Este ano já me levou quatro: meu irmão Cláudio, minhas tias maternas Lourdes e Tate (esta última ajudou a me criar) e, no dia de hoje, minha avó paterna Jesuína. Não lhes fui aos velórios nem aos enterros. Enterrei-os e velei-os (exatamente nessa ordem) eu mesmo no que tenho de mais íntimo, no meu próprio chão, na minha própria capelinha. Foram cerimônias muito simples, quase anônimas. Somos todos anônimos na morte. Não faz diferença à matéria o nome que lhe damos. Os nossos nomes, os verdadeiros, não são passíveis de morfologia ou fonética, não cabem nos registros. Os nossos nomes são coisas que se sentem. São alegrias e tristezas, ódios, rancores, perdões. São presságios. São contemplações.
Chegamos à idade de aguardar. Esperamos confinados, receosos, conformados. Abnegamo-nos de qualquer luta; apenas sobrevivemos e aguardamos. Porém, dentro de nossas salas de espera, entrincheirados, mascarados e besuntados de álcool em gel, corremos o risco ainda maior de uma rendição, essa, sim, irrevogável: o risco de desejarmos.
Nesse caso, o encouraçado nuclear em que nos convertemos mira seus canhões aos faróis e torreões desprotegidos de nossa própria costa. O que resta de nossas praias, já sem sol e sem mar, traga como um ralo de areia movediça o acumulado de relicários que protegíamos — a última traição da terra, que se negou a ser chão à sua própria gente.
Aquilo a que chamamos mal somos nós, morrendo a vida que levamos. Somos nós, permitindo-lhe a existência. Somos nós, adaptando-nos ao inadaptável: plantando e colhendo miséria à revelia do solo.
É nesses ritos que eu ladainho a liturgia diária de sobreviver e enterrar, de indignar-me e envolver-me fetal no lençol velho, sudário sertanejo desse calor de fim de mundo. Não sei que deus louvo, não sei contra qual diabo peço proteção. Chegou o tempo de enterrarmos os nossos mortos, sem lágrimas, sem surpresas, mas com uma inquietação íntima muito própria da pedra que derrete na frágua, sem adivinhar se será ferro de grilhão ou aço de punhal.
03/11/20
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terça-feira, 3 de novembro de 2020
RITO DE PASSAGEM
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terça-feira, 9 de junho de 2020
ROUPA DE SAIR
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de tanto mudar a roupa
de sair
fiz que o domingo passasse
que todos os dias fossem a experimentação
teórica apenas
da rua e do mundo
na agonia da nudez
é que vivia
e o entra-e-sai n(d)os tecidos
polia a pele
para um sol que nunca me viu
09/06/20
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domingo, 19 de abril de 2020
BASTANTE
Atila Iamarino disse em entrevista que o mundo como conhecemos não existe mais. Neste confinamento, influencers e blogueiros postam TBT de um mundo que nunca vi, onde nunca estive, um mundo outro, vedado a quem sou. Nada disso me enfada. Até mesmo o confinamento a que chamam quarentena quase não me é novo ou anormal. O que me atormenta nem é o desaparecimento do mundo que conheci, que eu, individual e unicamente, experienciei. Porque esse mundo, raríssimas vezes registrado em fotos, mudou, aterrou-se, enterrou-se, mas, como é matéria, continua lá, numa matéria diferente. Pode ser escavado, limpo, polido, exposto novamente à luz do Sol. Quem não existe mais sou eu. Não existo como existi nas fotos, não pertenço como, um dia, com um fôlego heroico, tomei posse. Hoje, memórias escavacadas nessa arqueologia rústica, às pressas, apavorada pelo desaparecimento possível do que, intimamente, nem creio mais haver, são envasadas em álcool, penduradas numa parede de manipansos incompletos. O meu pavor é, após tudo isto, se teimar a nostalgia retornar à guisa de reencontro, perder-me definitivamente, mudo e pasmo, engasgado com um ar que só existe para engasgar-me, estrangeiro ilegal pedindo asilo num país de vento. Como andei tanto, estando imóvel? Como me perdi trancado na clausura do comodismo? Quem fui, quem quer que tenha sido, é um processo prescrito, uma injustiça irreparável. Dói. Sabe amaríssimo, insuportável. Exige, impõe obliteração. Mas dói-me ainda mais matar o cadáver, pois que sei a profundidade da cova em que jaz, donde preciso arrancá-lo, olhar-lhe as cavas cranianas onde orbitaram as retinas que viram o que não sou capaz de esquecer e deixá-lo em paz. Tremo, juro que tremo. Não há volta. Sou agora o que não deve mais lembrar, e esvaziar-me o peso e as horas requer todo o tempo restante. Serei bastante?
18/04/20
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