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sexta-feira, 23 de outubro de 2020

ARMORIAL

 

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(Em homenagem a Susassuna, o Ariano armorial, e ao meu primeiro grande amor, que me sertanejou a vida.)

a cultura que renegas
eu, íntimo, abraço:
um abraço feito de pele e fome,
tapioca agreste e macia com café
na manhã nevada e serrana de minha casa.

nela, eu, antigo e novo,
encavaleiro-me,
vestido com o gibão de minha própria pele
cosido com as histórias de meus pais
e armado com o delírio dos cegos:
cravejada em meus olhos,
a alucinação solar que nos norteia.

minha morte é minha vida:
é cobra que me rasteja;
é a onça espreitando por mim;
mas também é a montaria,
égua encarnada e ligeira,
que pisoteia o que não é vida
e me galopa os segredos
dos sertões adiante.

pelejo por esporte
e sobrevivo por profissão.
comigo, levo pouco de meu:
minhas letras, meu nome,
meu silêncio.
mas, no sangue
— moto-perpétuo ancestral —,
trago aboios e novenas,
incelenças e cordéis,
litanias e tiranas,
canções de nascer nos corpos
as almas de antes,
cheias de novidades de cacimbas
e maravilhas do além-mar.

a cultura que renegas
é o mandacaru que te dá flor,
mas te rasga na pele o atrevimento
de te achares
— tu, que és seco e estéril de poesia —
o inverno
de que ela é chuva.
não é palavra nem silêncio
o sertão que não carregas.
é o olhar cheiroso que não tens,
é a saudade mansa que não sentes,
é o orgulho fibroso que não te acocha
esse peito mole sem amor nem ódio,
sem jeito de amar mordendo,
sem pátria onde querer morrer.

23/10/20

sábado, 14 de dezembro de 2019

A SOBREVIVENTE


    Eu já ouvi que era uma adolescente com a simpatia de uma velhinha. Queriam dizer, talvez, que meu comportamento não era atrevido nem arrogante como o das minhas amigas de então — porque essas coisas de amizade mudam! —, cheias de bravatas e crueldadezinhas com todos. De fato, eu sempre achei essa vitrine espinhuda em que as meninas costumavam transformar sua fala, seus gestos e suas atitudes um artifício tão pobre, um desperdício de ironia existencial tão grande A maioria era frágil, gentil e carente como é o natural nessa idade, assim como os meninos também, inclusive. Todavia, com estes, a vitrine era uma hipérbole macaqueada do que eles achavam que um homem deveria ser. Sempre achei que era mais prática a transparência prudente; e mais segura, a verdade encarada no espelho.
    Hoje isso me lembra minha avó, D. Menininha, que morreu sendo chamada por esse apelido, o qual carregava o sentido exato do que ela fora a vida inteira: uma ispilicute.  Minha avó foi uma ispilicute mesmo inválida em sua cadeira de balanço, no sopé da calçada alta, implicando com o povo da rua, dando coió para espantar morcego e fumando escondido até a morte um cigarro pé-duro que ninguém sabia como obtinha.
    — Invente seus mistérios e me deixe com os meus, Ritinha.
    Esse foi o melhor conselho que recebi na vida, junto com o outro de procurar homem só pela manhã.
    — É quando eles traem, minha filha. Melhor lado do chifre é o lado de fora. E procure homem da perna fina. Trabalha, que é um danado

    Adaptei esse conselho ali pelos catorze, quando dei em cima de alguém pela primeira vez. Maria Luíza, um chuchu. Perninha fina, mas uma cinturinha
Fiquei com vontade de contar para minha vó do alvoroço, da lambança de quem faz sem saber o que está fazendo, do susto e da carreira, da risadaria e do gozo, o primeiro de vera, o que me abriu uma greta lascada na pele e no juízo, que eu tinha de preencher pelo menos uma vez por semana, senão ficaria doida. D. Menininha nem sabia como era certo aquele conselho das pernas. A pessoa é mais ágil, sem ser bruta, é leve e maleável, sabe intuir onde colocar o corpo, uma delícia. Perna grossa vem normalmente com uma modorra inata, uma leseira, um arrastado de chinela. Peguei mais regra que exceção, posso afirmar: mulher de perna grossa só presta para homem.
    Malu foi a primeira que me disse aquilo de parecer uma velhinha, numa tarde de um falso trabalho escolar no seu quarto cheio de pelúcias. Ela queria dizer que eu era mais experiente, imaginei na época, mas depois a entendi. Isso de não fingir ser outra pessoa, não dissimular esse eu-mesma, que era de acordo com o ela-mesma, me atribuía uma aura de alegre segurança, me incluía num grupo do qual eu não escolhera fazer parte, mas já fazia: o dos guias, o dos conhecedores dos caminhos. O que aconteceu de verdade foi que eu intuí tanto quanto a Malu todos os toques, o tempo certo em que as minhas mãos deveriam ficar entre as suas pernas, a sucção adequada para cada beijo e chupão, a quantidade perfeita de saliva em cada linguada. A diferença foi que eu agi com a mesma naturalidade de quem faz uma traquinagem qualquer, como tocar a campainha da dona Lourdes — que a havia instalado para estabelecer a diferença entre ela, que se arrogava ares de evoluída, e nós, o canelau, os zés-povinhos —, a única que havia naquela época, e sair correndo, calculando o tempo e a velocidade, o risco e o prazer, e tudo isso com a consciência da subversão e sem me questionar um só segundo sobre a simbologia ou a aceitação daquela molecagem pelos adultos, o que sabiam os adultos de ser criança?, o que uma criança deveria sofrer por ser quem é? Foi assim, como uma perna que se põe após a outra numa carreira desabalada, que eu descobri a doçura do proibido e a urgência de mais, porque aquilo era eu, e aquilo era muito bom.
    Não foi fácil, contudo. Guaiúba era, naqueles anos setenta, a despeito de ser um interior perto da capital, de um atraso pouco possível de ser imaginado hoje, mesmo com este retrocesso mental que ascende contra pessoas como eu. O que hoje escandaliza era usual na época, era encartilhado e ensinado na fala e no cinturão. Escondi muito bem meu romance com a Malu, mesmo quando estávamos ulceradas pelas brigas que depois levaram ao rompimento. Escondi bem, porque possuo a arte de encaixar minhas máscaras sociais firmemente e de trocá-las com perfeição. Para meus pais, eu era só a moleca cheia de meiguice, estudiosa, boa filha, menina direita, porque era isso que eles precisavam saber de mim, e essa era a minha verdade para eles, a única. Não precisava ser
com outras pessoas quem eu era para a Malu. Para ser lasciva, depravada, puta, mulher, eu já tinha a Malu. Ninguém mais precisava me ver daquela maneira. Entretanto, já queria… Olhava as outras meninas da escola, fingia-lhes amizade para sondar possibilidades.
    No entanto, D. Menininha, por trás de sua quase cegueira desdentada e entrevada, me sentiu os guardados. Talvez pela sua própria experiência com a sexualidade, que continuo imaginando ter sido uma sequência de violências e resistências — porque ela, apesar de um conhecimento doutoral no assunto, que não hesitava em passar adiante desbocadamente, não falava do meu finado avô, por respeito ou nojo, os quais ela nunca deixou ninguém discernir exatamente, resguardando-se nessa dúvida —, ela adivinhava que eu já teria experimentado homem.
    — E aí, minha filha, já tá mexendo direitinho?, perguntava com uma cumplicidade e uma malícia que me emocionavam, porque eu sabia serem, daquele jeitinho dela, só para mim.
    — Oxe, vó, e eu lá mexo em nada? Sou bem quietinha, respondia no mesmo código.
    E ríamos, e assim nos entendíamos, cifradamente. Ela sabia de maneira sangrenta o preço da liberdade, pois esta lhe havia custado tempo, saúde e juízo, e, por isso mesmo, cuidou muito bem da minha durante aqueles dois anos em que o amor e o sexo cresceram em mim, e eu floresci. Quando ela morreu, experimentei uma solidão e um abandono que me amadureceram quase instantaneamente. No fundo da minha rede, enlutada, rasgando o desespero de uma órfã, acabei esquecendo a hora certa de trocar a máscara, e aquele rangido de dentes deu por faiscar na mamãe o corisco da desconfiança. Ela sempre soube que eu era mais próxima de sua mãe do que dela mesma, não que ela não fosse amorosa ou que fosse uma tirana, mas, simplesmente, porque estar ainda encoleirada ao meu pai limitava a mulher que ela era, e isso abria um abismo entre a sua subserviência sublimada e a minha liberdade vivenciada.
    Mamãe era um bastião, um arrimo, a viga mestra da casa. Papai, ocupado com a criação e com o açougue, homem honesto, muito limpo, bigode calado, devoto da Virgem, só era pai no manter-nos e no prover-nos. Éramos dignos em nossa vida de família pequena: eu, filha única, devido a mamãe ter perdido o útero no parto, eles e vovó, única sobrevivente de uma longa linhagem de maus-tratos. Isto ela ensinara à mamãe: “Pra mão de macho levantada, tem peixeira na cozinha. Ai de tu, se ficar igual a mim”. Sua filha, talvez por amor ou pelo buraco deixado pela morte do meu avô, anuíra a tudo, à simplificação, ao silêncio, até à usura, mas seu temperamento havia deixado bem claro a papai que, se ele sinalizasse qualquer menção de agressividade, não viveria muito. Eles haviam se casado logo depois que meu avô morrera por infecção generalizada devido ao cancro que contraíra nos puteiros e nas cocheiras de Guaiúba e Pacatuba, em cima e embaixo, de um lado e do outro da Aratanha, e só o fizeram porque, se ele ainda estivesse vivo, não o permitiria. De fato, namoraram em segredo, acoitados por vovó, que tentou fazer com minha mãe o que fazia comigo. Ela só não adivinhava que o temperamento medroso e adolescente do meu pai viesse a se transformar numa beatice azeda e numa anulação paulatina da mulher que minha mãe poderia vir a ser. Talvez, ele tenha se tornado assim para compensar o tipo de homem que meu avô era. Na tentativa de criar o seu oposto, assemelhou-se a ele, exceto na violência, a qual era tão típica sua que o fizera temido na região toda e, eu soube bem mais tarde, o havia tornado mais de uma vez contratado pelo prefeito para matar opositores, o que nunca lhe foi atribuído às claras devido ao temor criado pela sua figura alta e vermelha, seca e viperina. Dele herdei os olhos verdes e a chumbregagem, que já me latejava entre as pernas e viria a jorrar em xiringadas de sangradouro pouco tempo depois, quando vim dar em Fortaleza, à ocasião de minha fuga de casa.
    A cumeeira alta, ornada de morcegos amofinados, foi a testemunha. Mamãe chegou, olhou aquela desesperação de dois dias primeiro com piedade, com maternidade. Puxou o tamborete, sentou, esperou. Na ocasião da morte do pai, a culpa de havê-la desejado assombrava-a e lhe atravessava a barriga e lhe rasgava a garganta. Havia dor e amor em seu olhar, quando eu o encontrei. No meu, onde ela imaginara encontrar um semelhante ao dela, surpreendeu-a o medo. Mamãe não era boba. Sertaneja, silente uma vida inteira de suas dores, havia aprendido a ouvir bem os silêncios alheios. Adivinhava traições, anunciava intenções de crimes, compreendia martírios. Era mulher de ouvir escutando com os olhos, com a pele, a temperatura daquilo que lhe diziam e a frieza do que lhe calavam. Súbito, carregou-se de outro silêncio, beligerante, ameaçador, um silêncio de mãe. Olhou-me de cima abaixo, arrastou-me para fora da rede e começou a me arrancar as roupas, ao que eu, também já versada naquelas necromancias femininas em meus dezesseis anos, ao não me opor, ao não me proteger, dizia-lhe que nada encontraria. Mas ela já sabia que ali existia outra filha, uma que traíra, que dissimulara, ela não sabia o quê, mas estava ali, na carne, mesmo com a presença do cabaço, havia já uma mulher ali, onde ainda não deveria haver.
    Gritou-me por fim todos os nomes. Ameaçou-me de morte. Trancou-me no banheiro, onde me encolhi encostada na parede da cisterna. Abraçada aos joelhos, olhei a cuia velha pendurada na parede, olhei as teias recentes ainda vazias de muriçocas. O banheiro era frio como o riachinho que dividia o terreno da casa com a mata que antecipava a Serra. Eu também estava fria. Ali, sem saber, já havia decidido um fim, também não sabia de quê, mas amanhã eu não seria mais eu mesma. Malu me cobrava os olhares, os silêncios, as pequenas manifestações do que eu viria a ser, e aquilo me enervava como um cabresto que me queriam pôr. Sua família nem sonhava, graças unicamente à minha proficiência na dissimulação, que nos azunhávamos no quartinho, cavando a pele uma da outra, buscando o gozo da primeira vez, poucas vezes reencontrado. Contudo, aquilo, ao mesmo tempo em que me atava, começara a me enojar pelo mesmo motivo, e esse binário de opostos, somado à morte de minha avó, foi o que minha mãe quase adivinhou.
    Acalmei, entrei na cisterna, coisa que já havia apanhado para não repetir — “E nos outros que vão tomar banho, tu não pensa não?” —, e me entreguei àquele frio até os ossos, esperando o que já sabia. Meu pai chegou, minha mãe lhe expôs o caso, longo silêncio dele. Apesar de ele vestir a tradição de usar as calças na casa, temia de certa forma as três mulheres que viviam ali. Protegia-se naquele silêncio masculino, patriarcal, onipresente mesmo na ausência. Mas nos temia. O silêncio era o seu jeito de ser homem e de ser pai de forma efetiva e definitiva: o silêncio, naquela casa, não deixava dúvidas. Eu não sentia medo, mas sim uma espécie de ansiedade. Assim como minha mãe, eu adivinhava, e precisava daquela culminância que mudaria tudo. Nem cuidei de desfazer o engano, e, se o tentasse, de nada adiantaria. Mesmo constatando minha virgindade, minha mãe estava convencida de que eu já era mulher, e foi isso que meu pai entendeu.
    — Maria Rita, se vista.
    Minha mãe, com minhas roupas na mão, a porta entreaberta.
    — Seu pai quer conversar com você.
    Pelo vão, vi meu pai sentado, já com o relho de dar nos jumentos pendurado no pulso direito. Imediatamente, lembrei minha avó, mas não com o desamparo de havia pouco. Lembrei as vezes em que ela me dizia, repetindo as orientações que dera à mamãe: “De homem não se apanha nem na putaria”. Arregalei os olhos, e o ódio me tomou inteira e me levantou da cisterna, ensopada, tilintando de frio. Abri a porta, nua como estava, e desafiei, a boca crispando as palavras metálicas, inesperadas, firmes naquele tremor. Eu era já alta, e meu corpo já havia se arroliçado na formosura e na força. Meus olhos, como os de meu avô, eram dois punhais de esmeralda apontados na direção do meu pai, que lhes sentiu a pungência e calou o próprio silêncio, engolindo-o seco e engasgando-se numa tosse de cachorro que o fez sentar de novo, a mão no peito, a cara amarela.
    — Venha! Venha! Venha, se for homem!
    A isso, minha mãe, a boca aberta, avermelhada de repente, entendeu. Ali havia, sim, uma mulher, mas de outra forma. Não pelas mãos nem pela jeba de um homem, como havia sido com ela e como ela intuía. Eu era a mulher que ela poderia ter sido, eu era a antagonista do meu avô, eu era a força que ela nunca teve, a força que roubaram à minha avó, D. Menininha, a força que havia nascido da liberdade do corpo e da aceitação orgulhosa do espírito.
    Durou um instante apenas. Ela correu ao meu pai, que arquejava o malassombro de ser impotente diante daquela mulher-homem, como que para acudi-lo, mas, em vez disso, arrancou-lhe o relho do punho e surrou-me gritando, como um porco em agonia, “Morre, morre, morre!”, e me batia cada vez com mais fúria. Como o escrúpulo havia cedido à animalidade, ela não escolhia um alvo, como acontecera nas poucas vezes em que me surrara, quando mirava minhas pernas e minha bunda. Nas suas convulsões de égua, acertou-me um olho, que vazou imediatamente, lacerou-me os seios, esfolando-lhes os bicos com a ponta do chicote. Meu pai, de boca aberta, apavorado, gemia infantilmente que ela parasse, que já estava bom, que eu já tinha aprendido. Ela não parava. Ensanguentada já, acocorei-me e lhe cedi as costas, que receberam uns bons minutos de lambadas. Quando tudo acabou, foi a sua vez de desfalecer, mas de exaustão. Caiu no chão ao meu lado e foi socorrida pelo meu pai, que a levou à cama deles, me gritando que lhe levasse uma água com açúcar. Eu ardia. Juntei o que podia dos panos que estavam ali, me arrastei até a arca onde guardava minhas roupas, vesti uma bonitinha, de que Malu gostava, era a que estava mais em cima.
    Hoje, relembrando esse dia, não sinto remorso do derrame que vitimou minha mãe nem da depressão que meteu o meu pai na cachaça e o levou a uma morte solitária, somente descoberta bem depois, pelo mau cheiro na casa. Nunca mais vi Malu, a única que me negou guarida depois de minha fuga. Dei-lhe à porta, mais molambo do que gente, ao que ela gritou, primeiro de terror, depois de medo, “Vai embora, sua louca, meu pai tá aqui, vai embora!”. A bem da verdade, eu não havia ido a ela por motivos românticos. Hoje eu sei disso. É que a dela era a única casa com cujo endereço eu atinara, de tão esgarçada que estava. Seus gritos me despertaram, e o meu olho bom deseclipsou-se daquela sangria. Meu corpo vermelho de sangue debaixo do vestido amarelo me deixava com o aspecto de um enorme crisântemo no batente alto daquela casa. Passaram, me viram, me socorreram, quiseram prender meu pai, e só não o fizeram por se apiedarem daquela sua viuvez imediata. A tragédia virou causo, e falavam de minha mãe como de um fantasma, uma visagem que vinha surrar as filhas desviadas por macho. Sim, porque, para todos, aquilo havia sido por causa de um macho.
    Se me perguntassem hoje, tantos anos depois, eu diria que fora justamente pelo oposto. É uma pena que não haja ou eu não conheça uma palavra que signifique o oposto de macho. Não, não é fêmea nem é mulher. Homens e mulheres não são opostos, eu sei, provei ambos. São apenas dois universos diferentes, com um balanceamento diferente de forças e magnetismo. Entre os corpos celestes, o vácuo é o mesmo para os dois. Não, não faltava em meu pai a masculinidade que abundava em meu avô. Tampouco, havia em mim um excesso de mulher do qual carecia minha mãe. O que havia naquela casa era uma despolarização, uma desarmonia, uma balança corrompida que igualava a desigualdade de três contra um. Havia um organismo guenzo, uma deformidade da qual eu sou o único fruto e a única sobrevivente, condenada e abençoada a ser o oposto de mim mesma em cada corpo que possuo e ao qual me entrego. Justo eu, que nunca me neguei no espelho, vivo hoje a eterna aventura de me descobrir sempre diferente, sempre outra, como se fosse a mim mesma que eu buscasse nesses corpos. Mas eu não quero isso de me encontrar, não. Tomara Deus que, em vez disso, eu encontre de novo D. Menininha, fumando seu cigarro misterioso, enxuta mesmo sob aquela minha saudosa chuvinha serrana, sorrindo banguela um deboche qualquer, que eu completaria com uma gaitada que nos irmanaria e encaixaria de uma vez por todas e para sempre.

14/12/19

sábado, 30 de novembro de 2019

O CAFÉ DE ACÁCIO


    O café descia quente como um abraço. Era frio onde vivia. Quando descia à cidade, tinha a sensação de que o dia o abraçava, e essa sensação era nada mais que isto: uma vaga ideia de quentura, conforto e excitação açucarada. Nunca vira seus pais se abraçarem. Nos poucos domingos em que foi à missa, em dias santos ou em ocasiões de sétimos dias, sentiu que as pessoas tinham uma espécie de medo físico inconsciente, uma íntima rejeição da suavidade. Os diálogos eram brutos, peremptórios. Os apertos de mão, violentos, quase como uma pequena contenda entre as partes, cada uma agredindo a outra com toda a tradição que carregava no peito, nos ombros e que canalizava às mãos impositivamente. Dessa forma, cresceu sem memória de afeto físico, sem memória mesmo de verbalizações de afeto.
    Olhava as poucas pessoas que encontrava no seu dia a dia de roceiro filho de roceiro com uma curiosidade alienígena. Ou eram os freteiros semanais que subiam a Aratuba, descendo de volta, em suas caminhonetes, o que plantavam, ou os vizinhos, se é que se poderia chamar assim a semiparentada residente a uma légua uns dos outros, no mínimo. Quando criança, havia mais encontros, nos quais ele e os outros meninos animalizavam-se nas várzeas e às margens do riacho, caçando teiús e matando rolinhas, degolando calangos e estourando cururus. Nessas brincadeiras, os mais velhos, iniciados na usura da adolescência, fumavam escondidos e tentavam descobrir quais dos mais jovens permitiam, por inconsciência, curiosidade, inatismo ou mesmo inação, um falso troca-troca, do qual estes sempre saíam em prejuízo. Quando eram identificados, os cus-de-bacorinha passavam a ser uma espécie de bem comum, sempre ausentes, sempre misteriosos e temerosos do seu novo segredo. Lembrava que o Totim Avelino, depois de iniciado, adquiriu uma atitude que variava entre o comportamento de um maracajá e o de um gato comum. Tornou-se desconfiado e arisco, mas também manhoso e dissimulado, porém, ainda assim, não conseguiu ver nele um café que pudesse tomar, nem quando ele mesmo adolesceu, e esburacava as bananeiras para satisfazer-se. O que não entendia era que o Totim, assim como o Macedo, depois que cresceu, deu para beber e virar mesa, sempre odiento, e, diferente deste, que morrera em briga de faca numa ocasião em que lhe chamaram burra-mole, fez-se respeitar pela vileza e imprevisibilidade.
    Assim, deu-se pelos seus doze anos de autoindulgência manual a inexistência do conhecimento alheio de sua pele, anos esses que, somados aos de sua infância, a qual acabara quando da morte de sua mãe, resultavam nos vinte e um de uma vida seca no meio da fartura fria daquele sertão de estranhamentos e sovinarias. Aconteceu então de, na antevéspera do dia que marcara para descer à cidade a fim de comprar as varas de cano de irrigação que substituiriam as estragadas pelo lodo e pelo sol, surpreenderam-no quatro criaturas como nunca vira, mais coloridas que as tangerinas, as mangas-rosa ou qualquer outra fruta dali, todas de peles rabiscadas e pintadas, divididas em dois casais de óculos escuros, carregando nas costas enormes mochilas com ganchos e varetas e cordas e penduricalhos, cantando-lhe — pois nunca imaginou que se falava com melodias — se poderiam acampar naquele terreno, que era seguro, próximo da água e mais quente. Demorou a responder que sim, numa trapalhada verbal espantada, desconfiada e maravilhada, pois nenhum dos argumentos que enumeraram fazia sentido. Quanto mais reparava neles, mais se impressionava e menos articulava, o que os fez pensar que ele tinha algum tipo de retardamento. Via as mulheres usando brinco na missa, mas eram discretos e furavam os lóbulos. Os quatro pareciam tucunarés que haviam escapado a muitos pescadores, rompendo-lhes as linhas e guardando nos corpos os anzóis como troféus. Todos tinham o couro mais colorido que os cabelos, os cabelos mais coloridos que as roupas, e estas mais coloridas que todo o sertão junto. A mais falante, que lhe fizera a pergunta, ria e miava palavras que ele nunca ouvira, o que o fez pensar, em seu preconceito matuto, se eram todos também meio aluados ou beréus, pois falavam como se não tivessem músculos nas mandíbulas, e as línguas pareciam rabos de boi tangendo mutucas. Nesse imbróglio, finalmente, entenderam-se: ele, que eles ficariam por uns três dias, pois estavam de passagem para Baturité, onde ficariam no Mosteiro; e eles, que ele se chamava Acácio, que o sitiozinho era dele e que poderiam acampar, usar a água e o arremedo de garajau onde ficava a latrina.
    Carga no chão, armaram as barracas na base limpa do outeiro e deram-se aos flozôs de turistar sem sair do canto e acender uns fininhos, coisa que Acácio fora ensinado na missa a atribuir ao Cão. Lembrou que, na infância, quando os mais velhos se escondiam para fumar, os cigarros eram pés-duros, de fumo roubado dos pais, enrolados em qualquer coisa, papel de jornal ou palha de milho. Apareceu o filho do Seu Zé Saboeiro com um fumo diferente, mutucado numa caixinha de fósforos, cheiroso e clarinho, e correu gente a dar uma tragada. Lembrou também que se decepcionaram, pois o fumo de rolo com que estavam acostumados era nauseabundo, mas arrebitava o espírito e os masculinizava e amadurecia de modo a ser uma espécie de rito de passagem entre eles. Por outro lado, além do fato de parecer tempero de mezinha, aquela ervinha amolecia as juntas e dava numa risadagem besta, da qual todos se constrangeram depois. Contudo, Acácio sentiu uma certa nostalgia quando a fumaça lhe atingiu as ventas, e ficou na janela que dava ao terreiro, bispando de longe como os coloridos estavam. Nunca viu gente falar tanto, e com vozes que não reconhecia em idade nenhuma, e com uma alegria tão antinatural, herética e livre. Sentiu uma angústia entre as pernas e um segão lhe abrindo a garganta, e, sem perceber, estava com as calças arriadas, punhetando como fazia quando brechava a curra do Totim Avelino por entre as bananeiras. Não eram nem as coxas branquinhas que os quatro exibiam, nem os decotes e os cangotes magnéticos. Era o fato de, aos seus olhos, os quatro não possuírem marca alguma de cangalhas ou cabrestos — que toda gente tinha —, misturado com aquela gastança de vida, aquela liberalidade de gestos e palavras e gaitadas e lassidões, como se não houvesse Lei no mundo, como se ele, Acácio, visse pela primeira vez o coito dos anjos com as almas das virgens que o padre Abelardo dizia que tinham passagem comprada e carimbada para o Céu. Aquilo tudo lhe espremia os ovos e espasmava as nádegas de tal forma que nem percebeu que emendara uma punhetada na outra, grunhindo e salivando como um barrão, como um bicho sem alma. Deu-se que as duas moças encangaram-se num beijo de língua, num beijo simples de namoradas, e que os rapazes se recostaram um no outro, românticos como noivos, pagãos como diabos, azunhando felinamente a nuca um do outro, entrançando as pernas e baforando a maconha como sultões numa orgia. Aquilo arregalou os olhos de Acácio, que tremeu na perna e gozou violentamente pela segunda vez no reboco de taipa do peitoril da janela, esganiçado na síncope moto-contínua daquela masturbação sem alvo. Doía de uma dor nova, sem centro, e sentiu que ia morrer ou nascer, não sabia ao certo, mas sabia que tinha de fazer algo. Correu ao fogão, ferveu a água e pôs-se a moer os grãos de café como se sua vida dependesse daquilo. Era tudo novo, havia estampidos mudos na atmosfera da cozinha, e seus olhos choravam sem sentido a recente descoberta do que tinha em seu quintal: um extremo nunca imaginado do que poderia ser uma felicidade física, um gozo perpétuo de sua existência, isso, se ele soubesse proceder. O caso era que não sabia, e a ideia de perder antes de ter o assombrava como o pé-de-peia que seu pai ensinou haver do outro lado do riacho, temendo que seu filho morresse afogado na curiosidade de menino.
    Chegou trêmulo ao fundo do terreiro onde começavam o mato e os pés de fruta, e falou o mais devagar que conseguiu que tinha café e perguntou se não queriam um pouco. Desde que chegaram, os quatro simpatizaram com Acácio. Apesar da afasia, ele era simpático e só um pouco mais velho que eles, o que viabilizava diálogos. Eram todos veranistas das primeiras férias da faculdade onde estudavam Geografia e queriam voltar com experiências e histórias que lhes antecipassem um renome na turma. Ninguém namorava ninguém ali, ou todos namoravam todos, mas só porque se deu a circunstância de todos toparem a viagem e o sexo sem compromisso entre amigos que viria dela. Entenda-se que a ausência de fronteiras sentimentais possibilitava a inclusão de novos membros naquela vadiação, como ocorrera em Mulungu, onde participaram de uma festinha de piscina no sítio de um completo desconhecido, que enfiara e gozara em todos os buracos dos quatro e acabara ele mesmo por descobrir as delícias do fio-terra, que evoluíra a uma sarrada, e esta, por sua vez, a uma bela comida de rabo, que levara gritando suas revelações. Sem saber, Acácio também era uma lagartinha itinerante na teia quaternária ocasional daquela ovulação de aranhas. Eles mesmos intuíram o açúcar daquele café, mas estranharam a rapidez do contato. Normalmente, demorava dois dias, tempo suficiente para que se percebessem visual e sonoramente as possibilidades fetichistas que ofereciam.
    Entraram, sentaram, sempre rindo gentis e lubrificantes, e o cheiro do café pungiu-lhes as verdades de Acácio. Súbito, sem que tivesse havido um arranjo para tal, gemeu na fumaça o sabor da carência de uma vida inteira, uma carência encorpada, negra, forte, terral. O frio da Serra era a partitura daquele concerto, em que as cores das cordas e dos metais silenciaram ante aquelas primeiras notas das madeiras, harmoniosas em sua urgência, impactantes em sua suavidade. Pegaram das canecas, sorveram calados, e Acácio tremia idiofonicamente seus desejos íntimos. A moça que mais miava foi a primeira a agir. Não disse nada. Pôs-se de pé e cercou-o sentado no tamborete de couro de boi, roçando os bicos dos seios durinhos sob a blusa em seu cachaço teso. Acácio vibrou inteiro, gaguejou algo incompreensível e sentiu uma boca quente tomar o lugar dos mamilos e sussurrar-lhe num meio chupão um “delícia de café, brigada”. Nem bem se ergueu, e recebeu um cangote penujando-lhe a boca em retribuição, conduzindo-o ao jirau, reclinando-se em decúbito e, antes do abraço tão imaginado, ofertando-lhe o fruto branco e polpudo no fim daquela cerviz. O fumo do café fresco recebeu a marola colorida com exatidão. Logo, a cozinha era um palco de desmembramentos de vergonhas e do defloramento do próprio Acácio, que entendeu o que havia do outro lado do riacho, além dos temores de seu pai, dos malassombros dos pés-de-peia e das caiporagens brutas dos meninos mais velhos. Do lado de fora, passando o terreiro vermelho, a friagem trouxe uma chuvinha rala, engordando a travessia do riacho, que transbordou inútil numa cachoeirinha mais abaixo, onde, escondido do seu pai, enveredava-se Raimundo Avelino, arrastando pela mão um leitãozinho que descobrira na semana anterior no oitão de sua casa, desconfiado, meio gato, meio maracajá, para as locas dos pitus, que era onde tudo aquilo acontecia.

30/11/19

domingo, 17 de novembro de 2019

O HEREGE

    — E quem te disse que eu queria?
    — Não quer?
    — Não é da sua conta.
    — Claro que é da minha conta. Quem vai ou não te dar sou eu. Aliás, essa marra toda não tá te ajudando em nada. Gente assim acaba tendo o que não espera.
    — Você não me conhece pra nada. Não preciso de ti! E vá baixando essa bolinha murcha de juiz, certo? Marra é cabeça de bode e mãozada na cara.
    — Já engrossou… Como é que, só pra efeito de lógica, você vai me dar essa mãozada?
    — Tem uma infinidade de maneiras de te quebrar a cara e a pose. Só você, debaixo desse manto sagrado, acredita que é inatingível. Você é a criatura mais cheia de expectativa que existe! Quando não é do seu jeito, lá vêm fogo e enxofre, sete anos disso, sete daquilo, dilúvio e o caralho a quatro. Quem sabe é a Lilith…
    — Ah, agora vai citar os renegados… Essa é a tua violência?
    — Não.
    — Não vai vomitar as tuas blasfêmias agora mais não?
    — Não.
    — Sei. Monossílabos. Acabar, o misterioso sou eu.
    — Não tem mistério, Vossa Onisciência. E, se tem, que diabo é que tu tá fazendo conversando comigo? Quer respostas?
    — Sei todas, criatura.
    — Então me responde. Por que não é da tua conta?
    — Orgulho.
    — Mas é muito arrogante mesmo… Cheguei até aqui me despedaçando, arrastando minha miséria por décadas, mendigando existência, evitando contrariar o que o padre me disse quando eu tinha sete anos, sete anos! Que pecado um cristão consegue ver numa criança de sete anos pra dizer a ela que a vida dela é de outro? E não fazer nada além da ameaça? Não é orgulho! Nunca foi isso, que isso eu nunca tive! Nem agora! É independência! Independência, entendeu? Esta vida aqui, esta merda de vida, é minha! Se sou mais desgraçado que ela, é porque a graça não me importa! A graça foi pra todos os outros que me desgraçaram, inclusive pra ti. Pois não me interessa mais a tua graça, não quero mais, porque querer foi o que mais me desgraçou. Lembra aquele teu silêncio quando eu era roído pelos ratos e disputava comida com eles? Aquele teu silêncio era tão alto, mais, muito mais alto que o meu choro e os meus gritos. Quando apanhei, quando calei todas as injustiças, onde é que tu estava? Me dando graças? Ou era eu que devia me ajoelhar na merda enquanto apanhava e era mijado pelos outros e te dar graças?
    — Entendi a referência. Você quer fazer o que acha que meu filho deveria ter feito.
    — Pobre homem! Coitado! Fez tudo, tudo! Morreu pela gente uma porra! Morreu por ti! Porque foi tua ordem!
    — Sei que isso é muito pra tua capacidade de imaginação, mas já se esqueceu de que eu sou três?
    — Olha, essa história pode ter colado pra Maria. Nem teus padres acreditam nisso. Zeus, pelo menos, era honesto. Descia, estuprava e ia embora, como todo bom canalha, e não negava! Mas dava sempre uma ajudinha aos filhos. Já tu…
    — Hum. Agora, vamos apelar pra poesia…
    — Que é que tu entende de poesia?
    — Olha, você já está ficando irracional. Antes que perca a capacidade de articular as ideias, me responda: quer ou não?
    — Não se preocupe, que eu tô mais lúcido que Lúcifer. N Ã O   T E   I N T E R E S S A.
    — Ok, depois não acrescente mais este à sua lista de arrependimentos. Estou aqui pra te ajudar. Depois daqui, pela minha lei, não pode mais contar comigo. Pra onde vai, não tem volta.
    — Meu querido, se eu, por uma recaída de falta de amor-próprio, sonhasse com uma redenção vinda de você, uma redenção de um crime que você mesmo inventou chamar de crime, igual a uma dondoquinha rica dando esmola no sinal, fingindo ignorar o seu peso no esmagamento dos pobres, essa sua redençãozinha automasturbatória, essa sua merdinha de redenção pra se manter branquinho e limpinho no seu troninho, calando a boca da oposição a cada dia mais crescente e perigosa, apesar dos esforços do Francisco, se eu fosse contar com essa sua redenção, eu seria mais besta que a pobre da Madalena, acreditando naquele teatro das pedras.
    — Olha o respeito com a minha mulher!
    — Arrá, olha aí! Olha aí, rá, rá, rá rarrarrarrarrá!!! Vai pro céu, patriarca de merda, vai pro teu mundinho de reizinho! Aqui, não! Aqui, só tem liberdade! Vai fazer o quê, me matar de novo? Hein? E vai fazer isso como? Minha alma é minha, porra! Minha! Besta foi quem caiu na tua e tá aí azedando na espera do teu juízo. Quem me julgou fui eu, e eu me libertei!
    — Pois bem, seu herege. Agora, nem que tu quisesse. É feita a minha justiça! Vai-te!
    Caiu rindo, caiu sabendo que toda queda é um voo, e todo voo é a administração de uma queda. Sentiu o calor pela primeira vez e ardeu, mas não como o prometido. Ardeu gostoso, ardeu aceso como uma lamparina sertaneja numa noite fria de bacuraus, mochos e caborés piando nos juás e nas barrigudas. Sabia que não haveria mais vento que lhe apagasse a chama, nem de boca, nem de céu, nem de mar. Naquela infinitude de si e de mais ninguém, lembrou-se de quando dormia no papelão molhado sob a marquise dos fumadores de crack, lembrou-se do frio que a fome fazia sentir mesmo sob o sol cearense. Olhou em volta e sorriu, manso, inteiro, concluso. O que nunca fez em vida deu-lhe a morte: dormiu em paz pela primeira vez.

17/11/19