteira meter-se com as gangues e cair na prostituição, e ali só rolava mesmo maconha. Uniam-se por esgueirarem-se entre os abismos da miséria e pela música, distintivo tribal de bom gosto, espécie de autoelitização conferida para existirem naquele excremento de cidade. Flavinha, ali do lado, comentava baixinho tudo que Marialva queria ouvir: como a banda empoderava as mulheres, como os homens eram sórdidos, ainda que fossem pais, irmãos, amigos, e como sua pele era lisinha, sua morenice era atraente… Algumas doses lubrificaram as bocas, que começaram a fumar umas as outras. Bete já havia guardado a banquinha em casa e lá dentro mesmo ficara com Valdir numa gemedeira baixinha e gostosa, e os restantes tocavam “Vamos fugir”. Foi o que Marialva e Flavinha fizeram, com meia garrafa de Pingo de Ouro e dois baseados na cabeça. Apesar de ser acostumada, Marialva perdia feio para Flavinha, que mantinha um andar de quem vinha do culto.
    — Encosta aqui, Alvinha…
    Amassaram-se, dedilharam-se como se fossem duas cuícas, e Marialva nem ligava mais se a viam ou ouviam, e gemia alto a voz que nem sabia que tinha, aqui e ali reprimida por Flavinha, que temia o que a polícia faria se as pegassem. Sabia de cor o ensinamento do cassetete em seus orifícios e já tinha engolido à força o esperma de todos os patrulheiros do Ronda e do Raio daquela quebrada o suficiente para ser cautelosa. Alvinha, mesmo assim, voava e estrebuchava, ela mesma, uma guitarra sendo solada pelos dedos e entre as coxas de Flavinha, que lhe chupava os gritos e os seios. Findas e aterrissadas, desceu uma a outra do parapeito baixo da casa da esquina e seguiram seus rumos, ignoradas pelo silêncio do violão que também virara sexo pelos cantos.
    Na manhã seguinte, a cabeça descolocada de Marialva sacudiu com a irmã socando os cadarços da rede, perguntando pelo seu celular. Demorou um pouco a sair da afasia, mas súbito apavorou-se num grito.
    — Tava junto do meu!
    Durante a bebedeira, todos tinham entrado na casa, fosse para mijar ou foder. Bete começou a socar tudo que não pudesse quebrar acidentalmente e só parou quando a parede arrancou-lhe umas lascas de unha. Marialva, zonza, grasnou que seus fones também sumiram.
    — Porra de fone! Merda de fone! Vivia me negando, e olha aí! Caralho! Caralhooooooooooo!!!
    Quem passava em frente achou que fosse fim de relacionamento, tamanho era o ódio verbal de uma e o bestialismo gritante da outra. Marialva parecia um suíno que fora amarrado para o abate. “Minhas músicas, meu fone!” era o que tentava vocalizar, mas o surto animalesco não articulava. Bete já apenas chorava entredentes o nome da Flávia, já a irmã desesperava como da primeira vez, como no primeiro estupro de um dos pais de um de seus irmãos mais novos, que morrera com o pescoço quebrado na mão da polícia. Lembrou-se do peso e do suor, do esmagamento e da asfixia, lembrou-se de não poder gritar e, justo por isso, gritava o que nunca pudera. Sentiu-se de novo uma coisa, um objeto roubado, ela mesma, e não os aparelhos. Bete já parara e apenas observava firme o desespero gutural da irmã. Pela primeira vez, sentiu-lhe o que sentia pela mãe, sempre escandalosa, sempre constrangedora.
    — Aprendeu, sapatão dos inferno? Aprendeu?
    Flávia dera um tempo do bairro. Soube-se que tinha sido pega pela patroa fazendo um boquete no marido, e a boca miúda cresceu o fato até as raias do crime passional, umas, e da fuga com o traidor, outras. Por meses, não se soube dela nem da filha, até darem notícia de que virara evangélica e vivia com um dono de bodega e a filha em Caucaia, onde ninguém que as conhecia morava, e só souberam disso acidentalmente, pois o próprio Marquinhos, indo fazer um avião de coca para o Boca pelas bandas de lá, foi atendido por ela no balcão da Mercearia El Shadai, cabelo longo e preto, olhar zangado, voz dura. Quase não a reconhecera. Quando perguntou como estava, recebeu um versículo de resposta e um “passar bem”. Marquinhos juraria a todos que ela estava muito bem, que nem parecia mais aquela ladrona das coisas de sua mãe e que, de fato, Deus agia certo por linhas tortas.

04/11/19