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domingo, 28 de dezembro de 2025

UMA LICENCINHA À NOSTALGIA

Casa de Saúde São Gerardo, na Av. Bezerra de Menezes, em Fortaleza-CE (Arquivo Nirez - aprox. 1949).

(Clique na imagem para ampliá-la e na legenda, para acessar sua página de origem.)


quando era criança, havia uma feira na rua cruzada com a minha.
o vendedor de peixes passava com enfieiras de porta em porta;
o leiteiro, o verdureiro, o galego, o vendedor de vassouras,
todos eles trançavam os caminhos do bairro,
costurando o cotidiano.

havia um poço em meu quintal,
e era minha grande responsabilidade
fazer a manutenção da bomba d'água,
e ligar, e desligar diariamente,
e isso me fazia importante.

a rua era de pedras calçadas.
passavam poucos carros,
mas bastantes carroças e alguns cavalos,

e o som da rua me dava a impressão
de que a rua era viva,
e as casas, e nós todos
tínhamos uma vida a ver
uns com os outros.

Dona Edmilsa, pequeníssima, de sorriso bom,
puxava a arrumação de cadeiras e senhoras na calçada
ali pelas sete horas da noite,

e assim nos espalhávamos em pequenos apinhados de gente:
as crianças, os jovens, os adultos, as quengas, os bêbados, os maconheiros,
os vendedores de algodão-doce,
os compradores de garrafas vazias e metais velhos,

todos vivendo por dentro e por fora
o que ainda não sabíamos valer tanto a pena.

26/12/25


quarta-feira, 19 de novembro de 2025

VISITA ANUNCIADA

Vem, chega mais perto.
Faze-te de ar e me falta,
que já não fazes mais falta.

És familiar
como esse eu
que transita impune pelos espelhos.

Porém, é só o que te imponho:
ao contrário de mim,
não excedas a tua forma,

pois, ao que transbordo e sobejo,
essencias-te;
ao que me fragmento e abandono,
eternizas-te;
ao que me vou,
aportas.

Não te incomodes:
deixa tudo o que não és sobre o aparador
e vem,
pés descalços,
mãos vazias,
ventre oco.

Guarda aí o espaço que me reservaste.

Vê, eu te trouxe pão e tapioca
de longe, de quando éramos todos
filhos de nossos pais.
Tenho aqui um café e um punhado de estórias
que bem dão uma constelação a mais
em tua Noite,

essa Noite enorme,
mais clara que o dia,
que, há tanto, me anunciaste.

Que não fales,
que não rias,
que não digas os sabores de tua vinda,
não me importo.

Hoje eu escolho a prosa e o sorriso,
o monólogo suave e casual
diverso de tudo,
feito apenas de palavras inéditas
de uma língua recém-nascida.

Senta-te ao meu lado esquerdo,
que é onde fica minha saudade
― tão antiga e exata como tu —,
e deixa que ela também te fale um pouco.

Já não desespera;
está em paz.

Aqui, fico eu assim, em portas de domingo:
um riachinho reabrindo
o velho rio de minha vida.

Só para ti.

16-19/11/25

domingo, 2 de novembro de 2025

CONSISTÊNCIA


há mais de mim nas coisas do que em mim.
nos lugares, no cheiro do vento.
onde dormi, mais que o sulco temporário de meu corpo,
que a fina camada de gordura e pele,
há o sonho e o assombro.
lá ficaram.

mas, quando ali retorno o olhar de dentro,
vejo que mais estou do que pareço.
vejo que a porta aberta que esqueci sem chave
gravou de mim uma partida que é mais
do que fui quando cheguei.

há mais de mim mesmo onde só estive em pensamento.
nas ausências, nas impermanências, ali estou, vigilante,
marcando a estada,
prenhez e prole, eu mesmo, onipresente, populoso,
territorial.

só assim
para aguentar este deixar de ser
constante
em que me perco, hora a hora,
sem nunca acabar de ser inteiro.

sou porque não sou;
estou porque, em outros lugares,
me abandonei.

minha âncora é o mar.

02/11/25

sexta-feira, 31 de outubro de 2025

SUVENIR

 
Chaveiros que comprei em Recife há uns 25 anos.
 
espalhei pela casa suvenires
frutos há muito arrancados
de pequenas felicidades

pistas, miolinhos de pão
marcando o caminho
sem volta

minhas pedrinhas miudinhas
me esqueceram de Aruanda
me esqueceram nos vasos de plantas
nos fundos dos bolsos
no fundo do mar

seja eu também, talvez
uma pedrinha miudinha
que nunca viu baladeira
nunca matou passarinho
nunca correu sobre as águas

na mão abandonada do menino
que me colheu como suvenir
para não crescer só

e que não cansa de olhar o mar

31/10/25

sexta-feira, 24 de outubro de 2025

MINHA RUA

 
Placa indicadora de minha rua, que fora afixada na fachada de minha casa nos anos de 1970, retirada posteriormente devido a uma reforma no anos de 1990 e, atualmente, peça de decoração de minha sala (foto do autor).
 
sinto falta da minha rua de calçamento irregular,
que me trazia a casa
e era o meu lugar entre o meu mar e o meu sertão

hoje, asfaltou-se
como um rio assoreado,
onde o tráfego esmaga
o peixe em que a evolução errou

nem um centímetro a mais foi posto,
mas uma distância definitiva, invencível,
ilhou cada um de nós,
náufragos, aratus refugiados
em buracos na areia

perderam a graça as chuvas nas biqueiras
e as guerras de jambo
entre nós, os ribeirinhos acanalhados

a guerra de hoje é outra:
é entre o prédio e a gente;
é entre as facções e a gente;
é entre a polícia e a gente;
é entre a gente

o tempo passou pela minha rua em paradas militares,
em procissões de loucos,
em desfiles de Santos Reis

mas, principalmente, o tempo
arrastou sob seu ventre
nossas pegadas, nossa história,
nossas árvores,
como fazem máquinas compactadoras
terraplanando o futuro

ainda teimo em curiar
quem, dos que ficaram, ou suas crias,
que riscará a pedras de cal
o próprio nome na própria calçada
da própria casa,

mas, sem sucesso

não há mais basculhos
nem de muros nem de gentes
que se escrevam no chão
como quando a rua era uma tribo
e nela vadiavam selvagemente
os sonhos de quem nunca fomos

24/10/25

quinta-feira, 30 de novembro de 2023

DESENCAIXE



Todo dia, um pedaço de mim sai de casa
Vai à rua, pega ônibus, toma sol
Compra café
E se perde como aquelas peças de quebra-cabeças
Do Corcovado e do Cristo Redentor
Que minha mãe me comprou
Tirando do dinheiro reservado ao mercantil

Cento e vinte peças, todas miudinhas

Muitas mais sou eu

Muito mais me perco

A despeito de todo o desencaixe

30/11/23

sábado, 3 de julho de 2021

ONDAS CURTAS

Rádio Philco Transistone

nós perdemos a briga,
coração.
mas,
como somos surdos
e simples,
continuamos
um no outro
batendo
num telecatch circense
transmitido pelo rádio.

08/06/21