— Tem coisa que é palavra demais.
— Como assim?
— Coisa que só acontece quando a gente diz.
— Isso é conjuração, Alberto.
— Coisa de outro plano…
— Então, quando disse que me amava, foi pra acontecer ali?
— Isso. No mesmo instante, aconteceu.
— E quando a gente terminou, foi assim também? Que eu me danasse, que eu sumisse?
— Não. Ali a palavra atrasou. Queria dizer eu te amo, mas não sei por que não disse. Acho que era pequeno demais.
25/11/20
Este blogue se destina ao uso artístico da linguagem e a quaisquer comentários e reflexões sobre esta que é a maior necessidade humana: a comunicação. Sejam todos bem-vindos, participantes ou apenas curiosos (a curiosidade e a necessidade são os principais geradores da evolução). A casa está aberta.
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quarta-feira, 25 de novembro de 2020
CONJURAÇÃO
quarta-feira, 25 de março de 2020
O CORPO
o silêncio é o verdadeiro corpo
daquilo que chamamos alma.
gritar, gemer, sussurrar, escrever,
tudo isso é roupa,
babilaques adornosos e rudimentares
que se esganiçam na construção de uma forma
que mais deforma que define
o eremita silente
que dorme como as estrelas das crianças
num céu apenas imaginado.
é no silêncio que existe
o deus que nos mendiga.
25/03/20
daquilo que chamamos alma.
gritar, gemer, sussurrar, escrever,
tudo isso é roupa,
babilaques adornosos e rudimentares
que se esganiçam na construção de uma forma
que mais deforma que define
o eremita silente
que dorme como as estrelas das crianças
num céu apenas imaginado.
é no silêncio que existe
o deus que nos mendiga.
25/03/20
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Poema
quinta-feira, 28 de abril de 2016
DIÁLOGOS I
I
— Escrever nunca foi tão difícil.
— Por quê? Nunca é uma palavra assim tão inoperável?
II
— Desde quando você é assim?
— Sou novo nisso. De sua pergunta pra cá, tem uns três segundos.
III
— Não acho justo isso de aceitar mistérios. Somos desbravadores, vivemos em função das revelações.
— Eu, tampouco. Agora me diga: o que farei contigo de agora em diante?
28/04/16
— Escrever nunca foi tão difícil.
— Por quê? Nunca é uma palavra assim tão inoperável?
II
— Desde quando você é assim?
— Sou novo nisso. De sua pergunta pra cá, tem uns três segundos.
III
— Não acho justo isso de aceitar mistérios. Somos desbravadores, vivemos em função das revelações.
— Eu, tampouco. Agora me diga: o que farei contigo de agora em diante?
28/04/16
sexta-feira, 27 de novembro de 2015
ÍNSULA
Saliara (Praia de Mármore) - Ilha de Thassos
(Clique na imagem para ampliá-la.)
(Para Carmélia Aragão, que me sabe sem que eu diga)
Às vezes, o amor e a amizade têm seu próprio tempo,
como uma ilha tem uma noção diferente de mar.
E tudo que vem é onda e vento e sargaço e salsugem
— marulhos de outras vidas, destroços bordejantes
e a certeza de que tudo que não está ali
é passagem sem adeuses.
É só no amor que se realmente é livre para se estar só.
27/11/15
quinta-feira, 6 de março de 2014
ADESTRAMENTO
— Nada é mais difícil que amansar um coração.
— Para quê?, pergunta-se, para comê-lo?
— Não. Para dar-lhe de comer.
05/03/14
sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014
ENGRENAGENS
Perguntar a quem
escreve o porquê de escrever é doído. Não basta haver tanto o que se dizer
sobre tanta coisa… Aí, a pessoa argumenta que escrever não leva a nada, é
inócuo, inútil, que as engrenagens sociais sempre se movem pelos interesses da
minoria dominante. Treplico. Todo chef
sabe que, por maiores que sejam o requinte, a raridade e a frescura de seus
pratos, eles vão virar merda. Porém, o chef
é um artista. Um artista não faz arte para que a arte tenha um sentido além de
si. Isso é com os gourmets, que o
saberão com sua alma, sua língua e suas tripas. Um artista faz arte para que
ela dê sentido a ele mesmo. E ele a faz porque o sabe e porque o pode.
Uma crônica
existe não somente para que a leiam. Ou um poema, ou um romance. Eles existem
para que o autor coloque-se diante de si e dos outros, sem pele, sem escudos, a
fim tanto de que conheça a si próprio como de que outros se reconheçam nele. Escreve-se
porque a palavra une. Unidos, quem sabe, movamos alguma engrenagem…
07\02\14
domingo, 2 de fevereiro de 2014
A PORRA DA HISTÓRIA DOS ÍNDIOS DO CEARÁ
Foto: Waleska Santiago, em Fundação Nacional do Índio - FUNAI
Pessoal, hoje,
após mais uma teste de admissão para as Casas de Cultura, eu entrei na página
do Facebook e me deparei com a seguinte postagem: “Na prova da Casa de Cultura
eu aprendi que eu preciso saber a porra da história dos índios do Ceará pra
poder aprender inglês!” (sic).
Levando em conta
a repercussão negativa que ela causou, incluindo a criação de “memes”, eu
temi que tanto a postagem quanto os comentários fossem excluídos, logo decidi
reproduzir novamente na página das Casas apenas os meus, pois acho que a
discussão sobre o tema é interessante. Aqui vão:
“Agora me deu
uma mistura de preguiça com tristeza. Talvez a culpa seja do modelo de ensino,
talvez seja o distanciamento cultural do o objeto de estudo em questão (a
CULTURA dos índios do Ceará), talvez seja o enfado natural do candidato diante
de uma prova... São muitos talvezes. Porém, temos uma certeza: a PORRA da
história dos índios figurou mais uma vez na história dos indivíduos ‘não-índios’
como a subcultura da qual se tenta libertar.
Tristeza e
preguiça. Porque, depois de tantos diálogos, de tantos exemplos, de tanta
internet esfregando A PORRA DA HISTÓRIA DOS ÍNDIOS na cara da gente e durante
um período efervescente de discussões acerca da importância do conhecimento das
diversidades CULTURAIS (incluindo a CULTURA BRITÂNICA, é claro, entre tantas
outras macro e microculturas, além das culturas de grupos sociais), e durante
uma época de lutas e de movimentos sociais, a gente tem de se deparar ainda com
o ‘complexo de vira-lata’ descrito por Nelson Rodrigues, que descreve o
brasileiro como um autossabotador nato. ‘Ficar de frente para o mar e de costas
pro Brasil não vai fazer deste lugar um bom país’, já dizia, se bem me lembro,
a música cantada pelo Milton.
Quem sabe, se
Hollywood fizesse uma série enlatada sobre o que é ser um índio no Brasil, a
PORRA DA HISTÓRIA deles, depois de maquilada, estereotipada, macaqueada e,
enfim, vendida em ‘drops’ semanais de
drama erótico-social-tragicômico, não seria aceita pela gente? Contanto, é
claro, que não escalassem nenhum ator brasileiro pra fazer os papéis
principais, pois aí, ah, aí perderia toda a graça...
E, pra quem
achar estranhos os substantivos ‘tristeza e preguiça’, ou pra aqueles que não
os entenderam no contexto, eu explico: TRISTEZA e PREGUIÇA são os sentimentos
que qualquer professor (no meu caso, de PORTUGUÊS, INGLÊS, ESPANHOL e suas
LITERATURAS), tem diante de demonstrações de BURRICE. E, ainda, pra aqueles que
acharem pesado o termo BURRICE, eu explico: BURRICE não é IGNORÂNCIA. Esta significa
desconhecimento, coisa que se resolve mais ou menos facilmente. BURRICE
significa que, uma vez exposto ao conhecimento em si ou ao seu aprendizado, o
indivíduo nega-os, ignora-os, desaprova-os, desdenha deles etc. BURRICE é não
pensar. Ou, neste caso, achar legalzinho pensar com ‘espírito-de-porquice’,
modinha bem nojentinha entre os usuários facebookianos atuais.”
Apesar das
aspas, o texto é meu. A discussão virou debate, voltou a virar discussão e
terminou com a natural polarização entre os “certinhos cult” (como me chamaram, coisa que não tenho a menor ideia do que
signifique naquele contexto) e o pobre garoto que foi mal interpretado, ou
seja, entre os hipócritas e os não-hipócritas. O problema, o verdadeiro
problema, é que todos perdemos com isso. Uma questão mal elaborada, uma prova
difícil, um candidato reprovado, nada disso é o verdadeiro tópico. Se
estendermos a imbecilidade do que foi dito, chegaremos, certamente, à
xenofobia, à cegueira do preconceito regional e étnico que reina no Brasil, mas
teimamos, no post, na polarização “cult versus…
versus… OS INJUSTIÇADOS”! Lembrando
que o “injustiçado” em questão foi o garoto que escreveu “a porra da história
dos índios do Ceará” (sic). Todos perdemos. Inclusive, as nações indígenas do
estado do Ceará, que estão sendo expulsas de suas terras para construções
estatais e privadas; que são tratadas como comunidades marginais; que são
mantidas enterradas no esquecimento daqueles “não-índios” pelas escolas, pela
TV, pelos 3 Poderes; e que (imagino) sequer estavam presentes na sala de prova
para ver sua cultura, desta vez, aparecer num teste de seleção para a Casa de
Cultura Britânica. Contudo, deve ter sido só coisa “para inglês ver”.
02/02/14
sexta-feira, 26 de julho de 2013
FELIZ DIA DO ESCRITOR
(A Shirliane Aguiar, grande amiga e poetinha)
O texto somos nós.
Só que de verdade.
Feliz Dia do Escritor, Shi.
25/07/13
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013
3 X 4 ANTIGA
(Para Rafael Escócio, mais meu do que sequer imagina)
Depois que os escrevo, os textos vão por aí, com suas próprias pernas.
Quando vêm me visitar em noites de quarta-feira como esta,
eu quase nem os reconheço mais,
como a um filho que não se vê há muito
ou como uma fotografia velha
em que me olho como se eu fosse uma grande novidade.
27/02/13
sexta-feira, 23 de novembro de 2012
quarta-feira, 22 de agosto de 2012
DESCARTE
(Ao meu querido Paulo Mosânio Duarte, para sempre, meu professor das coisas que realmente importam)
Se o que somos é bom, sejamo-lo;
ao menos, não somos “os outros”!
“Os outros” que assim o sejam,
que disso se gabem,
que com isso se enrolem na solidão noturna de suas almas!
A alma de quem É a si próprio
brilha da cor que quer,
e se destaca no céu das estrelas ordinárias,
que só piscam, patetas, embasbacadas, esquecíveis.
Quem brilha o que É norteia quem tem olhos de enxergar
e não queima em vão,
e nunca está só.
22\08\12
sábado, 23 de abril de 2011
A IMORTALIDADE
(a Paulo Mosânio Teixeira Duarte, querido professor)
Disse Paulo:
“Que dia lindo! Bom para ficar fundido em abraço com alguém. Como é bom viver, mesmo não sendo algo geométrico, rsrs. Ah, se fôssemos imortais! Não digo eternos, porque pressupõe não passar tempo. Imortalidade bastaria. Mas será que não reclamaríamos da imortalidade? Somos, nós, seres humanos, tão contraditórios.”
A imortalidade que nos alcança não ultrapassa a certeza de um momento pleno de felicidade, que, por ser pleno, cheio de si em si, é eterno, é onipresente, é justificador da vida.
Ser imortal assim, vinicianamente (“que seja eterno enquanto dure”), é dizer à vida “apesar do teu tamanho, sou imensamente maior que tu, pois, dentro de ti, envolvo-te”.
Um momento no mar, um café, um abraço chuvoso, uma tarde entre AMIGOS, tudo são pequenas imortalidades, pequenas sobreposições de si ao tempo, instantes de glória inconsciente que, mais tarde, revolvidos com o atiçador da memória, viram novamente chama, e ardem, e nos aquecem em noites como a de ontem e tantas outras.
Ser imortal é não perceber a si quando se é feliz (nem à própria felicidade, caso contrário, a percepção nos torna de novo mortais).
23/04/11
Disse Paulo:
“Que dia lindo! Bom para ficar fundido em abraço com alguém. Como é bom viver, mesmo não sendo algo geométrico, rsrs. Ah, se fôssemos imortais! Não digo eternos, porque pressupõe não passar tempo. Imortalidade bastaria. Mas será que não reclamaríamos da imortalidade? Somos, nós, seres humanos, tão contraditórios.”
A imortalidade que nos alcança não ultrapassa a certeza de um momento pleno de felicidade, que, por ser pleno, cheio de si em si, é eterno, é onipresente, é justificador da vida.
Ser imortal assim, vinicianamente (“que seja eterno enquanto dure”), é dizer à vida “apesar do teu tamanho, sou imensamente maior que tu, pois, dentro de ti, envolvo-te”.
Um momento no mar, um café, um abraço chuvoso, uma tarde entre AMIGOS, tudo são pequenas imortalidades, pequenas sobreposições de si ao tempo, instantes de glória inconsciente que, mais tarde, revolvidos com o atiçador da memória, viram novamente chama, e ardem, e nos aquecem em noites como a de ontem e tantas outras.
Ser imortal é não perceber a si quando se é feliz (nem à própria felicidade, caso contrário, a percepção nos torna de novo mortais).
23/04/11
sexta-feira, 25 de março de 2011
JOANA
Clarice Lispector quando criança
“— O que é que se consegue quando se fica feliz? — sua voz era uma seta clara e fina.
(…)
— Queria saber: depois que se é feliz o que acontece? O que vem depois? — repetiu a menina com obstinação.
A mulher encarava-a surpresa.
— Que ideia! Acho que não sei o que você quer dizer, que ideia! Faça a mesma pergunta com outras palavras…
— Ser feliz é para se conseguir o quê?
(…)
— Sente-se… Brincou muito?
— Um pouco…
— Que é que você vai ser quando for grande?
— Não sei.
— Bem. Olhe, eu tive uma ideia — corou.
— Pegue num pedaço de papel, escreva essa pergunta que você me fez hoje e guarde-a durante muito tempo. Quando você for grande leia-a de novo — olhou-a —. Quem sabe? Talvez um dia você mesma possa respondê-la de algum modo… — perdeu o ar sério, corou —. Ou talvez isso não tenha importância e pelo menos você se divertirá com…
— Não.
— Não o quê? — perguntou surpresa a professora.
— Não gosto de me divertir — disse Joana com orgulho.”
A mim, só me veio à mente o que vejo todo dia, como professor, e vou dizê-lo em inglês, para que eles entendam: satisfaction generation…
Claro, a menina Joana, de Clarice, não era uma amostra das Joanas de hoje. A Joana de Clarice era um fragmento de Clarice…
As de hoje são só fragmentos.
Porém, tentando responder bonito: ser feliz é para justificar-se a vida, e, depois, continua-se vivendo!
E o que é a vida, para ter-se de justificar?
A vida, digo eu, a vida é criar rosas, ou mangas, ou fazer café, ou ir ao cinema, ou dar bom-dia.
A vida é criar sem perceber a felicidade pela qual se vive.
A vida é você e o outro, quando não são nem um nem outro.
25/03/11
domingo, 6 de março de 2011
DIÁLOGO (COM INÊS) SOBRE A POESIA
Disse Inês:
“(…) perambular pela diversidade musical que de convergente e uniformizador tem apenas o pretérito perfeito e meu velho coração, cansado de guerra!
(…) repito uma postagem anterior:
‘— Possível, mas não interessante — respondeu Lönnrot . O senhor replicará que a realidade não tem a menor obrigação de ser interessante. Eu lhe replicarei que a realidade pode… prescindir dessa obrigação, mas não as hipóteses.’ (Borges, é claro)”
Concordo e vou além: a realidade é fruto das escolhas, que são filhas das hipóteses, que, por sua vez, são amantes da imaginação, que é onde vive a poesia.
A lógica, que é tão pragmática, não tem como não se curvar à ausência de sua própria forma, quando ela é apenas uma promessa distante e cheia só de esperança e imaginação, como o aço das cordas de um violão vive dentro de uma rocha ou uma jangada dorme dentro de uma semente.
A poesia é o que nos faz sermos. Pena que muitos não são... Apenas existem.
06/03/11
domingo, 30 de janeiro de 2011
SÓ NOS RESTA ENTREGAR-NOS
Nominuss - Wine Typography
Comentado em Estranho Sentido, de Eduarda Mendes, amiga poetisa que escreve coisas que eu gostaria de ter escrito.
A tua entrega aqui aproximou as nossas tristezas.
Dói exibir-se sem a pele, a carne, os órgãos e os ossos.
Dói porque não nos veem, e, dos que veem, poucos discernem, e, destes ainda, só há os que se condoem, servindo-nos de espelho.
E ver-se sem a pele, a carne, os órgãos e os ossos dói ainda mais.
Ai de nós, que não sabemos desnudar-nos de mentirinha...
30/01/11
sábado, 29 de janeiro de 2011
A MENINA RUIVA
Ian Robin MacLaury - Crazy Redhead
Fragmento de Trecho, de Rebeca Xavier
Olharmos para fora e preenchermo-nos com o que refletimos… Parece bom, não é? Parece que tudo ganha voz, tudo se comunica, tudo diz. E ouvimos tudo, e tudo é tanta coisa… Parece que nem o tínhamos dentro de nós, parece que nem nos reconhecemos naquele que olha, mas no chão, nas gretas, nos vincos das folhas, na beleza tão óbvia que lhes conferimos como se houvesse somente fora de nós, somente em nossa imaculadora observação. Já tudo (que é tanto) nos macula com vida, com a sujeira mundana e terrenal da vida. Parece mesmo que a vida precisa de espelhos para existir, como se nossas raízes só crescessem querendo se tocar, querendo ser floresta onde o vento mova-nos a todos, e bailemos, e existamos como um trigal, indissolúveis como a cabeleira vermelha daquela menina que sorri com o rosto sujinho de manga e terra, linda, linda.
29/01/11
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
PALAVRAS SÃO SAZONAIS
(para Lidiane, meu lampejo de vida e inspiração, este poema-diálogo com fragmento de Samba da Bênção, do nosso mestre em comum Vinicius de Moraes)
Palavras são sazonais, meu bem.
Elas estiam,
depois chovem
e não se dão de nenhuma primavera.
São filhas temporãs da prenhidão perene
de uma deusa preguiçosa, sestrosa e boa,
que nos irmana a todos em seus filhos,
para devorar-nos incestuosamente,
levando-nos de volta à mansidão primitiva
de uma pré-existência ideal:
um verbo que chove e tudo origina.
Por entre as ruas, os esgotos e as almas,
arrastam pelas cidades do espírito a secura e o mormaço,
travam gargantas,
rompem pontes,
enxurram tudo com correntes que só respeitam
barquinhos de papel.
Elas, as palavras, são ateias
e, sem que se por elas ore,
vêm diluviosas e pagãs,
irresistíveis, magníficas, heréticas,
feminis "como a pele macia de Oxum".
Meu bem,
as palavras, quando te faltam,
são o que teu corpo usa para vestir o mundo de ti;
são além:
a erma promessa de te dizeres imaginação,
que é a carne do lindo sonho que és.
18/01/11
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
JANELA DO QUARTO DE DORMIR
Poema-irmão de Quarto de Dormir, de Rebeca Xavier.
E a menina trouxe o céu pra dentro
e chovia, e raiava, e entardecia, e crepusculava
ao seu bel-prazer.
Até que, um dia, fez-se a noite,
e uma estrela linda e solitária refletiu-se
numa colcha de retalhos estendida
entre os dois céus:
um que o outro continuava
num fluido desapego de madrugada.
12/01/11
sábado, 1 de janeiro de 2011
PARA INÊS
Que essa felicidade toda,
De repente, exploda,
E respiremos o pó
Do que, um dia, sonhamos estrelas.
01/01/11
terça-feira, 28 de dezembro de 2010
AMANHÃ
abraçar
até não sobrar nada
mas abraço não se dá nem se recebe
abraço é um fenômeno
ele acontece.
28/12/10
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