Este blogue se destina ao uso artístico da linguagem e a quaisquer comentários e reflexões sobre esta que é a maior necessidade humana: a comunicação. Sejam todos bem-vindos, participantes ou apenas curiosos (a curiosidade e a necessidade são os principais geradores da evolução). A casa está aberta.
quarta-feira, 8 de março de 2023
SERAFIM
"AS PESSOAS SÃO INCRÍVEIS" - UMA CRÍTICA DE "A BALEIA", DE ARONOFSKY
Assistam sozinhos.
25/02/23
PAUSA PARA UM CAFÉ
(Clique na imagem para ampliá-la e na legenda, para acessar a página de origem.)
— Nunca tão perto, nunca tão longe. De onde estamos, há mais léguas entre nós que uma vida inteira de caminhada.
— Mas eu te sinto aqui.
— Esse não sou eu.
— Quem, então? Eu próprio? Meu reflexo, minha criação?
— Olhando daqui, estás só. Percebo-te outro, indissociável de ti, porém, outro. Tens mudado muito.
— Não é a mim que olhas. Estás de cabeça baixa.
— Pois é. É a ti que olho.
— Não pode ser! Vejo-te diante de mim! Quem és tu, senão tu mesmo, tu, que eu vejo?
— Teu olhar também não é o mesmo. Ele te ilude as medidas. Crês mesmo no que vês?
— Queres me enlouquecer!
— Não. Como disse, estás só. Nisso, em tudo, em ti. Só, como sempre.
— Então, com quem falo? Com quem grito? A quem tenho, como uma sombra, manejado minha caminhada?
— A mim.
— Então?
— Não existo mais sob teus olhos nem mais sou a teu lado. Tenho me movido muito pouco, alguns passos, apenas. És tu que giras e danças e saracoteias em carreiras infantis. Eu apenas cresci. Tu…
— Espera! Não cresceste! Vejo-te aqui, a meu lado, à minha altura.
— Já disse: estás só. Escolheste estar.
— Estou louco, então! Falo com quem não existe, vejo o invisível!
— Não. Eu existo. Tu, por outro lado…
— Estou morto?
— Não. Pior. És memória.
— …
— Terminei meu café. Podes voltar a brincar agora.
— Contigo?
— Como sempre.
— Pega-pega?
— Polícia-e-ladrão.
08/03/23
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023
O PROBLEMA DO CORAÇÃO É QUE ELE BATE
Desacostumado.
Pedaços de cores
reclamam olhos,
e onde estão?
— invisíveis no tempo.
O cheiro da terra, das roupas, do sol!
Há uma guia,
um cordame em que a memória se desondeia.
Um rio.
As águas batem cada vez mais forte,
e as cores vão se desvelando em punhais de luzes:
uma espiral cadente feita de lâminas brilhantes,
um vórtice aniquilador
do tempo presente.
Enfim, deságuo, e o mar é enorme,
e as ondas, gentis.
Estou sozinho, e tudo é horizonte.
Escrevo histórias
de peixes e abismos,
deito tudo no leito
e descanso.
E eu sei que é unicamente meu
o eu que ali adormeço.
22/02/23
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023
QUARTO MINGUANTE
— há aqui já noites suficientes.
Velo eu mesmo o cadáver do sonho,
fantasma de si mesmo, que hoje assombro.
Dentro das luzes, a mística persiste,
e me cego de excessos
até que me desapareça de vez
a carne da memória dele
no mundilhão de novidades.
O sono vem, ceifa o que resta,
e, todas as noites, vou desaprendendo a dormir.
Sou no mar o Sol que se pôs
antes da primeira aurora,
antes da Serpente,
antes de Deus.
Sou longe,
Mas estou onde sou.
Guardo apenas a distância,
que aprendi que sou eu.
A noite, esta, olha o esquife ao meu lado
e me diz que não há mais sonhos,
mas que o pesadelo acabou.
08/02/23
domingo, 5 de fevereiro de 2023
SOB O CÉU
Então vamos dizer
que a noite só é noite
porque há as estrelas
e a lua, e as almas, e a insônia?
Mas,
não é a noite mais
o modo como se desnudam
a pele sob a roupa
e a carne sob a pele,
e a alma sob a carne
ante a liberdade ou o inferno
de se estar só?
A noite é um útero
que vestimos para dormir
antes e depois de nascer
compulsoriamente.
05/02/23
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023
CANTOCHÃO
Deitou o copo na mesa, levemente. Reconheceu, no xadrez da infância, a concessão da derrota que lhe ensinaram no internato: “tombe-se o rei!”. A mesa do boteco servia-lhe perfeitamente de tabuleiro: bispos hereges, torres de alvenaria caiada e muitos, muitos peões cascabulhados pelas longas partidas da vida. Havia ali também muitas rainhas, todas de coroas preteridas. O baralho da mesa ao lado lhe despertou as copas que tão bem conhecia. Também, algumas de paus e de espadas de sua meninice nos terreiros. Mas, de ouros, nunca! Nenhuma! Nem ela!
— Mais uma aqui, por favor.
Já passara do ponto do crédito havia muito. Da pena, também. Virara um “costumeiro”, um item ornamental, um identificador do Santa Edwiges, o bar de Seu Xavier. Sem ele, a mesa do choro não tinha para quem puxar o Odeon nem a Escadaria. Ele fluía com a tarde, ronqueava com a voz gostosa seus salves, sempre carinhosos, às figurinhas ali também desgastadas pelo tempo: Martins, o do violão sempre prestes, o bêbado Tarcísio, coro sempre certo à dor de cotovelo das dez, a cambista Heloísa, que sempre o esperava chegar para encerrar atrasada as pules, e o garçom Liberato, que aprendera a cuidar da dignidade daquele mistério. Parecia ser a licença que se dava ao Santa para ser um bar: um alvará, uma bênção. Até mesmo a clientela encorpava depois de sua chegada. A sinuca, inclusive, só ficava séria depois que ele cumprimentava os jogadores, que passavam a casar as apostas na mão da Heloísa. Era a alma do lugar, uma essência que justificava frequentarem-no os bambas e os febris, as memórias que tomavam zinebra no balcão e as novidades que gargarejavam cervejinhas na calçada de anedotas. Sentava-se à esquerda da porta, ali pelas seis, após a permissão do angelus do rádio do Xavier.
— Aqui, Seu Cordeiro. O Seu Xavier perguntou se vai pagar.
— Diga a ele o de sempre: quem manda é o dia.
— E o dia foi bom?
— Me trouxe até aqui. Como sempre.
— Vai de canja hoje?
— Deus lhe pague, Liberato.
— Ô Seu Xavier, mande uma canjinha aqui pro Seu Cordeiro, que ele precisa.
O violão chorou um sambinha, chegou um pandeiro da mesa dos novatos, Seu Xavier sacou o cavaquinho e o rendeu ao grupo, pedindo “manda uma do Paulinho, gente!”. A música ali era sempre boa. Arrumaram Desilusão, e o peito de Seu Cordeiro batucou atrás, meio surdo. Parecia adoçar a derrota no sangue a cada bombada, sincopando ali o regional improvisado.
Chegou a canja com um pão do dia. O primeiro de seu dia. Seu Cordeiro parecia um griô, na sua elegância imane e inata de preto-velho. Cruzava as pernas frágeis para fora da mesa, sentado de lado na cadeira, recostado à parede, que guardava, com a sua mancha de suor e poeira, o seu lugar em sua ausência.
— Os meninos querem que o senhor cante. A rapaziada nova.
— Deixe o santo baixar, Liberato. Ainda não cheguei.
— Deixe o dia lá fora, meu camarada. Aqui dentro, é sempre noite. Dona Marlene perguntou se está boa a canja.
— Melhor que a vida, meu amigo. Entregue a ela uma lembrancinha, faz favor?
Deu a Liberato um pacotinho de papel-bíblia, uma página arrancada de um catecismo velhíssimo.
— Diga a ela que achei.
Aquilo não era uma novidade, exceto pelo último pedido. Sempre levava babilaques, coisinhas, presentinhos para Seu Xavier e sua esposa, Dona Marlene. Porém, o segredo impresso no “achei” ativou a experiência malandra de garçom acumulada por Liberato em décadas de torpedinhos e leva-e-traz entre as mesas.
— O que é isso, Seu Cordeiro?
— É um pedido dela. Uma encomenda pessoal.
— Pessoal? E se o Seu Xavier quiser saber o que é, digo o quê?
— Que é de antes dele. Que não se preocupe não, que nenhum mal foi feito. E que este negro aqui só lhe guarda amizade e gratidão. E que minha vigília e minha obrigação finalmente acabaram.
Era coisa demais para o velho garçom. Ainda tocavam o “danço eu, dança você”, e Liberato intuiu. Pensou em devolver, mas adivinhou a proporção do momento no olhar de Seu Cordeiro, que nunca vira tão expectante em sua mansidão. Baixou a cabeça, penitente. Seu Cordeiro enxugava a última laminha de caldo da tigela com o miolo do pão, que levava à boca como uma hóstia. O sagrado de tudo aquilo que, sem ser dito, reverberava nas paredes do Santa Edwiges convenceu por fim o garçom de levar a cabo aquele rito.
— O senhor ainda vai voltar? — perguntou.
— Eu nunca fui a lugar nenhum, meu amigo…
Apesar de suas roupas e pele estabelecerem o oposto, Liberato entendeu profundamente.
— Pois adeus, meu velho. Fique com Deus.
Cruzou o bar convertido, por seus passos, em uma nave, parou de cabeça baixa à frente do balcão, a mão posta em oferenda:
— Seu Cordeiro mandou pra senhora,
— O Cordeiro ainda acha que tem de pagar alguma coisa aqui? — sorriu vermelho Seu Xavier. — Tu acha, Marlene?
Dona Marlene, de pele branca salpicada de sinaizinhos da idade, reconheceu aquela página amarelada de catecismo quase imediatamente, translucidando-se. Disfarçou o tremor e ergueu o olhar para o marido, que não entendeu aquele pedido de perdão. A mesa do choro já tinha engatado Não tenho lágrimas, e o bar ficara frio de repente. Lá fora, uma chuva fina lavava um corpo negro, delicadamente deitado no outro lado da rua, a mão esquerda ao peito, as pernas cruzadas, como se houvesse descido em rodopio de mestre-sala. Um grito seguiu-se a outros, precipitando todos ao cruzamento esvaziado de trânsito, fremindo no ar os ai-meu-Deus de suspensão.
Seu Xavier nunca entendeu a explicação da esposa, que sobreveio e sobreviria até o fim sem lágrimas, sem medo e sem culpa, ainda que purpurecida de saudade:
— Foi antes, quando eu ainda era mocinha, no internato. Padre Honório que me deu, e eu tinha perdido. Seu Cordeiro achou não sei como… Não sei como.
O pequeno terço cor de rosa, com ave-marias peroladas e crucifixo de osso, fazia ainda menos sentido naquela fatalidade.
No dedo anelar esquerdo do morto, uma antes nunca percebida aliança de finíssimos acabamentos, filigranada de ouro, sepultava ali tudo: a vida, o samba, o bar, a morte. Sobranceava na neblina um vento que pareceu a Liberato, naquele momento, um cantochão assobiado.
— Adeus, meu velho — repetiu.
01/02/23
terça-feira, 22 de novembro de 2022
FUNÇÃO
Doer é uma exigência
que o corpo, diligente e caprichoso,
faz saber ao espírito,
que, malgrado o massacre,
cumpre.
Terminada a pungência,
estertora:
— Sobrará algo de ti?,
ao que o corpo, solene,
— Somente tu.
22/11/22
segunda-feira, 8 de agosto de 2022
SALA DE VISITAS
segunda-feira, 13 de junho de 2022
METAPOEMA-MANIFESTO PELOS QUE VIVERAM
queria fazer uma poesia engajada,
militando na letra como quem sangra na vida,
como quem salva a onça dos lobos,
o curumim, do trator,
a favela, do aço e do chumbo;
como quem morre num igarapé, mangueando-se
no mercúrio e no fascismo da Ordem e do Progresso.
queria dizer na pauta que aqui se luta
pelo espaço da fala, pelo centímetro quadrado
das calçadas crackeadas
e das covas severinas;
que aqui se é esmagado todo dia
pelo crente, pelo caubói, pelo cidadão de bem,
pelos perdigotos presidenciais.
queria escarafunchar a lepra urbana,
a leptospirose política, o cancro
do pastorado, do apostolado, do messiado,
como quem rasga a própria pele na esperança da dó,
mas na certeza do nojo.
queria fazer com os mortos o que se faz
com os fatos:
expô-los em varais, pregá-los nos postes,
fazê-los choverem nos tetos de vidro,
atear com eles o crematório de todas as mentiras
e enfiá-las goela adentro das bocas que as geraram.
mas isto não é poesia,
nem a poesia é nada disso.
a poesia não acha nunca o seu alvo
ainda que seja faca, mesmo que seja turba;
a poesia é só palavra,
e não se ressuscita o índio, não se desestupra a criança,
não se desmiserabiliza o miserável
com as palavras.
este papel não será nem cobertor nem fogueira
nos invernos que virão.
mesmo a poesia que grita, que manifesta
o silêncio morto do jornalista,
os ossos quebrados do indigenista,
o ânus rompido da criança afogada,
a carne queimada do babalorixá e do pajé
que não se fuma nos leblons,
essa poesia não muda nada, pois,
ainda que as palavras arrebatassem
e transcendessem a memória e o registro,
não encontrariam peitos, ombros, ossos,
olhos nem ouvidos,
embora exponha corpos e arremesse cadáveres
em todas as direções.
eu queria fazer poesia
como quem teima,
como quem, a despeito da vida, vive,
a despeito do dinheiro, vive,
apesar de Deus e dos evangélicos,
apesar da direita e da burguesia,
vive.
eu queria fazer poesia como quem morre,
porém vive
e existe, e continua, e incomoda, e cresce,
e periga revoluções.
13/06/22





