Devagar, pequenas dobras se desfazem, e o pano do lençol vai pouco a pouco perdendo a sua história: o vinco onde habitavam sobras das melhores noites, uma vez planificado, esterilizou-se; pequenas manchas caligrafadas em silk-screen pelos corpos, compondo a sua própria materialidade e transcendência, craquelaram-se em pó e foram sacudidas pelo descaso das mãos; fios de cabelos, de pelos e penugens foram-se evolando para o espaço, que é o ponto em que o limpo vira sujo, e o amuleto, tabu.
Devagar, no arrumar-se o quarto, vão-se apagando as letras de minha recentíssima biblioteca. Novamente branqueadas, as páginas só existem, e nada mais. “É necessária uma certa medida de amnésia”, pensei. E esqueci-me disso imediatamente. Mudando as coisas de lugar, retornando-as ao novo que era o velho, refazendo as pegadas à moda pioneira, fui devagarinho matando-me e enterrando-me e lavrando a terra sobre meu corpo-chão para repatriá-la novamente a mim, como se ali houvesse invadido e perpetrado genocídios aos ilegítimos. Balela. A cama, em seu porquê, era uma república inexpugnável. Suas pernas sólidas de cerejeira, seu estrado reforçado no centro e nas periferias, sua cabeceira fluvial… tudo me clamava de volta, estabelecendo-me, ressituando-me, ressuscitando as noites dispersas.
Devagar, fui-me deitando. O corpo dolorido recordava o seu auge, irrompendo descontextualizado no mundo. Devagar, fui-me lembrando e lembrando… já fui isso, já fiz aquilo. “Poucos o foram ou fizeram-no”, conforto-me entre as câimbras e as dormências. “Somente eu fui eu”, sentencio, por fim.
Devagar, as histórias de quem fui vão tecendo o lençol que me protege abaixo do teto da chuva e do frio lá de fora. “Aqui é bom, mas também é frio”, lamento um pouco. Devagar, a noite vai-se reabrindo em suas pequenas luzes. Destacam-se no meio do impossível os sonhos de vingança e os de terror, e todos me divertem o suficiente para eu querer acordar dentro deles. As lembranças, meio longe, sempre figurantes. Como têm de ser.
Devagar, sem que eu queira ou permita, a biblioteca se reconstrói, e se recompõem os volumes e os tomos. A sede me acorda dentro, novamente, de mim. E a imensa sala de inutilidades de que sou feito reclama, como há apenas quatro horas, por uma faxina que começo a aceitar ter-se tornado a atividade central da rotina doméstica que, devagar, vem-se tornando minha escravidão e, ao mesmo tempo, minha indolência.
12/04/23
Este blogue se destina ao uso artístico da linguagem e a quaisquer comentários e reflexões sobre esta que é a maior necessidade humana: a comunicação. Sejam todos bem-vindos, participantes ou apenas curiosos (a curiosidade e a necessidade são os principais geradores da evolução). A casa está aberta.
quarta-feira, 12 de abril de 2023
DEVAGAR
terça-feira, 28 de março de 2023
NÃO HÁ NADA LÁ FORA
Nem amigos, nem punhais.
O capim roxo entre as estrelas silencia,
e os enquadramentos opacentos
— a miopia do desejo —,
nem que exatíssimos,
nada mostram.
Vive aqui, em desterro,
na inóspita mesa da cozinha,
na caneca de café esquecida,
entre a escuma fria e ressecada,
o acúmulo das horas do dia,
deste dia, de tantos outros dias,
em que desejei estar lá fora,
andarilho, transeunte, enturistado em minha própria terra.
Lá, nas possibilidades extremas,
no mágico do mundo,
vive um eu que não permito,
um audaz que acorrento,
um herói que acovardo.
Porque não há nada lá fora que o justifique
ou que o mereça
ou que o conforte.
Lá fora, o mar é dos navios de carga;
o vento, dos voos internacionais e domésticos;
o chão, do trânsito de entregadores de aplicativo
e das carretas articuladas que saem dos portos
e alimentam os povos.
Não, não há nada lá fora
que valha a insônia seca no leito seco
da caneca seca do café
que me anoitece de luzes o estômago
e que me põe no sangue um novo eu
a cada vez em que me abraça.
28/03/23
terça-feira, 21 de março de 2023
VISSUNGO I
no terrero, já é hora
num se prucupe
o dia já vem cuidá
im toda paite,
é preda, é fogo, é purugunta,
é brasa quente,
o trabaio que Deus dá
mim levimbora,
ô mamãezinha, na cacunda,
pra dendágua da cascata eu i morá
mim cuida eu,
ô mamãezinha, mim carrega
presse mundo os meus pé num vim quebrá
21/03/23
quarta-feira, 15 de março de 2023
CRÍTICA DE "O MENINO, A TOUPEIRA, A RAPOSA E O CAVALO"
Li o livro e vi o filme e tenho de dizer que eles dialogam com alguém que já não sou mais, porém que, graças a eles, sei que não está morto, apenas muito desgraçadamente melancólico. O filme, principalmente, cavou umas lágrimas que tinha me esquecido, há muito, de chorar.
Eu vi dublado (que espetáculo de dublagem!), logo não posso dizer nada das interpretações do quarteto Jude Coward Nicoll (o menino), Tom Hollander (a toupeira), Idris Elba (a raposa) e Gabriel Byrne (o cavalo).
O único (mas muito marcante) problema é a sensação de abandono que dá na gente quando termina, como se alguém muito amado partisse de nunca mais voltar, o que não é, de todo, apenas uma sensação.
Assistam leves.
domingo, 12 de março de 2023
"GUILLERMO DEL TORO'S PINOCCHIO"
Minha primeira reação a Guillermo del Toro’s Pinocchio (existem vários motivos pra eu citar aqui o título original; explico depois) foi de enfado: “de novo, mais um?”. A segunda foi de grande incômodo, mas daqueles que só grandes obras conseguem gerar, porque foi aí que a enorme diferença da adaptação do diretor mexicano se fez valer. Antes de construir a personalidade do Pinóquio, a qual, convenhamos, já foi batida e rebatida nas adaptações anteriores (e arruinada, em algumas), ele se deu ao trabalho (e que trabalho!) de construir a do Gepeto (David Bradley, maravilhoso), mais especificamente, as falhas nessa personalidade, que o tornam uma personagem densa, identificável em nós. Foi daí que me veio o incômodo, e é aqui que eu escolho não estragar a experiência de quem vai ver essa obra-prima, aliás, sugiro que não leiam nenhuma resenha dessas que “entregam” a trama, visto que Guillermo del Toro transformou uma historinha tão batida e maltratada ao longo das esterilizações hollywoodianas em um dos melhores filmes de toda a sua carreira (aqui, o principal motivo de eu ter citado o título original: esse filme é DELE). Desde o australiano Mary and Max, animação também em stop-motion, porém escrita e dirigida por Adam Elliot e produzida por Melanie Coombs, em 2009, eu não sou tão impactado por um filme dessa técnica. Tão maravilhoso quanto aquele, Pinocchio traz também Gregory Mann (como o protagonista), Ewan McGregor (o grilo falante que é ironicamente fã de Schopenhauer), Ron Pearlman (como Podesta), Cate Blanchett (magnífica como o macaco Spazzatura), Chistoph Waltz (como o Conde Volpe) e Tilda Swinton (diga-se aqui de passagem que o del Toro tem um talento inato pra criar Mortes que entram pra história do Cinema). Pra concluir, a minha terceira impressão sobre o filme é o arrebatamento. Imediatamente após a identificação (a minha, pelo incômodo já citado), o filme me capturou e não largou até agora. E acredito que isso não vai acontecer mais. Assistam sabendo que vão chorar, especialmente após a catarse.
12/12/2022
quarta-feira, 8 de março de 2023
SERAFIM
"AS PESSOAS SÃO INCRÍVEIS" - UMA CRÍTICA DE "A BALEIA", DE ARONOFSKY
Assistam sozinhos.
25/02/23
PAUSA PARA UM CAFÉ
(Clique na imagem para ampliá-la e na legenda, para acessar a página de origem.)
— Nunca tão perto, nunca tão longe. De onde estamos, há mais léguas entre nós que uma vida inteira de caminhada.
— Mas eu te sinto aqui.
— Esse não sou eu.
— Quem, então? Eu próprio? Meu reflexo, minha criação?
— Olhando daqui, estás só. Percebo-te outro, indissociável de ti, porém, outro. Tens mudado muito.
— Não é a mim que olhas. Estás de cabeça baixa.
— Pois é. É a ti que olho.
— Não pode ser! Vejo-te diante de mim! Quem és tu, senão tu mesmo, tu, que eu vejo?
— Teu olhar também não é o mesmo. Ele te ilude as medidas. Crês mesmo no que vês?
— Queres me enlouquecer!
— Não. Como disse, estás só. Nisso, em tudo, em ti. Só, como sempre.
— Então, com quem falo? Com quem grito? A quem tenho, como uma sombra, manejado minha caminhada?
— A mim.
— Então?
— Não existo mais sob teus olhos nem mais sou a teu lado. Tenho me movido muito pouco, alguns passos, apenas. És tu que giras e danças e saracoteias em carreiras infantis. Eu apenas cresci. Tu…
— Espera! Não cresceste! Vejo-te aqui, a meu lado, à minha altura.
— Já disse: estás só. Escolheste estar.
— Estou louco, então! Falo com quem não existe, vejo o invisível!
— Não. Eu existo. Tu, por outro lado…
— Estou morto?
— Não. Pior. És memória.
— …
— Terminei meu café. Podes voltar a brincar agora.
— Contigo?
— Como sempre.
— Pega-pega?
— Polícia-e-ladrão.
08/03/23
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023
O PROBLEMA DO CORAÇÃO É QUE ELE BATE
Desacostumado.
Pedaços de cores
reclamam olhos,
e onde estão?
— invisíveis no tempo.
O cheiro da terra, das roupas, do sol!
Há uma guia,
um cordame em que a memória se desondeia.
Um rio.
As águas batem cada vez mais forte,
e as cores vão se desvelando em punhais de luzes:
uma espiral cadente feita de lâminas brilhantes,
um vórtice aniquilador
do tempo presente.
Enfim, deságuo, e o mar é enorme,
e as ondas, gentis.
Estou sozinho, e tudo é horizonte.
Escrevo histórias
de peixes e abismos,
deito tudo no leito
e descanso.
E eu sei que é unicamente meu
o eu que ali adormeço.
22/02/23
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023
QUARTO MINGUANTE
— há aqui já noites suficientes.
Velo eu mesmo o cadáver do sonho,
fantasma de si mesmo, que hoje assombro.
Dentro das luzes, a mística persiste,
e me cego de excessos
até que me desapareça de vez
a carne da memória dele
no mundilhão de novidades.
O sono vem, ceifa o que resta,
e, todas as noites, vou desaprendendo a dormir.
Sou no mar o Sol que se pôs
antes da primeira aurora,
antes da Serpente,
antes de Deus.
Sou longe,
Mas estou onde sou.
Guardo apenas a distância,
que aprendi que sou eu.
A noite, esta, olha o esquife ao meu lado
e me diz que não há mais sonhos,
mas que o pesadelo acabou.
08/02/23








