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quarta-feira, 13 de março de 2024

JOÃO


(Inspirado em Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, e em Construção, de Chico Buarque)

    — Ando precisado de morte, mestre Caetano.
    Começava sempre assim o fim de seu dia, quando ia ter com mestre Caetano em seu boteco, que só abria depois do Angelus. Era um dos últimos antigos, com enorme balcão de sucupira, peitoril de milhares de vidas que a noite conduzia, intermediando seus êxodos e procissões.
    Trabalhava menos por necessidade que rotina. Não sabia quem era se não estivesse em alguma “empeleita” ou fazendo algum bico. Chegava primeiro ao balcão, olhava como sempre os calendários de várias décadas, alguns, com paisagens, outros, com santos, muitos, com mulheres nuas. O tempo era registrado com sonhos que não sabia como ter. Até tentava se imaginar através das imagens, como fazia com filmes e novelas que mestre Caetano compartilhava na tevê de tubo, de vez em quando. Para ele, as gravuras, as fotos e a tevê estavam em algum idioma que lhe era estrangeiro, vedado à sua pequena humanidade. Eram a lembrança de que aquele balcão era a fronteira além da qual, caso se aventurasse, seria preso pela estranheza, ou, por ela, morto. Costumava desfiar as lamúrias em conversa baixa, sem interlocução definida, alternando a destinação a quem transitava ou lhe parava ao lado acidentalmente. Mestre Caetano costumava lhe engendrar um arrazoado qualquer de sua experiência, e, assim, existia fixo, ancorado naquela confirmação de que vivia, de que era alguém apesar de si mesmo. Mestre Caetano aferia que ele era uma pessoa.
    — Não carece de precisar, João.
   — Por quê, não? Preciso de dinheiro, preciso de comida, preciso de roupa, de uma dose… Bote uma aí. Preciso de morte, mestre.
    — Sua ou de alguém?
    — E eu não sou alguém?
    — Então não precisa.
    — Já tenho muita, né? Essa vida sem nada, sem mim, já tá toda preenchida de morte, né isso? Hoje, tava lá, na laje do condomínio, arriando o cimento na massa, fungando o pó cinza. Tem mais cimento em mim do que naquele prédio. Olhei pra baixo, vi os carros, as pessoas, todo mundo indo e vindo de algum lugar a outro. A vida é isto, mestre: ter lugar de onde se vem e aonde se vai. O mestre sabe que não tenho o primeiro, até meu nome veio da rua. Meu barraco é só o jacaré, duas panelas, dois armadores de rede. Não tem eu na minha vida, mestre. O lugar de partida e de chegada é a pessoa, é a razão, diz quem se é. A vida é ser, mestre. Eu não sou. Então, já tenho morte de sobra neste buraco cimentado, não é?
    — É. Mas isso não é ruim não, João. Todo mundo é cheio de morte, todo mundo é vazio de si. A gente passa a vida se procurando pra se preencher, e isso é a vida. Morrer é não procurar, morrer é viver nesse buraco, sem fundo e sem corda. Tome aqui.
    — Quem vai morar naquele condomínio é vazio, mestre? Quer dizer, aquela gente anda mais, viaja, procura mais, como o senhor disse. Quem procura mais é mais morto do que eu? Ou mais vivo? E eu sou mais morto porque passo a vida construindo lugar que não é meu pra essa gente se encontrar nele? Eu sou mais morto porque não posso me procurar, mestre, e tenho de passar a vida fazendo chão e levantando parede e cavando piscina e plantando jardim pra gente que vive?
    — Sim.
    — E é por isso que não preciso de morte, mestre?
    — Sim.
    — Morte chama mais morte…
    — Morte não chama nada, João. Quem vive morre. Uns, mais, uns, menos. A vida é assim também. Uma é a falta da outra, como um casal casado há muito tempo que não sabe mais ser cada um. Não é amor, não é amizade. É uma argamassa. A construção é a gente. A gaiola, as aranhas, a malha, o esqueleto. Os tijolos. No final, o prédio. Depois, a ruína. Depois, o basculho. Depois, o alicerce. E tudo de novo, meu amigo, como esta sucupira. Isto aqui já foi semente. Esta morte desta madeira é uma morte de vera? Hoje ela é tudo que ela não era, ela era vazia disto. A vida que ela tinha era cheia desta morte. A morte que ela tem é cheia daquela vida.
    — Esperar cansa, mestre. Não saber é não ser, e não ser é morte.
    — Vida, também.
    — Que vida?
    — Vida apenas, João. Você, eu, a sucupira, os moradores do prédio. Morte, também. Tudo junto.
    — E isso é justo?
    — Só não é justo pra quem não vive. Sua vida é vazia de você, mas é vida. Você é este balcão, João. Ele não sabe quem foi, não é mais quem foi. Sabe menos ainda quem será. Mas ele é. Você é, João. Ignorar não é morrer. E quem diz que sabe mente. Ninguém sabe.
    — Nem as pessoas que fazem os calendários?
   — O tempo é como esta cachaça: entretém, embebeda, acalma, mata. É parte da vida. Tá boa? Quer mais uma?
    — Viver direito é morrer direito, né, mestre?
    — Disse melhor do que eu.
    — Então, bote outra. Vamos fazer as coisas como se deve.

13/03/24

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

CANTOCHÃO

(Clique na imagem para ampliá-la e na legenda, para acessar o endereço de origem.)

   Deitou o copo na mesa, levemente. Reconheceu, no xadrez da infância, a concessão da derrota que lhe ensinaram no internato: “tombe-se o rei!”. A mesa do boteco servia-lhe perfeitamente de tabuleiro: bispos hereges, torres de alvenaria caiada e muitos, muitos peões cascabulhados pelas longas partidas da vida. Havia ali também muitas rainhas, todas de coroas preteridas. O baralho da mesa ao lado lhe despertou as copas que tão bem conhecia. Também, algumas de paus e de espadas de sua meninice nos terreiros. Mas, de ouros, nunca! Nenhuma! Nem ela!
   — Mais uma aqui, por favor.
   Já passara do ponto do crédito havia muito. Da pena, também. Virara um “costumeiro”, um item ornamental, um identificador do Santa Edwiges, o bar de Seu Xavier. Sem ele, a mesa do choro não tinha para quem puxar o Odeon nem a Escadaria. Ele fluía com a tarde, ronqueava com a voz gostosa seus salves, sempre carinhosos, às figurinhas ali também desgastadas pelo tempo: Martins, o do violão sempre prestes, o bêbado Tarcísio, coro sempre certo à dor de cotovelo das dez, a cambista Heloísa, que sempre o esperava chegar para encerrar atrasada as pules, e o garçom Liberato, que aprendera a cuidar da dignidade daquele mistério. Parecia ser a licença que se dava ao Santa para ser um bar: um alvará, uma bênção. Até mesmo a clientela encorpava depois de sua chegada. A sinuca, inclusive, só ficava séria depois que ele cumprimentava os jogadores, que passavam a casar as apostas na mão da Heloísa. Era a alma do lugar, uma essência que justificava frequentarem-no os bambas e os febris, as memórias que tomavam zinebra no balcão e as novidades que gargarejavam cervejinhas na calçada de anedotas. Sentava-se à esquerda da porta, ali pelas seis, após a permissão do angelus do rádio do Xavier.
   — Aqui, Seu Cordeiro. O Seu Xavier perguntou se vai pagar.
   — Diga a ele o de sempre: quem manda é o dia.
   — E o dia foi bom?
   — Me trouxe até aqui. Como sempre.
   — Vai de canja hoje?
   — Deus lhe pague, Liberato.
   — Ô Seu Xavier, mande uma canjinha aqui pro Seu Cordeiro, que ele precisa.
   O violão chorou um sambinha, chegou um pandeiro da mesa dos novatos, Seu Xavier sacou o cavaquinho e o rendeu ao grupo, pedindo “manda uma do Paulinho, gente!”. A música ali era sempre boa. Arrumaram Desilusão, e o peito de Seu Cordeiro batucou atrás, meio surdo. Parecia adoçar a derrota no sangue a cada bombada, sincopando ali o regional improvisado.
   Chegou a canja com um pão do dia. O primeiro de seu dia. Seu Cordeiro parecia um griô, na sua elegância imane e inata de preto-velho. Cruzava as pernas frágeis para fora da mesa, sentado de lado na cadeira, recostado à parede, que guardava, com a sua mancha de suor e poeira, o seu lugar em sua ausência.
   — Os meninos querem que o senhor cante. A rapaziada nova.
   — Deixe o santo baixar, Liberato. Ainda não cheguei.
   — Deixe o dia lá fora, meu camarada. Aqui dentro, é sempre noite. Dona Marlene perguntou se está boa a canja.
   — Melhor que a vida, meu amigo. Entregue a ela uma lembrancinha, faz favor?
   Deu a Liberato um pacotinho de papel-bíblia, uma página arrancada de um catecismo velhíssimo.
   — Diga a ela que achei.
   Aquilo não era uma novidade, exceto pelo último pedido. Sempre levava babilaques, coisinhas, presentinhos para Seu Xavier e sua esposa, Dona Marlene. Porém, o segredo impresso no “achei” ativou a experiência malandra de garçom acumulada por Liberato em décadas de torpedinhos e leva-e-traz entre as mesas.
   — O que é isso, Seu Cordeiro?
   — É um pedido dela. Uma encomenda pessoal.
   — Pessoal? E se o Seu Xavier quiser saber o que é, digo o quê?
   — Que é de antes dele. Que não se preocupe não, que nenhum mal foi feito. E que este negro aqui só lhe guarda amizade e gratidão. E que minha vigília e minha obrigação finalmente acabaram.
   Era coisa demais para o velho garçom. Ainda tocavam o “danço eu, dança você”, e Liberato intuiu. Pensou em devolver, mas adivinhou a proporção do momento no olhar de Seu Cordeiro, que nunca vira tão expectante em sua mansidão. Baixou a cabeça, penitente. Seu Cordeiro enxugava a última laminha de caldo da tigela com o miolo do pão, que levava à boca como uma hóstia. O sagrado de tudo aquilo que, sem ser dito, reverberava nas paredes do Santa Edwiges convenceu por fim o garçom de levar a cabo aquele rito.
   — O senhor ainda vai voltar? — perguntou.
   — Eu nunca fui a lugar nenhum, meu amigo…
   Apesar de suas roupas e pele estabelecerem o oposto, Liberato entendeu profundamente.
   — Pois adeus, meu velho. Fique com Deus.
   Cruzou o bar convertido, por seus passos, em uma nave, parou de cabeça baixa à frente do balcão, a mão posta em oferenda:
   — Seu Cordeiro mandou pra senhora,
   — O Cordeiro ainda acha que tem de pagar alguma coisa aqui? — sorriu vermelho Seu Xavier. — Tu acha, Marlene?
   Dona Marlene, de pele branca salpicada de sinaizinhos da idade, reconheceu aquela página amarelada de catecismo quase imediatamente, translucidando-se. Disfarçou o tremor e ergueu o olhar para o marido, que não entendeu aquele pedido de perdão. A mesa do choro já tinha engatado Não tenho lágrimas, e o bar ficara frio de repente. Lá fora, uma chuva fina lavava um corpo negro, delicadamente deitado no outro lado da rua, a mão esquerda ao peito, as pernas cruzadas, como se houvesse descido em rodopio de mestre-sala. Um grito seguiu-se a outros, precipitando todos ao cruzamento esvaziado de trânsito, fremindo no ar os ai-meu-Deus de suspensão.
   Seu Xavier nunca entendeu a explicação da esposa, que sobreveio e sobreviria até o fim sem lágrimas, sem medo e sem culpa, ainda que purpurecida de saudade:
   — Foi antes, quando eu ainda era mocinha, no internato. Padre Honório que me deu, e eu tinha perdido. Seu Cordeiro achou não sei como… Não sei como.
   O pequeno terço cor de rosa, com ave-marias peroladas e crucifixo de osso, fazia ainda menos sentido naquela fatalidade.
   No dedo anelar esquerdo do morto, uma antes nunca percebida aliança de finíssimos acabamentos, filigranada de ouro, sepultava ali tudo: a vida, o samba, o bar, a morte. Sobranceava na neblina um vento que pareceu a Liberato, naquele momento, um cantochão assobiado.
   — Adeus, meu velho — repetiu.

01/02/23

sexta-feira, 6 de novembro de 2020

28 DIAS (OU TUDO O QUE OLHOS COMPOSTOS DEVERIAM VER)

(Clique na imagem para ampliá-la e na legenda, para acessar a página de origem.) 
 

    Ponderava se era assim também com as outras: susto, fuga, risco de morte, velocidade e caos. Não frequentava enxames; era tímida. Voejava, quando podia, o mais lentamente possível para não cair, somente para sentir a vida fluir mais lentamente. Porém, a sua maldita natureza a compelia a extremos constantes, a vilezas e indignidades que suportava estoica, porém limiarmente. Queria ser como os marimbondos, autoenclausurados em seus arapuás, respeitados, temidos, deixados em paz. Ou, pelo menos, como as mutucas, suas parentas mais afortunadas e hematófagas, em sua rotina campesina de parasitar vacas e jumentos. A ela lhe deram os monturos, os excrementos humanos, os piores de todos. E essa insustentável vida de não-viver, de pária, de nitrificante alada da cadeia alimentar? E essa sua abjeta natureza, que sequer lhe permitia o suicídio — tentara bocas de fogão, pás de ventiladores, circuitos elétricos; seu corpo de reflexos autônomos funcionava à sua revelia, e a morte sempre lhe escapava, escapava inclusive quando lhe desferiam tentativas de mãozadas, raquetadas, envenenamentos —? Seu corpo era feito para a sobrevivência, e ela expiava na dúvida de uma eternidade daqueles sofrimentos e imundícies.
    Contudo, nas poucas vezes em que se permitia ajuntamentos, percebia sempre parecer o bando diferente, com raras e cada vez mais avolumadas exceções. De uma hora para outra, o corpo daquela uma cintilava cores diferentes, discernidas pela infinidade de seus olhos-colônia, subitamente curiosos, estranhamente interessados. Quase não reconhecia a familiaridade dela consigo, não fora pela química obscura que suas antenas e patas lhe comunicavam como tal. Já as outras lhe pareciam ser tão outras quanto possível. Estranhava também a absurda heterogeneidade naquela aparente monotonia de formas. Será que somente ela o notava? Não incomodava também às outras aquela eterna novidade, aquela coletividade harmoniosa de completas estranhas? Perguntava-se o que as unia além da involuntária irmandade de espécie. Não lhe era aceitável que a resposta fosse aquele ciclo, aquela rotina coprofágica, necrófila, carniceira. Seriam todas filhas da mesma mãe sob o sol de Deus apenas pela abjeção de suas existências? Seria possível que o que as igualasse fosse a miserável condição de marginalidade essencial, que não poderia ser romantizada nem na sacralização da morte conservada em alfinetes, como era privilegiada às borboletas e aos escaravelhos? Já os vira assim — pois seus olhos viam tudo, assim como sua teimosia o registrava numa memória que era mais rancor do que saudade — em breves clarões de luzes que intermitiam na frente das pessoas. Tentava compreender o fascínio que as luzes e as cores exerciam tanto sobre ela quanto sobre as pessoas… As pessoas! Várias de sua espécie eram mortas por elas a toda hora, por que não ela? Se bem que as pessoas, quando se agrupavam, pouco se distinguiam também entre si. Eram dadas a reuniões vorazes, quando, a bem da verdade, viviam o tempo inteiro sós. Somente lhes invejava a hipocrisia pela inerência do arbítrio que ostentavam. Queria ser uma pessoa, queria poder escolher, queria as opções. As pessoas possuíam o hábito que mais lhe agudava o desejo, com a pungência de um nó cego muito fino, muito entranhado, indesatável: elas se destruíam. Como desejava… Via-se trucidando todo o seu enxame com suas patinhas, vomitando-lhes seu ácido gástrico e lhes abandonando os corpos às formigas, sobre as quais planaria como uma ave, rainha, senhora da vida e da morte, das quais disporia como se de uma gravata ou de uma pulseira de prata. Queria ser como as pessoas, consciente e impune, assassina natural, fera temida.
    A brevidade de seus pensamentos era causada por sua própria condição física e social. Sempre que aprofundava um raciocínio, operava uma brisa qualquer, tinha lugar uma mudança de luz ou de temperatura, anunciava-se um movimento humano, premia-lhe a percepção de um alimento. A tudo isso seu corpo respondia prontamente, e o gérmen de ideia que a fazia tão diferente das outras se partia. Vivia de catar os pedacinhos e recompor-se eternamente uma criatura como idealizava que uma criatura tinha de ser: autoconsciente. A agonia só lhe era tolerável pela distinção que lhe dava entre suas pares: orgulhava-se intimamente de sua própria angústia, de pastar sobre a bosta não por vontade, mas por natureza, e de ser a única a saber, dentre todo aquele gado minúsculo, a diferença entre ambas. A derrota de sua vontade era a sua vitória, consistente apenas em saber de sua participação agente naquela luta.
    Sentiu, naquele momento, a vibração costumeira no ar a que seu corpo tão prontamente respondia e, antes que pudesse formular o pensamento habitual de contrariedade, disparou no caos como se nunca houvesse outra coisa dentro da qual estar. Porém, algo estava diferente. Tudo foi muito rápido como sua própria vida. Sentia diferente, e aquilo, que não tinha nome, converteu-se instantaneamente em frase. “Estou tão cansada…” Surpreenderam-na tanto o próprio sentimento quanto a capacidade de tê-lo. Dedicou-se pela primeira vez à possibilidade do gozo do momento seguinte, que se revelou não um fim, como temeu no primeiro susto, mas sim como um meio. Queria estar distraída, pestanejada, e podia deleitar-se na recém-apropriada consciência de que podia vencer a vida simplesmente abraçando aquela novidade.
    Seu pensamento não se havia partido como sempre. Conseguia pensar além daquela realidade entômica, sem que essa natureza lhe obstasse a razão. Entendeu finalmente a sensação de cansaço, leito em que se revirava entre lençóis rasgados a sua tão íntima agonia. Sentia-se banhada por ela, premiada pela indignidade de sua vida inteira: estava cansada, e essa concepção libertava-a das obrigações do corpo, da consciência do corpo, a qual, até aquele instante, tinha-lhe roubado toda possibilidade de transcendência, de apartação, de liberdade. Num instante, aprofundou-se vertiginosamente em outro caos, a despeito do ar. Parou. Estática, experimentou a sensação novíssima de não conseguir mover-se, embora a natureza em seu corpo a compelisse ao corisco. Ao seu redor, um único espectro dominava o panteão de cores que era capaz de enxergar — era ele também uma revelação. Sua carapaça vibrava, mas ela não se movia. Seus olhos compostos gritavam ao seu cerebrozinho que se aterrorizasse, e, a isso, seu corpúsculo lutava por converter o terror em voo, inutilmente. Ela não se movia. Fascinada, entendia pela primeira vez uma natureza sua que era superior à anterior, fazendo-a, assim, superior a si mesma naquela onipresença monocromática. Contudo, agradou-lhe algo remanescente de sua natureza original: não podia fechar os olhos. Felizmente, viu tudo. Na contagem normal, a humana, findavam-se ali os seus 28 dias. Na dela, tudo, absolutamente tudo se iniciava ali, enormemente como um voo em linha reta, lento e revelador.

05-06/11/20

domingo, 11 de outubro de 2020

O GLUTÃO

Hieronymus Bosch - Fragmento de A mesa dos pecados capitais.
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    — Bom dia, pessoal! Vamos começar nossa entrevista de hoje aqui no Café com Paula com o notório glutão, o Sr. Marcondes Gamela. E vamos começar logo com a polêmica, que eu sei que o senhor gosta de uma. Quer dizer então que o senhor tem ódio aos veganos, é isso mesmo, Sr. Gamela?
    — Bom dia, querida Paulinha, bom dia, pessoal de casa. Não, não é isso. O que eu sinto é uma preguiça enorme de dialogar com eles. Veja só, outro dia, vieram me perguntar num restaurante se havia algum vegetal que eu não comia. Perguntaram assim, pra me provocar mesmo. Ora bolas, se eu dissesse aquilo em voz alta, brotaria um vegano ovolacto das profundas pra tentar me converter! Sim, porque aquilo, quando querem, é uma religião, e eu sou o Belzebu! “Quem você pensa que é pra falar assim da Santa Abobrinha?”. Ora, meu amigo, eu não sou ninguém, sou só um homem que gosta de comer e que assume o onívoro que é. Agora, tem exceções, é claro que tem… tanto na comida, quanto nos veganos. Veja, eu até já namorei uma. Sou amigo de vários, até. Não tenho preconceito, Nenhum mesmo. Você é vegana?
    — Sou.
    — Opa!
    — É… Então o senhor já NAMOROU uma vegana? Conta aí como é que foi!
   — Não, minha querida, quem come, opa!, quem beija não fala.
   — Sei. Machista disfarçado de cavalheiro. Mas, não pode contar nada?
    — Bom, posso contar como terminou.
    — E como foi?
    — Foi porque ela me acusou de traição. Veja bem, eu não sou contra você não querer comer bicho. Acho que cada um come o que quiser. Eu mesmo crio bicho, cachorro, gato, passarinho. Não comeria nenhum deles porque são meus, tenho afeto, mimo… Mas acho que isso não pode limitar você. Eu comeria tranquilamente um filezinho de buldogue ou uma passarinha de angorá. Sem preconceito! Não mataria pra comer, porque eu crio. É por isso que eu não condeno quem cria boi, porco de estimação. Bicho é bicho. Também sou experimentalista. Comeria um escorpião, um gafanhoto, se tivesse a chance. Quando for à China, vou fazer a festa naqueles mercados de rua. Eu sei que é ruim, já me disseram. Mas é bicho, e bicho é bicho.
    — Sim, mas e a traição?
    — Eu chego lá. Então, um dia, ela, irritada com o fato de a gente ter ido a um rodízio de pizza que não tinha opção vegana, começou a surtar e me escolheu, óbvio, como alvo! Começou a dizer que tinha medo de mim, que eu era capaz de cortar um pedaço dela pra comer, coisa e tal. Eu respondi calmamente que comeria sim carne de gente, gente é bicho, e bicho é bicho, né?
    — Meu Deus, o senhor a comparou com um bicho?
    — Peraí, que vai piorar. Eu também já não estava  muito feliz naquele relacionamento, muita implicância, muito mimimi. Ela me fez essa mesma cara que você tá me fazendo agora. Ainda calmamente, eu disse a ela: “Veja só, não há muita diferença entre você, uma vaca ou uma baleia pra mim no nível alimentar. A diferença é que matar você seria crime, e, além do mais, você é próxima como a Tchutchuca”. Tchutchuca é a minha cadelinha. Rapaz, ela empalideceu, ficou da cor de um palmito. Deu até mais fome, pensei em pedir uma pizza de palmito naquela hora.
    — É… bem…
    — Sim, sim, a traição. Pois foi aí que eu disse que também não se comeria uma pessoa qualquer. Tinha de ser um hedonista, um bon-vivant, alguém narcisista, de bem consigo mesmo acima de tudo. Nem políticos, nem professores, nem psicólogos. Nesses aí, a carne é estragada pelo excesso de toxinas produzidas pelo corpo. Tipo cabrito, quando morre apavorado. Fica com gosto amargo, sabe? Ela envermelhou, começou a me xingar baixinho, que ela era dessas, uma lady. Mais calmo ainda, eu disse a ela que a moça da mesa ao lado deveria ter um gosto bom, era cheiinha, a gordura deveria ser bem docinha. Rapaz, essa mulher endoidou. Começou a me chamar de tudo que era nome, que eu não a respeitava, que eu era um porco… Sim, sim, eu me comeria, olha esse toucinho aqui. Pois bem, eu, morrendo de rir, disse que não se preocupasse, que comer, sem ser com a boca, só ela mesmo, mas isso piorou ainda mais a situação. De tudo que eu disse, ela só lembrou o que eu falei da moça. Terminamos ali. Sorte que eles tinham pizza de palmito.
    — Sr. Gamela…
    — Eu entendo a sua expressão indignada. Mas olha, você até que daria um bom prato, viu?
    — O senhor me respeite!
    — Calma, calma, que é isso? Falo alimentarmente. Apesar do seu porte atlético, porque, veja, isso de levantar peso deixa a carne muito dura, acho que um suco de abacaxi poderia dar uma boa amaciada…
    — Vamos encerrar a entrevista por aqui. Muito obrigada, Sr. Marcondes Gamela pela sua participação no nosso programa…
   — Sabe o que vai bem com suco de abacaxi? Vodca. É chegada?
    — …
    — Então?
   — Nem que o senhor fosse o último homem do mundo, Sr. Gamela. Além do mais, eu não gosto de homens. Todos são meio assim como o senhor, uns porcos. A diferença é que o senhor, pior que os outros, assume a chauvinice.
   — Tudo bem, tudo bem, sem preconceitos. Poderia ser um jantar a três. Olha, eu tenho uma amiga…
   — O senhor vá para o inferno! Gente, vocês me desculpem, mas assim não dá. Diretor, diretor!
    — Mas nem um fast-foodzinho?
    — ME SOLTA! ME SOLTA, QUE EU VOU DAR NELE!
   — Tá vendo? Vegana. Só podia ser vegana. Com um mau humor desse…
   — VERME! VERME DESGRAÇADO! GORDO ESCROTO, MACHO ESCROTO!
    — Verme é bom, mas com tequila. Dizem que escroto de boi é afrodisíaco, comem na Espanha com os testículos.
    O diretor:
    — Ok, que é isso, gente, corta, corta… O senhor tenha mais respeito pela Paula!
    Última fala antes de entrarem os comerciais:
    — Mas eu sempre tenho respeito pelas mulheres, comidas ou não…

11/10/20

sábado, 9 de maio de 2020

O COLECIONADOR


    E se ele fosse desses homens que são definidos pelas posses? Desses, a quem a vida só marcou na coleção de canecas ou nos discos acumulados na estante? Agora, quando tudo parecia estar se pondo a termo, inclusive lá fora, a vida dos outros, inclusive a terra, o ar, os pandas-vermelhos, agora, ele seria desses com gavetas no caixão? Sofreria em vida com a avareza dos mortos, que, não mais tendo outra coisa que não a própria matéria, reconstroem-se no fetiche que outros poderão vir a sentir pela matéria acumulada por eles? A matéria, essa sim guarda os acontecimentos, porque acontecimentos, para serem memória, precisam estar documentados, registrados — “Aqui, esta pedra eu catei no jardim do passadiço que dava na entrada da casa dela, naquela noite de tanto medo e fatalidade, que se converteram em cãs, filhos, barriga e dívidas, inclusive e principalmente comigo mesmo…”. Disso ninguém saberá? Inaceitável! Mas são coisas demais… Tudo parece demais. Andou tendo amnésias do que não poderia esquecer, do antes, do imaterializado, do sem registro. Sua incomunicabilidade não lhe permitia passar adiante essas coisas. Mas essas coisas… essas coisas não se passam adiante, soa até errado, como um contágio, um espargimento de moléstias, ainda que sejam, de fato, em sua maioria, lástimas, lástimas pelo que não teve, pela consciência da impossibilidade de ter, lástima pelas perdas, e foram tantas… O que seria dele sem suas perdas? Havia por certo de mantê-las, mesmo que fossem materializadas em expressões, em silêncios e em inações. Haveriam de ser vistas, todos haveriam de sabê-las, elas não se perderiam no tempo. Lembrou Blade runner, estava chovendo. Onde estariam os pombos naquela chuva? Mas pombos espalham doenças, e lhe vieram de novo as visões de pragas e pandemias. E se escrevesse? E se rabiscasse tudo em alegorias floreadas, acumulasse as brochuras e deixasse, como último bilhete, o desejo de que fosse tudo incinerado junto com seu corpo, tornando-se tudo uma só matéria, esfumaçando a atmosfera em fuligem e pó, que incomodariam, que fariam todos saberem? Mas, de certa forma, a memória das coisas que incomodam tende a só ser recuperada na presença da causa. Ele, como causa, nunca mais seria presente… Tornou-se sem efeito sua divagação. Não havia jeito. Tinha de desfazer-se de tudo. Deletar-se, aniquilar-se. Na inexistência, talvez, na lacuna deixada como uma pergunta — “Ué, cadê?” —, causasse o efeito que tanto temia não causar. Talvez, inexistindo, existisse. Pôs em prática imediatamente o projeto. Etiquetou o que dava, arrolou tudo em listas, que deixou em locais estratégicos. Não faria estardalhaços. Nada de bilhetes, e-mails nem gritos na janela. Haviam de achar tudo, haviam de testemunhar seu desaparecimento em todas as coisas testamentadas, e só. Ao final, aflito e orgulhoso, abandonou-se no sofá. Diante dele, a tevê. Sentiu vontade de assistir à última programação, que era sempre a de costume. Endilemou-se entre ligá-la ou não, já que estava com alguns post-its no monitor. Pensou em como odiava a maneira canalha como a língua inglesa havia feito embaixada em sua vida. Post-it! Seria lembrado como aquele que deixara post-its? Arrefeceu, achou melhor ler alguma coisa na internet ou algum e-book de estimação. Os livros já estavam encaixotados, o celular teria de dar conta. Levantaria, abriria a caixinha original, colocaria de volta o chip e o cartão de memória — dera-lhe tanto trabalho etiquetá-los! —, veria alguma coisa… Não, era enfadonho demais. Olhou em volta, havia papeizinhos por toda parte. Pensou em sair, em fugir, em realizar o desejo do José, o do Drummond. Sorriu. Também não tinha parede nua para se encostar. Quem sabe, uma mulher nua, então? Àquelas horas, mas… não há tempo em que elas não trabalhem. Precisou de ar. Percorreu a sala, chegou à porta, mudou o último post-it de lugar a contragosto — dera-lhe tanto trabalho! —, saiu. Sentiu vontade de comer pão passado com café. Adorava café. Ao lado da padaria, haviam aberto uma papelaria moderninha, com esses post-its coreanos. Quem sabe, não seriam colecionáveis?

08/05/20

terça-feira, 28 de abril de 2020

NÊMESIS

Mosca-varejeira
(Fonte: Google Imagens. Clique na imagem para ampliá-la.)

   Talvez tudo tenha começado quando leu Kafka na adolescência, ali pelos treze anos — “Praza a Deus que tenha sofrido muito em vida, esse desgraçado!” Ficara tão desesperado com A metamorfose que retornou a mijar na rede, obrigando sua mãe a lançar mão de bacias e muita água sanitária, cujo aroma passou a lhe dar uma certa reconfortância. Virou o seu cheiro preferido desde então. Sempre fora um menino frágil, filho único, e a mãe o mimava. Já o pai, bruto que era, achou aquilo um caminho aberto para o afrescalhamento que vaticinara à esposa já adivinhar rondar seu filho e apelou para o cinturão e as humilhações — “Antes morto que viado! Aqui, não!” A gota d’água foi a manhã em que o obrigou a ficar só de cueca do lado de fora da casa, com a rede mijada enrolada em trouxa sobre a cabeça, levando coiós e o nome de mijão, gaiatice atiçada pelos entregadores de pão e jornais. Haveria de aprender, ora se não! Mas não se deu assim. Aquilo custou ao pai um divórcio litigioso, a negação sumária do direito à visitação e, de quebra, um enquadramento no crime de violência contra um menor. A pensão foi gorda, os advogados deram um jeito, ninguém foi preso, mas o pai voltou para o interior de vez e não quis mais saber da família. Chegava a querer brigar se lhe perguntavam do filho. Quanto a ele, somando-se os pesadelos oriundos da imaginação de um inseto gigante, a mijadeira, as surras, a humilhação e o abandono do pai, aquilo lhe custou a perda definitiva da saúde mental, a qual dera lugar a um senso extrapolado de esmero com a higiene física e um subsequente pavor de insetos.
   Para ele, insetos eram uma coisa detestável, mesmo os coloridos e mais populares como borboletas, joaninhas e esperanças. Imaginava-se envolto numa casca superprotetora de tecido e loções que lhe assegurava a imunidade aos ferrões e às patinhas infinitas munidas de asas — como drones espargindo doenças e morte — das muriçocas e afins. Não se vestia; encouraçava-se. Eram camadas e mais camadas oleosas e pastosas que, mal ressecavam, eram sobrepostas de outras, o que lhe deixava a pele ictíica e a aparência encerada, tudo isso sob tecidos semiendurecidos de produtos em aerossol comprados on-line que garantiam afastar de mosquitos até cobras de pequeno porte. Contudo, mantinha um respeito espectral às baratas, ainda que as considerasse as próprias emissárias do inferno encarnadas. Depois que descobrira que elas resistiriam a hecatombes, que viveriam sem a cabeça, que faziam hábitat em três dos quatro elementos — “Uma barata-fênix seria demais!” —, passou a imaginá-las como algo além do ordinário peçonhento-vampiresco-primaveril dos outros insetos, algo quase sobrenatural.
   Porém, o que odiava acima de tudo eram as moscas — “Mosca pousou, é o fim. Pode enterrar.” Tinha-lhes um asco refinado, uma ojeriza pungente. Dedicava horas a odiá-las, nemesificando-se, engendrando alucinações de destruição em massa. Moscas pousavam na bosta e nos cadáveres, na podridão do mundo. Além do mais, estava certo de que elas possuíam uma inteligência maligna e rudimentar, maquinada à moda de uma espiral, que lhes capacitava a propriedade, entre outras, de intuir o local exato do corpo humano que era impossível de se alcançar para espantá-las, matá-las ou, simplesmente, coçar o rastro ultrajante que deixavam na pele.
   Assistira a uns vídeos na internet — talvez por masoquismo — que mostravam o estado putrefato em que ficavam animais vítimas das larvas da mosca-do-berne depositadas neles subcutaneamente. As moscas inseriam seus ovos num inseto hospedeiro, uma mutuca, um mosquito, por exemplo. Esse arauto da destruição, por sua vez, picava o gado, no qual depositava as larvas do berne. Essas larvinhas devoravam os músculos do gado ainda vivo e causavam infecções que os consumiam, para, quarenta e cinco dias depois
— quarenta e cinco dias! , caírem no solo, onde se enterrariam até eclodirem na forma alada, alastrando a pior morte que ele jamais concebera até aqueles minutos de agonia informativa.
    Em virtude dessa fobia toda, seu apartamento se tornara um ambiente praticamente estéril, faltando um quase-nada para ser nocivo à própria vida em si, dada a quantidade de dispositivos repelentes que decoravam tomadas, paredes e aparadores. Nenhum dos víveres ficava à mostra, nada que cheirasse a doce ou a qualquer tipo de refeição se identificava em lugar algum. Por todas as possibilidades de contato atmosférico com o mundo exterior que o condomínio não lhe permitira tapar, ele havia mandado instalar telas de malha finíssima, todas tratadas com os mesmo produtos que borrifava nas roupas e nos tecidos dos sofás. Dessa forma, nesse exagero, que começou com pequenas excentricidades como raquetes elétricas em cada cômodo e a incipiente compulsão pela limpeza das superfícies, ele vivia.
    Seus amigos foram migrando pelo território constrangedor que ele pavimentava de plaquinhas adesivas e veneninhos em pó. O êxodo começou com as piadas do que acreditavam ser excentricidade, falta de mulher ou TOC. Passou à mitologia que acompanhava seu nome ausente de corpo nas rodas de cerveja — “Teve um primo que morreu de H1N1, coitado. Deixa ele.” — e à indulgência piedosa por acreditarem tratar-se de uma doença — “Meu Deus, isso é entomofobia, eu vi, isso incapacita a pessoa! Esse coitado, só com terapia pesada, viu?”. Em seguida, vieram os rancores, pois ele se afastava das pessoas deixando claras coisas como “olha, esse seu cheiro, você não usa nada não?, é que, assim, você sabe… eles vêm, né?”. Terminou com o medo que os amigos restantes passaram a sentir dele, como se aquele exagero comportamental se houvesse convertido numa misantropia que poderia explodir a qualquer momento num acesso de fúria à mão armada, e não de Baygon.
   Trabalhava pela internet. Era webdesigner e bem requisitado. Passou a comprar praticamente tudo on-line e, nas cada vez mais raras incursões no mundo, saía como um foragido, evitando pessoas, organismos, vida. À exceção de visitas constantes a infectologistas e a laboratórios de coletas de sangue, não precisava sair do seu bairro. Morava bem, tudo era perto de seu apartamento. Não perdera de todo o bom-senso. Numa ocasião em que comprara um traje completo de apicultor num site de equipamentos agrários, refugou usá-lo em público, apesar de ter achado absolutamente necessário. O caso é que, depois que o experimentou em frente ao espelho, sentiu-se estranho e imaginou o assédio de curiosos na rua, que lhe trariam, juntamente com o suor e o sebo engordurado de suas peles, mais insetos para perto de si, o que seria um efeito contrário daquela determinação — “Povo burro! Além de imundo, burro! Isto deveria ser um uniforme casual em todo lugar!”
    Numa de suas rotinas matinais de assepsia, no meio de uma fomezinha mundana, sentiu vontade de comer uma daquelas tapiocas com carne de sol que se vendiam na calçada da faculdade. Ele mesmo faria a tapioca, mas lhe faltava o recheio. Não tinha incluído a carne de sol congelada na lista de pedidos que enviava periodicamente à gerente do supermercado, a qual ele descobrira também ser meio paranoica, porém com gente pobre, e achou chiquíssimo ter um cliente que atendesse on-line — “Ah, se todo mundo fosse assim, não essa gentinha que enche as filas!” Porém, é claro, mandava entregar as compras mediante uma propinazinha, que isso era contra as normas do estabelecimento. Seria de se esperar que ele estendesse à comida a mesma fobia que tinha com relação ao ambiente e que só comesse coisas praticamente sintéticas, mas, não! Guardava um paladar quase infantil, e, muitas vezes, jantava pipoca com sorvete ou um sanduíche gorduroso de pernil malpassado de porco. Esse era o único buraco perceptível naquele semi-hermetismo em que vivia. Ele sabia disso. Porém, confiava tanto na seleção de suas compras pela gerente corrupta e em seu sistema impenetrável de armazenamento e preparo da comida, que não perdia um instante de sono com isso. Ligou para ela, informou-lhe a necessidade, permitiu a cobrança do suborno e esperou. Cerca de quinze minutos depois, o entregador — que já estava acostumado com o processo de inquérito e com a desinfecção na soleira da porta, paciência que lhe era até divertida, contanto que recebesse sempre uma gorjeta por aquela paspalhice — entregou-lhe o pacote. A carne de sol já vinha pré-cozida e desfiada, pronta para se fritar na chapa, e era assim que ele fazia, com manteiga, pimenta-do-reino e gergelim, que era o mais próximo da memória afetiva que tinha do seu lanche universitário. Preparou tudo assobiando, fez a tapioca, recheou-a, comeu tudo com café, ficou satisfeito. Somente a limpeza de tudo lhe daria um prazer maior do que aquele café da manhã. Deixou a chapa por último, pois o que dava mais trabalho sempre era o melhor. Sentia-se ele próprio um gigantesco inseticida, um agente, uma força da natureza com uma missão em curso.
    Achegando-se da Croydon — comprada num site de loja de departamentos, uma pechincha! —, que parecia sempre novíssima devido à constante, completa e meticulosa esterilização a que era submetida, achou curiosa a forma dos restinhos dos fiapos da carne, enegrecidos pela fritura. Essa sensação deu lugar a um arrepio, que cresceu e foi sucedido por um terror, que também evoluiu, mas a espasmos violentos e à súbita palidez de que sofrem os covardes que esconderam em vão seu medo, revelado pela onipresença instantânea e estrondosa do causador. Diante dele, jazia um cadáver perfeito, com todas as patinhas e asinhas, de uma mosca varejeira, cujo verde-esmeralda ainda podia ser percebido apesar da carbonização. Estava ali, juntinho das sobras da carne que, havia pouco, ainda chupava de entre os dentes. Se havia uma, havia muitas, porque mosca é assim, gregária, maltesa, bandoleira, mafiosa, multitudinária, tinha de haver, tinha de haver, tinha de haver! Dentro dele, em seu esôfago, em seu estômago, em sua alma!
    Bambeou para trás, levou a mão à garganta, arranhando-a com as unhas quase transparentes de tão limpas, sufocando-se, esganando-se. Socou sua barriga várias vezes, enfiou os dedos na goela o que pôde, porém lembrou que foi por ali que elas entraram e retirou-os, sacudindo-se de nojo e arremessando-se à pia. Deu dois passos ridículos, tropeçou um pé no outro e caiu epiléptico, estrebuchando os ossos que chacoalhavam como um carrilhão de bambus. A tapioca saiu granulada, gosmenta, melecada numa lama negro-amarelada composta pelo café e pela carne, um petróleo fedorento que lhe saiu pela boca e pelas ventas e no qual chafurdou porcamente a cara em agonia de morte. No meio daquele caos espasmódico, deu-se conta de que aquilo deveria ser o inferno, mas ele era bom, era limpo, não merecia o inferno, e então, como se fosse feito de mola, distendeu-se elasticamente como uma flecha lançada na direção do banheiro, onde, debaixo da água escaldante do chuveiro elétrico, terminava de vomitar, esfregava a segunda bucha sintética com Aseptol e batia a cabeça na parede do box, na esperança de que aquilo o fizesse acordar ou morrer, o que viesse primeiro.
    Não vieram nem uma coisa nem outra. Levou a manhã toda, um pedaço da tarde, todo o sabonete antibacteriano do mês e alguns milhares de litros d’água e de lágrimas aquela purgação. Durante a limpeza — a qual se fazia necessária novamente e novamente, sempre que lhe retornava a visão do cadáver fritinho e da coloide infecta, que ele jurava ser constituída por inúmeros outros corpinhos derretidos pela bile no chão da cozinha —, ele tomou algumas decisões. De imediato, precisava internar-se para uma lavagem estômaco-intestinal urgente. Em seguida, haveria por Deus de chamar um serviço especializado para a limpeza de tudo, pois o prazer de fazê-lo tinha-se convertido em pavor, e ele jamais seria capaz. Em terceiro, contrataria alguém, algum pistoleiro conhecido da família de seu pai, que era toda de Alto Santo, para dar cabo da gerente, do entregador, do dono e dos funcionários do frigorífico, enfim, de todo o gado do Vale do Jaguaribe, de Goiás, do Mato Grosso, do inferno, se fosse necessário, já que sua alma clamava por reparação total e imediata. Nessa hora, havia nele uma mistura de medo e coragem, como se o espírito de vingança de Nêmesis surgisse por trás de seu espinhaço amarelo, exigindo retaliação de proporções olímpicas.
    Foi até o espelho, carregado de ódio e vergonha. Ainda não tinha se visto naquele dia, deveria estar lastimável. Talvez devido ao tempo em que ficou molhada, a sua pele se engelhara, formando sulcos e gretas flácidas que lhe davam a aparência de um maracujá ressecado, e a sua palidez começara a se converter num tom patinado uniforme. Todo esse arrazoado durou só alguns segundos em seu raciocínio. A lógica logo se contaminou pelo trauma, o que evocou memórias em que acrescentava masoquistamente dramas e tragédias todos os dias. Por exemplo, uma vez, conversando com um amigo entomologista, o qual considerava um antagonista, mas tinha-lhe respeito pela coragem, perguntou se alguma vez tinha se envenenado com algum inseto, ou contraído alguma moléstia, enfim, se tinha sido castigado pela escolha de vida que fizera. O amigo, que se divertia horrores com a sua neurose, que costumava achincalhá-lo de propósito, chamando-o de pupa, não estava nesse dia tão disposto assim, então falou-lhe a verdade: que não, que o máximo que lhe ocorrera foi ter sido picado por um mangangá e ter engolido mosquitos numa viagem de moto. Isso lhe foi o suficiente para vários pesadelos periódicos, e o sucedido com o amigo se converteu pouco a pouco em sua própria memória, uma memória vívida, construída, cultuada como um ídolo falso. Assimilou. Naquele momento, diante do espelho, convenceu-se: havia insetos dentro dele, uma legião de demônios que se misturaram, reproduziram, se aglomeraram no local onde deveria estar a sua alma, um corpo que, naquela manhã, havia recebido, calmamente ingerida, a sua cabeça. Ficou zonzo, lembrou o apelido com que o amigo, especialista no assunto, insultava-o: pupa. Óbvio que ele devia ter visto algo nas videochamadas e identificado o que sua profissão o treinara para classificar, um inseto em progresso, uma besta alada que se formava dentro dele em segredo. Caiu no chão, machucou a bacia, sentiu câimbras e frio, abraçou as canelas com toda a força. Rezou como fazia quando criança, quando pedia à Morte que lhe pulverizasse o corpo para que insetos não o devorassem. Rezou com a mesma força de quando o pai fora embora, queria que ele voltasse e lhe arrancasse aquilo do corpo com o seu cinturão, queria morrer ali para renascer limpo…
    Essa ideia interrompeu bruscamente aquela espiral para dar início a outra. De repente, enxergou na cadeia de eventos que formaram a sua personalidade uma lógica, um fio. O que ele era deveria ser transformado, mas não com a morte, que não era de suicídios. Deveria ser uma purificação. Não como a de Gregor Samsa, a qual materializara o que este já era em atitudes. Ou sim? Não era ele, também, como um inseto, escondendo-se, emburacando-se, aninhando-se em si mesmo na alegoria de seu apartamento? Não, não mesmo, não podia ser! Os insetos estavam lá fora, ao sol, festejando a eterna primavera fétida de seus pólens e monturos. Era sim o mundo uma imensa colônia, um pavoroso arapuá dentro do qual ele cavara uma cova estéril e se aquartelara. Os insetos eram o mundo! A infestação era a vida! Ele, pobre dele, era um dos poucos — se não o único — remanescentes da humanidade. Seu pensamento deu outra volta, e percebeu então que a própria humanidade era composta de insetos. Todos muito piores que as baratas, infinitamente mais nocivos. Todos distintos, coloridos, todos derrubando árvores e comendo lixo, todos se entredevorando e espargindo doenças. E ele, quem era ele? Não queria guerra com ninguém, vivia sem incomodar, era limpo, ordenado, organizado como uma linguagem de programação de uma bonequinha de sites de hentai, sua principal encomenda e fonte de renda. Outra volta. Então sua vida se resumia a construir imagens fetichistas para homens velhos se masturbarem? Meu Deus, o que seu pai diria agora? Será que seu pai era um dos clientes naquela linha de produção de depravações? Meu Deus, como ele queria ser punido naquele momento com um gigantesco cinturão purgativo, desinfectante, esterilizador. Começou a arranhar a pele engelhada com as unhas moles, na esperança de arrancar logo aquele invólucro e deixar o demônio alado sair e voltar para sua colônia, para sua bacia de mijo, para o colo de seu pai, o qual por certo que já o tinha posto no colo, pois lembrava-se de ter sido catado várias vezes de onde estava para ser esfregado em sua cintura, sempre que sua mãe não estava presente. Quanto mais arranhava, mais gemia e grunhia como quando era objeto daqueles carinhos de cujos abraços nenhum os colocava face a face. Foi arrefecendo, exaurindo-se. Uma fome enorme tomava conta dele, mas não se atrevia a levantar-se.
    Adormeceu da mesma forma que na madrugada do primeiro pesadelo. Sonhou com seu pai abraçando-o como um pai deveria, olhando-o nos olhos. Eram muitos olhos, muitas minúsculas órbitas iridescentes. Sua mãe lhe sorria do sofá da sala, as pinças abertas, uma enorme folha semidevorada no colo. Dentro de seu pensamento, eclodia, turva pelo onirismo daquele momento, a esperança de acordar um homem, homem como deveriam ser os outros filhos que seu pai se orgulhava de ter espalhado pelo sertão antes de ter conhecido sua mãe, Dona Inocência, tão boa, tão culpada de tudo que havia privado a ele, sua infância com seu pai, cheirando a mijo e vergonha, a brutalidade e clandestinidade. No chão da cozinha, enquanto isso, começavam a escapar da gosma algumas larvinhas amareladas, atrapalhadas com o ambiente novo em que haviam sido jogadas como um segundo e forçado nascimento.

28/04/20

sábado, 14 de dezembro de 2019

A SOBREVIVENTE


    Eu já ouvi que era uma adolescente com a simpatia de uma velhinha. Queriam dizer, talvez, que meu comportamento não era atrevido nem arrogante como o das minhas amigas de então — porque essas coisas de amizade mudam! —, cheias de bravatas e crueldadezinhas com todos. De fato, eu sempre achei essa vitrine espinhuda em que as meninas costumavam transformar sua fala, seus gestos e suas atitudes um artifício tão pobre, um desperdício de ironia existencial tão grande A maioria era frágil, gentil e carente como é o natural nessa idade, assim como os meninos também, inclusive. Todavia, com estes, a vitrine era uma hipérbole macaqueada do que eles achavam que um homem deveria ser. Sempre achei que era mais prática a transparência prudente; e mais segura, a verdade encarada no espelho.
    Hoje isso me lembra minha avó, D. Menininha, que morreu sendo chamada por esse apelido, o qual carregava o sentido exato do que ela fora a vida inteira: uma ispilicute.  Minha avó foi uma ispilicute mesmo inválida em sua cadeira de balanço, no sopé da calçada alta, implicando com o povo da rua, dando coió para espantar morcego e fumando escondido até a morte um cigarro pé-duro que ninguém sabia como obtinha.
    — Invente seus mistérios e me deixe com os meus, Ritinha.
    Esse foi o melhor conselho que recebi na vida, junto com o outro de procurar homem só pela manhã.
    — É quando eles traem, minha filha. Melhor lado do chifre é o lado de fora. E procure homem da perna fina. Trabalha, que é um danado

    Adaptei esse conselho ali pelos catorze, quando dei em cima de alguém pela primeira vez. Maria Luíza, um chuchu. Perninha fina, mas uma cinturinha
Fiquei com vontade de contar para minha vó do alvoroço, da lambança de quem faz sem saber o que está fazendo, do susto e da carreira, da risadaria e do gozo, o primeiro de vera, o que me abriu uma greta lascada na pele e no juízo, que eu tinha de preencher pelo menos uma vez por semana, senão ficaria doida. D. Menininha nem sabia como era certo aquele conselho das pernas. A pessoa é mais ágil, sem ser bruta, é leve e maleável, sabe intuir onde colocar o corpo, uma delícia. Perna grossa vem normalmente com uma modorra inata, uma leseira, um arrastado de chinela. Peguei mais regra que exceção, posso afirmar: mulher de perna grossa só presta para homem.
    Malu foi a primeira que me disse aquilo de parecer uma velhinha, numa tarde de um falso trabalho escolar no seu quarto cheio de pelúcias. Ela queria dizer que eu era mais experiente, imaginei na época, mas depois a entendi. Isso de não fingir ser outra pessoa, não dissimular esse eu-mesma, que era de acordo com o ela-mesma, me atribuía uma aura de alegre segurança, me incluía num grupo do qual eu não escolhera fazer parte, mas já fazia: o dos guias, o dos conhecedores dos caminhos. O que aconteceu de verdade foi que eu intuí tanto quanto a Malu todos os toques, o tempo certo em que as minhas mãos deveriam ficar entre as suas pernas, a sucção adequada para cada beijo e chupão, a quantidade perfeita de saliva em cada linguada. A diferença foi que eu agi com a mesma naturalidade de quem faz uma traquinagem qualquer, como tocar a campainha da dona Lourdes — que a havia instalado para estabelecer a diferença entre ela, que se arrogava ares de evoluída, e nós, o canelau, os zés-povinhos —, a única que havia naquela época, e sair correndo, calculando o tempo e a velocidade, o risco e o prazer, e tudo isso com a consciência da subversão e sem me questionar um só segundo sobre a simbologia ou a aceitação daquela molecagem pelos adultos, o que sabiam os adultos de ser criança?, o que uma criança deveria sofrer por ser quem é? Foi assim, como uma perna que se põe após a outra numa carreira desabalada, que eu descobri a doçura do proibido e a urgência de mais, porque aquilo era eu, e aquilo era muito bom.
    Não foi fácil, contudo. Guaiúba era, naqueles anos setenta, a despeito de ser um interior perto da capital, de um atraso pouco possível de ser imaginado hoje, mesmo com este retrocesso mental que ascende contra pessoas como eu. O que hoje escandaliza era usual na época, era encartilhado e ensinado na fala e no cinturão. Escondi muito bem meu romance com a Malu, mesmo quando estávamos ulceradas pelas brigas que depois levaram ao rompimento. Escondi bem, porque possuo a arte de encaixar minhas máscaras sociais firmemente e de trocá-las com perfeição. Para meus pais, eu era só a moleca cheia de meiguice, estudiosa, boa filha, menina direita, porque era isso que eles precisavam saber de mim, e essa era a minha verdade para eles, a única. Não precisava ser
com outras pessoas quem eu era para a Malu. Para ser lasciva, depravada, puta, mulher, eu já tinha a Malu. Ninguém mais precisava me ver daquela maneira. Entretanto, já queria… Olhava as outras meninas da escola, fingia-lhes amizade para sondar possibilidades.
    No entanto, D. Menininha, por trás de sua quase cegueira desdentada e entrevada, me sentiu os guardados. Talvez pela sua própria experiência com a sexualidade, que continuo imaginando ter sido uma sequência de violências e resistências — porque ela, apesar de um conhecimento doutoral no assunto, que não hesitava em passar adiante desbocadamente, não falava do meu finado avô, por respeito ou nojo, os quais ela nunca deixou ninguém discernir exatamente, resguardando-se nessa dúvida —, ela adivinhava que eu já teria experimentado homem.
    — E aí, minha filha, já tá mexendo direitinho?, perguntava com uma cumplicidade e uma malícia que me emocionavam, porque eu sabia serem, daquele jeitinho dela, só para mim.
    — Oxe, vó, e eu lá mexo em nada? Sou bem quietinha, respondia no mesmo código.
    E ríamos, e assim nos entendíamos, cifradamente. Ela sabia de maneira sangrenta o preço da liberdade, pois esta lhe havia custado tempo, saúde e juízo, e, por isso mesmo, cuidou muito bem da minha durante aqueles dois anos em que o amor e o sexo cresceram em mim, e eu floresci. Quando ela morreu, experimentei uma solidão e um abandono que me amadureceram quase instantaneamente. No fundo da minha rede, enlutada, rasgando o desespero de uma órfã, acabei esquecendo a hora certa de trocar a máscara, e aquele rangido de dentes deu por faiscar na mamãe o corisco da desconfiança. Ela sempre soube que eu era mais próxima de sua mãe do que dela mesma, não que ela não fosse amorosa ou que fosse uma tirana, mas, simplesmente, porque estar ainda encoleirada ao meu pai limitava a mulher que ela era, e isso abria um abismo entre a sua subserviência sublimada e a minha liberdade vivenciada.
    Mamãe era um bastião, um arrimo, a viga mestra da casa. Papai, ocupado com a criação e com o açougue, homem honesto, muito limpo, bigode calado, devoto da Virgem, só era pai no manter-nos e no prover-nos. Éramos dignos em nossa vida de família pequena: eu, filha única, devido a mamãe ter perdido o útero no parto, eles e vovó, única sobrevivente de uma longa linhagem de maus-tratos. Isto ela ensinara à mamãe: “Pra mão de macho levantada, tem peixeira na cozinha. Ai de tu, se ficar igual a mim”. Sua filha, talvez por amor ou pelo buraco deixado pela morte do meu avô, anuíra a tudo, à simplificação, ao silêncio, até à usura, mas seu temperamento havia deixado bem claro a papai que, se ele sinalizasse qualquer menção de agressividade, não viveria muito. Eles haviam se casado logo depois que meu avô morrera por infecção generalizada devido ao cancro que contraíra nos puteiros e nas cocheiras de Guaiúba e Pacatuba, em cima e embaixo, de um lado e do outro da Aratanha, e só o fizeram porque, se ele ainda estivesse vivo, não o permitiria. De fato, namoraram em segredo, acoitados por vovó, que tentou fazer com minha mãe o que fazia comigo. Ela só não adivinhava que o temperamento medroso e adolescente do meu pai viesse a se transformar numa beatice azeda e numa anulação paulatina da mulher que minha mãe poderia vir a ser. Talvez, ele tenha se tornado assim para compensar o tipo de homem que meu avô era. Na tentativa de criar o seu oposto, assemelhou-se a ele, exceto na violência, a qual era tão típica sua que o fizera temido na região toda e, eu soube bem mais tarde, o havia tornado mais de uma vez contratado pelo prefeito para matar opositores, o que nunca lhe foi atribuído às claras devido ao temor criado pela sua figura alta e vermelha, seca e viperina. Dele herdei os olhos verdes e a chumbregagem, que já me latejava entre as pernas e viria a jorrar em xiringadas de sangradouro pouco tempo depois, quando vim dar em Fortaleza, à ocasião de minha fuga de casa.
    A cumeeira alta, ornada de morcegos amofinados, foi a testemunha. Mamãe chegou, olhou aquela desesperação de dois dias primeiro com piedade, com maternidade. Puxou o tamborete, sentou, esperou. Na ocasião da morte do pai, a culpa de havê-la desejado assombrava-a e lhe atravessava a barriga e lhe rasgava a garganta. Havia dor e amor em seu olhar, quando eu o encontrei. No meu, onde ela imaginara encontrar um semelhante ao dela, surpreendeu-a o medo. Mamãe não era boba. Sertaneja, silente uma vida inteira de suas dores, havia aprendido a ouvir bem os silêncios alheios. Adivinhava traições, anunciava intenções de crimes, compreendia martírios. Era mulher de ouvir escutando com os olhos, com a pele, a temperatura daquilo que lhe diziam e a frieza do que lhe calavam. Súbito, carregou-se de outro silêncio, beligerante, ameaçador, um silêncio de mãe. Olhou-me de cima abaixo, arrastou-me para fora da rede e começou a me arrancar as roupas, ao que eu, também já versada naquelas necromancias femininas em meus dezesseis anos, ao não me opor, ao não me proteger, dizia-lhe que nada encontraria. Mas ela já sabia que ali existia outra filha, uma que traíra, que dissimulara, ela não sabia o quê, mas estava ali, na carne, mesmo com a presença do cabaço, havia já uma mulher ali, onde ainda não deveria haver.
    Gritou-me por fim todos os nomes. Ameaçou-me de morte. Trancou-me no banheiro, onde me encolhi encostada na parede da cisterna. Abraçada aos joelhos, olhei a cuia velha pendurada na parede, olhei as teias recentes ainda vazias de muriçocas. O banheiro era frio como o riachinho que dividia o terreno da casa com a mata que antecipava a Serra. Eu também estava fria. Ali, sem saber, já havia decidido um fim, também não sabia de quê, mas amanhã eu não seria mais eu mesma. Malu me cobrava os olhares, os silêncios, as pequenas manifestações do que eu viria a ser, e aquilo me enervava como um cabresto que me queriam pôr. Sua família nem sonhava, graças unicamente à minha proficiência na dissimulação, que nos azunhávamos no quartinho, cavando a pele uma da outra, buscando o gozo da primeira vez, poucas vezes reencontrado. Contudo, aquilo, ao mesmo tempo em que me atava, começara a me enojar pelo mesmo motivo, e esse binário de opostos, somado à morte de minha avó, foi o que minha mãe quase adivinhou.
    Acalmei, entrei na cisterna, coisa que já havia apanhado para não repetir — “E nos outros que vão tomar banho, tu não pensa não?” —, e me entreguei àquele frio até os ossos, esperando o que já sabia. Meu pai chegou, minha mãe lhe expôs o caso, longo silêncio dele. Apesar de ele vestir a tradição de usar as calças na casa, temia de certa forma as três mulheres que viviam ali. Protegia-se naquele silêncio masculino, patriarcal, onipresente mesmo na ausência. Mas nos temia. O silêncio era o seu jeito de ser homem e de ser pai de forma efetiva e definitiva: o silêncio, naquela casa, não deixava dúvidas. Eu não sentia medo, mas sim uma espécie de ansiedade. Assim como minha mãe, eu adivinhava, e precisava daquela culminância que mudaria tudo. Nem cuidei de desfazer o engano, e, se o tentasse, de nada adiantaria. Mesmo constatando minha virgindade, minha mãe estava convencida de que eu já era mulher, e foi isso que meu pai entendeu.
    — Maria Rita, se vista.
    Minha mãe, com minhas roupas na mão, a porta entreaberta.
    — Seu pai quer conversar com você.
    Pelo vão, vi meu pai sentado, já com o relho de dar nos jumentos pendurado no pulso direito. Imediatamente, lembrei minha avó, mas não com o desamparo de havia pouco. Lembrei as vezes em que ela me dizia, repetindo as orientações que dera à mamãe: “De homem não se apanha nem na putaria”. Arregalei os olhos, e o ódio me tomou inteira e me levantou da cisterna, ensopada, tilintando de frio. Abri a porta, nua como estava, e desafiei, a boca crispando as palavras metálicas, inesperadas, firmes naquele tremor. Eu era já alta, e meu corpo já havia se arroliçado na formosura e na força. Meus olhos, como os de meu avô, eram dois punhais de esmeralda apontados na direção do meu pai, que lhes sentiu a pungência e calou o próprio silêncio, engolindo-o seco e engasgando-se numa tosse de cachorro que o fez sentar de novo, a mão no peito, a cara amarela.
    — Venha! Venha! Venha, se for homem!
    A isso, minha mãe, a boca aberta, avermelhada de repente, entendeu. Ali havia, sim, uma mulher, mas de outra forma. Não pelas mãos nem pela jeba de um homem, como havia sido com ela e como ela intuía. Eu era a mulher que ela poderia ter sido, eu era a antagonista do meu avô, eu era a força que ela nunca teve, a força que roubaram à minha avó, D. Menininha, a força que havia nascido da liberdade do corpo e da aceitação orgulhosa do espírito.
    Durou um instante apenas. Ela correu ao meu pai, que arquejava o malassombro de ser impotente diante daquela mulher-homem, como que para acudi-lo, mas, em vez disso, arrancou-lhe o relho do punho e surrou-me gritando, como um porco em agonia, “Morre, morre, morre!”, e me batia cada vez com mais fúria. Como o escrúpulo havia cedido à animalidade, ela não escolhia um alvo, como acontecera nas poucas vezes em que me surrara, quando mirava minhas pernas e minha bunda. Nas suas convulsões de égua, acertou-me um olho, que vazou imediatamente, lacerou-me os seios, esfolando-lhes os bicos com a ponta do chicote. Meu pai, de boca aberta, apavorado, gemia infantilmente que ela parasse, que já estava bom, que eu já tinha aprendido. Ela não parava. Ensanguentada já, acocorei-me e lhe cedi as costas, que receberam uns bons minutos de lambadas. Quando tudo acabou, foi a sua vez de desfalecer, mas de exaustão. Caiu no chão ao meu lado e foi socorrida pelo meu pai, que a levou à cama deles, me gritando que lhe levasse uma água com açúcar. Eu ardia. Juntei o que podia dos panos que estavam ali, me arrastei até a arca onde guardava minhas roupas, vesti uma bonitinha, de que Malu gostava, era a que estava mais em cima.
    Hoje, relembrando esse dia, não sinto remorso do derrame que vitimou minha mãe nem da depressão que meteu o meu pai na cachaça e o levou a uma morte solitária, somente descoberta bem depois, pelo mau cheiro na casa. Nunca mais vi Malu, a única que me negou guarida depois de minha fuga. Dei-lhe à porta, mais molambo do que gente, ao que ela gritou, primeiro de terror, depois de medo, “Vai embora, sua louca, meu pai tá aqui, vai embora!”. A bem da verdade, eu não havia ido a ela por motivos românticos. Hoje eu sei disso. É que a dela era a única casa com cujo endereço eu atinara, de tão esgarçada que estava. Seus gritos me despertaram, e o meu olho bom deseclipsou-se daquela sangria. Meu corpo vermelho de sangue debaixo do vestido amarelo me deixava com o aspecto de um enorme crisântemo no batente alto daquela casa. Passaram, me viram, me socorreram, quiseram prender meu pai, e só não o fizeram por se apiedarem daquela sua viuvez imediata. A tragédia virou causo, e falavam de minha mãe como de um fantasma, uma visagem que vinha surrar as filhas desviadas por macho. Sim, porque, para todos, aquilo havia sido por causa de um macho.
    Se me perguntassem hoje, tantos anos depois, eu diria que fora justamente pelo oposto. É uma pena que não haja ou eu não conheça uma palavra que signifique o oposto de macho. Não, não é fêmea nem é mulher. Homens e mulheres não são opostos, eu sei, provei ambos. São apenas dois universos diferentes, com um balanceamento diferente de forças e magnetismo. Entre os corpos celestes, o vácuo é o mesmo para os dois. Não, não faltava em meu pai a masculinidade que abundava em meu avô. Tampouco, havia em mim um excesso de mulher do qual carecia minha mãe. O que havia naquela casa era uma despolarização, uma desarmonia, uma balança corrompida que igualava a desigualdade de três contra um. Havia um organismo guenzo, uma deformidade da qual eu sou o único fruto e a única sobrevivente, condenada e abençoada a ser o oposto de mim mesma em cada corpo que possuo e ao qual me entrego. Justo eu, que nunca me neguei no espelho, vivo hoje a eterna aventura de me descobrir sempre diferente, sempre outra, como se fosse a mim mesma que eu buscasse nesses corpos. Mas eu não quero isso de me encontrar, não. Tomara Deus que, em vez disso, eu encontre de novo D. Menininha, fumando seu cigarro misterioso, enxuta mesmo sob aquela minha saudosa chuvinha serrana, sorrindo banguela um deboche qualquer, que eu completaria com uma gaitada que nos irmanaria e encaixaria de uma vez por todas e para sempre.

14/12/19

domingo, 8 de dezembro de 2019

O MILAGRE DE SANTA CLARA


    — Olha aquele um: não foi marcado. Feliz, sem marcas, quase santo. Nesse aí, a vida errou o tiro.
    — A vida não mata com bala não. Isso é sonho, Francisco. A vida mata lento, e é com veneno, e veneno no homem pode ser na veia ou na ampola. Esse não tem cara de quem porta porque administra.
    Sempre achei que era branca a pessoa da morte. Francisco ria disso e me dizia que a vida é que era branca, e os homens a sujavam. Esse outro lado que jamais atingiria me divertia nele. O amor é algo que também mora nesse outro lado. Ele era cheio de sorrisos venturosos, um peito de passarinho. Dizia em meus ouvidos que toda melancolia tinha o seu mel, e que eu era a “sua melancolia”. Francisco era um ponto brilhante que eu orbitava encolhida, enegrecida de sombras e crateras carbonizadas.
    Olhei de novo o homem, mais atenta, enquanto Francisco me recitava versinhos do Jeneci. Realmente, ele parecia uma versão definitiva e irretocável do Francisco. Era velho sem ser gasto, era branco e iluminado, andava como se se espalhasse pelo caminho e se tornasse mais completo a cada passo. Acredito que os polos, as extremidades de tudo, de alguma forma se encontram num paradoxo perfeito em algum lugar. Se aquele homem era, como dizia Francisco, um não-marcado, ele era, segundo eu mesma, todas as dores juntas. Contudo, o que era, naquela situação, diferente de nossa habitual discordância das coisas era que eu não acreditava que as marcas nele eram dele. Parecia que essas marcas eram aquilo que ele espalhava, tornando-se mais belo à medida que regava o mundo das dores, sombras e crateras que eu conhecia tão bem.
    Francisco, ele, sim, era um santo. Conversava comigo como se eu fosse um bichinho, punha flores em meus cabelos no final de um dia de trabalho. Aquela semicalva também parecia a do Santo, o Outro, e eu gostava de fingir arranhá-la com minhas unhas. Foi ele quem me ensinou a olhar o sol na hora certa, a tomar cerveja na hora certa, a fazer amor na hora certa. Talvez fosse isto o que me dificultasse amá-lo: não me sentia transformada, mas sim consertada. Aquele excesso de luz me aniquilando a escuridão acabava por tirar de mim o que poderia me fazer sentir-lhe amor: a necessidade. Francisco era onipresente. No universo, a escuridão é onipresente. A luz é que é pontual como postes iluminados numa estrada noturna e sertaneja, saindo ou entrando nas cidades. Naquele universo franciscano, a luz era insidiosa, e eu era obliterada em vez de iluminada. E eu sabia que não era assim com aquele velho. A luz que vinha dele não me obscurecia; eu era atraída por ela. Aquele homem branco era, sim, a morte, eu sabia. Sabia porque, quanto mais eu o olhava, mais eu mesma eu me sentia, e era tudo de uma claridade que não me matava, como a de Francisco fazia, mas que me revelava. Enquanto Francisco ia me contando das cores do sol na linha do mar atrás de mim, servindo como assento no qual me recostava na Ponte Metálica, eu ia me sentindo mais nua e distante, olhando para aquele homem branco passeando calmo na noite que purpurejava o céu crescente diante de mim. Aquele homem era a morte porque não me matava.
    — Francisco, eu preciso andar. Vamos até o Joca? A gente vai pela areia, molhando os pés.
    Isso era entrar na noite que entrava na cidade.
    — Vamos. De lá, a gente vai pros barcos, talvez ainda tenha camarão.
    Incomodou-me um pouco ele aceitar. Tinha a esperança de que ele dissesse não, e eu diria que tudo bem, que iria assim mesmo, que ele poderia voltar, que ele não me fazia falta, que eu não o queria. Encandeada, eu fui. Sabia que o velho tinha ido por ali. Sabia que eu tinha esse dom de rastrear gente, de farejar gente igual a mim. Talvez conseguisse. No mar, ele não entrou, estava em roupa de passeio. Há quem se banhe à noite, ainda mais naquele novembro quente dos infernos. O mar de Fortaleza tinha essa propriedade de esquentar o frio e resfriar o calor, além de ser um limite que só transpassam os barcos e os suicidas, e ele não era nenhum dos dois. Por que eu queria alcançá-lo? O que eu faria, o que eu diria? Diria? “Oi, boa noite, o senhor é muito bonito”. Ele não era bonito; era outra coisa. O que eu sentia era outra coisa. Não o queria como homem, não lhe cobiçava o corpo. Eu queria mesmo era perguntar “Oi, boa noite, o senhor me leva?”. Preciso ir. Preciso me escurecer de novo, preciso de mim negra para poder olhar as estrelas. E Francisco? Francisco era bom. Eu não o apagaria.
    — Você quer dar um mergulho?
    — Eu, não. Por quê?
    — Tá muito quente. Olha aquele lugar ali. Tem pouca gente.
    — Francisco, e se eu quiser, mas não contigo?
    — …
    — É, sozinha. E se eu quiser entrar, e não voltar?
    — Tá, tudo bem, a gente não vai. Não precisa apelar. É que a gente já andou tanto…
    — É, a gente andou muito. Aqui tá bom. Consegue uma água de coco?
    — E uma cervejnha?
    — Pode ser. Deve ter vendedor de camarão por aqui. Já vi gente vendendo ali, no Espigão.
    E se eu aproveitasse e entrasse mesmo? O homem branco deve estar lá… Ou chegando. Sei que andei mais rápido que ele. É quente mesmo, Francisco tem razão. Se bem que, sei lá… Estou respirando melhor. Nesse céu sem nuvens, já dá para ver as estrelas, apesar da cidade. Por que tem tanta luz em toda parte? Isso sufoca igual aos fios e aos postes e aos prédios. Igual ao Francisco. Sozinha, seria bom entrar. A água está boa, quase não há ondas. Aliás, nas ondas, eu penso melhor. Já consigo pensar melhor. O barulho das ondas não vira palavra, e a palavra atrapalha o pensamento, o verdadeiro pensamento. As palavras pesam como âncoras, como a que prende aquele navio lá… O barco lá longe, que, no mesmo corpo, espera e parte, sou eu, um estado fixo e itinerante, esta vontade de ir, indo, mas estática, ancorada, contemplando a jornada. Falar atrapalha a viagem.
    — Aqui, o coco. O rapaz lá vai trazer o camarão e as cervejas junto.
    — Então, pra quê o coco?
    — Ué, você pediu, ora. A cerveja foi ideia minha.
    — E o mar?
    — Olha aquele navio ali. Deve vir carregado de quinquilharia. Nessa recessão, é só o que se consegue vender. Deve ser bom ficar parado no mar, o vento, a espera… Sabia que, dependendo de onde eles vêm, eles podem esperar mais tempo pra aportar do que pra chegar aqui? Se vierem do Recife, com certeza… Olha, viuvinhas. Deve ser época de tatuí. Nem sei como ainda tem, com essa poluição.
    — Eles se adaptam, eu acho.
    — Olha aquele senhor de novo. Olha, sem preocupação, sem peso… Acho que não é rico. Gente rica anda torta ou dura, desfilando pra ninguém.
    — É…
    — Ué, não vai discordar não? Você tinha dito que o homem carregava veneno.
    — Acho que tem mais veneno no barco.
    — Opa, chegou a cervejinha, E o camarão. Valeu, irmão. Pedi pra você também, Clara. Olha, até o senhor lá vai dar um mergulhinho. Também, com esse calor…
    — É. Agora eu quero também. Vamos apostar quem nada mais longe?
    — E nossas coisas?
    — Deixa com o moço da cerveja.
    — Tá, mas isso de nadar…
    — Qualquer coisa, você me salva.
    — Certo.

08/12/19

sábado, 30 de novembro de 2019

O CAFÉ DE ACÁCIO


    O café descia quente como um abraço. Era frio onde vivia. Quando descia à cidade, tinha a sensação de que o dia o abraçava, e essa sensação era nada mais que isto: uma vaga ideia de quentura, conforto e excitação açucarada. Nunca vira seus pais se abraçarem. Nos poucos domingos em que foi à missa, em dias santos ou em ocasiões de sétimos dias, sentiu que as pessoas tinham uma espécie de medo físico inconsciente, uma íntima rejeição da suavidade. Os diálogos eram brutos, peremptórios. Os apertos de mão, violentos, quase como uma pequena contenda entre as partes, cada uma agredindo a outra com toda a tradição que carregava no peito, nos ombros e que canalizava às mãos impositivamente. Dessa forma, cresceu sem memória de afeto físico, sem memória mesmo de verbalizações de afeto.
    Olhava as poucas pessoas que encontrava no seu dia a dia de roceiro filho de roceiro com uma curiosidade alienígena. Ou eram os freteiros semanais que subiam a Aratuba, descendo de volta, em suas caminhonetes, o que plantavam, ou os vizinhos, se é que se poderia chamar assim a semiparentada residente a uma légua uns dos outros, no mínimo. Quando criança, havia mais encontros, nos quais ele e os outros meninos animalizavam-se nas várzeas e às margens do riacho, caçando teiús e matando rolinhas, degolando calangos e estourando cururus. Nessas brincadeiras, os mais velhos, iniciados na usura da adolescência, fumavam escondidos e tentavam descobrir quais dos mais jovens permitiam, por inconsciência, curiosidade, inatismo ou mesmo inação, um falso troca-troca, do qual estes sempre saíam em prejuízo. Quando eram identificados, os cus-de-bacorinha passavam a ser uma espécie de bem comum, sempre ausentes, sempre misteriosos e temerosos do seu novo segredo. Lembrava que o Totim Avelino, depois de iniciado, adquiriu uma atitude que variava entre o comportamento de um maracajá e o de um gato comum. Tornou-se desconfiado e arisco, mas também manhoso e dissimulado, porém, ainda assim, não conseguiu ver nele um café que pudesse tomar, nem quando ele mesmo adolesceu, e esburacava as bananeiras para satisfazer-se. O que não entendia era que o Totim, assim como o Macedo, depois que cresceu, deu para beber e virar mesa, sempre odiento, e, diferente deste, que morrera em briga de faca numa ocasião em que lhe chamaram burra-mole, fez-se respeitar pela vileza e imprevisibilidade.
    Assim, deu-se pelos seus doze anos de autoindulgência manual a inexistência do conhecimento alheio de sua pele, anos esses que, somados aos de sua infância, a qual acabara quando da morte de sua mãe, resultavam nos vinte e um de uma vida seca no meio da fartura fria daquele sertão de estranhamentos e sovinarias. Aconteceu então de, na antevéspera do dia que marcara para descer à cidade a fim de comprar as varas de cano de irrigação que substituiriam as estragadas pelo lodo e pelo sol, surpreenderam-no quatro criaturas como nunca vira, mais coloridas que as tangerinas, as mangas-rosa ou qualquer outra fruta dali, todas de peles rabiscadas e pintadas, divididas em dois casais de óculos escuros, carregando nas costas enormes mochilas com ganchos e varetas e cordas e penduricalhos, cantando-lhe — pois nunca imaginou que se falava com melodias — se poderiam acampar naquele terreno, que era seguro, próximo da água e mais quente. Demorou a responder que sim, numa trapalhada verbal espantada, desconfiada e maravilhada, pois nenhum dos argumentos que enumeraram fazia sentido. Quanto mais reparava neles, mais se impressionava e menos articulava, o que os fez pensar que ele tinha algum tipo de retardamento. Via as mulheres usando brinco na missa, mas eram discretos e furavam os lóbulos. Os quatro pareciam tucunarés que haviam escapado a muitos pescadores, rompendo-lhes as linhas e guardando nos corpos os anzóis como troféus. Todos tinham o couro mais colorido que os cabelos, os cabelos mais coloridos que as roupas, e estas mais coloridas que todo o sertão junto. A mais falante, que lhe fizera a pergunta, ria e miava palavras que ele nunca ouvira, o que o fez pensar, em seu preconceito matuto, se eram todos também meio aluados ou beréus, pois falavam como se não tivessem músculos nas mandíbulas, e as línguas pareciam rabos de boi tangendo mutucas. Nesse imbróglio, finalmente, entenderam-se: ele, que eles ficariam por uns três dias, pois estavam de passagem para Baturité, onde ficariam no Mosteiro; e eles, que ele se chamava Acácio, que o sitiozinho era dele e que poderiam acampar, usar a água e o arremedo de garajau onde ficava a latrina.
    Carga no chão, armaram as barracas na base limpa do outeiro e deram-se aos flozôs de turistar sem sair do canto e acender uns fininhos, coisa que Acácio fora ensinado na missa a atribuir ao Cão. Lembrou que, na infância, quando os mais velhos se escondiam para fumar, os cigarros eram pés-duros, de fumo roubado dos pais, enrolados em qualquer coisa, papel de jornal ou palha de milho. Apareceu o filho do Seu Zé Saboeiro com um fumo diferente, mutucado numa caixinha de fósforos, cheiroso e clarinho, e correu gente a dar uma tragada. Lembrou também que se decepcionaram, pois o fumo de rolo com que estavam acostumados era nauseabundo, mas arrebitava o espírito e os masculinizava e amadurecia de modo a ser uma espécie de rito de passagem entre eles. Por outro lado, além do fato de parecer tempero de mezinha, aquela ervinha amolecia as juntas e dava numa risadagem besta, da qual todos se constrangeram depois. Contudo, Acácio sentiu uma certa nostalgia quando a fumaça lhe atingiu as ventas, e ficou na janela que dava ao terreiro, bispando de longe como os coloridos estavam. Nunca viu gente falar tanto, e com vozes que não reconhecia em idade nenhuma, e com uma alegria tão antinatural, herética e livre. Sentiu uma angústia entre as pernas e um segão lhe abrindo a garganta, e, sem perceber, estava com as calças arriadas, punhetando como fazia quando brechava a curra do Totim Avelino por entre as bananeiras. Não eram nem as coxas branquinhas que os quatro exibiam, nem os decotes e os cangotes magnéticos. Era o fato de, aos seus olhos, os quatro não possuírem marca alguma de cangalhas ou cabrestos — que toda gente tinha —, misturado com aquela gastança de vida, aquela liberalidade de gestos e palavras e gaitadas e lassidões, como se não houvesse Lei no mundo, como se ele, Acácio, visse pela primeira vez o coito dos anjos com as almas das virgens que o padre Abelardo dizia que tinham passagem comprada e carimbada para o Céu. Aquilo tudo lhe espremia os ovos e espasmava as nádegas de tal forma que nem percebeu que emendara uma punhetada na outra, grunhindo e salivando como um barrão, como um bicho sem alma. Deu-se que as duas moças encangaram-se num beijo de língua, num beijo simples de namoradas, e que os rapazes se recostaram um no outro, românticos como noivos, pagãos como diabos, azunhando felinamente a nuca um do outro, entrançando as pernas e baforando a maconha como sultões numa orgia. Aquilo arregalou os olhos de Acácio, que tremeu na perna e gozou violentamente pela segunda vez no reboco de taipa do peitoril da janela, esganiçado na síncope moto-contínua daquela masturbação sem alvo. Doía de uma dor nova, sem centro, e sentiu que ia morrer ou nascer, não sabia ao certo, mas sabia que tinha de fazer algo. Correu ao fogão, ferveu a água e pôs-se a moer os grãos de café como se sua vida dependesse daquilo. Era tudo novo, havia estampidos mudos na atmosfera da cozinha, e seus olhos choravam sem sentido a recente descoberta do que tinha em seu quintal: um extremo nunca imaginado do que poderia ser uma felicidade física, um gozo perpétuo de sua existência, isso, se ele soubesse proceder. O caso era que não sabia, e a ideia de perder antes de ter o assombrava como o pé-de-peia que seu pai ensinou haver do outro lado do riacho, temendo que seu filho morresse afogado na curiosidade de menino.
    Chegou trêmulo ao fundo do terreiro onde começavam o mato e os pés de fruta, e falou o mais devagar que conseguiu que tinha café e perguntou se não queriam um pouco. Desde que chegaram, os quatro simpatizaram com Acácio. Apesar da afasia, ele era simpático e só um pouco mais velho que eles, o que viabilizava diálogos. Eram todos veranistas das primeiras férias da faculdade onde estudavam Geografia e queriam voltar com experiências e histórias que lhes antecipassem um renome na turma. Ninguém namorava ninguém ali, ou todos namoravam todos, mas só porque se deu a circunstância de todos toparem a viagem e o sexo sem compromisso entre amigos que viria dela. Entenda-se que a ausência de fronteiras sentimentais possibilitava a inclusão de novos membros naquela vadiação, como ocorrera em Mulungu, onde participaram de uma festinha de piscina no sítio de um completo desconhecido, que enfiara e gozara em todos os buracos dos quatro e acabara ele mesmo por descobrir as delícias do fio-terra, que evoluíra a uma sarrada, e esta, por sua vez, a uma bela comida de rabo, que levara gritando suas revelações. Sem saber, Acácio também era uma lagartinha itinerante na teia quaternária ocasional daquela ovulação de aranhas. Eles mesmos intuíram o açúcar daquele café, mas estranharam a rapidez do contato. Normalmente, demorava dois dias, tempo suficiente para que se percebessem visual e sonoramente as possibilidades fetichistas que ofereciam.
    Entraram, sentaram, sempre rindo gentis e lubrificantes, e o cheiro do café pungiu-lhes as verdades de Acácio. Súbito, sem que tivesse havido um arranjo para tal, gemeu na fumaça o sabor da carência de uma vida inteira, uma carência encorpada, negra, forte, terral. O frio da Serra era a partitura daquele concerto, em que as cores das cordas e dos metais silenciaram ante aquelas primeiras notas das madeiras, harmoniosas em sua urgência, impactantes em sua suavidade. Pegaram das canecas, sorveram calados, e Acácio tremia idiofonicamente seus desejos íntimos. A moça que mais miava foi a primeira a agir. Não disse nada. Pôs-se de pé e cercou-o sentado no tamborete de couro de boi, roçando os bicos dos seios durinhos sob a blusa em seu cachaço teso. Acácio vibrou inteiro, gaguejou algo incompreensível e sentiu uma boca quente tomar o lugar dos mamilos e sussurrar-lhe num meio chupão um “delícia de café, brigada”. Nem bem se ergueu, e recebeu um cangote penujando-lhe a boca em retribuição, conduzindo-o ao jirau, reclinando-se em decúbito e, antes do abraço tão imaginado, ofertando-lhe o fruto branco e polpudo no fim daquela cerviz. O fumo do café fresco recebeu a marola colorida com exatidão. Logo, a cozinha era um palco de desmembramentos de vergonhas e do defloramento do próprio Acácio, que entendeu o que havia do outro lado do riacho, além dos temores de seu pai, dos malassombros dos pés-de-peia e das caiporagens brutas dos meninos mais velhos. Do lado de fora, passando o terreiro vermelho, a friagem trouxe uma chuvinha rala, engordando a travessia do riacho, que transbordou inútil numa cachoeirinha mais abaixo, onde, escondido do seu pai, enveredava-se Raimundo Avelino, arrastando pela mão um leitãozinho que descobrira na semana anterior no oitão de sua casa, desconfiado, meio gato, meio maracajá, para as locas dos pitus, que era onde tudo aquilo acontecia.

30/11/19

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

TODAS AS CORES DO UIRAPURU


    Nem ligava mais se a entendiam. “Isso é gente que não chove”, dizia às rolinhas. Todos os dias, fazia pelo menos uma coisa sem sentido algum aos olhos tão acostumados com o pragmatismo da capital, e isso a tornava ridícula em seus farrapos de mendicância, mesmo aos outros desgraçados como ela. Vira e mexe, conversava numa língua pagã com uma árvore ou dedicava uma tarde incinerante a andar curvada pela Praça, catando os lixos minúsculos que os garis haviam ignorado. Talvez, fosse a sua infância iluminada por um sol diferente, a qual lhe ensinou como andar descalça e o tom de voz certo para chamar passarinho. Fortaleza era tão pobre de passarinho, só tinha pardal e bem-te-vi. Enojavam-na os pombos. Ela, que se acostumara a comer avoantes e hamburguesas no sertão de sua avó, sentia um certo ódio quieto daquela ave tão urbana. Achava-a feia como os prédios e os postes, e, pior, sentia-se oprimida de tal forma que se impressionava como se vendo uma visagem quando vinham em revoada, à semelhança de marimbondos enormes. A cidade inteira lhe era como um gigantesco arapuá que não podia queimar como o fazia seu avô, quando ia colher mel nos campos da vazante. Ali era sempre verde, mesmo na estiagem, e o aroma dos cravos-de-defunto, dos jasmins e das flores das mangueiras adoçava a atmosfera como uma grande roupa natural, como uma grande alma, dentro da qual brincava a dela. Já o pombo combinava com o poste, que combinava com o prédio, que combinava com o cinza quase tátil que se respirava no Centro.
    Na Praça do Ferreira, ela era a “doida do assobio”. A galhofa tão típica do fortalezense é, na verdade, a maior violência desta cidade, ensinada desde o berço e aplicada até o pós-túmulo. É como se todos existissem nos dois extremos apenas: os defeitos, laureados pelo coió — patrimônio imaterial —, e as virtudes, sempre associadas ao poder que inviabiliza o coió. Entre os polos, um pêndulo que dança entre a hostilidade e a subserviência. No sertão dela, também tinha disso, mas não era ambiental como aqui. Aqui, na falta da parede do açude, fugia assobiando para as viuvinhas e um ou outro sibite, que ornavam os velhos oitis da Avenida do Imperador.
    Também, com as décadas, fora perdendo a memória, tanto que não se lembrava mais do assassinato do pai pelo avô na ocasião em que aquele fora pego tentando estuprá-la. Não se lembrava mais das foiçadas e dos gritos, mas ainda guardava uma predileção inconsciente pelo vermelho. Também não se lembrava de ter sido expulsa pela mãe, que nunca lhe perdoara os ganidos que lhe roubaram o homem. Tampouco do desgosto do avô, que pegou maniconia e apaixonou-se pela morte, gemendo pela esposa finada no terreiro da cacimba, onde fora encontrado meses depois, mole e podre, os quartos quebrados. Viera de caminhão em caminhão, sempre pagando com a moeda que matara o pai, até dar em Horizonte, donde andou até sangrarem os pés na esperança de ver o mar. Viu. Era grande como lhe contara a avó, que guardara numa garrafa vazia de cachaça um litro de sua água, o seu bem mais precioso, atrepado na prateleira dos santos, ao lado de um Sagrado Coração de Jesus e de um Imaculado Coração de Maria, onde votava seus terços de saudade. Contudo, decepcionou-se com a solidão do mar. Esperava algo parecido com o que sabia de água, que era o Jaguaribe dando no Orós, algo como um encontro, uma comunhão. Sua alma doeu um pouco, pois rezara para aquela água em menina, e esperava uma espécie de Deus sertanejo, turvo, violento e bom, um Deus como seu avô. Em vez disso, encontrou imensidão e sal e não entendia como as pessoas adoravam se salgar naquela água de onde sempre se saía mais sujo do que quando se entrava. Nem entrou. Molhou os pés, que arderam nas lazeiras e nas unhas perdidas. Daquele dia lembrava-se bem. Começaram ali os coiós e as arengas. Nunca pensara que ser matuta era coisa que se usasse como ofensa, e era uma ofensa tão aguda, pungente como aquela ondinha suja que lhe chupava o sangue dos entrededos. Sem saber o que fazer, acentuou a matutice num esconde-não-mostra da cara entre os ombros, e foi-se andando torta pela dor do sal e das tampinhas de garrafa sob os pés. Subiu a rua da igreja, igreja feia demais, parecia um malassombro cinza, pontiagudo. Desde que entrara na cidade por Caucaia, sentiu um acinzentamento de tudo, do céu, do ar, das pessoas, até que, para não ficar também cinza, coloriu o ar à sua volta com os assobios, que era o seu jeito de passar pelos aperreios. Foi escorraçada de casa assobiando, assobiou enquanto os caminhoneiros e freteiros lhe comiam o resto de infância, assobiava para não se perder, pois seguia o som que projetava alma nas coisas que lhe tiravam, família, virtude, vida. Assim foi. Existia dentro das musiquinhas de menina e das imitações de sabiás, graúnas e bigodeiros, de que tanto o pai gostava. De alguma forma, nessa amnésia, sentia-se bem, como se um santo lhe houvesse agraciado com a percepção de um sentido íntimo das coisas passageiras e a dessignificação dos traumas, dos quais pareciam ser compostos todos os outros. Retinha os sorrisos das crianças filhas de outros mendigos como ela, aos quais retornava sempre uma imitação de passarinho, mas não perdia nem um momento considerando a própria miséria ou o olhar ascoso das outas crianças com as suas mães, que só não lhe passavam por cima por nojo, até porque, como não se lembrava como fora dar ali, não era capaz de pensamentos dessa profundidade. Lembrava o sertão iluminado, paraíso para o qual, um dia, voltaria. Lembrava a decepção do mar e o início e o então do cinza urbano, e isso era como o seu diabo. Para o resto, assobiava e se coloria toda, sem lhe atingirem os escárnios e os coiós cotidianos.
    Naquele cenário, no centro do Centro, no centro do início daquele aglomerado de fins, visitavam-na e aos outros mendigos, casualmente, voluntários de igrejas e assistentes sociais. Achava graça neles. Ninguém dizia coisa com coisa. Falavam de higiene e de Deus, como se ela não pudesse lhes ensinar assobiando a anatomia e a Bíblia, a ciência atômica dos corpos e a metafísica absoluta do universo. Contudo, numa manhã em que assobiava para um saco preto de lixo de lanchonete, de onde retirava os restos que lhe calavam momentaneamente os silvos, parou diante dela uma mulher velha, branca, mais ou menos da sua idade, com o olhar silente e duro como o de uma matriarca que manda o filho se calar. Assombrou-se de súbito, mas logo abriu um sorriso podre de volta, pois não viera dela nada de ruim. O olhar da velha dizia muito. Ela o ouviu atentamente. A velha abaixou-se, acocorando-se ao lado dela, sempre lhe dizendo o que ela sabia ser só para ela, pois não havia palavras nesse dito. Desabituara-se das palavras, pois o nome das coisas era música, e ninguém lhe dizia nada de importante. Sentiu que a velha se apequenava à medida que o diálogo prosseguia, esvaziando-se pelo olhar, que a preenchia de sons que nunca ouvira nem saberia imitar. Também lhe pareceu que ela não era mais velha, que ambas não eram mais velhas, que ambas iam suavemente se colorindo — uma, preenchendo o seu branco de laranjas e crisóstomos; outra, atenuando o seu negro em tons lilases e amagentados. Foram, no tecido daquele silêncio, vestindo-se uma da outra, tornando a ser quem foram, sob os umbuzeiros e entre as gravioleiras, ambas bebendo daquela sertania, tão misteriosa aos que as rodeavam — pois nunca enxergaram aqueles espectros luminosos nem ouviram aqueles segredos compartilhados de beira d’água —, mas tão identitária, e íntima, e telúrica, que pareciam ambas mãe e filha, filha e mãe, terra e planta, sertaneja e sertão. Seu coração crescia, e ia se lembrando de todas as coisas. Lembrou-se de outro mar, de outros pais, de outros crimes. Lembrou-se alegremente de quando era inconclusa, feita apenas de pensamentos e imaginações. Lembrou-se ainda mais distante, quando, na mais absurda liberdade, existia inimaginável, etérea e ampla, parte intrínseca de coisas que ainda nem existiam. A velha, já remoçada e multicolorida, confidenciava-lhe o segredo que guardava o que lhe diziam todo aquele tempo os passarinhos, quando ela os imitava declarante de si, mas ignorante deles. Ela compreendeu com a surpresa de quem não sabia como não percebera antes. Ali, ela, também moça, irradiante de tons de opala, iridescera finalmente àquilo tudo que poderia ter sido quando lhe roubaram corpo e alma e resplandeceu em cores impossíveis dentro dos ouvidos do chão, das árvores e das águas. Face a face, ambas se perpetuaram num trinado de uirapuru, bicho lendário que seu avô lhe contara ter visto com as oiças, uma vez só, sorrindo banguela as suas lembranças de São Saruê.

18/11/19