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quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

JARDINZINHO ORDINÁRIO

(Clique na imagem para ampliá-la.)

mandei construir um cocho
na fachada de minha casa
onde plantaria um pequeno jardim

nele, sonhei chananas, mandacarus e girassóis
e outras tantas que carrego comigo
no mais íntimo

feito o cocho, plantado o jardim,
vieram ladrões
e arrebataram o que crescia

mudei as plantas:
cravei espadas-de-ogum e um jasmineiro
e deixei o matinho vicejar
o que o asfalto e as caminhadas
não permitem

hoje, pingam jasmins na minha janela,
e me protege Ogum de todo o mal,
e a beldroega flora amarela,
e ramam outras que não sei

na frente de minha casa,
o possível sobrepujou o projetado
e, como na vida,
como em tudo,
escancarou a janela de sua lindeza
no inusitado do ordinário

permita-se o ordinário
na fachada de cada coração

01/02/24

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

ARMORIAL

 

(Clique na imagem para ampliá-la e na legenda, para acessar a página de origem.)

(Em homenagem a Susassuna, o Ariano armorial, e ao meu primeiro grande amor, que me sertanejou a vida.)

a cultura que renegas
eu, íntimo, abraço:
um abraço feito de pele e fome,
tapioca agreste e macia com café
na manhã nevada e serrana de minha casa.

nela, eu, antigo e novo,
encavaleiro-me,
vestido com o gibão de minha própria pele
cosido com as histórias de meus pais
e armado com o delírio dos cegos:
cravejada em meus olhos,
a alucinação solar que nos norteia.

minha morte é minha vida:
é cobra que me rasteja;
é a onça espreitando por mim;
mas também é a montaria,
égua encarnada e ligeira,
que pisoteia o que não é vida
e me galopa os segredos
dos sertões adiante.

pelejo por esporte
e sobrevivo por profissão.
comigo, levo pouco de meu:
minhas letras, meu nome,
meu silêncio.
mas, no sangue
— moto-perpétuo ancestral —,
trago aboios e novenas,
incelenças e cordéis,
litanias e tiranas,
canções de nascer nos corpos
as almas de antes,
cheias de novidades de cacimbas
e maravilhas do além-mar.

a cultura que renegas
é o mandacaru que te dá flor,
mas te rasga na pele o atrevimento
de te achares
— tu, que és seco e estéril de poesia —
o inverno
de que ela é chuva.
não é palavra nem silêncio
o sertão que não carregas.
é o olhar cheiroso que não tens,
é a saudade mansa que não sentes,
é o orgulho fibroso que não te acocha
esse peito mole sem amor nem ódio,
sem jeito de amar mordendo,
sem pátria onde querer morrer.

23/10/20

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

FELIZ NATAL


A areia sertaneja que o nordestino carrega na alma é a medida exata do valor de sua terra, mais mãe que as outras terras, porque seus filhos têm raízes firmes e profundas e sofrem e vicejam com ela sem abandoná-la. Podemos adornar o tronco e empenduricalhar os galhos, mas nossas raízes, no escuro, fornecem a energia da nossa luz. A todos os filhos da terra, um feliz Natal.

25/12/19