Desacostumado.
Pedaços de cores
reclamam olhos,
e onde estão?
— invisíveis no tempo.
O cheiro da terra, das roupas, do sol!
Há uma guia,
um cordame em que a memória se desondeia.
Um rio.
As águas batem cada vez mais forte,
e as cores vão se desvelando em punhais de luzes:
uma espiral cadente feita de lâminas brilhantes,
um vórtice aniquilador
do tempo presente.
Enfim, deságuo, e o mar é enorme,
e as ondas, gentis.
Estou sozinho, e tudo é horizonte.
Escrevo histórias
de peixes e abismos,
deito tudo no leito
e descanso.
E eu sei que é unicamente meu
o eu que ali adormeço.
22/02/23
Este blogue se destina ao uso artístico da linguagem e a quaisquer comentários e reflexões sobre esta que é a maior necessidade humana: a comunicação. Sejam todos bem-vindos, participantes ou apenas curiosos (a curiosidade e a necessidade são os principais geradores da evolução). A casa está aberta.
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023
O PROBLEMA DO CORAÇÃO É QUE ELE BATE
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023
CANTOCHÃO
Deitou o copo na mesa, levemente. Reconheceu, no xadrez da infância, a concessão da derrota que lhe ensinaram no internato: “tombe-se o rei!”. A mesa do boteco servia-lhe perfeitamente de tabuleiro: bispos hereges, torres de alvenaria caiada e muitos, muitos peões cascabulhados pelas longas partidas da vida. Havia ali também muitas rainhas, todas de coroas preteridas. O baralho da mesa ao lado lhe despertou as copas que tão bem conhecia. Também, algumas de paus e de espadas de sua meninice nos terreiros. Mas, de ouros, nunca! Nenhuma! Nem ela!
— Mais uma aqui, por favor.
Já passara do ponto do crédito havia muito. Da pena, também. Virara um “costumeiro”, um item ornamental, um identificador do Santa Edwiges, o bar de Seu Xavier. Sem ele, a mesa do choro não tinha para quem puxar o Odeon nem a Escadaria. Ele fluía com a tarde, ronqueava com a voz gostosa seus salves, sempre carinhosos, às figurinhas ali também desgastadas pelo tempo: Martins, o do violão sempre prestes, o bêbado Tarcísio, coro sempre certo à dor de cotovelo das dez, a cambista Heloísa, que sempre o esperava chegar para encerrar atrasada as pules, e o garçom Liberato, que aprendera a cuidar da dignidade daquele mistério. Parecia ser a licença que se dava ao Santa para ser um bar: um alvará, uma bênção. Até mesmo a clientela encorpava depois de sua chegada. A sinuca, inclusive, só ficava séria depois que ele cumprimentava os jogadores, que passavam a casar as apostas na mão da Heloísa. Era a alma do lugar, uma essência que justificava frequentarem-no os bambas e os febris, as memórias que tomavam zinebra no balcão e as novidades que gargarejavam cervejinhas na calçada de anedotas. Sentava-se à esquerda da porta, ali pelas seis, após a permissão do angelus do rádio do Xavier.
— Aqui, Seu Cordeiro. O Seu Xavier perguntou se vai pagar.
— Diga a ele o de sempre: quem manda é o dia.
— E o dia foi bom?
— Me trouxe até aqui. Como sempre.
— Vai de canja hoje?
— Deus lhe pague, Liberato.
— Ô Seu Xavier, mande uma canjinha aqui pro Seu Cordeiro, que ele precisa.
O violão chorou um sambinha, chegou um pandeiro da mesa dos novatos, Seu Xavier sacou o cavaquinho e o rendeu ao grupo, pedindo “manda uma do Paulinho, gente!”. A música ali era sempre boa. Arrumaram Desilusão, e o peito de Seu Cordeiro batucou atrás, meio surdo. Parecia adoçar a derrota no sangue a cada bombada, sincopando ali o regional improvisado.
Chegou a canja com um pão do dia. O primeiro de seu dia. Seu Cordeiro parecia um griô, na sua elegância imane e inata de preto-velho. Cruzava as pernas frágeis para fora da mesa, sentado de lado na cadeira, recostado à parede, que guardava, com a sua mancha de suor e poeira, o seu lugar em sua ausência.
— Os meninos querem que o senhor cante. A rapaziada nova.
— Deixe o santo baixar, Liberato. Ainda não cheguei.
— Deixe o dia lá fora, meu camarada. Aqui dentro, é sempre noite. Dona Marlene perguntou se está boa a canja.
— Melhor que a vida, meu amigo. Entregue a ela uma lembrancinha, faz favor?
Deu a Liberato um pacotinho de papel-bíblia, uma página arrancada de um catecismo velhíssimo.
— Diga a ela que achei.
Aquilo não era uma novidade, exceto pelo último pedido. Sempre levava babilaques, coisinhas, presentinhos para Seu Xavier e sua esposa, Dona Marlene. Porém, o segredo impresso no “achei” ativou a experiência malandra de garçom acumulada por Liberato em décadas de torpedinhos e leva-e-traz entre as mesas.
— O que é isso, Seu Cordeiro?
— É um pedido dela. Uma encomenda pessoal.
— Pessoal? E se o Seu Xavier quiser saber o que é, digo o quê?
— Que é de antes dele. Que não se preocupe não, que nenhum mal foi feito. E que este negro aqui só lhe guarda amizade e gratidão. E que minha vigília e minha obrigação finalmente acabaram.
Era coisa demais para o velho garçom. Ainda tocavam o “danço eu, dança você”, e Liberato intuiu. Pensou em devolver, mas adivinhou a proporção do momento no olhar de Seu Cordeiro, que nunca vira tão expectante em sua mansidão. Baixou a cabeça, penitente. Seu Cordeiro enxugava a última laminha de caldo da tigela com o miolo do pão, que levava à boca como uma hóstia. O sagrado de tudo aquilo que, sem ser dito, reverberava nas paredes do Santa Edwiges convenceu por fim o garçom de levar a cabo aquele rito.
— O senhor ainda vai voltar? — perguntou.
— Eu nunca fui a lugar nenhum, meu amigo…
Apesar de suas roupas e pele estabelecerem o oposto, Liberato entendeu profundamente.
— Pois adeus, meu velho. Fique com Deus.
Cruzou o bar convertido, por seus passos, em uma nave, parou de cabeça baixa à frente do balcão, a mão posta em oferenda:
— Seu Cordeiro mandou pra senhora,
— O Cordeiro ainda acha que tem de pagar alguma coisa aqui? — sorriu vermelho Seu Xavier. — Tu acha, Marlene?
Dona Marlene, de pele branca salpicada de sinaizinhos da idade, reconheceu aquela página amarelada de catecismo quase imediatamente, translucidando-se. Disfarçou o tremor e ergueu o olhar para o marido, que não entendeu aquele pedido de perdão. A mesa do choro já tinha engatado Não tenho lágrimas, e o bar ficara frio de repente. Lá fora, uma chuva fina lavava um corpo negro, delicadamente deitado no outro lado da rua, a mão esquerda ao peito, as pernas cruzadas, como se houvesse descido em rodopio de mestre-sala. Um grito seguiu-se a outros, precipitando todos ao cruzamento esvaziado de trânsito, fremindo no ar os ai-meu-Deus de suspensão.
Seu Xavier nunca entendeu a explicação da esposa, que sobreveio e sobreviria até o fim sem lágrimas, sem medo e sem culpa, ainda que purpurecida de saudade:
— Foi antes, quando eu ainda era mocinha, no internato. Padre Honório que me deu, e eu tinha perdido. Seu Cordeiro achou não sei como… Não sei como.
O pequeno terço cor de rosa, com ave-marias peroladas e crucifixo de osso, fazia ainda menos sentido naquela fatalidade.
No dedo anelar esquerdo do morto, uma antes nunca percebida aliança de finíssimos acabamentos, filigranada de ouro, sepultava ali tudo: a vida, o samba, o bar, a morte. Sobranceava na neblina um vento que pareceu a Liberato, naquele momento, um cantochão assobiado.
— Adeus, meu velho — repetiu.
01/02/23
terça-feira, 16 de março de 2021
MARINHOS
I
dentro das palavras, onde moram as coisas,
existem coisas ainda maiores
— o ignorado.
veja o mar, por exemplo.
dentro da palavra, ao lado do que é e sempre foi o mar,
existe outra coisa a que também chamo mar,
mas que, diferente daquele,
sobre-existe esvoaçante, muito além da água e do sal,
dos peixes e dos navios cheios de petróleo e armas.
é um mar feito de luz e de cabelos,
cuja água, onipresente sobre o corpo,
desdenha da superfície da terra.
nele, a vazante e a preamar
são pressentimentos,
tanto que rompem com a Lua
por padecerem de outros magnetismos,
por obedecerem a leis que se renovam
com a maré.
é um planeta submerso,
salpicado de ilhas cor de vento
e baías que nasceram já dançando
de uma eterna meninice,
de uma saudade mais antiga
do que o próprio objeto da saudade.
esse mar, que habita dentro da palavra mar,
não se vale de sua força
para urrar quem é à costa
nem se guarda aos faróis
como se os apagasse a naufrágios.
ele é manso e humano e anda sempre ao meu lado,
corre como um rio por onde quer que eu vá,
adiante de mim,
e dentro, na fome de que sinto falta,
na comida que nunca mais haverá.
ele é feito, assim, única e simplesmente
de tudo aquilo que zarpou
de todas as beiras de praia de minha vida.
II
se me perguntassem onde termina o mar
não saberia dizer
se na chuva que dele sobe
antes de chover
se no leito negro dos abismos
se na vela recolhida e enxuta
se no porto
ou se na aurora
se no casco, que lhe faz fronteira
se na costa, que a onda lambe
ou se na concha, malassombro de seu marulho
o mar
acho que termina
naquele casal que se beija
e bebe um do outro
a sua própria maresia
termina na areia
entre os dedos dos pés da criança
tragada pelo ralo do banheiro do apartamento
talvez no lixo escumado
talvez no sunglass do playboy
talvez na sempre enigmática
mise-en-scène do carnaval
o mar
acho que termina mesmo
no fundo do prato de plástico
no fundo da gelateria chic
no fundo mais profundo e estéril
do bairro mais nobre à beira-mar
16/03/21
sábado, 2 de novembro de 2019
DO LADO DE DENTRO DAS PALAVRAS
do lado de dentro das palavras
ocorre um conselho secreto de sentidos
às vezes, guerra, e lacunas se abrem com as trincheiras
sentidos morrem para sempre
ou até a ressurreição semântica
às vezes, os sentidos se entendem, e reina a paz
aconteceu com a palavra “peremptória”
palavrinha chata do caralho
— não duraria três segundos descalça na roça ou na favela
onde seria comida de porradas, esquartejada a foice
e martelada à gosma viva nos lajedos e nas lajes —
imóvel, inerte como um cadáver embalado a vácuo
utilizável apenas em aulas de anatomia vocabular
e nos estupros vernaculares dos tribunais de justiça
às vezes, os sentidos se embiocam em orgias
e estendem suas genitálias trespassadas de metáforas e sinestesias
até sangrar rios de esperma e traços
numa semiose putificada e profusa
como um ovo eclodido de aranhas
de toda forma, às palavras, intimamente
gozam a fruição de si mesmas
velas breves ou círios eternos
prenhas de tudo o que não somos:
mistérios ajuntados nos discursos
fragor luminoso no obscurantismo dos textos
e de nossas vozes
deslugares de fala que nunca se ocupam
e que tudo têm a dizer
02/11/19


