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sexta-feira, 24 de abril de 2026

A CHUVA DO SÉCULO

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(Crônica de aniversário filha do diálogo com meu grande amigo, o professor e batera Pedro Carvalho, em 19 de abril, em virtude de um vídeo que ele me mandara em que pessoas, pobres como nós, divertiam-se na lama e nas águas da doença e da morte em que nossas gestões municipais têm tentado nos afogar desde que foram criadas as civilizações.)

     O ano era 1997. Fortaleza, bairro da Parquelândia.
    Deveria ter ido trabalhar no meu empreguinho mixuruca de auxiliar de escritório de contabilidade com meu bom amigo e patrão, o contador Sr. Antônio Pereira Fortes, o qual passava pela minha casa a caminho do escritório no Edifício Palácio Progresso, no Centro. Porém, a natureza e o destino tinham outros planos.
    Era, como hoje o é, meu aniversário, dia 24 de abril, e despencou sobre Fortaleza aquela que viria a ficar famosa como “a chuva do século”.
    Minha cidade nunca teve um sistema de esgotamento adequado. Ela crescera, mas a conduta de seus gestores sempre foi como a de antes da criação do porto e das grandes secas do XIX e do XX. Nesse sentido, éramos e talvez ainda sejamos provincianos como à época dos vendedores de água, leite e peixe de porta em porta, conduzindo seus burros e jumentos carregados de bilhas e odres.
    Foi uma catástrofe. Portões de alumínio foram arrancados das molduras, muros caíram — inclusive, o do Cenáculo que dava para a Gustavo Sampaio, minha rua, por cima do qual costumávamos pular a fim de roubar as mangas e os cajus das freiras, na quadra chuvosa, anualmente. Carros, motos, cães e gatos afogaram-se. Muitas pessoas ficaram desabrigadas, e registrou-se uma morte. Houve gente que perdeu tudo. Eu, não.



 
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    Ironicamente, havia ganhado meu presente catastrófico, o qual serviria de parâmetro para todos os meus futuros aniversários. Sr. Antônio, obviamente, não havia conseguido nem sair do Pirambu, bairro onde morava. As ruas eram rios, e aquela comunidade era das últimas no radar do saneamento básico municipal. Eu havia ganhado uma folga de um trabalho que, a despeito dos ótimos companheiros de escritório, detestava. E eu aproveitaria.
 


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    Saí à rua como a um açude. Meu bairro fora, havia séculos, uma grande lagoa, a Lagoa do Alagadiço. As depressões do terreno nunca foram terraplanadas por obras públicas — Parquelândia já limitou o município, quando ainda se chamava Coqueirinho, um “ermo” de riachos e lagoinhas, de vegetação densa e frutífera; daí, “progrediu”, primeiro como periferia para depois começar a gentrificar-se a um bairro de remediados (minha condição) e, finalmente, à residência da burguesia que não tem condições de Aldeotas, Meireles ou Papicus. Isso, aliado ao abandono da CAGECE, garantia, sempre em grandes águas, laguinhos de esgoto que se tornavam balneários de moleques e suplícios de seus pais.
    No meio desse caos, estava eu dando braçadas onde, nos dias anteriores, voltava cabisbaixo e cansado de mais uma jornada de trabalho. Meus 23 anos não eram muito distantes, graças a Deus, dos meus 13 — era ainda um bom moleque. Abandonara alguma prudência e, apesar do medo, arriscava-me próximo às bocas de lobo e em subidas no meio corpo dos postes, dos quais alguns, já faiscantes.
    No curso dessas jamais antes empreendidas aventuras, eis que surgiram fraquinhos, mas indistinguíveis, gritos de socorro entre os trovões e os coiós da canalha de que fazia parte: eram as dançarinas da banda de forró Calango Aceso, as “calanguinhas”, que moravam numa casa alugada na parte baixa de minha rua, onde, àquela altura do dilúvio, a água dava no peito. Heroicamente, como boas ratazanas, nadamos entre os toletes e os guabirus, desviando de chinelas extraviadas de seus pares e de tocos de oitizeiros boiantes, torpedeados da alameda da Av. Bezerra de Menezes, no intuito invencível de resgatar as jovens daminhas. Chegando lá, vimos, como boas calangas que eram, umas cinco ou seis atrepadas no muro frontal, “em tempo de uma arte” ou de uma tragédia. A água que descia do oitão da casa já havia deitado abaixo o portão de canaletas e elevava-se mais ou menos a 1,60m, e o muro seria o próximo. Eu mesmo carreguei duas no tuntum até um plano seguro, dois quarteirões acima, recebendo beijoquinhas leptospiróticas por gratidão.
 
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    Uma pena. Tinha apenas 23 anos, mas esperava mais. Um bocó, reconheço hoje. A segunda e a terceira maiores chuvas registradas em Fortaleza seriam em 2004, com 250mm registrados, e em 2024, com 215,1mm. Em 1977, choveram, em 02 de junho, 168mm. Essa, a do meu aniversário de 23 anos, foi de 270,6mm em apenas 13 horas, representando 79% de todo o esperado para aquele abril. Todas, no meu curso de vida — eparrei, Iansã! —, e uma, no meu aniversário, o melhor de minha vida, hoje bem sei. Outras bênçãos mandará Oyá, confio. Contudo, nunca mais choveu assim, por dentro do espírito, com enxurrada e navegações, nesta minha pobre, mas pouco comum, existência. Por isso, entre melancólico e grato, encerro esta croniquinha nestes meus, no dia de hoje, 52 anos de águas de Iansã, Nanã, Oxum e Iemanjá. Um agreste que nunca foi seco; um orvalho que nunca durou.

24/04/26

Fonte das imagens da catástrofe: sites dos jornais Diário do Nordeste e O Povo e página do Instagram @fortalezaantigamente.
Fonte das informações das chuvas: FUNCEME.
Fonte da imagem da capa do CD da banda Calango Aceso de 1997: site Letras.
Clique nas indicações para acessá-las.

sexta-feira, 31 de outubro de 2025

SUVENIR

 
Chaveiros que comprei em Recife há uns 25 anos.
 
espalhei pela casa suvenires
frutos há muito arrancados
de pequenas felicidades

pistas, miolinhos de pão
marcando o caminho
sem volta

minhas pedrinhas miudinhas
me esqueceram de Aruanda
me esqueceram nos vasos de plantas
nos fundos dos bolsos
no fundo do mar

seja eu também, talvez
uma pedrinha miudinha
que nunca viu baladeira
nunca matou passarinho
nunca correu sobre as águas

na mão abandonada do menino
que me colheu como suvenir
para não crescer só

e que não cansa de olhar o mar

31/10/25

quinta-feira, 6 de março de 2025

DO LADO OPOSTO DO MAR

Raimundo Cela
(Clique na imagem para ampliá-la e na legenda, para acessar sua página de origem.)

    Lembro de ouvir meu pai dizer, num desses diálogos que não têm âncora no tempo, que eu tinha uma bomba na perna esquerda. É dessas coisas que só pai nota e que só pai diz. E foi dita na hora certa, pois ficou. Atestou-me. Eu, apesar de destro, era um canhoteiro, decretara meu pai. Muita coisa importante virou vento, muita virou furacão: assim é a palavra, quando o portador é alicerce, coluna e teto. O vento motiva a vela, afresca a pele, seca a lágrima. Torna o dia um dia bom. O furacão averte o mar e cria homens de terra, de pedra, homens-recife. Dos ventos, eu me lembro disso e de ouvi-lo dizer coisas como “o mar não tem cabelos” e que nunca me deixaria afundar. Já aos furacões, resisto, e só.
    Que homem só foi o meu pai. Que homem só eu me tornei. Minha perna esquerda, que hoje é o meu tronco, o meu mourão, ainda me suporta. Na beira do mar, é ela que me ancora. Fateixa de pau-e-pedra, guardando as minhas partidas. Ainda assim, quando olho o mar, procurando não ver ninguém, eu os encontro no sargaço, na maresia, nas vagas. É na ausência que estão meu pai e todos os meus fantasmas. É no obscuro das saudades que arrebenta o furacão de quem não partiu.
    Digo isso da perna esquerda porque, há dias, as dores da direta me dilaceram. Há uns quinze anos, tive nesta um derrame que me custou a sustentação e causou o subsequente definhamento muscular. Além disso, quando tinha uns sete de idade, meu pé direito foi moído pelos raios de uma roda de bicicleta e nunca teve os ossos soldados corretamente, o que me fez conviver com a dor de ficar em pé desde então. Bem recentemente, talvez resultado da má prática de esportes, a articulação do meu ombro direito vive em eterno estado de inflamação, o que me limita os movimentos consideravelmente. Além do mais, tive as duas fraturas na mão direita: uma, resultado de um jogo de vôlei de rua; outra, de uma surra que dei num dos dois únicos ladrões que me roubaram. Isso, sem levar em conta os inúmeros acidentes com facas, anzóis, ferramentas e outras pequenas mutilações ao longo dos anos. Tudo, do lado direito. Agora, espasmos elétricos de punção e fogo na perna direita me agoniam e me fazem pensar se não é nesse lado, à guisa de tiracolo, que carrego meus furacões. Ou se é por aí que eles me carregam. Será que é o mar, o mar alto, a rota aonde eles me fustigam? Será que a minha firmeza, que me finca e sustenta, não me estaria negando o desdobramento de um confronto real com a procela? O que eu seria depois de todos os embates e massacres que nunca me foram impostos lá, após a arrebentação, passando a costa, no além da ausência dos espíritos?
    O que meu pai talvez sentira e nunca me dissera é que aquilo que resta ao homem que evita o mar é a erosão. É ir se desmanchando em areia e fazer parte do chão da praia, parte do mar, parte da terra. Talvez, por outro lado, existam muitos mares menores onde navegam os homens que são o que são, e nada mais: funcionários, pais, bêbados, vagabundos — homens de poucas metáforas. Ou ainda, que o mar grande seja uma maneira de existir ausente, um lar reservado apenas para o depois.
    Eu amei o mar por meio do meu pai. Pela sua mão, perdi e ganhei o medo dos afogamentos; pelo seu olhar, aprendi o respeito e a medida segura de atrevimento. Porém, hoje, aqui, seguro, sou fustigado pelos furacões que deveria haver apenas lá. Gostaria de lhe dizer que, como na maioria das coisas de que me lembro dele e das quais aprendi com ele, existem no homem e na vida dois lados, duas forças que se encontram sem muito conflito, mas cujos violência e desastre se acentuam conforme nelas se adentra
— sobretudo, quando essas forças são menosprezadas no cotidiano, na paciência com que a onda converte o recife em areia fina, na agressividade imóvel de quem olha o mar dolorosamente.
    Sem esse modo de amar, contudo, o outro que eu seria — talvez sem dores, talvez sem senso — não saberia o que é esse cruzamento da fronteira divisória do homem: tudo que sei de mim foi costurado e ponteado pela dor de permanecer e pela angústia de não partir. É possível que essa seja a condição real do homem e que não existam marinheiros, exceto em fantasias e delírios de poder. É possível, portanto, que a natureza da vida sejam este fremir de nervos e tendões, estes ossos tortos e toda a sorte de concretudes físicas que me ancoram na rocha do cais.
    Entretanto, é também possível que este modo de amar o mar seja a única coisa que possibilite a existência do mar. O largo imenso donde olho o mais imenso; e, nesse mais imenso, o verdadeiro outro lado. Não os sei, mas suponho os ventos que sopraram meu pai. Todavia, é da natureza dos homens sós, isso eu sei por certo, costurarem eles mesmos os farrapos de suas velas ao mesmo tempo em que trançam os cabos de suas fateixas. Resistir também é um modo de navegar.

06/03/25

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

O NOME DE DONA IRENE

Imagem digitalizada por Francisco Carlos.
(Clique na imagem para ampliá-la e no nome do autor para acessar a sua página.)

     Memória é, no meu caso, primariamente um negócio afetivo. Vejamos um exemplo. Estudei por pouco tempo numa escola que não existe mais, chamada XV de Novembro, quando muito criança, ali pelos 6, 7 anos, início dos anos 1980. A diretora se chamava Rita, minhas professoras eram Sônia e Cláudia. Meu melhor amigo era o Jairo. Eu era apaixonado por uma menina chamada Márcia. A zeladora era a Dona Irene, e o porteiro, o Seu Geraldo. Não lembro de me contarem, lembro porque lembro, lembro porque eu assimilava o mundo ao meu redor com o coração, com a imaginação, como deveria ser com toda criança. Em 2019, encerrei 10 anos de contrato de trabalho numa escola X, como professor de Português. Por esses 10 anos, eu convivi com algumas pessoas ótimas, outras, detestáveis, porém o meu afeto não me permitiu (ou não permite) lhes guardar devidamente os nomes. Preciso fazer um longo esforço de reconstituição de cenas para lembrar que a senhora da copa se chamava Lourdinha, por exemplo. No entanto, com um falecido porteiro — pai de um aluno meu muito querido, chamado Maurício —, que se chamava Seu Marcos, não tive sucesso; precisei da ajuda da Vivi, ex-colega de trabalho, que me corrigiu — achei que fosse Seu Mauro. Porque isso acontece, não sei; gostava igualmente dos dois. Mas a D. Irene, aquela do XV, que ficou uma vez esperando comigo sozinha na escola porque meu irmão Cláudio se esquecera de me buscar, está gravada permanentemente na minha memória. Já os nomes de muitos outros eram tão circunstanciais que eu precisava inquiri-los a terceiros, de cujos nomes, por sua vez, só me lembrava por sorte. Sorte, no sentido etimológico do radical: aleatoriedade. O afeto me permite recuperar-lhes os rostos, a camaradagem, ser-lhes solidário nos votos de boa-aventurança. Já seus nomes, estes se perderam na voragem sucessiva das coisas ordinárias dos dias iguais.
    Talvez, eu tenha me tornado um cínico, ou um escapista, ou um misantropo, ou uma espécie de sociopata, como sugeriu certa vez Dona Fátima, mãe do Hálinson e da Natália, esposa do Seu Messias, todos muito queridos meus. Conversávamos sempre com muita alegria, e, numa tarde, falando sobre esses “apagões” mnemônicos, eu tinha dito a ela que não conseguia me lembrar dos nomes de algumas ruas do meu próprio bairro nem de alguns dos meus amigos, muitos, de infância, até, e que me perdia com facilidade, por não gravar os caminhos. Ela me ouviu pacientemente, analiticamente. Ouviu como mãe. Respondeu como juíza. “Isso acontece porque você não se importa com nada”. Dona Fátima, com o pragmatismo de uma contadora — que ela é —, asseverou o encadeamento de palavras que, na minha autodefinição, ainda não eram sequer letras. Porém, lá estavam, epigrafadas: “ele não se importa com nada”.
    Como acertara D. Fátima… Ali, de certa forma, deram-se tanto uma epifania quanto uma libertação. Não levei a mal, muito pelo contrário. Eu tinha agora uma frase que me definia bem, e só quem vive a perturbação da busca constante sabe o quanto isso é difícil de se encontrar. Não era um problema meu de afeto, não era eu que não sabia sentir as pessoas, não era um aleijão sentimental. Era, isso sim, o oposto da posse. Era um olhar de transeunte permanente, de constante temporariedade, era a janela do ônibus com a vida em curso nas avenidas, ruas, calçadas, botecos, olhares, contatos. Tudo passando, tudo fugaz. Ou quase tudo. D. Irene, não. Ela, cabelo grisalho, vestido de chita, pés apressadinhos nas chinelas, fez mais que o seu trabalho quando outros negligenciaram os seus. Dona Irene, que já deve estar no céu das Irenes, junto à de Manuel Bandeira, é nome que não passa na janela. Fica sentada junto de mim, com todos os outros nomes que, sei lá por quê, me acompanham nesses ônibus circulares desta cidade provinciana que sou eu.

23/02/21

terça-feira, 3 de novembro de 2020

RITO DE PASSAGEM

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    Este ano já me levou quatro: meu irmão Cláudio, minhas tias maternas Lourdes e Tate (esta última ajudou a me criar) e, no dia de hoje, minha avó paterna Jesuína. Não lhes fui aos velórios nem aos enterros. Enterrei-os e velei-os (exatamente nessa ordem) eu mesmo no que tenho de mais íntimo, no meu próprio chão, na minha própria capelinha. Foram cerimônias muito simples, quase anônimas. Somos todos anônimos na morte. Não faz diferença à matéria o nome que lhe damos. Os nossos nomes, os verdadeiros, não são passíveis de morfologia ou fonética, não cabem nos registros. Os nossos nomes são coisas que se sentem. São alegrias e tristezas, ódios, rancores, perdões. São presságios. São contemplações.
   Chegamos à idade de aguardar. Esperamos confinados, receosos, conformados. Abnegamo-nos de qualquer luta; apenas sobrevivemos e aguardamos. Porém, dentro de nossas salas de espera, entrincheirados, mascarados e besuntados de álcool em gel, corremos o risco ainda maior de uma rendição, essa, sim, irrevogável: o risco de desejarmos.
   Nesse caso, o encouraçado nuclear em que nos convertemos mira seus canhões aos faróis e torreões desprotegidos de nossa própria costa. O que resta de nossas praias, já sem sol e sem mar, traga como um ralo de areia movediça o acumulado de relicários que protegíamos — a última traição da terra, que se negou a ser chão à sua própria gente.
    Aquilo a que chamamos mal somos nós, morrendo a vida que levamos. Somos nós, permitindo-lhe a existência. Somos nós, adaptando-nos ao inadaptável: plantando e colhendo miséria à revelia do solo.
   É nesses ritos que eu ladainho a liturgia diária de sobreviver e enterrar, de indignar-me e envolver-me fetal no lençol velho, sudário sertanejo desse calor de fim de mundo. Não sei que deus louvo, não sei contra qual diabo peço proteção. Chegou o tempo de enterrarmos os nossos mortos, sem lágrimas, sem surpresas, mas com uma inquietação íntima muito própria da pedra que derrete na frágua, sem adivinhar se será ferro de grilhão ou aço de punhal.

03/11/20

quarta-feira, 27 de maio de 2020

SOPA DE LETRINHAS

    Não é isso que quero escrever. Quero escrever que sinto saudades. Faz falta andar de bicicleta de madrugada. Faz falta escrever de madrugada à luz de velas como se isso fizesse o texto melhor. Sinto falta dessa ingenuidade… Conversar horas no telefone com minha amiga N., que não quer mais falar comigo. Com razão. Nunca fui um bom amigo nem a ela nem a F., W., O. etc. Sinto saudades deles todos como sinto de mim mesmo, que fui quem eu mais traí. Não que isso seja de modo algum uma reviravolta surpreendente ou uma obra de forças ocultas a que chamam de acaso, não é nada disso. São favas contadas. Eu só esperava, do fundo do coração, que tivesse se desenrolado diferente, com talvez, digamos, um atraso nas contas do carma ou um adiamento, quem sabe? Eu esperava que eu mesmo só aparecesse para estragar tudo no final da história, numa risada nervosa ou num ataque de fúria, deixando transparecer finalmente que eu não sou, não era, nunca fui direito quem lhes foi amigo, professor, amante, familiar. Eu, eu mesmo, não me sinto nada disso. Talvez, escritor. O caso é que eu sinto enormes saudades… Sinto falta agora, depois de ter visto filmes e ouvido tantas músicas, de conversar com meu amigo W., que já morreu, sobre esse eu que sentiu o que gostaria de compartilhar, mas está sozinho. Como sempre desejara estar. Sinto falta de mostrar meus textos a N., a primeira (a única, na verdade) a me esfregar na cara que eu era um merdinha de um parnasiano. Nunca mudei completamente, mas conversávamos sobre isso, e era tão bom… Perdeu-se. Sinto falta de uma certa injustiça, que era justamente a de me saber desconhecido dos que me amavam. Minha mãe, T., nunca me leu. Tampouco, meu pai, L. Hoje, com tantos textos tornados públicos (menos equivocado que “publicados”), sei que pouquíssimos me leem, e isso não me dói, ainda que haja no fundo um desejo de a ou b os lerem, mas não me dói sobremaneira que não o façam. Porém, sinto falta de sentir falta de ser lido. Existia alguma coisa de romântico naquilo que eu tinha e, principalmente, no que não tinha. Eu me fechava completamente ao mesmo tempo em que desejava ser aberto, mas algo acabava por entrar, contaminando. Com o tempo, essa sílica entranhada na carne emperolou-se numa enorme esfera de cinismo e insipidez que hoje gosto tanto de fazer confundir com literatura. Mas é só isso mesmo. Contudo, sinto saudades de ser uma ostra legítima, aquela que sofria legitimamente uma prenhez forçada de alguma coisa bela na escuridão do fundo do mar. Essa coisa, que eu escrevia, sangrava, silenciava, essa coisa tinha lá sua beleza. Sinto saudades de falar dela… Sinto saudades porque havia um certo encanto na inutilidade daquele martírio, e conversar com C., L., T., R. sobre aquilo me validava enquanto seu amigo. Sinto saudades de me embriagar com eles, ainda que não houvesse ali nenhum pertencimento de minha parte. Era só minha solidão compartilhada no fundo do copo. Mas, como me faz falta… Hoje, não sinto mais vontade de beber nem de sair para beber. Não sinto saudades do blues, que tanto ouvia com I. e com O. Mas sinto saudades de mim com eles. Eu estar com eles era eu. E isso já não existe mais definitivamente. Hoje, eu me contento, infelizmente, com saber de tudo isso. Saber que, se W. estivesse aqui, eu poderia ligar para ele e comentar sobre a descoberta tardia da Lhasa de Sela, via L., amiga nossa em comum, e dizer de todas as maravilhas que a voz dela me refez sentir. Se não tivesse me distanciado de R., de A. ou de M., eu poderia ou estar bebendo debruçado sobre uma crítica de filme ou pedalando numa noite qualquer dessas, rindo das pessoas no meio da rua. Poderia estar jogando vôlei com F., J. e K., poderia estar ouvindo Led Zeppelin com M. Poderia ter, se não houvesse acontecido tanto, de novo a companhia de F. numa de nossas aventuras impossíveis e absurdas de quem não tinha dinheiro e conseguia realizá-las. Saber disso é o que tenho. Isso e as letras, que tomaram o lugar de seus nomes numa sopinha de lembranças de um enfermo crônico de gripes e de crônicas. Padecer ainda é sonhar, e sonhar, bem… Sonhar ainda é interceder com violência contra essa vida besta drummondiana.

27/05/20