Beira da estrada,
beira do mar:
um olhar abraça o outro,
e duas solidões se beijam
— duas partidas sem porto,
duas jornadas sem retorno,
dois confins.
E uma só ida para viver.
26/09/24
Este blogue se destina ao uso artístico da linguagem e a quaisquer comentários e reflexões sobre esta que é a maior necessidade humana: a comunicação. Sejam todos bem-vindos, participantes ou apenas curiosos (a curiosidade e a necessidade são os principais geradores da evolução). A casa está aberta.
quinta-feira, 26 de setembro de 2024
BEIRA
quinta-feira, 26 de maio de 2022
VERANIA
a calçada, atropelada,
embioca aos trambolhões numa ladeira
que tudo leva, meu Deus:
música, alma e cidade,
tudo despenca desimaginado
na correnteza empoeirada da rua,
que dá no mar.
a concha no ouvido me diz dos carros,
dos ônibus e caminhões.
na terra, mais gente que areia
é marulhada pela brisa que lhe espalha
o sal e as cinzas
pelo calçadão.
desconecta-se a orla
do mar que a produz.
muita gente, muita gente,
muitos muitos entulhados
no basculho da restinga urbana,
que incha
e avança ferozmente.
no céu, um domingo epitelial;
mal sabe o Sol, que não nasceu ontem,
do fiasco da vida de seus raios.
quem sabe, à noite,
a rua bêbada suba a maré
e permita que a fauna urbana
— a verdadeira —
retome a posse da vida
no vaivém indiferente e sanitário das hordas.
25-26/05/22
sábado, 3 de abril de 2021
É VERDADE ESTE “BILETE”
Essa pandemia mudou completamente a maneira como compreendemos a vida que levamos dentro das alterações forçosas de rotina. As interações assumiram novos valores, e muitas delas acabaram por ser percebidas completamente inúteis. Entre as úteis, estão as laborais e as sentimentais. Amigos, família, amores e afetos empreciosaram-se na lonjura, e a internet acabou finalmente atingindo o seu objetivo mais nobre, que é o de aproximar o que importa nas pessoas. Imagino como devem ser — pois esse tempo já passou por mim — a necessidade da presença física, a urgência de abraços e beijos, a carência dos dedos nos cabelos, os ouvidos procurando nos cantos da casa o leque-leque das chinelas nas solas dos pés assinalando que não se está sozinho; e nada disso ser possível. Pelo menos, por agora.
Eu, de certa forma, tenho a sorte de estar numa fase muito confortável de minha misantropia. Faltam-me meus amores perto, é óbvio. Porém, ter normalizada a minha necessidade de solidão é bastante redentor. Pela primeira vez, vejo uma utilidade prática para a minha saúde emocional em eu ser exatamente assim como sou.
Acontecem também outras curiosidades, e algumas oscilam entre a surrealidade e a brasilidade, semissinônimos que se opõem pelo contexto apenas. Trasanteontem, dia 1º — é mesmo verdade este “bilete”! —, por volta de 18h, caminhava pela orla da Beira-Mar em direção a mais uma aula particular. É o fantasma da morte nos ônibus, nos supermercados, nos próprios apartamentos dos alunos, mas a precisão prevalece. Não parei de aproveitar em nenhum momento as oportunidades de aulas que surgiram. Em parte, sentia-me culpado por estar ali, já que afirmo e confirmo a obrigatoriedade do isolamento nestes tempos, mas, fazer o quê, preciso trabalhar. Melhor que seja pelo menos agradável o risco de morte, pois não? Pois bem. Pus Zé Rodrix para tocar nos fones de ouvido, sentei-me numas pedras ao lado de um dos espigões e comecei a comer o pão com mortadela que preparara em casa, pois tinha bastante tempo até o início da aula e antevi a fome. Olhei o mar, andei pela areia, observei algumas poucas famílias por ali, alguns namorados, vários solitários. Todos, meio que como eu: o olhar apreensivo, buscando qualquer coisa nas ondas que fizesse a vida valer a pena. Caminhei até o ponto no calçadão que ficava em frente ao prédio, ainda tinha uns 40 minutos. Sabia que ninguém deveria estar ali, mas, para mim, era o jeito. Pelo menos, não chovia. Máscara, viseira, álcool em gel, desconfiança e distância dos outros. No fone, já tocava outra coisa, mas eu queria ouvir de novo “soy latino-americano e nunca me engano, e nunca me engano”. No momento em que procurava, percebi de canto de olho uma linha humana preta, cinza e laranja se aproximando a pé, de moto e em camburões: era a polícia. Tirei os fones.
— Senhor, estamos em lockdown — ele falou como eu, “loquidáun”, apesar de eu ter notado a polidez forçada pelo ambiente e ensinada pelo chefe da corporação para momentos em que se aborda alguém na “área nobre”.
Sempre que vejo a polícia, lembro-me da noite em que o Miguel, meu filho, quebrou a clavícula num escorregão. Ele tinha então 2 anos, e fomos de Uber ao José Frota ele, a mãe e eu. Na pressa, o motorista foi pelo itinerário do aplicativo, o que nos meteu num lugar esquisito, deserto, miserável, típico ponto de desova. Na saída desse “cheiro do queijo”, uma viatura nos parou, todos apontando as automáticas. Apesar de estarmos de mãos para cima, calmos e afirmando que levávamos uma criança ao hospital, eles só baixaram as armas e a truculência quando viram o Miguel no banco de trás, improvisadamente tipoiado e no colo da mãe. Desde então, entendi que só estamos seguros de joelhos e com as mãos na cabeça. E olhe lá.
— Ô, meu querido, eu entendo, mas estou esperando a hora de começar a trabalhar. Naquele prédio ali, veja.
Apontei. Sempre ando como se ainda fosse estudante: jeans, tênis ou chinela, mochila, camiseta, boina, fone de ouvido. Acho que ele demorou a associar aquilo que viu a um trabalhador. Poderia ter dito que era professor, que ia dar aula particular, mas poderia piorar minha situação. Vai saber.
— Meu senhor, a partir das 17 horas, está proibido ficar na área de lazer da praia.
— Claro, eu concordo com tudo isso. Pode deixar.
E fui andando. Eu adiei uns segundos o problema imediato: andaria para onde?
— Meu amigo, me diga uma coisa: onde eu posso ficar?
Acho que ele não esperava a pergunta óbvia. Acredito que só aí ele entendeu que não tinha escapatória senão revelar a brasilidade de nossas medidas legais, emergenciais e urgentes em meio a esta pandemia, que é deixar cair o biombo que esconde a macacada hipócrita que é o nosso comportamento geral. Nenhum de nós, mesmo aqueles que, como eu, perdemos parentes e amigos para o vírus, agimos como deveríamos nestes últimos 15 meses. Talvez não o tenhamos feito nunca, mas era de se esperar que pelo menos o medo da morte motivasse a responsabilidade que se espera de quem quer viver. O problema é que temos de sobreviver primeiro. Viver vem depois.
— O senhor pode ficar do outro lado da rua.
— Oi?
— Ali, do outro lado da rua.
Várias pessoas estavam lá. Semiaglomeradas. Quase todos que foram tangidos do calçadão, os moradores dos prédios, os seguranças, os porteiros… Isso, sem falar no pequeno engarrafamento causado pela baixa velocidade dos camburões e das motos, aboiando com as sirenes o gadinho magro. Era um cortejo fúnebre-carnavalesco de fardas, buzinas e xingamentos em voz baixa.
A vontade de rir foi grande. A máscara me ajudou, escondendo o sorriso de nojo.
— Ali pode?
— Pode, só não pode ficar aqui, na área de lazer.
Era uma aula de pragmatismo in loco. Proibido, para a proteção da própria população, era ficar apenas na área de lazer. Ficar aglomerado na calçada oposta já contava como lockdown, segundo o silêncio eloquente e desconcertado do policial.
— É, meu amigo, tá certo. O ideal era que nenhum de nós precisasse estar aqui, né?
— Isso. Nenhum de nós. Mas tem de trabalhar, né?
— Pois é. Quem manda ser brasileiro, né? Bom trabalho aí.
— Pro senhor também.
Atravessei a rua, obedeci. Fiquei uns 20 minutos embaixo de uma árvore de calçada, tão bem podada que parecia de plástico como quase tudo por ali. Pensei nos que sofriam, nos que estavam morrendo, no meu irmão morto, nos meus filhos, que dependem de eu estar ali. Abri a playlist. Zé Rodrix não fazia mais sentido ali. Belchior, talvez… Acabei na minha pasta de samba, procurando o Roberto Ribeiro. “Coisas da Vida” sabia melhor naquele começo de noite, cheio de ausência de humanidade, inteligência e esperança: “e, se falar a verdade das coisas tristes da vida, no peito, tristeza que dói. Assim eu levo o meu canto, sangrado em desencanto, e, se me alerto pra vida, é obra de puro espanto”. A última faixa de um dos melhores discos de samba de todos os tempos, de um 1979 em que eu, com 5 anos, a mesma idade do Miguel, não tinha a menor ideia ainda do que era ser brasileiro.
03/04/21
domingo, 8 de dezembro de 2019
O MILAGRE DE SANTA CLARA
— A vida não mata com bala não. Isso é sonho, Francisco. A vida mata lento, e é com veneno, e veneno no homem pode ser na veia ou na ampola. Esse não tem cara de quem porta porque administra.
Sempre achei que era branca a pessoa da morte. Francisco ria disso e me dizia que a vida é que era branca, e os homens a sujavam. Esse outro lado que jamais atingiria me divertia nele. O amor é algo que também mora nesse outro lado. Ele era cheio de sorrisos venturosos, um peito de passarinho. Dizia em meus ouvidos que toda melancolia tinha o seu mel, e que eu era a “sua melancolia”. Francisco era um ponto brilhante que eu orbitava encolhida, enegrecida de sombras e crateras carbonizadas.
Olhei de novo o homem, mais atenta, enquanto Francisco me recitava versinhos do Jeneci. Realmente, ele parecia uma versão definitiva e irretocável do Francisco. Era velho sem ser gasto, era branco e iluminado, andava como se se espalhasse pelo caminho e se tornasse mais completo a cada passo. Acredito que os polos, as extremidades de tudo, de alguma forma se encontram num paradoxo perfeito em algum lugar. Se aquele homem era, como dizia Francisco, um não-marcado, ele era, segundo eu mesma, todas as dores juntas. Contudo, o que era, naquela situação, diferente de nossa habitual discordância das coisas era que eu não acreditava que as marcas nele eram dele. Parecia que essas marcas eram aquilo que ele espalhava, tornando-se mais belo à medida que regava o mundo das dores, sombras e crateras que eu conhecia tão bem.
Francisco, ele, sim, era um santo. Conversava comigo como se eu fosse um bichinho, punha flores em meus cabelos no final de um dia de trabalho. Aquela semicalva também parecia a do Santo, o Outro, e eu gostava de fingir arranhá-la com minhas unhas. Foi ele quem me ensinou a olhar o sol na hora certa, a tomar cerveja na hora certa, a fazer amor na hora certa. Talvez fosse isto o que me dificultasse amá-lo: não me sentia transformada, mas sim consertada. Aquele excesso de luz me aniquilando a escuridão acabava por tirar de mim o que poderia me fazer sentir-lhe amor: a necessidade. Francisco era onipresente. No universo, a escuridão é onipresente. A luz é que é pontual como postes iluminados numa estrada noturna e sertaneja, saindo ou entrando nas cidades. Naquele universo franciscano, a luz era insidiosa, e eu era obliterada em vez de iluminada. E eu sabia que não era assim com aquele velho. A luz que vinha dele não me obscurecia; eu era atraída por ela. Aquele homem branco era, sim, a morte, eu sabia. Sabia porque, quanto mais eu o olhava, mais eu mesma eu me sentia, e era tudo de uma claridade que não me matava, como a de Francisco fazia, mas que me revelava. Enquanto Francisco ia me contando das cores do sol na linha do mar atrás de mim, servindo como assento no qual me recostava na Ponte Metálica, eu ia me sentindo mais nua e distante, olhando para aquele homem branco passeando calmo na noite que purpurejava o céu crescente diante de mim. Aquele homem era a morte porque não me matava.
— Francisco, eu preciso andar. Vamos até o Joca? A gente vai pela areia, molhando os pés.
Isso era entrar na noite que entrava na cidade.
— Vamos. De lá, a gente vai pros barcos, talvez ainda tenha camarão.
Incomodou-me um pouco ele aceitar. Tinha a esperança de que ele dissesse não, e eu diria que tudo bem, que iria assim mesmo, que ele poderia voltar, que ele não me fazia falta, que eu não o queria. Encandeada, eu fui. Sabia que o velho tinha ido por ali. Sabia que eu tinha esse dom de rastrear gente, de farejar gente igual a mim. Talvez conseguisse. No mar, ele não entrou, estava em roupa de passeio. Há quem se banhe à noite, ainda mais naquele novembro quente dos infernos. O mar de Fortaleza tinha essa propriedade de esquentar o frio e resfriar o calor, além de ser um limite que só transpassam os barcos e os suicidas, e ele não era nenhum dos dois. Por que eu queria alcançá-lo? O que eu faria, o que eu diria? Diria? “Oi, boa noite, o senhor é muito bonito”. Ele não era bonito; era outra coisa. O que eu sentia era outra coisa. Não o queria como homem, não lhe cobiçava o corpo. Eu queria mesmo era perguntar “Oi, boa noite, o senhor me leva?”. Preciso ir. Preciso me escurecer de novo, preciso de mim negra para poder olhar as estrelas. E Francisco? Francisco era bom. Eu não o apagaria.
— Você quer dar um mergulho?
— Eu, não. Por quê?
— Tá muito quente. Olha aquele lugar ali. Tem pouca gente.
— Francisco, e se eu quiser, mas não contigo?
— …
— É, sozinha. E se eu quiser entrar, e não voltar?
— Tá, tudo bem, a gente não vai. Não precisa apelar. É que a gente já andou tanto…
— É, a gente andou muito. Aqui tá bom. Consegue uma água de coco?
— E uma cervejnha?
— Pode ser. Deve ter vendedor de camarão por aqui. Já vi gente vendendo ali, no Espigão.
E se eu aproveitasse e entrasse mesmo? O homem branco deve estar lá… Ou chegando. Sei que andei mais rápido que ele. É quente mesmo, Francisco tem razão. Se bem que, sei lá… Estou respirando melhor. Nesse céu sem nuvens, já dá para ver as estrelas, apesar da cidade. Por que tem tanta luz em toda parte? Isso sufoca igual aos fios e aos postes e aos prédios. Igual ao Francisco. Sozinha, seria bom entrar. A água está boa, quase não há ondas. Aliás, nas ondas, eu penso melhor. Já consigo pensar melhor. O barulho das ondas não vira palavra, e a palavra atrapalha o pensamento, o verdadeiro pensamento. As palavras pesam como âncoras, como a que prende aquele navio lá… O barco lá longe, que, no mesmo corpo, espera e parte, sou eu, um estado fixo e itinerante, esta vontade de ir, indo, mas estática, ancorada, contemplando a jornada. Falar atrapalha a viagem.
— Aqui, o coco. O rapaz lá vai trazer o camarão e as cervejas junto.
— Então, pra quê o coco?
— Ué, você pediu, ora. A cerveja foi ideia minha.
— E o mar?
— Olha aquele navio ali. Deve vir carregado de quinquilharia. Nessa recessão, é só o que se consegue vender. Deve ser bom ficar parado no mar, o vento, a espera… Sabia que, dependendo de onde eles vêm, eles podem esperar mais tempo pra aportar do que pra chegar aqui? Se vierem do Recife, com certeza… Olha, viuvinhas. Deve ser época de tatuí. Nem sei como ainda tem, com essa poluição.
— Eles se adaptam, eu acho.
— Olha aquele senhor de novo. Olha, sem preocupação, sem peso… Acho que não é rico. Gente rica anda torta ou dura, desfilando pra ninguém.
— É…
— Ué, não vai discordar não? Você tinha dito que o homem carregava veneno.
— Acho que tem mais veneno no barco.
— Opa, chegou a cervejinha, E o camarão. Valeu, irmão. Pedi pra você também, Clara. Olha, até o senhor lá vai dar um mergulhinho. Também, com esse calor…
— É. Agora eu quero também. Vamos apostar quem nada mais longe?
— E nossas coisas?
— Deixa com o moço da cerveja.
— Tá, mas isso de nadar…
— Qualquer coisa, você me salva.
— Certo.
08/12/19

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