Desacostumado.
Pedaços de cores
reclamam olhos,
e onde estão?
— invisíveis no tempo.
O cheiro da terra, das roupas, do sol!
Há uma guia,
um cordame em que a memória se desondeia.
Um rio.
As águas batem cada vez mais forte,
e as cores vão se desvelando em punhais de luzes:
uma espiral cadente feita de lâminas brilhantes,
um vórtice aniquilador
do tempo presente.
Enfim, deságuo, e o mar é enorme,
e as ondas, gentis.
Estou sozinho, e tudo é horizonte.
Escrevo histórias
de peixes e abismos,
deito tudo no leito
e descanso.
E eu sei que é unicamente meu
o eu que ali adormeço.
22/02/23
Este blogue se destina ao uso artístico da linguagem e a quaisquer comentários e reflexões sobre esta que é a maior necessidade humana: a comunicação. Sejam todos bem-vindos, participantes ou apenas curiosos (a curiosidade e a necessidade são os principais geradores da evolução). A casa está aberta.
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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023
O PROBLEMA DO CORAÇÃO É QUE ELE BATE
Jaseon deCaires Taylor - The Garden of Hope
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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023
QUARTO MINGUANTE
Não espero que me adormeça
— há aqui já noites suficientes.
Velo eu mesmo o cadáver do sonho,
fantasma de si mesmo, que hoje assombro.
— há aqui já noites suficientes.
Velo eu mesmo o cadáver do sonho,
fantasma de si mesmo, que hoje assombro.
Dentro das luzes, a mística persiste,
e me cego de excessos
até que me desapareça de vez
a carne da memória dele
no mundilhão de novidades.
O sono vem, ceifa o que resta,
e, todas as noites, vou desaprendendo a dormir.
Sou no mar o Sol que se pôs
antes da primeira aurora,
antes da Serpente,
antes de Deus.
Sou longe,
Mas estou onde sou.
Guardo apenas a distância,
que aprendi que sou eu.
A noite, esta, olha o esquife ao meu lado
e me diz que não há mais sonhos,
mas que o pesadelo acabou.
08/02/23
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segunda-feira, 9 de maio de 2011
SONETO ONÍRICO
Com o que devem sonhar os que não dormem,
E vagam nos seus brigues de sapatos,
E, à memória, misturam-lhe seus fatos,
E sonambulam corpos de que somem?
Desaparecerão ali à esquina?
Cairão em abismos? Sumidouros?
Ou, mansos, caminham a matadouros,
Tangidos pelo que lhes abomina?
Eu, que sonho perambuladamente
E não me sei as rotas de retorno,
Esbarro nas suas as minhas fugas,
Ao que me abandona o sono morno,
E me desapareço às contrafugas,
E desperto ao contrário de repente.
09/05/11
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