Número de sílabas (desde 11/2008)

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segunda-feira, 24 de fevereiro de 2025

POLÍTICA INTERNA

Fonte da imagem: @iwanttoleaveok (Instagram)
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é difícil criar um país sobre outro
sempre resta alguma edificação
uma estrutura de linguagem
um nadinha de cultura

o povo teima
a terra teima, até a fauna teima

deixar continuar a ver se melhora
é a covardia que renite
como única forma possível de apaziguamento

ou isso
ou virar cometa
bomba H onipresente
peste e obliteração

pensar que ser país é democracia, diplomacia
e outras louçanias
não cola mais na catastrófica vida em comum
lugar de despotismos e ditaduras imperiais

mas aqui se teima
e aguardar no sofrimento o cansaço da guerra
tornou-se o que se tem para hoje
e amanhã
e depois

a ver se há um modo mais digno
de não perder fronteiras
de não queimar constituições
de manter os invasores visitantes
a quem, um dia, há de se dizer adeus

24/02/25
 
P.S.: Poucas coisas são mais empobrecedoras em literatura do que explicar as alegorias de um texto, mas, dadas as circunstâncias sociopolíticas atuais, achei necessário explicitar aqui que a “política interna” de que trata este poema é uma metáfora para as angústias pessoais de um indivíduo a cujas sanidades mental e emocional a vida em sociedade e as crueldades e atrocidades do cotidiano têm se tornado fatores nocivos, ou seja, não há nele nenhuma expressão de defesa de ditaduras, nem de xenofobias, nem de nenhuma conduta reacionária, menos ainda de apologia ou de incentivo a elas. Trata-se de um poema íntimo, que aborda as dificuldades que uma pessoa tem de lidar consigo mesma e com as circunstâncias em que se insere. A codificação extrema nada mais é do que marca de estilo e assim deve ser considerada.

sábado, 1 de fevereiro de 2025

AGORA, A NOITE

Criança amazonense no embalo da rede. - Divulgação/Caminhos da Reportagem (Modificada.)
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Bebo o café que é possível
com o pó da manhã e a água das horas.
Lá fora, tudo cidadeia,
e o espaço me comprime em minha casa verde,
velha e resistente.
Os urubus que me vigiam
pragalham da carne imputrefata
sitiando todas as vias de felicidade possível.

Não há madeira em minha porta,
ou horizonte, na janela.
Minha cortina de trepadeiras ainda tenta;
minhas espadas de Ogum ainda tentam;
e as de Iansã, também;
mas, aqui, neste quintal de trasantontem,
adormeceram já todas as guerras

— a paz que resta é mofo e cupins
e mijo de gatos nas calhas.

Amanhã, quando o sol me encontrar,
será de nós ambos o ocaso:
tempo em que nos deixaremos finalmente anoitecer
da noite que veio me buscar quando menino,

quando o paquete de minha rede me embalava sem fateixa
pelo Estige e pelo Pacoti,
pelo espaço e pelos abismos,
sem sonhar que as tempestades dormiam comigo
fetalmente, no porão sem escotilha.

Na casa velha, as tralhas acordarão limpas,
embaladas no porão da jangada que ela se tornou.
Um mar vesperal crepuscula prestes,
e um terral desancora a terra
de que já não sou mais feito.

Agora, a Noite.

30/01/25

domingo, 15 de dezembro de 2024

A DELICADEZA DE MARCEL

Dean Fleischer Camp - Marcel the Shell with Shoes on, 2021
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    Marcel, the Shell with Shoes on (Marcel, a Concha de Sapatos) é um filme estadunidense de 2021, distribuído pela A24, que mistura live action com animação em stop-motion e que concorreu ao Oscar, ao Bafta e ao Globo de Ouro de 2023 nessa categoria. Ele se enquadra no subgênero mockumentary (mistura da estética de documentário com uma perspectiva ficcional tradicional, geralmente, humorística, como em Borat), e é dirigido, corroteirizado e atuado por Dean Fleischer Camp, em sua estreia em longas. Ele narra a história de Marcel (Jenny Slate, também uma dos roteiristas), uma conchinha que se vê apartada de sua comunidade e vive com sua avó Connie (Isabella Rossellini) em uma casa que foi alugada por Dean (Dean Fleischer Camp), que resolve filmar um documentário sobre ele e publicar no YouTube.


Dean Fleischer Camp - Marcel the Shell with Shoes on, 2021
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    A delicadeza e a profundidade na simplicidade elementar de Marcel e sua rotina quebram completamente as expectativas sobre uma possível narrativa waltdisneyiana da premissa de uma concha antropomorfizada como uma criança sobrevivente num mundo perigoso e imenso. Fleischer Camp trouxe a ideia de uma série de curtas que já havia produzido sobre Marcel, e desenvolve no longa, por meio da perspectiva de “descobrimento do mundo” do protagonista, uma análise sobre nosso tempo, nossa superficialidade, nossa indiferença e, principalmente, nosso egocentrismo e nosso individualismo. O paradoxo de ser uma concha (o símbolo do ensimesmamento) quem denuncia por meio da observação a precariedade de nossas relações e a quase total ausência do nosso senso de comunidade é o elemento principal na alegoria dessa narrativa. É um filme tão cativante que não se deseja que acabe mais, apesar de ser totalmente centrado numa rotina repetitiva e monótona de uma conchinha numa casinha de uma cidadezinha.
    Assistam encantados.

15/12/24

sábado, 14 de dezembro de 2024

VINTE POR NOVE


escrever é um trabalho que me dou
sem a preposição a
objeto direto regido por verbo
bi
tran
si
ti
vo

presente que se dá
num acontecimento
maior que eu

porém e porque
carrega uma vida inteira pretérita
e imperfeita

não sou como o homem
que vai ali e compra pão
que atravessa a rua
que banha a quinta-feira
com sabonete para a sexta

monto o meu calendário de cubinhos
e o dia virado
é quando digiro o pão
comprado amanhã

a fome não cabe no texto
a fome é o texto
devorando tudo

enquanto escrevo, observo
como se não fosse só
a palavra que me veste

escrever é o trabalho de queimar
as roupas na fogueira
a identidade
os dentes de leite

é montar vigília à espera
da escuridão

14/12/24

quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

O HOMEM QUE VENDEU SUA PELE

 Kaouther Ben Hania - “The man who sold his skin”, 2020
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    Um artista belga chamado Wim Delvoye finalizou, em 2008, após 40 horas de trabalho distribuídas em dois anos, uma tatuagem de costas inteiras em Tim Steiner, um suíço que hoje ganha a vida se apresentando como “tela viva” desse trabalho de Delvoye, que foi vendido a um colecionador de arte alemão chamado Rik Reinking, em um acordo que garantiu a Steiner um terço do valor de compra de sua própria pele, em troca de sua participação em exibições. Steiner concordou, além disso, em ceder seu corpo, após sua morte, para ser esfolado a fim de que suas costas sejam estiradas e enquadradas numa moldura que será adicionada permanentemente à coleção de Reinking, à maneira do antigo costume japonês de colecionar peles tatuadas de pessoas mortas.


Wim Delvoye - “Tim”, 2008
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    Essa história, que, por si só, já é uma amostra do quão patológica é a condição humana, principalmente, no que diz respeito à objetificação, à fetichização e à decorrente desumanização de nós mesmos, serviu de livre inspiração para um filme dirigido pela tunisiana Kaouther Ben Hania chamado “The man who sold his skin” (“O homem que vendeu sua pele”), lançado em 2021, indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, vencedor de melhor roteiro (inspirado no curta “Skin”, de Roald Dahl, de 1952) no Festival Internacional de Cinema de Estocolmo e de melhor ator (Yahya Mahayni) no Festival internacional de Cinema de Veneza, no mesmo ano.
    O filme de Ben Hania usa a premissa da história de Steiner como os seguintes pontos de acontecimento na vida de Sam Ali, personagem interpretado por Mahayni: as costas tatuadas pelo artista famoso, as exibições em museus e a venda da pele a um colecionador rico. Contudo, o que ela adicionou ao enredo é o que torna essa obra algo muito maior do que Hollywood seria capaz de fazer. Sam é um homem sírio que é preso porque, em uma declaração de amor à sua namorada Abeer (Dea Liane), com quem vivia um amor não aceito pelos pais dela, disse, em um trem, em alto e bom som aos outros passageiros: “Senhoras e senhores, esta é uma revolução. Queremos a liberdade, então vamos ser livres”. Naquele momento, eles haviam decidido se casar, porém, no contexto do genocídio promovido pelo governo de Bashar al-Assad, no qual a repressão era onipresente, uma filmagem feita e postada por um dos passageiros leva a polícia a prender Sam. Um primo policial facilita sua fuga da prisão, e sua irmã o atravessa clandestino em seu carro pela fronteira com o Líbano, ao passo que Abeer, diante da situação, aceita o casamento forçado pela família com Ziad (Saad Lostan). Em Beirute, num trabalho miserável, ele costumava entrar de penetra em eventos para se alimentar e, numa dessas festas, foi abordado pelo artista Jeffrey Godefroi (Koen De Bouw), que lhe propõe ser moldura viva de seu trabalho em troca de um visto para ir para a Bélgica, onde seria, finalmente, “livre”, porém às custas de ter o próprio Schengen, o documento de imigração, tatuado nas costas e ser exposto em exibições em museus, pelo que receberia um bom pagamento. De início, Sam, que vê naquilo uma chance de fugir para o “lado certo do mundo” e reencontrar Abeer, que trabalhava como tradutora juramentada em Bruxelas, acredita ter dado início à sua felicidade, entretanto vai descobrir que comprometera muito mais do que a própria pele para poder atingi-la.
    “O homem que vendeu sua pele” transforma uma inspiração em uma história real numa alegoria da coisificação do ser humano. Sam é tratado como uma coisa criminosa em Raqqa, sua cidade, por manifestar o seu amor. Em Beirute, não tinha identidade de indivíduo: era um refugiado sírio e, posteriormente, uma tela viva, ou seja, um homem-coisa, ou uma coisa-homem a ser usada pelo artista mediante contrato. Em Bruxelas, é abordado por membros de um movimento pelos direitos civis dos sírios, que veem em seu caso mais um abuso contra aquele povo e tentam cooptá-lo, sem perceber que o livre-arbítrio com que Sam tomou sua decisão de ser livre era maior que sua causa, ou seja, foi-lhe proposto ser um símbolo.
    Pessoa genérica, estrangeiro sem identidade, fetiche artístico e símbolo despersonalizado, tudo isso foi atribuído a Sam, porém sua trajetória em busca de si mesmo como homem livre e de seu amor com Abeer é o centro de toda a narrativa, a qual, como eu mencionei anteriormente, poderia ser convertida na coisa mais rasa e desimaginativa que uma produção hollywoodiana tanto costuma conceber aos borbotões. O filme é preciso em focar no drama pessoal do protagonista de forma que suas costas tatuadas acabam sendo mais um deflagrador da trajetória e das peripécias de Sam do que o propósito da narrativa, conforme se nota no que diz Jeffrey, pouco antes de tatuá-lo, a um documentarista que lhe pergunta “Mas, por quê, um visto Schengen?”:
    “— Mais uma vez, vivemos em uma era muito escura, onde, se você é sírio, afegão, palestino etc., é ‘persona non grata’. Os muros sobem. E eu só fiz de Sam uma mercadoria, uma tela, e agora ele pode viajar pelo mundo. Porque, nos tempos em que vivemos, a circulação de mercadorias é mais livre do que a circulação de seres humanos. Daí, transformando-o num tipo de mercadoria, ele agora será capaz, pelas convenções de nosso tempo, de recuperar sua humanidade e sua liberdade.”
    O filme de Ben Hania denuncia os horrores da guerra civil e os limites reais e abstratos que pessoas na condição de vítimas dela são capazes de cruzar. Todavia, metalinguisticamente, o que me parece que ela conseguiu com seu filme foi propor uma reflexão de como a pele de Sam e a própria película são objeto de fascínio enquanto composições (aquela, vendida por milhões de euros; esta, vencedora de prêmios em festivais internacionais de cinema), ao passo que aquilo que está retratado nelas é descartado enquanto denúncia, enquanto análise das tragédias impostas por governantes de ditaduras ou por multimilionários às pessoas comuns, cujos corpos são objetificados ou como indivíduos desprovidos de direitos, no caso das vítimas de Bashar al-Assad ou como, no caso de Sam, fetiche artístico para a apreciação de “elites” europeias, principalmente. O visto Schengen tatuado em Sam e o filme “O homem que vendeu sua pele” chamam a atenção, são vistos, valorados, comerciados, viram objetos de apreciação e de ostentação, mas a realidade que eles denunciam, não. Esta é, como costuma acontecer com os espíritos, invisibilizada pelo “glamour” dos corpos, das formas, do produto. Ben Hania me pareceu consciente de que a sua obra seria vista, mas o espírito dela, a sua essência, o seu teor, seria obliterado tanto pela exploração comercial do mercado cinematográfico quanto pela nossa preguiça de pensar a respeito dela.
    Obviamente, não vou estragar a experiência do filme, entregando aqui o seu desfecho, mas vou transpor o último diálogo entre Sam e Jeffrey, o qual ilustra muito bem a metalinguagem da obra:
    “— Claro, é... uma boa história para contar. Para a posteridade. Como derrotamos o sistema, Sam.
    — Jeffrey, você é engraçado, sério. Você, falando sobre derrotar o sistema? A pele será exibida nos mais prestigiados museus do mundo e, ainda que descubram um dia, só irá valorizar mais. O sistema o ama, Jeffrey. É idolatrado, faça o que fizer.
    — Sabe o que é pior do que ser parte do sistema? É ser ignorado por ele.”
    “The man who sold his skin” é desses filmes que se utilizam de uma trama para despertar uma percepção bem mais ampla do que a nossa própria realidade é capaz de incorporá-la. A narrativa fala de um homem em busca do amor e da liberdade, mas também trata de denunciar a guerra e o mercantilismo dos corpos, mas o que ela quer mesmo é dizer a nós que, num sistema que tudo reifica, que tudo devora e converte em mercadoria, nós mesmos, enquanto consumidores (ou espectadores), optamos por permanecer invioláveis aos verdadeiros sentidos que, de quando em quando, um “produto” esfrega em nossa cara. Dessa forma, consumimos e somos consumidos, teimando em ignorar que somos partes de uma cadeia exploratória e moedora de gente, confortáveis e indignados com aquilo que nos é exposto, como apreciadores de “Guernica”, ou da pele de Sam, ou do próprio filme que esta crítica analisa.
    Assistam, pelo menos, atentos.

11/12/24

quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

PAISAGEM COM MÃO INVISÍVEL


    Paisagem com mão invisível, filme estadunidense de 2023, dirigido por Cory Finley, é uma alegoria sobre o modus operandi da dominação e da exploração do mercado (a “mão invisível” é um conceito estabelecido por Adam Smith em Teoria dos sentimentos morais, bibliazinha “farialimer” escrita em 1759) sobre a sociedade e o cidadão comum. Vale cada segundo empregado, embora seja suave na ironia e no sarcasmo. Aponta, sem ser agressivo (tem leves doses de bom humor), a conversão patética e humilhante da humanidade em “bovinidade” ante a falácia do neoliberalismo. Excelente pedida pra se refletir sobre o nosso presente sem que isso cause queimaduras de 3° grau na alma.
    Assistam de sapatênis.

quinta-feira, 21 de novembro de 2024

O MENINO E A NOITE

    Quando comecei a escrever poesia, tinha um pouco menos que a idade atual de meu filho, Miguel, e um pouco mais que a de minha Clarice. Fui incentivado pela minha irmã Malu a datilografar meus textinhos na velha Remington 25 que papai comprara para as filhas, na qual eu brincava de ser escritor. Honestamente, eu me divertia com isso muito mais que hoje. Era um pequeno calhamaço de poeminhas bobinhos que eu intitulei Poemas de uma criança, da Editora Estrelinha, meu único empreendimento digno. Nessa época, eu também comecei um romance que chamei de A guerra dos meninos. Nunca terminei. Talvez, porque já começava a me bandear ao lado do exército inimigo. Também me aventurava em histórias em quadrinhos que eu mesmo diagramava em bloquinhos que confeccionava com folhas velhas de meus cadernos escolares. A principal era a da águia Cry, que sempre mudava de forma entre os quadros. Desenhava o que me vinha à mente, fosse concreto ou abstrato. Peguei gosto pelos super-heróis, pela anatomia humana, animal, pelas formas geométricas, pelas flores. Sempre tentei, sem sucesso, desenhar a noite, mas foi na poesia que tive êxito. O caso é que, nesse momento, a Noite já era outra. A escuridão e o espaço, uma vez palavras, ganharam gravidade, peso, forma e força. Entendi, então, que eu era mais da Noite que do dia, que a ausência do meu amado sol de litoral era muito maior, muito mais íntima que minha relação com ele. Dei a Ela minhas mãos de já pré-adolescente e, a partir daí, ainda que sem saber, passei a dar a tudo que escrevia um tom de ausência, um adeus. Minha escrita caótica foi motejada pela despedida como se, em cada poema, eu me despedisse de mim, ou dos outros, ou das palavras, ou de tudo.
    Hoje, minha literatura tem o encargo de me explicar, de me narrar. O peso do testemunho de quem sou e fui, do que sinto, vejo, amo, penso e odeio tornou-se monumental de tal forma que escrever, há muito, vem deixando de ser produzir e passando a ser descarregar. Escrevo como se tirasse autoesculturas malfeitas de minhas costas, peças que me decompuseram e que me espedaçaram porque são feitas de mim, e que, por isso, me enfraqueceram o espírito mais que me aliviaram de sua sobrecarga. É por esse motivo que não me encontro mais no que escrevi. Em cada texto, em lugar de haver um reflexo ficcional do eu-autor, há os meus pedaços que ele deveria refletir. Eu estou lá, pois sei que eles são meus, mas sei sem sabê-los, sem me lembrar deles. Eu fiquei lá, esculpido, forjado, amalgamado, e a memória do que eu fui não os alcança mais. Ela ficou lá, encapsulada, criptografada. E é esse mistério, essa antologia de lacunas das quais também fui me despedindo, que me pesa ainda mais que quando elas estavam preenchidas aqui, em forma de lava. Lá fora, como vidro vulcânico, são obsidianas cortantes que me sangram ao toque. Revisitar velhos poemas, como fiz há pouco, é como um masoquismo, uma automutilação, uma nostalgia de algo que sempre me espanta e fere, pois o encontro com quem fui é sempre um encontro de estranhos: o eu-cá, curioso e pasmo; o outro, expatriado, arredio, indignado, beligerante.
    Mas, nem sempre. Há vezes em que escrever é confeccionar uma roupa, um uniforme ou um disfarce — às vezes, apenas um cobertor, quando preciso me apartar da Noite. Tirar a própria pele apenas para ver como sou. Depois, vesti-la sobre um eu-novo ainda anônimo e amorfo. Andar, então, pelo presente, vestido de passado, protegido por mim, disfarçado de mim. Escrever, assim, pode ser vestir-me com meu próprio fardo e crescer a carne nova em paz, sem que ela seja cicatrizes.
    Tão diferente vim me tornando quanto vim me descrevendo. À medida que me livrava de mim, vim me acumulando, obrigando-me a reconhecer-me em minha trilha de migalhas de pão. Quanta saudade de quando escrever era como acender velas na escuridão da casa, revelando a mim mesmo nas sombras projetadas na parede. Foi assim com o desenho, com a música e com os primeiros textos, antes que a Noite obsoletasse as paredes, a casa, a cidade, até mesmo, a noite lá de fora. Assim, toda tessitura e toda composição foram estruturando uma nova casa, que cresceu a uma cidade, que evoluiu a um país, assim como o reino dos cheiros de Jean-Baptiste Grenouille, com a diferença de que, lá, todos foram capturados, ao passo que, cá, fomos todos abandonados. Dessa forma, escrever também pode ser um fenômeno biológico como um tipo de meiose, por meio do qual cada texto, ainda que um haicai, é um eu diferente de mim, porém, um componente de mim exteriorizado, e, ao me fragmentar para compô-lo e livrar-me dele, acabo por tornar-me um organismo formado inteiramente de corpos estranhos, células oriundas de uma tentativa de amputação que culminaram numa espécie de eu-colônia ou eu-mosaico.
    Escrever sempre é tentar definir-me por meio de mim e do alheio. Coisas, lugares, pessoas ou experiências, por mais que eu tenha a intenção de denotá-las, acabam por ser uma escusa para falar de mim por intermédio delas, como se fossem todas lentes ou janelas que sempre dão aos cômodos da casa do eu-autor, incluindo-me eu próprio nessa mediação. Nesse último caso, a composição é uma viagem em que o eu-autor é o mar, o barco e o barqueiro, e, chegando lá, nessa terra nova, tenho a sensação muito nítida de descoberta e desbravamento, pois aportei numa revelação de mim mesmo completamente inédita: um eu-mesmo que é outro. Provavelmente, a cada novo texto, a cada novo desenho e a cada nova música, eu vinha criando a mim mesmo, gerando um eu-que-seria, mas, simultaneamente, vinha me despedaçando em vários eus-textos que deixava para trás. Por isto, é tão preciosa aquela criança que datilografava como quem pavimenta o próprio caminho: é dela que não posso me perder; é ela que busco nas releituras; é com ela que preciso me integrar para vagar na Noite. Portanto, escrever é o paradoxo de destruir-me para criar(-me). É multiplicar-me para diminuir-me. É sobrecarregar-me para ser leve. É crescer para tornar-me novamente criança.
    Procurei, outro dia, aquele calhamaço da Editora Estrelinha, sem sucesso. Sei que não o perdi. Está em alguma caixa ignorada em várias mudanças. Gosto de pensar, porém, que não é uma caixa ou um envelope. Gosto de pensar que é uma casa oculta nessa cidade que virou país, uma casa toda feita de lembranças, de onde foram retirados os tijolos para a construção de todas as outras, e, por isso mesmo, imaterial que se tornou, é tão difícil de se encontrar. Lá, quando regressar, vou reler os quartos, o quintal, os vãos de sonho que foram originalmente dormidos. Vou deitar novamente na rede em que as palavras me embalaram pela primeira vez e vou reconhecer-me como o mais distinto semelhante, o mais próximo distante, o mais eu-mesmo que o outro pode ser. A Noite, como agora há pouco, vai parir o dia, e poderemos, talvez, escrever sobre o sol que nasceu no mar e sobre a primeira vez em que nos vimos cara a cara.

21/11/24

quinta-feira, 26 de setembro de 2024

BEIRA

Beira da estrada,
beira do mar:
um olhar abraça o outro,
e duas solidões se beijam
— duas partidas sem porto,
duas jornadas sem retorno,
dois confins.
E uma só ida para viver.

26/09/24

quarta-feira, 25 de setembro de 2024

O VOO DO ÚLTIMO PARDAL-AZUL

eBird - Pardal-azul

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I

Onde, o espaço, Clarice?
No fim                .

II

Sair para deixar entrar
e ir saindo de tudo
e ir indo
indo
o ido inteiro
até só restar chegar.

III

Sentia frio nos pés
mesmo no pingo do meidia:
pronde ia o sangue
que no corpo se calava?

Do céu, caía morto
sem nenhum alvoroço
e sem deixar saudade
o último pardal-azul.

IV

Falta um anjo conceder
o que deixou de me guardar:
na testa, nunca mais, o beijo;
no corpo, ausente o desejo;
e o sono, sem adeus a dar.

V

A casa acerta com o tempo
uma aposta de compadres.
Volta e meia, vem um vento,
e o casado se descasa
na volante de um instante.

Pelo chão, o lixo sorridente
futuriza o despassado:
não são mais cédulas,
na voragem do torvelinho;
é a paga do tempo,
que a casa sempre vence.

11/09/24

terça-feira, 27 de agosto de 2024

O GOSTINHO CERTEIRO DE "FARAWAY"

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    Será que é bobagem ser sentimental? Ou é o nosso sentimentalismo que se pasteurizou, que foi embalado em caixinhas de papelão vermelho e é vendido com fritas e coca? Talvez por isso mesmo, a melosidade de diuréticos hollywoodianos me caia tão mal, deixando um azedume na memória depois de o açúcar sintético abandonar as veias. Não sou ingênuo, toda arte e todo entretenimento são produtos mercantis pelo menos em algumas etapas do processo. Contudo, ainda estamos falando de arte, portanto o que está em tela deve transcender suas primeiras camadas e se ressignificar como mensagem, para muito além do beijo, do sexo, da traição, do abandono, essas coisas tão ordinárias que teimamos em querer ver copiadas em melodramas, doramas e romances cinematográficos. Faraway (Em uma ilha bem distante), filme alemão de 2023 dirigido por Vanessa Jopp, encaixa-se nessa categoria de filmes que conversam com a gente sobre essas trivialidades universais, porém adocicadas e suavizadas para nos dar um bem-estar de final feliz, de esperanças e possibilidades depois de um grande trauma. Contudo, há várias pequenas excelências que fazem esse filme se destacar na prateleira de doces em que a Netflix o colocou.
    A história se inicia na Alemanha, onde uma família de origem turca e croata se prepara para o funeral da sua matriarca. Naomi Krauss interpreta Zeynap, sua filha, que é ignorada pelo pai, pelo marido e por sua própria filha adolescente. Zeynap descobre durante os preparativos que sua mãe havia comprado em segredo uma casa na ilha em que nascera, na Croácia. Durante o enterro, seu marido, que se havia comprometido em ler a elegia, não comparece porque preferira ficar no restaurante da família, onde começava um romance com a nova chef que havia contratado recentemente, muito mais jovem que Zeynap, que tem 49 anos. Ao descobrir, ela parte em direção à casa comprada por sua mãe, que se opõe diametralmente à sua: é bucólica, rústica e ensolarada, compondo a paisagem do alto de uma colina, de frente para o mar. Daí, Zeynap passa a questionar toda a sua vida, ao ir descobrindo a história de sua mãe e reconstruindo a sua própria.

    Em qualquer página de crítica cinematográfica, é possível encontrar uma sinopse semelhante a essa, e logo vem a sensação de que, excetuando-se as locações, é uma trama como dezenas de outras que se clonam por aí. Porém, o que me fez sentir que se tratava de uma singularidade no meio da mesmice foi a carga de verdade com que Naomi Krauss diz, com sua personagem, muito mais do que um texto de autoafirmação e de resiliência. Ela impõe legitimidade às condições que lhe são impostas enquanto filha, mãe, esposa, dona de casa e mulher, a ponto de tornar críveis a história, o drama, o romance e o humor do filme. Ela consegue dar aos próprios olhares, gestos, nudez e diálogos a medida certa de intensidade para que acreditemos que ela é o que a personagem precisa que ela seja: uma pessoa real, uma mulher de 49 anos num mundo que não a leva a sério.
    Além disso, a diretora conduz o filme de modo a nos contar essas duas histórias (a do estereótipo e a da mulher real) com precisão e leveza, criando, assim, junto à cinematografia, às locações, à trilha sonora (pontualíssima), ao figurino (que, diga-se de passagem, consagram as transições de Zeynap) e à edição, um filme gostoso e quentinho, porém verdadeiro e honesto, desglamorizado, que deixa sua mensagem muito bem plantada ao final.
    A despeito de se resultar de uma fórmula mais batida do que a da massa de pão doce, Faraway se laureia por nos proporcionar uma comida que alimenta e que desperta a vontade de comer novamente daquela “novidade”, que nada mais é do que uma sobremesa deliciosa e honesta, preparada com a intenção de fazer o espírito sorrir, como deveriam ser todas. Que pena que o cinema de entretenimento tenha se esquecido de que as melhores refeições são aquelas que nos fazem sentir em casa, e não em um shopping center. Assistam acolhidos.

27/08/24