Número de sílabas (desde 11/2008)

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quarta-feira, 8 de março de 2023

PAUSA PARA UM CAFÉ

Jongensspelen (aprox. 1860-1870) – Jogos de meninos anônimos: histórias para jovens.
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— Chegamos bem perto desta vez.
— Nunca tão perto, nunca tão longe. De onde estamos, há mais léguas entre nós que uma vida inteira de caminhada.
— Mas eu te sinto aqui.
— Esse não sou eu.
— Quem, então? Eu próprio? Meu reflexo, minha criação?
— Olhando daqui, estás só. Percebo-te outro, indissociável de ti, porém, outro. Tens mudado muito.
— Não é a mim que olhas. Estás de cabeça baixa.
— Pois é. É a ti que olho.
— Não pode ser! Vejo-te diante de mim! Quem és tu, senão tu mesmo, tu, que eu vejo?
— Teu olhar também não é o mesmo. Ele te ilude as medidas. Crês mesmo no que vês?
— Queres me enlouquecer!
— Não. Como disse, estás só. Nisso, em tudo, em ti. Só, como sempre.
— Então, com quem falo? Com quem grito? A quem tenho, como uma sombra, manejado minha caminhada?
— A mim.
— Então?
— Não existo mais sob teus olhos nem mais sou a teu lado. Tenho me movido muito pouco, alguns passos, apenas. És tu que giras e danças e saracoteias em carreiras infantis. Eu apenas cresci. Tu…
— Espera! Não cresceste! Vejo-te aqui, a meu lado, à minha altura.
— Já disse: estás só. Escolheste estar.
— Estou louco, então! Falo com quem não existe, vejo o invisível!
— Não. Eu existo. Tu, por outro lado…
— Estou morto?
— Não. Pior. És memória.
— …
— Terminei meu café. Podes voltar a brincar agora.
— Contigo?
— Como sempre.
— Pega-pega?
— Polícia-e-ladrão.

08/03/23

domingo, 5 de fevereiro de 2023

SOB O CÉU

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Então vamos dizer
que a noite só é noite
porque há as estrelas
e a lua, e as almas, e a insônia?
Mas,
não é a noite mais
o modo como se desnudam
a pele sob a roupa
e a carne sob a pele,
e a alma sob a carne
ante a liberdade ou o inferno
de se estar só?
A noite é um útero
que vestimos para dormir
antes e depois de nascer
compulsoriamente.

05/02/23

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

POEMA PARA MIM SÓ

e eis que assim se me termina tudo
todas as noites:
este suor seco, cola fria na colcha áspera,
os engasgos no peito,
estes imensos silêncios nas mãos,
a medula que range malassombros,
estes pés estragados pela multiplicação do peso
e pelas pedras descalças esfolados,
fronteiriços de mim com o mundo,
do qual só sabia com andá-lo.

gentes restaram por toda parte.
tomaram-me as mãos como alças de esquife,
velaram-me em beijos de adeus precoce.
sobejaram os olhares, as mercês, as piedades e os escárnios.
nunca me faltou ninguém,
mas faltei eu
em de alguém ser.
por isso mesmo, existo apenas em mim
e naquilo com que se enganam.

meu corpo também se enganou
e tomou-me por morbidez a resignação,
adiantando-se a mim
e escapulindo das suas obrigações físicas
de conter-me.
ora ele adormece sua própria noite
na escuridão vermelha da carne,
sem lua nem estrelas,
sonhando no estômago e nos intestinos
antecipações funestas de banquetes canibalescos
em que se entredevoram minhas memórias.

espero, grave, amnésico,
a carta de mim mesmo que atrasou
por falecimento do carteiro,
inanido em algum ponto do meu labirinto até aqui.
trá-la, por dó, o vento, disfarçado embora
de guinchos, roncos e silvos
da cantiga dos armadores da rede
com que costumava voar sobre o mundo
na forma de abismos.

nela, presumo, vêm codificadas instruções
de procedimentos e métodos
acerca da retomada das rotinas originais:
qual o jeito certo de mover as nuvens;
de vestir-se de vento;
de discernir o sol;
de correr com a lua;
de se unir à noite;
e de beijar o mar.

reaprender a ler
será o meu último trabalho
e o meu maior desafio.

05/01/21

quarta-feira, 21 de outubro de 2020

FORNICAÇÃO

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só,
ou em meio a números
— casal, ménage, swing, bacanal —,
o artista é,
essencialmente,
um sozinho.
 

caso não,
erra das duas uma:
a arte
ou a conta.

21/10/20

terça-feira, 1 de setembro de 2020

DESABRIGO

 
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minha casa sempre foi cheia de enormes solidões
e cresci habituado à mesma companhia

hoje, face a face com o esmero da vida
no fazer-me inteiro com os outros,
não sei mais qual pedaço arrancar para encaixá-los
e me vejo sem braços e sem pernas,
roendo com os cacos dos dentes
as horas inoportunas em que tenho de ser vário

de minha casa antiga, ficou o alicerce
robusto, profundo, arrochado com o passado da Terra

nele me sustento e resisto ao esquartejamento
das relações
e existo erodindo, como minha casa velha,
como os corações velhos enterrados no quintal
ao lado do poço seco
e dos esqueletinhos dos cães de minha história

quando for caverna, quem sabe, habitável,
talvez acomode melhor
os que me bateram na porta

talvez, num veio ou num olho d’água,
dê-lhes de beber e de banhar
no reverso do vinho da parábola bíblica:
a simplificação da festa familiar,
o sangue finalmente convertido em coisa
que mate a sede que tiveram de mim

talvez, também, menos possível, embora,
haja nos minerais em volta algo de precioso,
algo que, recebendo um pouquinho da luz
na hora certa do dia,
lhes recompense a fadiga dos músculos
e a desesperança dos punhos
cansados das chibancadas
com uma liga ou uma gema qualquer
que lhes valha as alianças
que nunca fui capaz de forjar

assim, prospectado, devidamente convertido
em sítio arqueológico,
ou retiro espiritual,
ou mina abandonada,
eu possa responder, ainda que ecoando,
a todas as perguntas, a todos os inquéritos,
ou então, como sói às cavernas,
eu seja o lar de mistérios e morcegos, que, finalmente,
possam ser deixados em paz

01/09/20

sexta-feira, 10 de julho de 2020

SÓIDÃO DI CORPISTRÃIO

um dia mi dissero
queu miricia morrê
suzin

tumara mermo
quiá Dona Morte mi pegue num dia desse
di sóidão gostosa
merecedô dimin, vitorioso,
cheide paz

— púxuma cadera
tem café quentin
i muita istora pacontá

mar num pricisa não
quela mi cunhece
sab dimin faz tempo, tempo…
nunca li foi nem li fiz
segredo
di queu num sô daqui
i qui meu corpistrãio perambulô
si raspano
nu amô alhei
sem si misturá

mereço não, Dona Maria, mereço não
a vida diagunia
di só tê serventia
si fô cumeno nas mão
mereço mermo sô eu i mĩa sóidão
qui mi há di sê mĩa
nem qui seja oto dia
mais palá quiu sei não

09/07/20

sábado, 9 de maio de 2020

O COLECIONADOR


    E se ele fosse desses homens que são definidos pelas posses? Desses, a quem a vida só marcou na coleção de canecas ou nos discos acumulados na estante? Agora, quando tudo parecia estar se pondo a termo, inclusive lá fora, a vida dos outros, inclusive a terra, o ar, os pandas-vermelhos, agora, ele seria desses com gavetas no caixão? Sofreria em vida com a avareza dos mortos, que, não mais tendo outra coisa que não a própria matéria, reconstroem-se no fetiche que outros poderão vir a sentir pela matéria acumulada por eles? A matéria, essa sim guarda os acontecimentos, porque acontecimentos, para serem memória, precisam estar documentados, registrados — “Aqui, esta pedra eu catei no jardim do passadiço que dava na entrada da casa dela, naquela noite de tanto medo e fatalidade, que se converteram em cãs, filhos, barriga e dívidas, inclusive e principalmente comigo mesmo…”. Disso ninguém saberá? Inaceitável! Mas são coisas demais… Tudo parece demais. Andou tendo amnésias do que não poderia esquecer, do antes, do imaterializado, do sem registro. Sua incomunicabilidade não lhe permitia passar adiante essas coisas. Mas essas coisas… essas coisas não se passam adiante, soa até errado, como um contágio, um espargimento de moléstias, ainda que sejam, de fato, em sua maioria, lástimas, lástimas pelo que não teve, pela consciência da impossibilidade de ter, lástima pelas perdas, e foram tantas… O que seria dele sem suas perdas? Havia por certo de mantê-las, mesmo que fossem materializadas em expressões, em silêncios e em inações. Haveriam de ser vistas, todos haveriam de sabê-las, elas não se perderiam no tempo. Lembrou Blade runner, estava chovendo. Onde estariam os pombos naquela chuva? Mas pombos espalham doenças, e lhe vieram de novo as visões de pragas e pandemias. E se escrevesse? E se rabiscasse tudo em alegorias floreadas, acumulasse as brochuras e deixasse, como último bilhete, o desejo de que fosse tudo incinerado junto com seu corpo, tornando-se tudo uma só matéria, esfumaçando a atmosfera em fuligem e pó, que incomodariam, que fariam todos saberem? Mas, de certa forma, a memória das coisas que incomodam tende a só ser recuperada na presença da causa. Ele, como causa, nunca mais seria presente… Tornou-se sem efeito sua divagação. Não havia jeito. Tinha de desfazer-se de tudo. Deletar-se, aniquilar-se. Na inexistência, talvez, na lacuna deixada como uma pergunta — “Ué, cadê?” —, causasse o efeito que tanto temia não causar. Talvez, inexistindo, existisse. Pôs em prática imediatamente o projeto. Etiquetou o que dava, arrolou tudo em listas, que deixou em locais estratégicos. Não faria estardalhaços. Nada de bilhetes, e-mails nem gritos na janela. Haviam de achar tudo, haviam de testemunhar seu desaparecimento em todas as coisas testamentadas, e só. Ao final, aflito e orgulhoso, abandonou-se no sofá. Diante dele, a tevê. Sentiu vontade de assistir à última programação, que era sempre a de costume. Endilemou-se entre ligá-la ou não, já que estava com alguns post-its no monitor. Pensou em como odiava a maneira canalha como a língua inglesa havia feito embaixada em sua vida. Post-it! Seria lembrado como aquele que deixara post-its? Arrefeceu, achou melhor ler alguma coisa na internet ou algum e-book de estimação. Os livros já estavam encaixotados, o celular teria de dar conta. Levantaria, abriria a caixinha original, colocaria de volta o chip e o cartão de memória — dera-lhe tanto trabalho etiquetá-los! —, veria alguma coisa… Não, era enfadonho demais. Olhou em volta, havia papeizinhos por toda parte. Pensou em sair, em fugir, em realizar o desejo do José, o do Drummond. Sorriu. Também não tinha parede nua para se encostar. Quem sabe, uma mulher nua, então? Àquelas horas, mas… não há tempo em que elas não trabalhem. Precisou de ar. Percorreu a sala, chegou à porta, mudou o último post-it de lugar a contragosto — dera-lhe tanto trabalho! —, saiu. Sentiu vontade de comer pão passado com café. Adorava café. Ao lado da padaria, haviam aberto uma papelaria moderninha, com esses post-its coreanos. Quem sabe, não seriam colecionáveis?

08/05/20

domingo, 17 de novembro de 2019

O HEREGE

    — E quem te disse que eu queria?
    — Não quer?
    — Não é da sua conta.
    — Claro que é da minha conta. Quem vai ou não te dar sou eu. Aliás, essa marra toda não tá te ajudando em nada. Gente assim acaba tendo o que não espera.
    — Você não me conhece pra nada. Não preciso de ti! E vá baixando essa bolinha murcha de juiz, certo? Marra é cabeça de bode e mãozada na cara.
    — Já engrossou… Como é que, só pra efeito de lógica, você vai me dar essa mãozada?
    — Tem uma infinidade de maneiras de te quebrar a cara e a pose. Só você, debaixo desse manto sagrado, acredita que é inatingível. Você é a criatura mais cheia de expectativa que existe! Quando não é do seu jeito, lá vêm fogo e enxofre, sete anos disso, sete daquilo, dilúvio e o caralho a quatro. Quem sabe é a Lilith…
    — Ah, agora vai citar os renegados… Essa é a tua violência?
    — Não.
    — Não vai vomitar as tuas blasfêmias agora mais não?
    — Não.
    — Sei. Monossílabos. Acabar, o misterioso sou eu.
    — Não tem mistério, Vossa Onisciência. E, se tem, que diabo é que tu tá fazendo conversando comigo? Quer respostas?
    — Sei todas, criatura.
    — Então me responde. Por que não é da tua conta?
    — Orgulho.
    — Mas é muito arrogante mesmo… Cheguei até aqui me despedaçando, arrastando minha miséria por décadas, mendigando existência, evitando contrariar o que o padre me disse quando eu tinha sete anos, sete anos! Que pecado um cristão consegue ver numa criança de sete anos pra dizer a ela que a vida dela é de outro? E não fazer nada além da ameaça? Não é orgulho! Nunca foi isso, que isso eu nunca tive! Nem agora! É independência! Independência, entendeu? Esta vida aqui, esta merda de vida, é minha! Se sou mais desgraçado que ela, é porque a graça não me importa! A graça foi pra todos os outros que me desgraçaram, inclusive pra ti. Pois não me interessa mais a tua graça, não quero mais, porque querer foi o que mais me desgraçou. Lembra aquele teu silêncio quando eu era roído pelos ratos e disputava comida com eles? Aquele teu silêncio era tão alto, mais, muito mais alto que o meu choro e os meus gritos. Quando apanhei, quando calei todas as injustiças, onde é que tu estava? Me dando graças? Ou era eu que devia me ajoelhar na merda enquanto apanhava e era mijado pelos outros e te dar graças?
    — Entendi a referência. Você quer fazer o que acha que meu filho deveria ter feito.
    — Pobre homem! Coitado! Fez tudo, tudo! Morreu pela gente uma porra! Morreu por ti! Porque foi tua ordem!
    — Sei que isso é muito pra tua capacidade de imaginação, mas já se esqueceu de que eu sou três?
    — Olha, essa história pode ter colado pra Maria. Nem teus padres acreditam nisso. Zeus, pelo menos, era honesto. Descia, estuprava e ia embora, como todo bom canalha, e não negava! Mas dava sempre uma ajudinha aos filhos. Já tu…
    — Hum. Agora, vamos apelar pra poesia…
    — Que é que tu entende de poesia?
    — Olha, você já está ficando irracional. Antes que perca a capacidade de articular as ideias, me responda: quer ou não?
    — Não se preocupe, que eu tô mais lúcido que Lúcifer. N Ã O   T E   I N T E R E S S A.
    — Ok, depois não acrescente mais este à sua lista de arrependimentos. Estou aqui pra te ajudar. Depois daqui, pela minha lei, não pode mais contar comigo. Pra onde vai, não tem volta.
    — Meu querido, se eu, por uma recaída de falta de amor-próprio, sonhasse com uma redenção vinda de você, uma redenção de um crime que você mesmo inventou chamar de crime, igual a uma dondoquinha rica dando esmola no sinal, fingindo ignorar o seu peso no esmagamento dos pobres, essa sua redençãozinha automasturbatória, essa sua merdinha de redenção pra se manter branquinho e limpinho no seu troninho, calando a boca da oposição a cada dia mais crescente e perigosa, apesar dos esforços do Francisco, se eu fosse contar com essa sua redenção, eu seria mais besta que a pobre da Madalena, acreditando naquele teatro das pedras.
    — Olha o respeito com a minha mulher!
    — Arrá, olha aí! Olha aí, rá, rá, rá rarrarrarrarrá!!! Vai pro céu, patriarca de merda, vai pro teu mundinho de reizinho! Aqui, não! Aqui, só tem liberdade! Vai fazer o quê, me matar de novo? Hein? E vai fazer isso como? Minha alma é minha, porra! Minha! Besta foi quem caiu na tua e tá aí azedando na espera do teu juízo. Quem me julgou fui eu, e eu me libertei!
    — Pois bem, seu herege. Agora, nem que tu quisesse. É feita a minha justiça! Vai-te!
    Caiu rindo, caiu sabendo que toda queda é um voo, e todo voo é a administração de uma queda. Sentiu o calor pela primeira vez e ardeu, mas não como o prometido. Ardeu gostoso, ardeu aceso como uma lamparina sertaneja numa noite fria de bacuraus, mochos e caborés piando nos juás e nas barrigudas. Sabia que não haveria mais vento que lhe apagasse a chama, nem de boca, nem de céu, nem de mar. Naquela infinitude de si e de mais ninguém, lembrou-se de quando dormia no papelão molhado sob a marquise dos fumadores de crack, lembrou-se do frio que a fome fazia sentir mesmo sob o sol cearense. Olhou em volta e sorriu, manso, inteiro, concluso. O que nunca fez em vida deu-lhe a morte: dormiu em paz pela primeira vez.

17/11/19