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terça-feira, 28 de abril de 2020

NÊMESIS

Mosca-varejeira
(Fonte: Google Imagens. Clique na imagem para ampliá-la.)

   Talvez tudo tenha começado quando leu Kafka na adolescência, ali pelos treze anos — “Praza a Deus que tenha sofrido muito em vida, esse desgraçado!” Ficara tão desesperado com A metamorfose que retornou a mijar na rede, obrigando sua mãe a lançar mão de bacias e muita água sanitária, cujo aroma passou a lhe dar uma certa reconfortância. Virou o seu cheiro preferido desde então. Sempre fora um menino frágil, filho único, e a mãe o mimava. Já o pai, bruto que era, achou aquilo um caminho aberto para o afrescalhamento que vaticinara à esposa já adivinhar rondar seu filho e apelou para o cinturão e as humilhações — “Antes morto que viado! Aqui, não!” A gota d’água foi a manhã em que o obrigou a ficar só de cueca do lado de fora da casa, com a rede mijada enrolada em trouxa sobre a cabeça, levando coiós e o nome de mijão, gaiatice atiçada pelos entregadores de pão e jornais. Haveria de aprender, ora se não! Mas não se deu assim. Aquilo custou ao pai um divórcio litigioso, a negação sumária do direito à visitação e, de quebra, um enquadramento no crime de violência contra um menor. A pensão foi gorda, os advogados deram um jeito, ninguém foi preso, mas o pai voltou para o interior de vez e não quis mais saber da família. Chegava a querer brigar se lhe perguntavam do filho. Quanto a ele, somando-se os pesadelos oriundos da imaginação de um inseto gigante, a mijadeira, as surras, a humilhação e o abandono do pai, aquilo lhe custou a perda definitiva da saúde mental, a qual dera lugar a um senso extrapolado de esmero com a higiene física e um subsequente pavor de insetos.
   Para ele, insetos eram uma coisa detestável, mesmo os coloridos e mais populares como borboletas, joaninhas e esperanças. Imaginava-se envolto numa casca superprotetora de tecido e loções que lhe assegurava a imunidade aos ferrões e às patinhas infinitas munidas de asas — como drones espargindo doenças e morte — das muriçocas e afins. Não se vestia; encouraçava-se. Eram camadas e mais camadas oleosas e pastosas que, mal ressecavam, eram sobrepostas de outras, o que lhe deixava a pele ictíica e a aparência encerada, tudo isso sob tecidos semiendurecidos de produtos em aerossol comprados on-line que garantiam afastar de mosquitos até cobras de pequeno porte. Contudo, mantinha um respeito espectral às baratas, ainda que as considerasse as próprias emissárias do inferno encarnadas. Depois que descobrira que elas resistiriam a hecatombes, que viveriam sem a cabeça, que faziam hábitat em três dos quatro elementos — “Uma barata-fênix seria demais!” —, passou a imaginá-las como algo além do ordinário peçonhento-vampiresco-primaveril dos outros insetos, algo quase sobrenatural.
   Porém, o que odiava acima de tudo eram as moscas — “Mosca pousou, é o fim. Pode enterrar.” Tinha-lhes um asco refinado, uma ojeriza pungente. Dedicava horas a odiá-las, nemesificando-se, engendrando alucinações de destruição em massa. Moscas pousavam na bosta e nos cadáveres, na podridão do mundo. Além do mais, estava certo de que elas possuíam uma inteligência maligna e rudimentar, maquinada à moda de uma espiral, que lhes capacitava a propriedade, entre outras, de intuir o local exato do corpo humano que era impossível de se alcançar para espantá-las, matá-las ou, simplesmente, coçar o rastro ultrajante que deixavam na pele.
   Assistira a uns vídeos na internet — talvez por masoquismo — que mostravam o estado putrefato em que ficavam animais vítimas das larvas da mosca-do-berne depositadas neles subcutaneamente. As moscas inseriam seus ovos num inseto hospedeiro, uma mutuca, um mosquito, por exemplo. Esse arauto da destruição, por sua vez, picava o gado, no qual depositava as larvas do berne. Essas larvinhas devoravam os músculos do gado ainda vivo e causavam infecções que os consumiam, para, quarenta e cinco dias depois
— quarenta e cinco dias! , caírem no solo, onde se enterrariam até eclodirem na forma alada, alastrando a pior morte que ele jamais concebera até aqueles minutos de agonia informativa.
    Em virtude dessa fobia toda, seu apartamento se tornara um ambiente praticamente estéril, faltando um quase-nada para ser nocivo à própria vida em si, dada a quantidade de dispositivos repelentes que decoravam tomadas, paredes e aparadores. Nenhum dos víveres ficava à mostra, nada que cheirasse a doce ou a qualquer tipo de refeição se identificava em lugar algum. Por todas as possibilidades de contato atmosférico com o mundo exterior que o condomínio não lhe permitira tapar, ele havia mandado instalar telas de malha finíssima, todas tratadas com os mesmo produtos que borrifava nas roupas e nos tecidos dos sofás. Dessa forma, nesse exagero, que começou com pequenas excentricidades como raquetes elétricas em cada cômodo e a incipiente compulsão pela limpeza das superfícies, ele vivia.
    Seus amigos foram migrando pelo território constrangedor que ele pavimentava de plaquinhas adesivas e veneninhos em pó. O êxodo começou com as piadas do que acreditavam ser excentricidade, falta de mulher ou TOC. Passou à mitologia que acompanhava seu nome ausente de corpo nas rodas de cerveja — “Teve um primo que morreu de H1N1, coitado. Deixa ele.” — e à indulgência piedosa por acreditarem tratar-se de uma doença — “Meu Deus, isso é entomofobia, eu vi, isso incapacita a pessoa! Esse coitado, só com terapia pesada, viu?”. Em seguida, vieram os rancores, pois ele se afastava das pessoas deixando claras coisas como “olha, esse seu cheiro, você não usa nada não?, é que, assim, você sabe… eles vêm, né?”. Terminou com o medo que os amigos restantes passaram a sentir dele, como se aquele exagero comportamental se houvesse convertido numa misantropia que poderia explodir a qualquer momento num acesso de fúria à mão armada, e não de Baygon.
   Trabalhava pela internet. Era webdesigner e bem requisitado. Passou a comprar praticamente tudo on-line e, nas cada vez mais raras incursões no mundo, saía como um foragido, evitando pessoas, organismos, vida. À exceção de visitas constantes a infectologistas e a laboratórios de coletas de sangue, não precisava sair do seu bairro. Morava bem, tudo era perto de seu apartamento. Não perdera de todo o bom-senso. Numa ocasião em que comprara um traje completo de apicultor num site de equipamentos agrários, refugou usá-lo em público, apesar de ter achado absolutamente necessário. O caso é que, depois que o experimentou em frente ao espelho, sentiu-se estranho e imaginou o assédio de curiosos na rua, que lhe trariam, juntamente com o suor e o sebo engordurado de suas peles, mais insetos para perto de si, o que seria um efeito contrário daquela determinação — “Povo burro! Além de imundo, burro! Isto deveria ser um uniforme casual em todo lugar!”
    Numa de suas rotinas matinais de assepsia, no meio de uma fomezinha mundana, sentiu vontade de comer uma daquelas tapiocas com carne de sol que se vendiam na calçada da faculdade. Ele mesmo faria a tapioca, mas lhe faltava o recheio. Não tinha incluído a carne de sol congelada na lista de pedidos que enviava periodicamente à gerente do supermercado, a qual ele descobrira também ser meio paranoica, porém com gente pobre, e achou chiquíssimo ter um cliente que atendesse on-line — “Ah, se todo mundo fosse assim, não essa gentinha que enche as filas!” Porém, é claro, mandava entregar as compras mediante uma propinazinha, que isso era contra as normas do estabelecimento. Seria de se esperar que ele estendesse à comida a mesma fobia que tinha com relação ao ambiente e que só comesse coisas praticamente sintéticas, mas, não! Guardava um paladar quase infantil, e, muitas vezes, jantava pipoca com sorvete ou um sanduíche gorduroso de pernil malpassado de porco. Esse era o único buraco perceptível naquele semi-hermetismo em que vivia. Ele sabia disso. Porém, confiava tanto na seleção de suas compras pela gerente corrupta e em seu sistema impenetrável de armazenamento e preparo da comida, que não perdia um instante de sono com isso. Ligou para ela, informou-lhe a necessidade, permitiu a cobrança do suborno e esperou. Cerca de quinze minutos depois, o entregador — que já estava acostumado com o processo de inquérito e com a desinfecção na soleira da porta, paciência que lhe era até divertida, contanto que recebesse sempre uma gorjeta por aquela paspalhice — entregou-lhe o pacote. A carne de sol já vinha pré-cozida e desfiada, pronta para se fritar na chapa, e era assim que ele fazia, com manteiga, pimenta-do-reino e gergelim, que era o mais próximo da memória afetiva que tinha do seu lanche universitário. Preparou tudo assobiando, fez a tapioca, recheou-a, comeu tudo com café, ficou satisfeito. Somente a limpeza de tudo lhe daria um prazer maior do que aquele café da manhã. Deixou a chapa por último, pois o que dava mais trabalho sempre era o melhor. Sentia-se ele próprio um gigantesco inseticida, um agente, uma força da natureza com uma missão em curso.
    Achegando-se da Croydon — comprada num site de loja de departamentos, uma pechincha! —, que parecia sempre novíssima devido à constante, completa e meticulosa esterilização a que era submetida, achou curiosa a forma dos restinhos dos fiapos da carne, enegrecidos pela fritura. Essa sensação deu lugar a um arrepio, que cresceu e foi sucedido por um terror, que também evoluiu, mas a espasmos violentos e à súbita palidez de que sofrem os covardes que esconderam em vão seu medo, revelado pela onipresença instantânea e estrondosa do causador. Diante dele, jazia um cadáver perfeito, com todas as patinhas e asinhas, de uma mosca varejeira, cujo verde-esmeralda ainda podia ser percebido apesar da carbonização. Estava ali, juntinho das sobras da carne que, havia pouco, ainda chupava de entre os dentes. Se havia uma, havia muitas, porque mosca é assim, gregária, maltesa, bandoleira, mafiosa, multitudinária, tinha de haver, tinha de haver, tinha de haver! Dentro dele, em seu esôfago, em seu estômago, em sua alma!
    Bambeou para trás, levou a mão à garganta, arranhando-a com as unhas quase transparentes de tão limpas, sufocando-se, esganando-se. Socou sua barriga várias vezes, enfiou os dedos na goela o que pôde, porém lembrou que foi por ali que elas entraram e retirou-os, sacudindo-se de nojo e arremessando-se à pia. Deu dois passos ridículos, tropeçou um pé no outro e caiu epiléptico, estrebuchando os ossos que chacoalhavam como um carrilhão de bambus. A tapioca saiu granulada, gosmenta, melecada numa lama negro-amarelada composta pelo café e pela carne, um petróleo fedorento que lhe saiu pela boca e pelas ventas e no qual chafurdou porcamente a cara em agonia de morte. No meio daquele caos espasmódico, deu-se conta de que aquilo deveria ser o inferno, mas ele era bom, era limpo, não merecia o inferno, e então, como se fosse feito de mola, distendeu-se elasticamente como uma flecha lançada na direção do banheiro, onde, debaixo da água escaldante do chuveiro elétrico, terminava de vomitar, esfregava a segunda bucha sintética com Aseptol e batia a cabeça na parede do box, na esperança de que aquilo o fizesse acordar ou morrer, o que viesse primeiro.
    Não vieram nem uma coisa nem outra. Levou a manhã toda, um pedaço da tarde, todo o sabonete antibacteriano do mês e alguns milhares de litros d’água e de lágrimas aquela purgação. Durante a limpeza — a qual se fazia necessária novamente e novamente, sempre que lhe retornava a visão do cadáver fritinho e da coloide infecta, que ele jurava ser constituída por inúmeros outros corpinhos derretidos pela bile no chão da cozinha —, ele tomou algumas decisões. De imediato, precisava internar-se para uma lavagem estômaco-intestinal urgente. Em seguida, haveria por Deus de chamar um serviço especializado para a limpeza de tudo, pois o prazer de fazê-lo tinha-se convertido em pavor, e ele jamais seria capaz. Em terceiro, contrataria alguém, algum pistoleiro conhecido da família de seu pai, que era toda de Alto Santo, para dar cabo da gerente, do entregador, do dono e dos funcionários do frigorífico, enfim, de todo o gado do Vale do Jaguaribe, de Goiás, do Mato Grosso, do inferno, se fosse necessário, já que sua alma clamava por reparação total e imediata. Nessa hora, havia nele uma mistura de medo e coragem, como se o espírito de vingança de Nêmesis surgisse por trás de seu espinhaço amarelo, exigindo retaliação de proporções olímpicas.
    Foi até o espelho, carregado de ódio e vergonha. Ainda não tinha se visto naquele dia, deveria estar lastimável. Talvez devido ao tempo em que ficou molhada, a sua pele se engelhara, formando sulcos e gretas flácidas que lhe davam a aparência de um maracujá ressecado, e a sua palidez começara a se converter num tom patinado uniforme. Todo esse arrazoado durou só alguns segundos em seu raciocínio. A lógica logo se contaminou pelo trauma, o que evocou memórias em que acrescentava masoquistamente dramas e tragédias todos os dias. Por exemplo, uma vez, conversando com um amigo entomologista, o qual considerava um antagonista, mas tinha-lhe respeito pela coragem, perguntou se alguma vez tinha se envenenado com algum inseto, ou contraído alguma moléstia, enfim, se tinha sido castigado pela escolha de vida que fizera. O amigo, que se divertia horrores com a sua neurose, que costumava achincalhá-lo de propósito, chamando-o de pupa, não estava nesse dia tão disposto assim, então falou-lhe a verdade: que não, que o máximo que lhe ocorrera foi ter sido picado por um mangangá e ter engolido mosquitos numa viagem de moto. Isso lhe foi o suficiente para vários pesadelos periódicos, e o sucedido com o amigo se converteu pouco a pouco em sua própria memória, uma memória vívida, construída, cultuada como um ídolo falso. Assimilou. Naquele momento, diante do espelho, convenceu-se: havia insetos dentro dele, uma legião de demônios que se misturaram, reproduziram, se aglomeraram no local onde deveria estar a sua alma, um corpo que, naquela manhã, havia recebido, calmamente ingerida, a sua cabeça. Ficou zonzo, lembrou o apelido com que o amigo, especialista no assunto, insultava-o: pupa. Óbvio que ele devia ter visto algo nas videochamadas e identificado o que sua profissão o treinara para classificar, um inseto em progresso, uma besta alada que se formava dentro dele em segredo. Caiu no chão, machucou a bacia, sentiu câimbras e frio, abraçou as canelas com toda a força. Rezou como fazia quando criança, quando pedia à Morte que lhe pulverizasse o corpo para que insetos não o devorassem. Rezou com a mesma força de quando o pai fora embora, queria que ele voltasse e lhe arrancasse aquilo do corpo com o seu cinturão, queria morrer ali para renascer limpo…
    Essa ideia interrompeu bruscamente aquela espiral para dar início a outra. De repente, enxergou na cadeia de eventos que formaram a sua personalidade uma lógica, um fio. O que ele era deveria ser transformado, mas não com a morte, que não era de suicídios. Deveria ser uma purificação. Não como a de Gregor Samsa, a qual materializara o que este já era em atitudes. Ou sim? Não era ele, também, como um inseto, escondendo-se, emburacando-se, aninhando-se em si mesmo na alegoria de seu apartamento? Não, não mesmo, não podia ser! Os insetos estavam lá fora, ao sol, festejando a eterna primavera fétida de seus pólens e monturos. Era sim o mundo uma imensa colônia, um pavoroso arapuá dentro do qual ele cavara uma cova estéril e se aquartelara. Os insetos eram o mundo! A infestação era a vida! Ele, pobre dele, era um dos poucos — se não o único — remanescentes da humanidade. Seu pensamento deu outra volta, e percebeu então que a própria humanidade era composta de insetos. Todos muito piores que as baratas, infinitamente mais nocivos. Todos distintos, coloridos, todos derrubando árvores e comendo lixo, todos se entredevorando e espargindo doenças. E ele, quem era ele? Não queria guerra com ninguém, vivia sem incomodar, era limpo, ordenado, organizado como uma linguagem de programação de uma bonequinha de sites de hentai, sua principal encomenda e fonte de renda. Outra volta. Então sua vida se resumia a construir imagens fetichistas para homens velhos se masturbarem? Meu Deus, o que seu pai diria agora? Será que seu pai era um dos clientes naquela linha de produção de depravações? Meu Deus, como ele queria ser punido naquele momento com um gigantesco cinturão purgativo, desinfectante, esterilizador. Começou a arranhar a pele engelhada com as unhas moles, na esperança de arrancar logo aquele invólucro e deixar o demônio alado sair e voltar para sua colônia, para sua bacia de mijo, para o colo de seu pai, o qual por certo que já o tinha posto no colo, pois lembrava-se de ter sido catado várias vezes de onde estava para ser esfregado em sua cintura, sempre que sua mãe não estava presente. Quanto mais arranhava, mais gemia e grunhia como quando era objeto daqueles carinhos de cujos abraços nenhum os colocava face a face. Foi arrefecendo, exaurindo-se. Uma fome enorme tomava conta dele, mas não se atrevia a levantar-se.
    Adormeceu da mesma forma que na madrugada do primeiro pesadelo. Sonhou com seu pai abraçando-o como um pai deveria, olhando-o nos olhos. Eram muitos olhos, muitas minúsculas órbitas iridescentes. Sua mãe lhe sorria do sofá da sala, as pinças abertas, uma enorme folha semidevorada no colo. Dentro de seu pensamento, eclodia, turva pelo onirismo daquele momento, a esperança de acordar um homem, homem como deveriam ser os outros filhos que seu pai se orgulhava de ter espalhado pelo sertão antes de ter conhecido sua mãe, Dona Inocência, tão boa, tão culpada de tudo que havia privado a ele, sua infância com seu pai, cheirando a mijo e vergonha, a brutalidade e clandestinidade. No chão da cozinha, enquanto isso, começavam a escapar da gosma algumas larvinhas amareladas, atrapalhadas com o ambiente novo em que haviam sido jogadas como um segundo e forçado nascimento.

28/04/20

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

A CANÇÃO DE MARIALVA

    Queria tanto saber tocar violão! Nas vezes em que tentara, sentiu que tinha dedos de capim, de pato, de anêmona. Suas amigas ou tocavam ou conheciam um boyzinho que tinha pelo menos um ukulelê, e sempre rolava um sonzinho na calçada, passando de mão em mão junto com os baseados e os vinhos baratos. Tinha esquecido muita coisa que queria com toda a força de uma criança que não tinha nada: dançar como as bailarinas de auditório, saber brigar para matar sem esforço, ter todos os brinquedos do mundo, e, é claro, ir à Disney. Crescera e, como toda criança pobre, entendera cedo que lugar lhe cabia. Conhecera os homens cedo, e à força. Contudo, embora o tempo e a normalidade do estupro entre suas amiguinhas lhe tentassem empurrar a aceitação de que era um objeto, assim como os veadinhos do bairro e até os que não eram, guardaria para sempre outro tipo de desejo, um novo, sem nome e sem alvo, um que sabia que nunca seria satisfeito. Este lhe incomodava amiúde, sobressaltando-lhe as pequenas felicidades e o sono, à moda de uma assombração ou do estouro dos rojões que anunciava a chegada da droga na favela. Associava essa vontade ao violão nem ela mesma sabia por quê. Vinha como uma melancolia inconsolável e breve e se esfumaçava na erva que tragava, queimando-se na bia que sobrara da solidão da calçada na noite anterior. Era sozinha de espírito. Nunca soube do pai, a mãe lhe deixara na avó para fabricar e parir mais solidões, que somavam oito e também desconheciam como e por que existiam. A avó morrera, o avô, antes. Sumiram tios e primos, e todos lhe aplaudiram os primeiros aniversários, e para nada! Nunca os perdoou. Porém, ela o fez à mãe, que aparecia só de vez em quando, sempre mais feia, mais murcha, mais usada, querendo saber como estavam ela e Elisabete — a única que se mantivera na casa após a diáspora dos irmãos sobreviventes —, desculpa que introduzia uma busca dissimulada em cuidados por coisas que pudessem ser convertidas em pedras de crack. De alguma forma, não a culpava. Acreditava de coração que ela saíra de casa para proteger as filhas restantes, já que o último a lhe ocupar o colchão e o corpo também queria as carnes mais novas balançando nas redes na sala-cozinha. Intuía que a diferença crucial entre si e sua mãe — a que protegera uma e desgraçara a outra — consistia na sua timidez absurda de concha, que contrastava com a profusão incinerante de D. Marleide, ainda presente apesar da ruína física e da mental, que já se insinuava.
    Se pelo menos soubesse uma música… Só uma! Quem sabe não se lhe soltasse a voz, que sempre escondia em bodejos baixinhos quando queria dizer algo importante… Elisabete, bem mais desenvolta, cobrava dela mais atitude. Ambas careciam de estudo, mas cozinhavam bem, e era o que lhes garantia o sustento: uma banquinha de porta, com pratinhos, bolos, salgadinhos e espetinhos, que alimentavam os passantes entre suas perdições. Incrementavam com cachaça e cerveja em latinhas, lenitivos de passagem que lhes pagavam água, gás e luz, já que o muquifo onde viviam era próprio.
    — Tu vai fazer o quê pra dar rumo à tua vida, Marialva?
    — Que é?
    — Amofinada desse jeito, ninguém te quer.
    — Cuide do seu priquito, que eu cuido do meu.
    — Deixa de ser grossa, porra! Vem cá, deixa eu te contar um negócio.
    E falava dos meninos amigos dos peguetes e dos PA que colecionava. Ambas eram bonitas, mas Elisabete, um ano mais velha, prerrogativa da qual sempre usava contra a irmã, tinha razão: Marialva se escondia a ponto de ser irrelevante mesmo entre os amigos. No entanto, Marialva só se incomodava com o excesso de expectativas. Deixassem-na em paz! Iria viver sua vida entre pessoas ou entre pulgas, contanto que pudesse manter seu único luxo, um aparelho celular usado, mas com 32 gigabytes de músicas, estendível por um memory card com o dobro da capacidade, e seus preciosos fones wireless, que mantinha escondidos da irmã. Ouvia Elisabete, fingindo-lhe atenção. Era bem intencionada, bem o sabia, mas lhe adivinhava um desmundo como o da mãe, sempre propensa a ser pingente de piroca. Seus sentidos só se atiçaram quando mencionou Flavinha, companheira de mágoas e de baseados.
    — Esse aí até a Flávia pegava, má!
    — Pegava era porra. A Flávia é direita.
    — Direita, sei. Dorme na caixa, isso sim.
    — E daí, que ela não gosta de homem? Que é que tem?
    — Tem nada não, mas daí tu dizer que ela é direita…
    — Rapaz, ninguém tem nada pra dizer dela. Trabalha, cria a filha sozinha, paga as contas.
    — Sim, e o tempo no Auri Moura Costa?
    — Já pagou pelo que fez, Bete. Te manca. A pessoa não pode mudar não?
    — Pode, mas também pode não. Ela só consegue trabalho noutro bairro, que o povo daqui não confia deixar ela fazer faxina nem no quintal. Dona Lisete que sabe! Vivia sumindo coisa quando ela limpava lá.
    — Mulher, aquilo tu sabe que era o Marquim que vendia pra dar pro Boca. A Lisete era era cega.
    Ficavam nisso, e nisso também ficava a sua revolta. Era fraca de verbalizar o universo de frases que acumulava das canções, assim como as suas próprias. Uma noite, já quase na hora de guardarem a banquinha, ajuntou-se o bando de sempre: todos com idades aproximadas, a maioria escondendo na EJA a humilhação do desemprego, e o restante vivendo de bicos. Entre estes, Flavinha, cheirando a sabonete depois do serviço e de botar a Maíra para dormir, abastecida do mingau grosso. Como de praxe, alguém sacou dum violão preto um Raul, depois a Legião e o Cazuza, e ficaram nessa, rodando um e outro beck e praguejando a vida em nome de Jah. Flavinha tinha uma voz tão bonita! Soubera por ela da Nazirê, da qual virou fã.
    — “Ê, acorda pra vida, mais um dia que acaba, alguma coisa aí dentro ainda não terminou…”, encoravam.
    Seu peito esquentava. Aquele desejo primitivo insurgia, mas o olhar louro da Flavinha logo afastava qualquer angústia de fatalidades. Isso e as tragadas no baseado imundo iam limpando a morte que lhe rondava a vida. Sentia acendendo uma palavra, que crepitou na outra, e deu-se uma fogueirinha branda cantarolante sem a necessidade da cortina do coro para se esconder.
    — “Cada dia que se passa, mais difícil vai ficando, todo dia um leão você tem que derrubar…”
    Alguém tinha dinheiro, e Bete botou na roda a cachaça que sobrara, o que amansou qualquer possibilidade de insurreição. Eram todos gente boa, evitaram a vida inteira meter-se com as gangues e cair na prostituição, e ali só rolava mesmo maconha. Uniam-se por esgueirarem-se entre os abismos da miséria e pela música, distintivo tribal de bom gosto, espécie de autoelitização conferida para existirem naquele excremento de cidade. Flavinha, ali do lado, comentava baixinho tudo que Marialva queria ouvir: como a banda empoderava as mulheres, como os homens eram sórdidos, ainda que fossem pais, irmãos, amigos, e como sua pele era lisinha, sua morenice era atraente… Algumas doses lubrificaram as bocas, que começaram a fumar umas as outras. Bete já havia guardado a banquinha em casa e lá dentro mesmo ficara com Valdir numa gemedeira baixinha e gostosa, e os restantes tocavam “Vamos fugir”. Foi o que Marialva e Flavinha fizeram, com meia garrafa de Pingo de Ouro e dois baseados na cabeça. Apesar de ser acostumada, Marialva perdia feio para Flavinha, que mantinha um andar de quem vinha do culto.
    — Encosta aqui, Alvinha…
    Amassaram-se, dedilharam-se como se fossem duas cuícas, e Marialva nem ligava mais se a viam ou ouviam, e gemia alto a voz que nem sabia que tinha, aqui e ali reprimida por Flavinha, que temia o que a polícia faria se as pegassem. Sabia de cor o ensinamento do cassetete em seus orifícios e já tinha engolido à força o esperma de todos os patrulheiros do Ronda e do Raio daquela quebrada o suficiente para ser cautelosa. Alvinha, mesmo assim, voava e estrebuchava, ela mesma, uma guitarra sendo solada pelos dedos e entre as coxas de Flavinha, que lhe chupava os gritos e os seios. Findas e aterrissadas, desceu uma a outra do parapeito baixo da casa da esquina e seguiram seus rumos, ignoradas pelo silêncio do violão que também virara sexo pelos cantos.
    Na manhã seguinte, a cabeça descolocada de Marialva sacudiu com a irmã socando os cadarços da rede, perguntando pelo seu celular. Demorou um pouco a sair da afasia, mas súbito apavorou-se num grito.
    — Tava junto do meu!
    Durante a bebedeira, todos tinham entrado na casa, fosse para mijar ou foder. Bete começou a socar tudo que não pudesse quebrar acidentalmente e só parou quando a parede arrancou-lhe umas lascas de unha. Marialva, zonza, grasnou que seus fones também sumiram.
    — Porra de fone! Merda de fone! Vivia me negando, e olha aí! Caralho! Caralhooooooooooo!!!
    Quem passava em frente achou que fosse fim de relacionamento, tamanho era o ódio verbal de uma e o bestialismo gritante da outra. Marialva parecia um suíno que fora amarrado para o abate. “Minhas músicas, meu fone!” era o que tentava vocalizar, mas o surto animalesco não articulava. Bete já apenas chorava entredentes o nome da Flávia, já a irmã desesperava como da primeira vez, como no primeiro estupro de um dos pais de um de seus irmãos mais novos, que morrera com o pescoço quebrado na mão da polícia. Lembrou-se do peso e do suor, do esmagamento e da asfixia, lembrou-se de não poder gritar e, justo por isso, gritava o que nunca pudera. Sentiu-se de novo uma coisa, um objeto roubado, ela mesma, e não os aparelhos. Bete já parara e apenas observava firme o desespero gutural da irmã. Pela primeira vez, sentiu-lhe o que sentia pela mãe, sempre escandalosa, sempre constrangedora.
    — Aprendeu, sapatão dos inferno? Aprendeu?
    Flávia dera um tempo do bairro. Soube-se que tinha sido pega pela patroa fazendo um boquete no marido, e a boca miúda cresceu o fato até as raias do crime passional, umas, e da fuga com o traidor, outras. Por meses, não se soube dela nem da filha, até darem notícia de que virara evangélica e vivia com um dono de bodega e a filha em Caucaia, onde ninguém que as conhecia morava, e só souberam disso acidentalmente, pois o próprio Marquinhos, indo fazer um avião de coca para o Boca pelas bandas de lá, foi atendido por ela no balcão da Mercearia El Shadai, cabelo longo e preto, olhar zangado, voz dura. Quase não a reconhecera. Quando perguntou como estava, recebeu um versículo de resposta e um “passar bem”. Marquinhos juraria a todos que ela estava muito bem, que nem parecia mais aquela ladrona das coisas de sua mãe e que, de fato, Deus agia certo por linhas tortas.

04/11/19