Número de sílabas (desde 11/2008)

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segunda-feira, 29 de junho de 2020

JÁ FUI CAÇADOR DE SONHOS

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    Sinto saudades dos meus pesadelos originais. Das aranhas intangíveis, do mar de anzóis, dos monstros perseguidores, dos diabos antropomórficos, das quedas abissais. Esses eram fantásticos, cinematográficos. Vinham o terror, o susto, então o despertar e um subsequente sorriso feito de adrenalina e endorfina. Já os de hoje são tão banais, tão novela das oito e, por isso mesmo, tão fatigantes e punitivos… Será que a vida vai apodrecendo até nos pesadelos? Ou perdeu-se mesmo foi a minha capacidade inconsciente de ser original?
    Já fui um caçador de sonhos. No redormir, pelejava com os meus labirintos de além por encontrar nem que fosse um rastro, uma sobra de mim e dos meus vilões de havia pouco. Tive pouquíssimo sucesso nessas empresas. Sonhos são criaturas de vento e fumo, desprovidas de fidelidade e teimosia. Pesadelos, então! São como assaltantes de alma, que levam a paz e deixam a aventura no lugar. Mesmo nessas caçadas exitosas, não conseguia capturar a presa inteira, em perfeito estado. Isso se dava, acredito eu, porque não deve ter muita graça para uma onça fingir que é um peba e enfiar-se terra adentro para ela mesma dormir o seu sono onírico. Caçadora é ela, sempre foi, não eu, nunca eu! Mas, aqui e ali, um sonho deixava-se pegar pelo rabo e corria de novo comigo pela mágica universal da criança que todos nós voltamos a ser quando os caçamos.
    Hoje, sonhar parece ser só algo que acontece, e ter pesadelos não deixa mais a sombra corsária do náufrago resgatado nem a angústia azul-celeste do fugitivo em liberdade. Também é só algo que acontece, arrancando a paz e deixando um buraco prenhe de perguntas renegadas. E a alma, violada, não quer nunca mais dormir. E o espírito, vigilante, de faca na mão, com sangue nos olhos, do lado de fora da casa do corpo, espera. O dia inteiro, espera, até que o dia, esse fascículo rude da vida, insípido como um chiclete frio e mastigado, traga outra vez o acontecimento do sono e vença.
    Não busquei nem fui buscado. Apenas aconteceu. Não tem nenhuma glória o tropeçar em alimento morto, mas come-se, digere-se e espera-se que, dentre o capim seco das primeiras horas, ressurja a caverna de Grenouille, e o meu mundo de aromas me ascenda novamente à selva lisérgica onde minha alma volte a ser das feras a amante medieval, expectante, apavorada e gozosa na torre do castelo.

29/06/20

sexta-feira, 12 de junho de 2020

TOLERÂNCIA


    Sempre odiei o verbo “tolerar”. Oriundo do latim tolěrare (suportar, aguentar), e este, do tollere (levantar), o verbo “tolerar” sobrecarrega o seu objeto direto com a semântica odiosa do erro, da incorreção, da ausência de enquadramento, e o seu sujeito, com a perigosíssima posição de juiz paternalista detentor do poder da “tolerância”, substantivo ainda pior que o verbo. Essas palavras são exemplos tanto da hipocrisia quanto dos preconceitos estruturados na língua e, consequentemente, na cultura (pois a primeira antecede a segunda como causa desta). Pessoas, sexualidades, religiões, etnias, culturas não devem ser “toleradas”, mas sim legitimadas como soberanas em suas singularidades. Somente assim, na pluralidade legítima, poderá haver um legítimo Estado democrático de direito, pois o “tolerante” nada mais é do que um hipócrita com uma casa cheia de tapetes sob os quais apodrecem os esqueletos de seus preconceitos.

09/06/20

terça-feira, 9 de junho de 2020

MADERA


Aunque nadie lo sepa,
lo que dentro de mi canta
llena los espacios
prohibidos a quienes no soy,
donde hay un mar de espíritus bailantes
y todo el sentimiento del mundo.

Sin embargo, los de fuera
intentan callarme
incluso el silencio.

A ellos, les canto
que soy yo mismo una canción,
que reverbero en los huecos donde no estoy
con todas las voces en coro
de aquellos que, como yo,
son madera que,
en el instrumento más precioso
y ante el fuego del infierno,
canta.

09/06/20

ROUPA DE SAIR

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de tanto mudar a roupa
de sair
fiz que o domingo passasse
que todos os dias fossem a experimentação
teórica apenas
da rua e do mundo

na agonia da nudez
é que vivia
e o entra-e-sai n(d)os tecidos
polia a pele
para um sol que nunca me viu

09/06/20

quarta-feira, 27 de maio de 2020

SOPA DE LETRINHAS

    Não é isso que quero escrever. Quero escrever que sinto saudades. Faz falta andar de bicicleta de madrugada. Faz falta escrever de madrugada à luz de velas como se isso fizesse o texto melhor. Sinto falta dessa ingenuidade… Conversar horas no telefone com minha amiga N., que não quer mais falar comigo. Com razão. Nunca fui um bom amigo nem a ela nem a F., W., O. etc. Sinto saudades deles todos como sinto de mim mesmo, que fui quem eu mais traí. Não que isso seja de modo algum uma reviravolta surpreendente ou uma obra de forças ocultas a que chamam de acaso, não é nada disso. São favas contadas. Eu só esperava, do fundo do coração, que tivesse se desenrolado diferente, com talvez, digamos, um atraso nas contas do carma ou um adiamento, quem sabe? Eu esperava que eu mesmo só aparecesse para estragar tudo no final da história, numa risada nervosa ou num ataque de fúria, deixando transparecer finalmente que eu não sou, não era, nunca fui direito quem lhes foi amigo, professor, amante, familiar. Eu, eu mesmo, não me sinto nada disso. Talvez, escritor. O caso é que eu sinto enormes saudades… Sinto falta agora, depois de ter visto filmes e ouvido tantas músicas, de conversar com meu amigo W., que já morreu, sobre esse eu que sentiu o que gostaria de compartilhar, mas está sozinho. Como sempre desejara estar. Sinto falta de mostrar meus textos a N., a primeira (a única, na verdade) a me esfregar na cara que eu era um merdinha de um parnasiano. Nunca mudei completamente, mas conversávamos sobre isso, e era tão bom… Perdeu-se. Sinto falta de uma certa injustiça, que era justamente a de me saber desconhecido dos que me amavam. Minha mãe, T., nunca me leu. Tampouco, meu pai, L. Hoje, com tantos textos tornados públicos (menos equivocado que “publicados”), sei que pouquíssimos me leem, e isso não me dói, ainda que haja no fundo um desejo de a ou b os lerem, mas não me dói sobremaneira que não o façam. Porém, sinto falta de sentir falta de ser lido. Existia alguma coisa de romântico naquilo que eu tinha e, principalmente, no que não tinha. Eu me fechava completamente ao mesmo tempo em que desejava ser aberto, mas algo acabava por entrar, contaminando. Com o tempo, essa sílica entranhada na carne emperolou-se numa enorme esfera de cinismo e insipidez que hoje gosto tanto de fazer confundir com literatura. Mas é só isso mesmo. Contudo, sinto saudades de ser uma ostra legítima, aquela que sofria legitimamente uma prenhez forçada de alguma coisa bela na escuridão do fundo do mar. Essa coisa, que eu escrevia, sangrava, silenciava, essa coisa tinha lá sua beleza. Sinto saudades de falar dela… Sinto saudades porque havia um certo encanto na inutilidade daquele martírio, e conversar com C., L., T., R. sobre aquilo me validava enquanto seu amigo. Sinto saudades de me embriagar com eles, ainda que não houvesse ali nenhum pertencimento de minha parte. Era só minha solidão compartilhada no fundo do copo. Mas, como me faz falta… Hoje, não sinto mais vontade de beber nem de sair para beber. Não sinto saudades do blues, que tanto ouvia com I. e com O. Mas sinto saudades de mim com eles. Eu estar com eles era eu. E isso já não existe mais definitivamente. Hoje, eu me contento, infelizmente, com saber de tudo isso. Saber que, se W. estivesse aqui, eu poderia ligar para ele e comentar sobre a descoberta tardia da Lhasa de Sela, via L., amiga nossa em comum, e dizer de todas as maravilhas que a voz dela me refez sentir. Se não tivesse me distanciado de R., de A. ou de M., eu poderia ou estar bebendo debruçado sobre uma crítica de filme ou pedalando numa noite qualquer dessas, rindo das pessoas no meio da rua. Poderia estar jogando vôlei com F., J. e K., poderia estar ouvindo Led Zeppelin com M. Poderia ter, se não houvesse acontecido tanto, de novo a companhia de F. numa de nossas aventuras impossíveis e absurdas de quem não tinha dinheiro e conseguia realizá-las. Saber disso é o que tenho. Isso e as letras, que tomaram o lugar de seus nomes numa sopinha de lembranças de um enfermo crônico de gripes e de crônicas. Padecer ainda é sonhar, e sonhar, bem… Sonhar ainda é interceder com violência contra essa vida besta drummondiana.

27/05/20

sábado, 9 de maio de 2020

O COLECIONADOR


    E se ele fosse desses homens que são definidos pelas posses? Desses, a quem a vida só marcou na coleção de canecas ou nos discos acumulados na estante? Agora, quando tudo parecia estar se pondo a termo, inclusive lá fora, a vida dos outros, inclusive a terra, o ar, os pandas-vermelhos, agora, ele seria desses com gavetas no caixão? Sofreria em vida com a avareza dos mortos, que, não mais tendo outra coisa que não a própria matéria, reconstroem-se no fetiche que outros poderão vir a sentir pela matéria acumulada por eles? A matéria, essa sim guarda os acontecimentos, porque acontecimentos, para serem memória, precisam estar documentados, registrados — “Aqui, esta pedra eu catei no jardim do passadiço que dava na entrada da casa dela, naquela noite de tanto medo e fatalidade, que se converteram em cãs, filhos, barriga e dívidas, inclusive e principalmente comigo mesmo…”. Disso ninguém saberá? Inaceitável! Mas são coisas demais… Tudo parece demais. Andou tendo amnésias do que não poderia esquecer, do antes, do imaterializado, do sem registro. Sua incomunicabilidade não lhe permitia passar adiante essas coisas. Mas essas coisas… essas coisas não se passam adiante, soa até errado, como um contágio, um espargimento de moléstias, ainda que sejam, de fato, em sua maioria, lástimas, lástimas pelo que não teve, pela consciência da impossibilidade de ter, lástima pelas perdas, e foram tantas… O que seria dele sem suas perdas? Havia por certo de mantê-las, mesmo que fossem materializadas em expressões, em silêncios e em inações. Haveriam de ser vistas, todos haveriam de sabê-las, elas não se perderiam no tempo. Lembrou Blade runner, estava chovendo. Onde estariam os pombos naquela chuva? Mas pombos espalham doenças, e lhe vieram de novo as visões de pragas e pandemias. E se escrevesse? E se rabiscasse tudo em alegorias floreadas, acumulasse as brochuras e deixasse, como último bilhete, o desejo de que fosse tudo incinerado junto com seu corpo, tornando-se tudo uma só matéria, esfumaçando a atmosfera em fuligem e pó, que incomodariam, que fariam todos saberem? Mas, de certa forma, a memória das coisas que incomodam tende a só ser recuperada na presença da causa. Ele, como causa, nunca mais seria presente… Tornou-se sem efeito sua divagação. Não havia jeito. Tinha de desfazer-se de tudo. Deletar-se, aniquilar-se. Na inexistência, talvez, na lacuna deixada como uma pergunta — “Ué, cadê?” —, causasse o efeito que tanto temia não causar. Talvez, inexistindo, existisse. Pôs em prática imediatamente o projeto. Etiquetou o que dava, arrolou tudo em listas, que deixou em locais estratégicos. Não faria estardalhaços. Nada de bilhetes, e-mails nem gritos na janela. Haviam de achar tudo, haviam de testemunhar seu desaparecimento em todas as coisas testamentadas, e só. Ao final, aflito e orgulhoso, abandonou-se no sofá. Diante dele, a tevê. Sentiu vontade de assistir à última programação, que era sempre a de costume. Endilemou-se entre ligá-la ou não, já que estava com alguns post-its no monitor. Pensou em como odiava a maneira canalha como a língua inglesa havia feito embaixada em sua vida. Post-it! Seria lembrado como aquele que deixara post-its? Arrefeceu, achou melhor ler alguma coisa na internet ou algum e-book de estimação. Os livros já estavam encaixotados, o celular teria de dar conta. Levantaria, abriria a caixinha original, colocaria de volta o chip e o cartão de memória — dera-lhe tanto trabalho etiquetá-los! —, veria alguma coisa… Não, era enfadonho demais. Olhou em volta, havia papeizinhos por toda parte. Pensou em sair, em fugir, em realizar o desejo do José, o do Drummond. Sorriu. Também não tinha parede nua para se encostar. Quem sabe, uma mulher nua, então? Àquelas horas, mas… não há tempo em que elas não trabalhem. Precisou de ar. Percorreu a sala, chegou à porta, mudou o último post-it de lugar a contragosto — dera-lhe tanto trabalho! —, saiu. Sentiu vontade de comer pão passado com café. Adorava café. Ao lado da padaria, haviam aberto uma papelaria moderninha, com esses post-its coreanos. Quem sabe, não seriam colecionáveis?

08/05/20

terça-feira, 28 de abril de 2020

NÊMESIS

Mosca-varejeira
(Fonte: Google Imagens. Clique na imagem para ampliá-la.)

   Talvez tudo tenha começado quando leu Kafka na adolescência, ali pelos treze anos — “Praza a Deus que tenha sofrido muito em vida, esse desgraçado!” Ficara tão desesperado com A metamorfose que retornou a mijar na rede, obrigando sua mãe a lançar mão de bacias e muita água sanitária, cujo aroma passou a lhe dar uma certa reconfortância. Virou o seu cheiro preferido desde então. Sempre fora um menino frágil, filho único, e a mãe o mimava. Já o pai, bruto que era, achou aquilo um caminho aberto para o afrescalhamento que vaticinara à esposa já adivinhar rondar seu filho e apelou para o cinturão e as humilhações — “Antes morto que viado! Aqui, não!” A gota d’água foi a manhã em que o obrigou a ficar só de cueca do lado de fora da casa, com a rede mijada enrolada em trouxa sobre a cabeça, levando coiós e o nome de mijão, gaiatice atiçada pelos entregadores de pão e jornais. Haveria de aprender, ora se não! Mas não se deu assim. Aquilo custou ao pai um divórcio litigioso, a negação sumária do direito à visitação e, de quebra, um enquadramento no crime de violência contra um menor. A pensão foi gorda, os advogados deram um jeito, ninguém foi preso, mas o pai voltou para o interior de vez e não quis mais saber da família. Chegava a querer brigar se lhe perguntavam do filho. Quanto a ele, somando-se os pesadelos oriundos da imaginação de um inseto gigante, a mijadeira, as surras, a humilhação e o abandono do pai, aquilo lhe custou a perda definitiva da saúde mental, a qual dera lugar a um senso extrapolado de esmero com a higiene física e um subsequente pavor de insetos.
   Para ele, insetos eram uma coisa detestável, mesmo os coloridos e mais populares como borboletas, joaninhas e esperanças. Imaginava-se envolto numa casca superprotetora de tecido e loções que lhe assegurava a imunidade aos ferrões e às patinhas infinitas munidas de asas — como drones espargindo doenças e morte — das muriçocas e afins. Não se vestia; encouraçava-se. Eram camadas e mais camadas oleosas e pastosas que, mal ressecavam, eram sobrepostas de outras, o que lhe deixava a pele ictíica e a aparência encerada, tudo isso sob tecidos semiendurecidos de produtos em aerossol comprados on-line que garantiam afastar de mosquitos até cobras de pequeno porte. Contudo, mantinha um respeito espectral às baratas, ainda que as considerasse as próprias emissárias do inferno encarnadas. Depois que descobrira que elas resistiriam a hecatombes, que viveriam sem a cabeça, que faziam hábitat em três dos quatro elementos — “Uma barata-fênix seria demais!” —, passou a imaginá-las como algo além do ordinário peçonhento-vampiresco-primaveril dos outros insetos, algo quase sobrenatural.
   Porém, o que odiava acima de tudo eram as moscas — “Mosca pousou, é o fim. Pode enterrar.” Tinha-lhes um asco refinado, uma ojeriza pungente. Dedicava horas a odiá-las, nemesificando-se, engendrando alucinações de destruição em massa. Moscas pousavam na bosta e nos cadáveres, na podridão do mundo. Além do mais, estava certo de que elas possuíam uma inteligência maligna e rudimentar, maquinada à moda de uma espiral, que lhes capacitava a propriedade, entre outras, de intuir o local exato do corpo humano que era impossível de se alcançar para espantá-las, matá-las ou, simplesmente, coçar o rastro ultrajante que deixavam na pele.
   Assistira a uns vídeos na internet — talvez por masoquismo — que mostravam o estado putrefato em que ficavam animais vítimas das larvas da mosca-do-berne depositadas neles subcutaneamente. As moscas inseriam seus ovos num inseto hospedeiro, uma mutuca, um mosquito, por exemplo. Esse arauto da destruição, por sua vez, picava o gado, no qual depositava as larvas do berne. Essas larvinhas devoravam os músculos do gado ainda vivo e causavam infecções que os consumiam, para, quarenta e cinco dias depois
— quarenta e cinco dias! , caírem no solo, onde se enterrariam até eclodirem na forma alada, alastrando a pior morte que ele jamais concebera até aqueles minutos de agonia informativa.
    Em virtude dessa fobia toda, seu apartamento se tornara um ambiente praticamente estéril, faltando um quase-nada para ser nocivo à própria vida em si, dada a quantidade de dispositivos repelentes que decoravam tomadas, paredes e aparadores. Nenhum dos víveres ficava à mostra, nada que cheirasse a doce ou a qualquer tipo de refeição se identificava em lugar algum. Por todas as possibilidades de contato atmosférico com o mundo exterior que o condomínio não lhe permitira tapar, ele havia mandado instalar telas de malha finíssima, todas tratadas com os mesmo produtos que borrifava nas roupas e nos tecidos dos sofás. Dessa forma, nesse exagero, que começou com pequenas excentricidades como raquetes elétricas em cada cômodo e a incipiente compulsão pela limpeza das superfícies, ele vivia.
    Seus amigos foram migrando pelo território constrangedor que ele pavimentava de plaquinhas adesivas e veneninhos em pó. O êxodo começou com as piadas do que acreditavam ser excentricidade, falta de mulher ou TOC. Passou à mitologia que acompanhava seu nome ausente de corpo nas rodas de cerveja — “Teve um primo que morreu de H1N1, coitado. Deixa ele.” — e à indulgência piedosa por acreditarem tratar-se de uma doença — “Meu Deus, isso é entomofobia, eu vi, isso incapacita a pessoa! Esse coitado, só com terapia pesada, viu?”. Em seguida, vieram os rancores, pois ele se afastava das pessoas deixando claras coisas como “olha, esse seu cheiro, você não usa nada não?, é que, assim, você sabe… eles vêm, né?”. Terminou com o medo que os amigos restantes passaram a sentir dele, como se aquele exagero comportamental se houvesse convertido numa misantropia que poderia explodir a qualquer momento num acesso de fúria à mão armada, e não de Baygon.
   Trabalhava pela internet. Era webdesigner e bem requisitado. Passou a comprar praticamente tudo on-line e, nas cada vez mais raras incursões no mundo, saía como um foragido, evitando pessoas, organismos, vida. À exceção de visitas constantes a infectologistas e a laboratórios de coletas de sangue, não precisava sair do seu bairro. Morava bem, tudo era perto de seu apartamento. Não perdera de todo o bom-senso. Numa ocasião em que comprara um traje completo de apicultor num site de equipamentos agrários, refugou usá-lo em público, apesar de ter achado absolutamente necessário. O caso é que, depois que o experimentou em frente ao espelho, sentiu-se estranho e imaginou o assédio de curiosos na rua, que lhe trariam, juntamente com o suor e o sebo engordurado de suas peles, mais insetos para perto de si, o que seria um efeito contrário daquela determinação — “Povo burro! Além de imundo, burro! Isto deveria ser um uniforme casual em todo lugar!”
    Numa de suas rotinas matinais de assepsia, no meio de uma fomezinha mundana, sentiu vontade de comer uma daquelas tapiocas com carne de sol que se vendiam na calçada da faculdade. Ele mesmo faria a tapioca, mas lhe faltava o recheio. Não tinha incluído a carne de sol congelada na lista de pedidos que enviava periodicamente à gerente do supermercado, a qual ele descobrira também ser meio paranoica, porém com gente pobre, e achou chiquíssimo ter um cliente que atendesse on-line — “Ah, se todo mundo fosse assim, não essa gentinha que enche as filas!” Porém, é claro, mandava entregar as compras mediante uma propinazinha, que isso era contra as normas do estabelecimento. Seria de se esperar que ele estendesse à comida a mesma fobia que tinha com relação ao ambiente e que só comesse coisas praticamente sintéticas, mas, não! Guardava um paladar quase infantil, e, muitas vezes, jantava pipoca com sorvete ou um sanduíche gorduroso de pernil malpassado de porco. Esse era o único buraco perceptível naquele semi-hermetismo em que vivia. Ele sabia disso. Porém, confiava tanto na seleção de suas compras pela gerente corrupta e em seu sistema impenetrável de armazenamento e preparo da comida, que não perdia um instante de sono com isso. Ligou para ela, informou-lhe a necessidade, permitiu a cobrança do suborno e esperou. Cerca de quinze minutos depois, o entregador — que já estava acostumado com o processo de inquérito e com a desinfecção na soleira da porta, paciência que lhe era até divertida, contanto que recebesse sempre uma gorjeta por aquela paspalhice — entregou-lhe o pacote. A carne de sol já vinha pré-cozida e desfiada, pronta para se fritar na chapa, e era assim que ele fazia, com manteiga, pimenta-do-reino e gergelim, que era o mais próximo da memória afetiva que tinha do seu lanche universitário. Preparou tudo assobiando, fez a tapioca, recheou-a, comeu tudo com café, ficou satisfeito. Somente a limpeza de tudo lhe daria um prazer maior do que aquele café da manhã. Deixou a chapa por último, pois o que dava mais trabalho sempre era o melhor. Sentia-se ele próprio um gigantesco inseticida, um agente, uma força da natureza com uma missão em curso.
    Achegando-se da Croydon — comprada num site de loja de departamentos, uma pechincha! —, que parecia sempre novíssima devido à constante, completa e meticulosa esterilização a que era submetida, achou curiosa a forma dos restinhos dos fiapos da carne, enegrecidos pela fritura. Essa sensação deu lugar a um arrepio, que cresceu e foi sucedido por um terror, que também evoluiu, mas a espasmos violentos e à súbita palidez de que sofrem os covardes que esconderam em vão seu medo, revelado pela onipresença instantânea e estrondosa do causador. Diante dele, jazia um cadáver perfeito, com todas as patinhas e asinhas, de uma mosca varejeira, cujo verde-esmeralda ainda podia ser percebido apesar da carbonização. Estava ali, juntinho das sobras da carne que, havia pouco, ainda chupava de entre os dentes. Se havia uma, havia muitas, porque mosca é assim, gregária, maltesa, bandoleira, mafiosa, multitudinária, tinha de haver, tinha de haver, tinha de haver! Dentro dele, em seu esôfago, em seu estômago, em sua alma!
    Bambeou para trás, levou a mão à garganta, arranhando-a com as unhas quase transparentes de tão limpas, sufocando-se, esganando-se. Socou sua barriga várias vezes, enfiou os dedos na goela o que pôde, porém lembrou que foi por ali que elas entraram e retirou-os, sacudindo-se de nojo e arremessando-se à pia. Deu dois passos ridículos, tropeçou um pé no outro e caiu epiléptico, estrebuchando os ossos que chacoalhavam como um carrilhão de bambus. A tapioca saiu granulada, gosmenta, melecada numa lama negro-amarelada composta pelo café e pela carne, um petróleo fedorento que lhe saiu pela boca e pelas ventas e no qual chafurdou porcamente a cara em agonia de morte. No meio daquele caos espasmódico, deu-se conta de que aquilo deveria ser o inferno, mas ele era bom, era limpo, não merecia o inferno, e então, como se fosse feito de mola, distendeu-se elasticamente como uma flecha lançada na direção do banheiro, onde, debaixo da água escaldante do chuveiro elétrico, terminava de vomitar, esfregava a segunda bucha sintética com Aseptol e batia a cabeça na parede do box, na esperança de que aquilo o fizesse acordar ou morrer, o que viesse primeiro.
    Não vieram nem uma coisa nem outra. Levou a manhã toda, um pedaço da tarde, todo o sabonete antibacteriano do mês e alguns milhares de litros d’água e de lágrimas aquela purgação. Durante a limpeza — a qual se fazia necessária novamente e novamente, sempre que lhe retornava a visão do cadáver fritinho e da coloide infecta, que ele jurava ser constituída por inúmeros outros corpinhos derretidos pela bile no chão da cozinha —, ele tomou algumas decisões. De imediato, precisava internar-se para uma lavagem estômaco-intestinal urgente. Em seguida, haveria por Deus de chamar um serviço especializado para a limpeza de tudo, pois o prazer de fazê-lo tinha-se convertido em pavor, e ele jamais seria capaz. Em terceiro, contrataria alguém, algum pistoleiro conhecido da família de seu pai, que era toda de Alto Santo, para dar cabo da gerente, do entregador, do dono e dos funcionários do frigorífico, enfim, de todo o gado do Vale do Jaguaribe, de Goiás, do Mato Grosso, do inferno, se fosse necessário, já que sua alma clamava por reparação total e imediata. Nessa hora, havia nele uma mistura de medo e coragem, como se o espírito de vingança de Nêmesis surgisse por trás de seu espinhaço amarelo, exigindo retaliação de proporções olímpicas.
    Foi até o espelho, carregado de ódio e vergonha. Ainda não tinha se visto naquele dia, deveria estar lastimável. Talvez devido ao tempo em que ficou molhada, a sua pele se engelhara, formando sulcos e gretas flácidas que lhe davam a aparência de um maracujá ressecado, e a sua palidez começara a se converter num tom patinado uniforme. Todo esse arrazoado durou só alguns segundos em seu raciocínio. A lógica logo se contaminou pelo trauma, o que evocou memórias em que acrescentava masoquistamente dramas e tragédias todos os dias. Por exemplo, uma vez, conversando com um amigo entomologista, o qual considerava um antagonista, mas tinha-lhe respeito pela coragem, perguntou se alguma vez tinha se envenenado com algum inseto, ou contraído alguma moléstia, enfim, se tinha sido castigado pela escolha de vida que fizera. O amigo, que se divertia horrores com a sua neurose, que costumava achincalhá-lo de propósito, chamando-o de pupa, não estava nesse dia tão disposto assim, então falou-lhe a verdade: que não, que o máximo que lhe ocorrera foi ter sido picado por um mangangá e ter engolido mosquitos numa viagem de moto. Isso lhe foi o suficiente para vários pesadelos periódicos, e o sucedido com o amigo se converteu pouco a pouco em sua própria memória, uma memória vívida, construída, cultuada como um ídolo falso. Assimilou. Naquele momento, diante do espelho, convenceu-se: havia insetos dentro dele, uma legião de demônios que se misturaram, reproduziram, se aglomeraram no local onde deveria estar a sua alma, um corpo que, naquela manhã, havia recebido, calmamente ingerida, a sua cabeça. Ficou zonzo, lembrou o apelido com que o amigo, especialista no assunto, insultava-o: pupa. Óbvio que ele devia ter visto algo nas videochamadas e identificado o que sua profissão o treinara para classificar, um inseto em progresso, uma besta alada que se formava dentro dele em segredo. Caiu no chão, machucou a bacia, sentiu câimbras e frio, abraçou as canelas com toda a força. Rezou como fazia quando criança, quando pedia à Morte que lhe pulverizasse o corpo para que insetos não o devorassem. Rezou com a mesma força de quando o pai fora embora, queria que ele voltasse e lhe arrancasse aquilo do corpo com o seu cinturão, queria morrer ali para renascer limpo…
    Essa ideia interrompeu bruscamente aquela espiral para dar início a outra. De repente, enxergou na cadeia de eventos que formaram a sua personalidade uma lógica, um fio. O que ele era deveria ser transformado, mas não com a morte, que não era de suicídios. Deveria ser uma purificação. Não como a de Gregor Samsa, a qual materializara o que este já era em atitudes. Ou sim? Não era ele, também, como um inseto, escondendo-se, emburacando-se, aninhando-se em si mesmo na alegoria de seu apartamento? Não, não mesmo, não podia ser! Os insetos estavam lá fora, ao sol, festejando a eterna primavera fétida de seus pólens e monturos. Era sim o mundo uma imensa colônia, um pavoroso arapuá dentro do qual ele cavara uma cova estéril e se aquartelara. Os insetos eram o mundo! A infestação era a vida! Ele, pobre dele, era um dos poucos — se não o único — remanescentes da humanidade. Seu pensamento deu outra volta, e percebeu então que a própria humanidade era composta de insetos. Todos muito piores que as baratas, infinitamente mais nocivos. Todos distintos, coloridos, todos derrubando árvores e comendo lixo, todos se entredevorando e espargindo doenças. E ele, quem era ele? Não queria guerra com ninguém, vivia sem incomodar, era limpo, ordenado, organizado como uma linguagem de programação de uma bonequinha de sites de hentai, sua principal encomenda e fonte de renda. Outra volta. Então sua vida se resumia a construir imagens fetichistas para homens velhos se masturbarem? Meu Deus, o que seu pai diria agora? Será que seu pai era um dos clientes naquela linha de produção de depravações? Meu Deus, como ele queria ser punido naquele momento com um gigantesco cinturão purgativo, desinfectante, esterilizador. Começou a arranhar a pele engelhada com as unhas moles, na esperança de arrancar logo aquele invólucro e deixar o demônio alado sair e voltar para sua colônia, para sua bacia de mijo, para o colo de seu pai, o qual por certo que já o tinha posto no colo, pois lembrava-se de ter sido catado várias vezes de onde estava para ser esfregado em sua cintura, sempre que sua mãe não estava presente. Quanto mais arranhava, mais gemia e grunhia como quando era objeto daqueles carinhos de cujos abraços nenhum os colocava face a face. Foi arrefecendo, exaurindo-se. Uma fome enorme tomava conta dele, mas não se atrevia a levantar-se.
    Adormeceu da mesma forma que na madrugada do primeiro pesadelo. Sonhou com seu pai abraçando-o como um pai deveria, olhando-o nos olhos. Eram muitos olhos, muitas minúsculas órbitas iridescentes. Sua mãe lhe sorria do sofá da sala, as pinças abertas, uma enorme folha semidevorada no colo. Dentro de seu pensamento, eclodia, turva pelo onirismo daquele momento, a esperança de acordar um homem, homem como deveriam ser os outros filhos que seu pai se orgulhava de ter espalhado pelo sertão antes de ter conhecido sua mãe, Dona Inocência, tão boa, tão culpada de tudo que havia privado a ele, sua infância com seu pai, cheirando a mijo e vergonha, a brutalidade e clandestinidade. No chão da cozinha, enquanto isso, começavam a escapar da gosma algumas larvinhas amareladas, atrapalhadas com o ambiente novo em que haviam sido jogadas como um segundo e forçado nascimento.

28/04/20

domingo, 19 de abril de 2020

MEL


Minha mãe era fã da Bethania. Nesse álbum, percebe-se, quase destruída pelo tempo e pelos maus cuidados, a dedicatória feita a ela pelo meu pai, no ano seguinte ao seu lançamento, 1980. Era costume dele assinar os discos da casa, ainda não sei se como uma forma de protegê-los de extravios (e foram muitos) ou como uma segunda autoria, um registro de que ele mesmo pertencia aos discos, pois estes diziam dele o que ele nunca fora capaz de dizer. "Mel" é especial pra mim, pois, dentre os que sobreviveram às décadas e à ruína do que nossa família fora, ele "me incomodava" porque era sinestésico. Só hoje sei atribuir-lhe esse adjetivo. As canções têm cheiro, sabor, textura. Ouvi-las é ser eu menino, observando minha mãe comendo a voz da Bethania com os olhos, os ouvidos, os poros, uma voz que abria outra dentro dela, silente, e esta eu ouvia, e é a que canta pra mim de novo e de novo. Dói bastante, mas dói a dor humana de saber-se pequeno diante do sentimento, que é tão grande, e tão bom.

18/04/20

BASTANTE

Foto: Fernando de Souza

Atila Iamarino disse em entrevista que o mundo como conhecemos não existe mais. Neste confinamento, influencers e blogueiros postam TBT de um mundo que nunca vi, onde nunca estive, um mundo outro, vedado a quem sou. Nada disso me enfada. Até mesmo o confinamento a que chamam quarentena quase não me é novo ou anormal. O que me atormenta nem é o desaparecimento do mundo que conheci, que eu, individual e unicamente, experienciei. Porque esse mundo, raríssimas vezes registrado em fotos, mudou, aterrou-se, enterrou-se, mas, como é matéria, continua lá, numa matéria diferente. Pode ser escavado, limpo, polido, exposto novamente à luz do Sol. Quem não existe mais sou eu. Não existo como existi nas fotos, não pertenço como, um dia, com um fôlego heroico, tomei posse. Hoje, memórias escavacadas nessa arqueologia rústica, às pressas, apavorada pelo desaparecimento possível do que, intimamente, nem creio mais haver, são envasadas em álcool, penduradas numa parede de manipansos incompletos. O meu pavor é, após tudo isto, se teimar a nostalgia retornar à guisa de reencontro, perder-me definitivamente, mudo e pasmo, engasgado com um ar que só existe para engasgar-me, estrangeiro ilegal pedindo asilo num país de vento. Como andei tanto, estando imóvel? Como me perdi trancado na clausura do comodismo? Quem fui, quem quer que tenha sido, é um processo prescrito, uma injustiça irreparável. Dói. Sabe amaríssimo, insuportável. Exige, impõe obliteração. Mas dói-me ainda mais matar o cadáver, pois que sei a profundidade da cova em que jaz, donde preciso arrancá-lo, olhar-lhe as cavas cranianas onde orbitaram as retinas que viram o que não sou capaz de esquecer e deixá-lo em paz. Tremo, juro que tremo. Não há volta. Sou agora o que não deve mais lembrar, e esvaziar-me o peso e as horas requer todo o tempo restante. Serei bastante?

18/04/20

sexta-feira, 10 de abril de 2020

DISTRAÇÃO

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pois é.
a poesia veio,
passou,
e eu nem vi.
daí, eu me pergunto:
teria sido aquele incômodo profundo,
aquela raiva
de causa inindentificável
ou aquela vontade imensa de me exilar
dentro de uma garrafa?
teria sido a angústia? a apatia?
teria estado ao meu lado
à espera
de que eu a percebesse
ou teria me ignorado
(como de praxe)?
teria se cansado?
teria me abandonado?

10/04/20