só,
ou em meio a números
— casal, ménage, swing, bacanal —,
o artista é,
essencialmente,
um sozinho.
caso não,
erra das duas uma:
a arte
ou a conta.
21/10/20
Este blogue se destina ao uso artístico da linguagem e a quaisquer comentários e reflexões sobre esta que é a maior necessidade humana: a comunicação. Sejam todos bem-vindos, participantes ou apenas curiosos (a curiosidade e a necessidade são os principais geradores da evolução). A casa está aberta.
caso não,
erra das duas uma:
a arte
ou a conta.
21/10/20
Vou escrever. É o que eu sei fazer, e, nessas horas, é preciso confiar no que se sabe fazer. Todo dia, a vida vem parecendo uma coisa que só acontece aos outros. Nas redes sociais, ela pulula. Este, no boteco, nos aniversários, nas academias de ginástica; aquela, na praia, no trabalho, nas boates dançantes. Todos, enérgicos e relaxados; todos, produtivos e lassos. Todos vivendo. John Lennon o disse, e eu, por muito tempo, repeti que a vida é o que lhe acontece enquanto você se ocupa fazendo outros planos. Tradução minha, e livre. Faltava acrescentar a essa tradução as circunstâncias de produção da frase. Ou melhor, faltava a definição desse “você” e desses “planos”. A música era para o Sean, cujo irmão, Julian, filho do casamento anterior, fora tratado como lixo pelo mesmo pai. Os planos desse pai consistiam em continuar vendendo a falsa imagem branca do propagador da paz e do amor que lhe rendeu milhões de dólares e de fãs. Os planos consistiam em vender. O você fazia parte do produto ideal. Não sou vendedor, já tentei, atrás de balcão e de porta em porta. Não conseguiria convencer um faminto a comprar comida. Muito menos, uma amante a permanecer amando. Parece que, a mim, a vida lennoniana aconteceu ao contrário. Parece que, ao ser incapaz de praticar os “outros planos”, outorguei à vida que lá acontecesse, e de lá desdenhasse da minha espera por seu acontecimento.
Não foi bem assim. Do lado de cá, eu me debati bastante por viver. Tentei amar, tentei confraternizar, tentei participar, tentei me integrar. Tentei produzir, funcionar, compartilhar, influenciar. Tentei ser filho, irmão, amante, namorado, marido, pai, tio, primo etc., etc., etc.… Nada disso aconteceu como deveria, e a vida — essa, lennoniana — sobrava na vida dos outros. Na minha, na minha vida, eu me descobri um simples espectador de tudo. Isso, muito antes de as redes sociais existirem, muito antes do palco virtual onde a vida dos outros eclode radiante e glamorosa. Antes de professores terem de se preocupar com a qualidade das câmeras, por trás de cujas captações sua imagem, conhecimento e experiência passaram a competir com as de outros professores por likes, follows e retweets (e contratações, pois não?).
Espectador e expectante, a isso meio que se resumiu a minha vida. Exceto aqui, na escrita. Aqui, escavei, prospectei, fingi verdades. Lapidei-as, poli-as para exposição em galerias, ao mesmo tempo em que as pus a chafurdar na pior imundície do exagero. Porém, nunca as menti. Mentir é uma ferramenta muito útil para se atingirem os “planos”, principalmente, se a vida está lá, e não cá. Dessa forma, para viver, menti, menti bastante. Menti como quem respira, sempre na esperança de a onipresença da mentira convertê-la automaticamente em verdade, em vida. Sempre fui eu o principal objetivo de todas as mentiras, assim como o assunto de todas elas. Mentindo-me, coisa que nunca consegui em literatura, talvez fizesse algo mais que existir observando. Talvez, assim, pudesse ser eu a estar lá, nos púlpitos da vida, propagando imagens de quem sou, todas elas orgulhosas de mim, todas reluzentes e sombrias, todas paradoxalmente belas e invejáveis como uma androginia de percepções casuais e incopiáveis, todas boas demais para o copidesque ou a maquilagem existenciais. Talvez, se eu houvesse sido outro, não física, mas animicamente, como um vasilhame cujo conteúdo se troca, talvez eu conseguisse ser suficiente, talvez dançasse, sorrisse e rolasse nos lençóis brancos lennonianos, fingindo não ser aquilo a vida, mas sim algo que me aconteceu enquanto eu estava distraído. Se eu acreditasse que conseguiria… Meu Deus, por que eu nunca acreditei? Por que votei minhas crenças a uma beleza somente possível se prospectada como um mineral? Continuam lá, as imagens, vivendo. Cá, eu, assistindo. Faminto e resignado, limpo como um vidro de aquário, imperceptível de tão transparente, que não fragmenta raios nem oferece sombras. Ou negro, tão negro quanto o écran que reproduz as letras que digito, sem questioná-las, sem interferir nelas. Porém, quem digita as letras que reproduzo está ciente também de que só existe nelas e, ainda assim, somente se lhe perfurarem a crosta e lhe adentrarem as escuridões?
O que sei fazer se resume a isto: escavar-me, escrever-me, publicar-me. Devo confiar no que sei fazer, mesmo que minha prática possa revelar-se uma mutilação na rocha sempre quebradiça sobre a qual resido e atendo, sempre desconfiado, sempre cansado e triste, sempre sem esperança.
11/10/20
não posso aceitar beleza
que não faça sofrer.
ser belo é ser,
nos olhos dos outros,
a angústia da miséria do corpo
e a mendicância do amor.
eis que a fome,
até então incógnita, sem prenúncio,
crava os dentes na traqueia
e surra o baixo-ventre,
socando a boca do estômago:
é lá que passa a beleza
no vento maldito das saias.
beleza que não faz sofrer
é faca cega
passando margarina em pão seco
numa tarde faminta de banquetes.
25/09/20
gíria é quase sempre
puro contexto.
veja a palavra “mano”:
quando dita por um capoeira,
um pescador, um roceiro,
com o afeto intensificado
pelo adjetivo “velho”
e suas corruptelas tão bonitas,
é carinho no espírito,
que se entende irmão e filho,
há muito tempo,
da terra e dos homens.
mas, quando ela vem
bem paulistinha,
ou com as vogais deformadas
pela poluição comportamental das praias,
ou carrega a efemeridade
do aluguel da juventude
aos estrangeiros
nos shoppings e na web,
em troca de espelhinhos e miçangas,
ela é prego no ouvido
e estupro na esperança
de que se possa estar entre irmãos.
melhor se fosse brother,
ou melhor,
bróder,
palavra furtada
que não mata ninguém
no sertão da minha memória,
que ainda é jovem o suficiente
para morrer todo dia
e renascer palavra por palavra
no silêncio desse mundo.
22/09/20
sempre existem pessoas
com quem se falar.
porém,
como elas só existem
e nada mais,
deixam
automaticamente
de
existir
nesse silêncio,
onde tudo que existe
transcende.
22/09/20
minha casa sempre foi cheia de enormes solidões
e cresci habituado à mesma companhia
hoje, face a face com o esmero da vida
no fazer-me inteiro com os outros,
não sei mais qual pedaço arrancar para encaixá-los
e me vejo sem braços e sem pernas,
roendo com os cacos dos dentes
as horas inoportunas em que tenho de ser vário
de minha casa antiga, ficou o alicerce
robusto, profundo, arrochado com o passado da Terra
nele me sustento e resisto ao esquartejamento
das relações
e existo erodindo, como minha casa velha,
como os corações velhos enterrados no quintal
ao lado do poço seco
e dos esqueletinhos dos cães de minha história
quando for caverna, quem sabe, habitável,
talvez acomode melhor
os que me bateram na porta
talvez, num veio ou num olho d’água,
dê-lhes de beber e de banhar
no reverso do vinho da parábola bíblica:
a simplificação da festa familiar,
o sangue finalmente convertido em coisa
que mate a sede que tiveram de mim
talvez, também, menos possível, embora,
haja nos minerais em volta algo de precioso,
algo que, recebendo um pouquinho da luz
na hora certa do dia,
lhes recompense a fadiga dos músculos
e a desesperança dos punhos
cansados das chibancadas
com uma liga ou uma gema qualquer
que lhes valha as alianças
que nunca fui capaz de forjar
assim, prospectado, devidamente convertido
em sítio arqueológico,
ou retiro espiritual,
ou mina abandonada,
eu possa responder, ainda que ecoando,
a todas as perguntas, a todos os inquéritos,
ou então, como sói às cavernas,
eu seja o lar de mistérios e morcegos, que, finalmente,
possam ser deixados em paz
01/09/20