Ultimamente, tenho visto pouquíssimos pardais. Antes, eram onipresentes. Tudo bem, entende-se a ausência deles no meu quintal, eu tenho seis gatos. Mas as rolinhas, os bem-te-vis e os beija-flores ainda estão lá, mesmo que mais cautelosos após alguns óbitos; os morcegos, também, farfalhando a noite em relâmpagos negros. Então, onde eles estão?
De todos os pássaros urbanos, o pardal sempre me infligiu lições, por exemplo: ele nunca se habituou ao homem. Chega um, foge o outro. Nesse quesito, difere do pombo e da hamburguesa, além do qual, há o atenuante de ninguém nunca ter caçado, capturado ou comido um pardal — meninos de baladeiras, talvez, embora isso seja coisa de sertão, onde o alvo preferido são as avoantes, hoje, raras por causa disso. De vera, ninguém lhe dá a mínima. Nem migalhas, que estas se jogam nas praças columbinas. Mesmo assim, sem ser molestado, o pardal é de natureza arisca, mais que todos os outros com suas pixilingas: ao menor sinal de gente, põe-se em alerta e chispa voo se alguém se move.
E agora, esta: somem! A ordem natural das coisas tem jeitos sutis de se queixar, antes de ignorar a criação e pôr-se a reinventar a vida. Esquentam uns célsius aqui, somem abelhas acolá, e pimba!, aparece o solo negro onde dormiam neves que se supunham eternas.
Se o sumiço dos pardais é um sinal de uma nova enxaqueca divina, pegou-nos completamente desatentos. Escolhesse o Criador um bicho mais notável, mais midiático, como o elefante-africano ou o dragão-de-komodo, vá lá, a gente perceberia. Ou não? O mico-leão-dourado e a ararinha-azul que o digam.
Desta vez, talvez o cansaço tenha sido maior, tenha sido demais. Talvez o limite de Deus tenha sido o “batismo” de Bolsonaro no Rio Jordão. Ou a Damares conclamando linchamentos morais contra o aborto legal de uma criança estuprada. Ou o Brazil como um todo, por que não? Somos um país que não merece mais pardais nem segundas chances. Talvez estejamos sendo o limite arbitrário entre os dilúvios, já que Deus parece descartar a criação com um desamor proporcional ao amor. Minha irmã costumava repetir o que os carismáticos lhe haviam ensinado: “da próxima vez, vai ser com fogo!”. Nisso, eles se assemelham bastante aos neopentecostais, já que a alucinação de ambas as congregações com o Juízo ultrapassa os parâmetros hollywoodianos, de Michael Bay para lá! Contudo, a nós, nordestinos, possa até fazer sentido: primeiro, ateia-se o aceiro; depois, revolve-se a terra nitrificada.
Eu, de minha parte, acho que tanto Deus como os pardais acharam algo melhor a fazer. Longe daqui, destas sucessões de absurdos e horrores, da compra dos votos do centrão, das torturas e assassinatos institucionais, da extrema-direita, da FIESP, do apodrecimento do Sudeste, do (des)Governo genocida, enfim, bem longe da safadeza do Brazil, devem estar numa praça qualquer mais ou menos assim: Deus, com uma marmita de cordeiro ao vinho recém-devorada, arrotando satisfeito mais um mandamento; e os pardais, pinicando, festejando com o que Lhe cai das barbas galácticas. Aqui e ali, uma pontadinha de indigestão, uma peristalse, um deslocamento de flato e uma catinguinha Lhe recordam as terras onde já gorjearam os sabiás, para onde, em Seu nome, dirigiram-se os piores europeus imagináveis, em caravelas de progresso e evangelismo. Nada que uma abanada de mão divina não afaste e uma soneca digestiva não converta em bosta santa, adubo divino do barro primordial.
09/04/21
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sexta-feira, 9 de abril de 2021
OS PARDAIS E O FIM DO MUNDO
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terça-feira, 2 de fevereiro de 2021
A LATA DE LIXO DA HISTÓRIA
Bom dia.
Não é mais possível existir limpo. Embora haja ainda os limpos, o ar quase sólido do fedor brasileiro os enterra na indignidade como tênias, como lombrigas cegas nos intestinos da mendicância civil. O único lugar habitável do País, encimando o monturo mais alto, da mais tóxica salmoura, é a lata de lixo da História. Ah, o glorioso vasilhame, o camburão onde estão os mais imundos, os mais legítimos patriotas desta máquina de moer carniças! Lá, todos são ricos e brancos, inclusive os pouquíssimos não-brancos; sua famílias, prósperas de bilionaridades; suas relações, intimíssimas, mais íntimas que a de Deus com o papa. De lá, dessa vedeta, lugar de vagas seletas, reservadas aos alpinistas mais hábeis, vertem riachuelos escuros e pastosos, compostos da decomposição dos povos ainda esfiapados entre os grampos de suas botas. Nunca são limpas, pois são distintivos da força e bravura com que o conteúdo da lata mereceu o seu continente. Quanto mais carcaças entre os dedos, tantos mais auspícios entre os seus, e, consequentemente, mais alto o seu lugar na pilha, a qual, como toda boa pústula, entumesce indefinidamente gorda e vertical. No pico, a bandeira hasteada, mortalha indecentíssima do cadáver em decomposição eterna, freme putamente acenos desavergonhados de luxúria direcionados ao céu da lata de lixo, ao céu de todas as latas de lixo da História, a tampa distante, cujas enormes ranhuras, vistas de um certo ângulo, lembram a sola de uma enorme bota onde se lê, com a solenidade e a servidão que a fé verdadeira exige: "made in USA".
Bom dia.
02/02/21
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Roberto Schwarz
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