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sábado, 13 de janeiro de 2024

"THE BROWNING VERSION"

 
Mike Figgis - The Browning version
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(Para Sérgio Alencar e Paulo Mosânio Teixeira Duarte, que me ajudaram a dar serventia às palavras)


    “God, from afar, looks graciously upon a gentle master”.
    Ser um professor foi, certamente, a escolha de vida que mais me consumiu. Perde-se muito quando se entrega corretamente o espírito. Talvez para aliviar um pouco as articulações desse mesmo espírito, eu goste tanto de ver (bons) filmes sobre o magistério, sem a pieguice das superficialidades, quais sejam: o poder de transformação da sociedade, a perpetuação de valores e conhecimentos, blá-blá-blá. Não transformamos quase nada em termos sociais, efetivamente, e, se perpetuamos algo, este é, principalmente, a invariabilidade da estrutura de opressão do mundo. Eu ainda nem tinha decidido se entraria, ou não, na faculdade, menos ainda se seria professor, quando assisti à versão de 1994 de The Browning version, provavelmente o melhor de todos os filmes que vi sobre minha profissão, justo por tratar de algumas das grandes dores que, se ainda não o foram, serão vivenciadas por qualquer professor: a frustração, a obsolescência, a derrota, a subqualificação.
    A versão de 1994 (dirigida por Mike Figgis e produzida por Percy Main) é a refilmagem da de 1951 (dirigida por Anthony Asquith), a qual, por sua vez, é a adaptação da peça homônima de Terence Rattigan, de 1948. O roteiro é adaptado por Ronald Harwood sobre o livro de Rattigan, o qual é creditado como corroteirista. Harwood foi indicado ao BAFTA, e Figgis, à Palma de Ouro por esse trabalho. De antemão, peço perdão a quem quer que leia este texto pela não citação do título comum aos dois em português, dadas a tacanhice interpretativa de quem o “verteu” e a subsequente indignidade de menção. O Google pode muito bem expor essa estupidez no meu lugar. Contudo, a obra cuida rapidamente de estabelecer a que vem.
    O filme também é, de certa forma, uma testemunha das mudanças dos meados dos anos 90. O professor de Estudos Clássicos de uma escola tradicionalíssima inglesa, chamado Andrew Crocker-Harris, interpretado pelo magnífico Albert Finney (vencedor da premiação de melhor ator na Boston Society of Film Critics Awards por esse trabalho), está sendo substituído por um professor mais jovem e com uma abordagem moderna, interpretado por Julian Sands, cujas limitações interpretativas foram perfeitamente aproveitadas por Figgis em sua personagem para fazer o contraponto, o perfeito contraste à grandeza da personagem de Finney, e à deste próprio. As transformações sociais são sutil e organicamente mencionadas na obra: o início da acessibilidade geral aos computadores, o fim da perestroika, a incorporação da diversidade cultural aos Estudos Clássicos, a presença incômoda dessa mesma diversidade na própria escola, portanto, na própria elite britânica, tudo está lá. Andrew também está com problemas cardíacos, desculpa utilizada pela corpo diretor para a sua demissão, e vivencia a ruína de seu casamento com Laura (Greta Scaachi, espetacular), aproximadamente 20 anos mais nova que ele, por quem se incompatibilizou e criou aversão e que o trai com Frank Hunter (Matthew Modine), o professor de Ciências. Andrew é chamado de “Croc”, ou o “Hitler da 5ª série”, apelidos maldosos que lhe deram pelas costas os seus alunos, que têm por ele, acima de tudo, temor. Tive eu mesmo, no Ensino Médio, um grande professor de Português chamado Sérgio Alencar, o qual apelidávamos de “o carniceiro de Acaraú”. Inventávamos várias histórias sobre uma cicatriz em forma de meia-lua que trazia na ponta do queixo, e, mesmo dentro da nossa molecagem de cearenses, tínhamos-lhe grandes medo e respeito. Sérgio foi, e ainda é, precedido por Paulo Mosânio, um dos meus dois espelhos de profissional. Certamente, em vários momentos, isso me levou também a ser, em várias ocasiões, o carniceiro de tantos e tantos alunos.

 
Mike Figgis - The Browning version
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    A derrota de Andrew é a derrota de todo e qualquer professor, e estas são o ponto central, a base que me fideliza à personagem: a sua certeza vergonhosa do fracasso em ensinar e a consciência de que não fez o melhor que poderia ter feito. Andrew não entende como, nem quando, as crianças pararam de rir de suas piadas e passaram a isolá-lo em suas tentativas de lhes mostrar o que tinha de melhor, que era a paixão pelo que ensinava, assim como a fé em que a cultura, como fundamento civilizatório, tinha nele o maior responsável pela sua perpetuação. Ele sabe que falhou na sua missão e vai terminar de cumpri-la resignado, assim como se resignou diante de todas as injustiças cometidas pela esposa e pelo colegiado, que pretende culminá-las na preterição de Andrew no discurso de despedida ao corpo discente. Juntamente com ele, um professor chamado Fletcher, que é idolatrado pelos alunos pelo seu sucesso no críquete, esporte no qual é campeão, vai deixar a escola para poder competir nacionalmente. Por esse motivo, pede-se a Andrew que abra mão de sua prerrogativa de encerrar o evento em função de Fletcher, argumentando que o oposto seria um anticlímax. É a derradeira ofensa. É a morte simbólica de um mestre ante a glorificação de um ídolo, o qual, não por acaso, demonstra-se inepto fora de seu esporte.
 
 
Mike Figgis - The Browning version
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    No meio desse processo, o jovem Taplow (interpretado com uma excelência incrivelmente precoce por Ben Silverstone, com 14 anos à época), aluno de Andrew, parece ser o único que consegue ver além da sua couraça. E é aqui que o filme acerta no âmago de qualquer professor. Taplow, que pleiteava trocar os Estudos Clássicos pelas Ciências, razão pela qual tinha todos os motivos para antagonizar Andrew, é o único que se  identifica com o seu amor pelos clássicos, tanto que compra com seu próprio dinheiro uma versão de Robert Browning (daí, o título) de Agamémnon, de Ésquilo, para presenteá-lo. Andrew diz, após receber o presente e se mostrar pela primeira vez vulnerável, a ponto de desabar em prantos diante de Taplow, que aquilo valia mais que qualquer coisa que pudesse ganhar naquele momento.
    É nesse ponto que se inicia o terceiro ato do filme, o qual não vou arruinar aqui com pequenas descrições. Porém, Figgis, magistralmente, faz um jogo de clímax-anticlímax-clímax que é arrebatador. Não é novidade que toda história bem contada, em que há o reconhecimento e a ascensão após uma longa humilhação, é, de fato, garantia de sucesso de audiência. Também não é, para quem assistiu à obra, é claro, um drama com uma história original. É bem verdade que já vimos inúmeros assim, e um enredo em cujo clímax o protagonista revela suas fraquezas e recebe o devido mérito por sua humanidade chega a ser até um clichê. No entanto, Figgis conduziu o microdetalhismo da interpretação de Albert Finney e Greta Scaachi, assim como o brilho irresistível e a veracidade de Ben Silverstone, de tal maneira que tudo nesse filme é extraordinariamente inato, original, como uma canção genial dentro de um gênero ordinário, a qual, de tão singular, parece pertencer a um gênero próprio.
    The Browning version ficou décadas dentro de mim, que o procurei, sem sucesso, nas minhas garimpadas em sebos e locadoras. Encabeçava minhas listas (sim, eu as fazia, no Excel, inclusive) de filmes a serem possuídos. Nem mesmo na internet, eu o havia encontrado, até que o consegui ontem e o vi hoje, dia 12. Comecei a escrever esta crítica (ou ensaio, ou resenha, ou sei-lá) imediatamente após me reencontrar nele e com ele. Eu o vi pela primeira vez nessas sessões televisivas noturnas nas quais me refugiava ali pelos meus vinte e poucos anos, quando a angústia, o medo e a depressão me afastavam cada vez mais da vida. Ainda não era professor, e faltava muito pouco para me perder do estado de ser alguma coisa e me encontrar apenas como uma coisa, em último resumo. The Browning version, assim como algumas outras preciosidades, mantiveram comigo um diálogo que, sem exagero nenhum, me ajudaram a chegar até aqui e, de várias formas, ainda me ajudam a continuar, como as “minhas” músicas e minhas plantas, meus relicários e minhas memórias, uma coleção de mim que me suporta o reconhecimento neste mundo e em meu espelho. Hoje, após metade de minha vida sendo profissionalmente um professor, esse filme é particular e intimamente meu. Assim como os de Andrew, são os meus fracassos que legitimam as batalhas que lutei. Assim como a de Taplow, foi escrita por mim a citação com que o Agamémnon foi presenteado a Andrew: “Deus, à distância, considera graciosamente um gentil mestre”. E fui eu que o recebi.
 
 
Mike Figgis - The Browning version
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    Assistam com todo o coração.

13/01/24

segunda-feira, 1 de maio de 2023

CRÍTICA DE "THREE THOUSAND YEARS OF LONGING"

 

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    Mais uma de George Miller! Depois das franquias “Mad Max” (“Fury Road”, de 2016, é um dos melhores filmes desta década) e “Babe” (1995), de “As bruxas de Eastwick” (1987) e “O óleo de Lorenzo” (1992), ele produziu, escreveu e dirigiu em 2022 o excelente “Three thousand years of longing”, com Tilda Swinton e Idris Elba. Antes de mais nada, uma reclamação: eu me recuso a aceitar o título vertido para o português, logo não vou mencioná-lo aqui. Não sei o que se passa com os responsáveis por essas versões! Dependendo do filme, elas acabam afastando o seu público-alvo com uma repetição exaustiva de clichês que eles julgam adequados para cada gênero: se é romance, tem de ter “amor”, “paixão”; se é ação, tem de ter “mortal”, “fatal”; e por aí vai. Por que não traduzir, simplesmente? Qual seria o problema com “Três mil anos de saudade”? 

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    Pois bem. O filme é, como toda boa grande obra contemporânea, um passeio por alguns gêneros (romance, drama, fantasia), com algumas intertextualidades descaradas e outras, muito sutis, e muita, muita metalinguagem, e acho que é aqui que ele brilha mais: o metatexto não é cinematográfico, mas sim literário, ou seja, a jornada da personagem principal é, simultaneamente, diegética (visto que ela assume a perspectiva sobre si, narrando-se à medida que evolui) e exegética (pois essa própria jornada é composta de uma constante análise literária sobre si mesma, num dilema entre realidade e irrealidade). O roteiro, coescrito por Augusta Gore, é baseado no conto “The Djinn in the Nightingale's Eye”, de A. S. Byatt, e traz Swinton como Alithea Binnie, uma “expert” em Narratologia que, desde criança, lida com algo semelhante à esquizofrenia, porém, como se desenrola em uma narrativa fantástica, o roteiro trata suas visões como personagens literárias com as quais ela convive em sua profunda solidão. As estórias tomam o lugar de sua própria vida, soterrando tudo que não seja pertinente à sua profissão, na qual é uma autoridade mundialmente reconhecida.

    Em um dado ponto, bem no seu início, após uma crise e um desmaio de Alithea em uma palestra em Istambul, o filme abraça a fantasia de que dava sinais nos primeiros minutos, e George Miller nos conduz sob os questionamentos entre realidade e irrealidade, alucinação e mágica, tudo isso, graças ao paradoxo que a rapidíssima caracterização da personagem de Alithea nos apresenta: ela é, simultaneamente, uma cientista e uma esquizofrênica e, dadas as estratégias que desenvolveu para lidar com sua condição, possui um alto grau de suscetibilidade e de controle sobre os seus episódios (os primeiros minutos são guiados por ela, como narradora de uma realidade alegórica de sua própria realidade, e, nesse momento, eu me lembrei do ótimo “Don Juan de Marco” — 1995 —, de Jeremy Leven). A partir daí, passamos quase uma hora e meia sendo conduzidos por narrativas dentro de narrativas, num jogo de argumentação por parte de Djinn, personagem de Idris Elba, e dúvida por parte de Alithea, até que ocorrem a aceitação e a entrega total a toda a personalidade que ela havia soterrado sob camadas e camadas de escapismo e autoproteção. Vale aqui ressaltar que uma das várias intertextualidades do filme é com a mitologia ocidental e a oriental. Alithea (Aleteia) é uma personagem da mitologia grega que representa a verdade suprema (a manifestação daquilo que é ou existe tal como é), e Djinn (gênio) é uma personagem das mitologias pré-islâmica e muçulmana, equivalente (mais ou menos) ao “dæmon” grego. Ironicamente, a verdade de Alithea precisa ser revelada, o que só acontece depois que ela abre mão de todas as suas dúvidas sobre Djinn, aquele que, em todas as histórias de que se tem conhecimento a seu respeito, existe apenas para enganar e ludibriar as pessoas com a realização falsa de seus desejos mais verdadeiros.


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    George Miller, Tilda Swinton e Idris Elba conseguiram equilibrar numa história o encantamento, a filosofia, o romance e o drama numa mistura que me capturou do início ao fim e que permaneceu, durante a escrita deste texto, frutificando em possibilidades interpretativas que, certamente, permanecerão aqui. Vi “Three thousands years of longing” com a sensação de estar vendo algo novo e original, muito provavelmente, devido à mistura inusitada de narrativas que ele ia me recuperando da primeira à última cena. Acho que foi uma postura diferente, andando pelos mesmos caminhos, que acabou por criar uma paisagem completamente nova.

     Assistam crédulos.

01/05/23

quarta-feira, 8 de março de 2023

"AS PESSOAS SÃO INCRÍVEIS" - UMA CRÍTICA DE "A BALEIA", DE ARONOFSKY

 

     Uma vez, o excelente crítico cearense de cinema P. H. Santos disse (sobre o Pinocchio de Del Toro) que tem filmes que já nascem clássicos. A baleia é isso, devastadoramente. Baseado numa peça premiada de 2012 de Samuel D. Hunter, esse filme de Darren Aronofsky (Cisne negro, Réquiem para um sonho) nos destrói e nos reconstrói com a delicadeza e a potência que não são comuns nesta época de superficialidades. É descaradamente metalinguístico e intertextual, de modo que exige de nós algum conhecimento mínimo de Moby Dick, obra na qual colhe elementos intra e extratextuais, pra que ele atinja o ponto certo de nossa sensibilidade. Aconteceu, pra minha sorte, que o livro de Melville me catou muito cedo, ainda criança, frutificando em uma enorme tatuagem no meu braço esquerdo e no segundo nome do meu primeiro filho. Entenda-se, daí, o grau de destruição, no melhor sentido, à qual esse filme acaba de me submeter. Brendan Fraser fez não só o trabalho mais importante (em termos de intensidade e identidade) de sua carreira, mas entregou uma interpretação que (tenho certeza) só poderia sair de onde dói, de onde se estertora, de onde se morre. A trilha sonora é o que conduz tudo, e, assim como vários outros elementos intertextuais, concorre pra nos conduzir ao mar, às gigantescas tempestades e à tensão da morte onipresente que são evocadas a partir do clássico de Melville. Há também uma similaridade com Mar adentro, filme de Alejandro Amenábar de 2004, mas não vou comentar isso pra não estragar a experiência.
     A baleia é desses filmes que, uma vez que já se sentiu o peso da vida ao menos uma vez, transforma o espectador permanentemente. Sugiro que apenas os que não se envergonham de seus sentimentos (caso os tenham) o vejam no cinema. Os demais, ele os encontrará inteiros e os despedaçará com a força e a fluidez de uma enorme onda, e é bom terem à mão algo que não os permita afogarem-se.
     Assistam sozinhos.

25/02/23

sábado, 7 de maio de 2022

E QUEM UM DIA IRÁ DIZER...?


“E quem um dia irá dizer…?” Quem diria que um filme que tinha tudo pra não passar de uma homenagem melosa ao Renato recheada de fan services da Legião pudesse ir tão além, e tão cinematograficamente honesto e delicado? “Eduardo e Mônica” me catou no primeiro “bom-dia”, que o ótimo Gabriel Leone (Eduardo) dá a um pôster de Malu Mader pregado na parede de seu quarto (o filme se passa em 1986, ano do lançamento da obra-prima “Dois”, disco do qual consta a música que o inspirou). Não há retoques nas atuações dos atores principais: Otávio Augusto (sempre carismático), Juliana Carneiro da Cunha e Victor Lamoglia (o “carinha do cursinho”) dão os suportes luxuosos aos arcos dramáticos individuais dos protagonistas. Alice Braga deu à Mônica uma maturidade e um conflito que fazem o paradoxo perfeito com a inocência e a aparente inexperiência do Eduardo de Gabriel Leone: aquela, não é nenhuma surpresa que seja excelente, porém consegue se reafirmar sempre; este cativa a gente da primeira à última fala (também pudera, o Eduardo da música — e esse, do filme — representa milhões de adolescentes oitentistas, e não há como quem tem mais de 40 não se identificar com esse cara). E esse mérito é dos dois atores e do diretor, René Sampaio, que pintou esse filme com a ajuda da fotografia ESPETACULAR de Gustavo Habda. O roteiro e o argumento de Matheus Souza são uma (aqui, sim!) verdadeira homenagem ao Renato e à minha geração (o cara colocou uma Caravan — o Renato possuía uma — como o carro da família da Mônica!). O filme é, enfim, uma delicadeza concretizada em imagem depois de 36 anos que sua história nos foi cantada e (insisto!) vai arrancar lágrimas de cada verdadeiro legionário. Assistam como se tivessem nascido em 1974 (ou antes) e se (re)apaixonem.

07/05/22