era um dia comum, banal,
mas banalzinho mesmo,
sem fazer falta ao calendário
nem dos santos nem dos pecadores:
um dia sem milagres, sem heresia,
vazio de horas,
um encadeamento de passos curtos
e dores nos pés.
somente à noite,
o tédio acumulado sortiu do espírito
um caco agudo de ócio
— lâmina primitiva do homem —
e sangrou da pele macilenta um poeminho
que dizia
“tenho pena das horas que me perderam;
nunca mais, vadias, nos encontraremos”
e o corte, torrente, exclamava do corpo estuporado
a indignação dos vagabundos:
— maldita és tu!, poesia,
sempre a forçar-se contra mim!,
sempre a arrancar-me os trapos!,
sempre a querer-me nu, a frio!,
sempre a tirar-me a fome,
que é tudo que tenho de meu!
24/11/20

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quarta-feira, 25 de novembro de 2020
POEMINHO VAGABUNDO
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