Número de sílabas (desde 11/2008)

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domingo, 27 de setembro de 2020

FUNERAL

Foto: Fernando de Souza

àqueles que perderam
ou foram amputados:
é outro o tempo das almas;
aqui
é o tempo dos corpos.

27/09/20

sábado, 26 de setembro de 2020

DA BELEZA

Alexandre Cabanel - The Birth of Venus (1864)
(Clique na imagem para ampliá-la.)

não posso aceitar beleza
que não faça sofrer.
ser belo é ser,
nos olhos dos outros,
a angústia da miséria do corpo
e a mendicância do amor.

eis que a fome,
até então incógnita, sem prenúncio,
crava os dentes na traqueia
e surra o baixo-ventre,
socando a boca do estômago:
é lá que passa a beleza
no vento maldito das saias.

beleza que não faz sofrer
é faca cega
passando margarina em pão seco
numa tarde faminta de banquetes.

25/09/20

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

IRMÃO AUSENTE


gíria é quase sempre
puro contexto.
veja a palavra “mano”:
quando dita por um capoeira,
um pescador, um roceiro,
com o afeto intensificado
pelo adjetivo “velho”
e suas corruptelas tão bonitas,
é carinho no espírito,
que se entende irmão e filho,
há muito tempo,
da terra e dos homens.

mas, quando ela vem
bem paulistinha,
ou com as vogais deformadas
pela poluição comportamental das praias,
ou carrega a efemeridade
do aluguel da juventude
aos estrangeiros
nos shoppings e na web,
em troca de espelhinhos e miçangas,
ela é prego no ouvido
e estupro na esperança
de que se possa estar entre irmãos.

melhor se fosse brother,
ou melhor,
bróder,
palavra furtada
que não mata ninguém
no sertão da minha memória,
que ainda é jovem o suficiente
para morrer todo dia
e renascer palavra por palavra
no silêncio desse mundo.

22/09/20

PARADOXO EXISTENCIAL

(Clique na foto para ampliá-la e na legenda, para acessar a página original.)

sempre existem pessoas
com quem se falar.
porém,
como elas só existem
e nada mais,
deixam
automaticamente
de
existir

nesse silêncio,
onde tudo que existe
transcende.

22/09/20

terça-feira, 1 de setembro de 2020

DESABRIGO

 
(Clique na imagem para ampliá-la e na legenda, para acessar a página de origem.)


minha casa sempre foi cheia de enormes solidões
e cresci habituado à mesma companhia

hoje, face a face com o esmero da vida
no fazer-me inteiro com os outros,
não sei mais qual pedaço arrancar para encaixá-los
e me vejo sem braços e sem pernas,
roendo com os cacos dos dentes
as horas inoportunas em que tenho de ser vário

de minha casa antiga, ficou o alicerce
robusto, profundo, arrochado com o passado da Terra

nele me sustento e resisto ao esquartejamento
das relações
e existo erodindo, como minha casa velha,
como os corações velhos enterrados no quintal
ao lado do poço seco
e dos esqueletinhos dos cães de minha história

quando for caverna, quem sabe, habitável,
talvez acomode melhor
os que me bateram na porta

talvez, num veio ou num olho d’água,
dê-lhes de beber e de banhar
no reverso do vinho da parábola bíblica:
a simplificação da festa familiar,
o sangue finalmente convertido em coisa
que mate a sede que tiveram de mim

talvez, também, menos possível, embora,
haja nos minerais em volta algo de precioso,
algo que, recebendo um pouquinho da luz
na hora certa do dia,
lhes recompense a fadiga dos músculos
e a desesperança dos punhos
cansados das chibancadas
com uma liga ou uma gema qualquer
que lhes valha as alianças
que nunca fui capaz de forjar

assim, prospectado, devidamente convertido
em sítio arqueológico,
ou retiro espiritual,
ou mina abandonada,
eu possa responder, ainda que ecoando,
a todas as perguntas, a todos os inquéritos,
ou então, como sói às cavernas,
eu seja o lar de mistérios e morcegos, que, finalmente,
possam ser deixados em paz

01/09/20

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

ATÉ O FIM


Não posso prestar mais
muita atenção ao que diz meu corpo.
Quase sempre, são fragmentos de fim,
entretrapos de uma bandeira derrotada pelo tempo.
No entrecortado de sua fala,
ora arquejante, ora gemedora,
estalam-me os ossos
e guincham-me as fibras sob a pele,
como se, com o seu barulho,
tentassem suplantar o sangue,
que, de sua parte, me grita:
“assoreei, meu filho!,
aqui ninguém navega mais!”
Não lhes posso dar ouvidos.
Há algo que me surge debaixo de tudo,
algo suave, congênito, febril, eterno.
Algo que tem o som que tem o sol
quando ele me jorra sombras no torrão das ruas.
Algo que me canta os sucessos dos meus mortos
que nem cheguei a conhecer ou prantear.
Algo que me veste
com a insensibilidade a mim mesmo,
com essa dormência nevrálgica,
sem a qual sou — e sempre serei —
alguma coisa sem mim.
Esse algo me diz,
sem voz nem palavra,
sem silvo nem trinado,
que meu nome é medo na boca da morte,
e que, trêmula, ela me pragueja todos os dias.
Que esta rota, onde me perco,
é a avenida principal de meu retorno a casa.
E que, seja como for,
a condenação de meu corpo
é conduzir-me nela até o fim,
depois do qual, ele, silenciado pelos vermes,
e eu, por estes desacorrentado dele,
desencadearemos de nós dois o sonho
da útil e pacífica continuidade.

03/08/20

segunda-feira, 20 de julho de 2020

REUNIFICAÇÃO


(Ao meu querido Rafael Sousa, que me instigou a escrevê-lo.)

eu me desaparelhei
como uma flor que se despetala
— um malmequer desses da vida.

hoje, nem sou nem tenho.
perdi todos nesta última década,
meus dez últimos anos de amor,
e sê-lo esqueceu-me.

o vento curou no rastro
e me achou o estame hirto, seco,
a face voltada para o muro,
uma sombra sob a sombra.

no caminho, apagou-me as pegadas,
e parece que nasci aqui.

não importa.

ao tocar-me, voejou-me,
e amanhã serei vento também,
um movimento sem começo e sem fim,
que tem uma tendência linda,
indiferente e justa
à reunificação.

20/07/20

terça-feira, 14 de julho de 2020

JUÍZO


(Clique na imagem para ampliá-la e na legenda, para acessar a página de origem)

Não são a ciência
Nem o amor
Muito menos a chama da revolução
Que irão salvar o mundo

A beleza
Somente essa estúpida e inútil fraqueza da percepção
Poderá comover a alma dos homens dentro de seus corpos
Onde ainda, bem distante
Mas ainda
Rescende à terra molhada
A criança que eles mataram

14/07/20

sexta-feira, 10 de julho de 2020

SÓIDÃO DI CORPISTRÃIO

um dia mi dissero
queu miricia morrê
suzin

tumara mermo
quiá Dona Morte mi pegue num dia desse
di sóidão gostosa
merecedô dimin, vitorioso,
cheide paz

— púxuma cadera
tem café quentin
i muita istora pacontá

mar num pricisa não
quela mi cunhece
sab dimin faz tempo, tempo…
nunca li foi nem li fiz
segredo
di queu num sô daqui
i qui meu corpistrãio perambulô
si raspano
nu amô alhei
sem si misturá

mereço não, Dona Maria, mereço não
a vida diagunia
di só tê serventia
si fô cumeno nas mão
mereço mermo sô eu i mĩa sóidão
qui mi há di sê mĩa
nem qui seja oto dia
mais palá quiu sei não

09/07/20

quinta-feira, 9 de julho de 2020

SÃO MIGUEL ARCANJO

(Clique na imagem para ampliá-la e na legenda, para acessar a página de origem.)


(Para Miguel Otávio, filho de Dona Mirtes, morto em Recife em junho de 2020 pela cor de sua pele, que o havia condenado à morte muito antes dos nove andares de sua queda, pela cor de seus assassinos.)

    Miguel também é o nome do meu filho, um ano mais novo que o Miguel Otávio, filho da Dona Mirtes. O meu foi batizado em memória de Don Quijote, o meu cavaleiro. O de Dona Mirtes, eu não sei, mas suponho que tenha sido em honra de São Miguel Arcanjo. Em ambos, a pureza essencial humana, que se vai perdendo com o tempo, infelizmente. A de Miguel Otávio, não. Esta foi usada contra ele. Não só porque tinha cinco anos. Mas, principalmente, porque tinha cinco anos, era negro, filho da empregada doméstica da casa da mulher branca, mulher do homem branco, homem branco político do interior do Nordeste. Tudo isso junto dava ao Miguel Otávio a mesma pureza de um filhote de gato atropelado na pista: a pureza de quem vai sendo inúmeras vezes misturado ao asfalto pela cidade indiferente. Miguel Otávio teve uma morte negra: foi assimilado.
    Pranteou-se por ele por uns instantes — um pouco mais do que pelos gatinhos —, e, depois, estatistificou-se: só mais um. Mais um entre tantos, negros como o asfalto, invisíveis como o asfalto, pavimentando a cidade, que não pode parar, não pode! Não pode parar o ar sob seu corpo, impedindo sua queda, não pode parar o sangue no coração da patroa branca, sincopando-o, assustando-a a olhar para ele, percebê-lo, cuidar-lhe a vida.
    A cidade é movida a sangue negro, moído junto aos músculos, aos ossos, às vísceras e aos nomes. Só as palavras ficam. São os milhões de Souzas, como o meu Miguel e o de Dona Mirtes. São os Silvas, os Santos, os Ferreiras. São palavras evitadas, não têm grife, não têm pedigree. Mas nós voamos, com certeza. Nossas asas nos sustentam e nos elevam como povo e como ideia. Miguel, suas asas não foram cortadas, não puderam fazê-lo. Você voa entre nós como uma canção, como um poema de liberdade, tão puro, tão lindo que comoveria todos os mortos à memória no remorso dos vivos.
    Quem escreve isto é um pai nordestino, caboclo filho de caboclos e sertanejos, armado de lança e escudo, face a face com os moinhos. Voa, meu anjo.

09/07/20