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sexta-feira, 17 de maio de 2024

NÓS LÁ EM CASA


Luli e Lucinha - Nós lá em casa
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    Em 1978, conjuraram-se as vidas e as carreiras de Luhli e Lucina no seu primeiro elepê, intitulado Luli & Lucinha – Nós lá em casa (ambas mudaram os nomes artísticos posteriormente), gravado nesse ano, mas lançado em 1979 e vendido mão a mão pelas duas, que rodaram o Brasil numa Kombi adaptada, com a vida, a família e os sonhos nas costas. Luhli e Lucina são pioneiras em muitas coisas. Nós lá em casa foi o primeiro disco completamente independente gravado no País, bancado inteiramente pelas duas, que venderam na estrada mais de 50.000 cópias somente nesse ano. Elas foram o primeiro duo de cantoras/instrumentistas com total protagonismo no palco, com os tambores à frente da banda, ogãs que eram. Principalmente, elas foram as primeiras artistas brasileiras a peitar e sobrepujar as gravadoras, as quais decidiam quais músicos teriam de ser silenciados para que se lucrasse com aqueles que eram “eleitos” para o sucesso.
    O disco é íntimo, confessional, de uma autoralidade pouco encontrada de forma tão autêntica e legítima. Elas viveram naqueles primeiros anos de dupla a experiência hippie totalmente raiz, e não havia intenção maior que viver a música no sonho de verter nela a própria vida. Como disse a própria Luhli, as músicas são como o vento e o mar, e a experiência de ouvi-las é também multissensorial, tais as evocações que elas atingiram não somente com as letras, mas também com o casamento perfeito entre arranjos instrumentais e vocais, além dos timbres e das técnicas desenvolvidas para, como disse Luhli, “duas parecerem muitos”, quando cantam.
    Esse disco tem a capacidade rara de transportar para uma atemporalidade o apreciador que tem vocação para se deixar ser passageiro, mas não se limita a ninar ninguém: ele é uma proposta, uma provocação à viagem. Muitas vezes, é a Kombi; noutras, a estrada; mas gosto de ouvi-lo como a um destino. Maravilhoso, o disco, maravilhosas, as duas, desde sempre.

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17/05/24

quinta-feira, 9 de maio de 2024

A CAVERNA DE GRENOUILLE

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    Em seu romance Das Parfum - Die Geschichte eines Mörders (Perfume - a história de um assassino), de 1985, Patrick Süskind cria uma personagem descrita por ele, exegeticamente, monstruosa desde o nascimento, quando, com seu primeiro choro por vida, condenou a mãe à morte pela tentativa de infanticídio. Porém, o autor também denota que a mãe era uma vítima da miséria, tendo, sifilítica que era, parido vários natimortos, com um dos quais, naquela ocasião, havia confundido Jean-Baptiste Grenouille, o qual deixara cair como supostamente morto entre as vísceras de peixe sob a sua banca de feira num dos lugares mais imundos da Paris do século XVIII. Essa dicotomia entre a “inata” maldade de Grenouille e suas posteriores misantropia, sociopatia, egolatria e, finalmente, psicopatia e criminalidade; e os fatores ambientais e sociais que tornavam a sua sobrevivência praticamente um milagre — os que não o tentaram matar tinham-lhe um asco imediato, o que lhe atribuía uma subumanidade — criou uma alegoria riquíssima de um continente, de uma época e das relações entre a marginalização e a criminalidade condensada em uma só personagem.
    O realismo mágico da história tem lugar na descrição dos “superpoderes” de Grenouille: seu olfato, que tinha uma apuração fantástica, transpondo os limites da realidade desse sentido a ponto de perceber tudo (inclusive o que, para pessoas normais, sequer tem cheiro) até mesmo através de paredes e a distâncias enormes; e sua resiliência a uma sociedade que lhe era ininterruptamente cruel e assassina. Esse superolfato tem sua contrapartida em outra característica mágica de Jean-Baptiste: a sua total ausência de cheiro, e isso, que era inexplicável a quem quer que tivesse contato com ele, visto que era impossível, tinha outra consequência, também mágica: a rejeição imediata àquela criatura, até mesmo pelo padre responsável por atribuir a alguma ama a manutenção da vida de Jean-Baptiste quando bebê.
    “Terrier tinha a impressão de que a criança o olhava com as narinas, o examinava sem complacência, mais implacavelmente do que poderia fazê-lo com o olhar, como se absorvesse pelo nariz algo que emanava de Terrier e que ele próprio era incapaz de reter ou dissimular… Esta criança sem odor passava impudentemente em revista os odores dele. Era bem isso! Farejava-o dos pés à cabeça! E Terrier sentiu-se repentinamente fedorento, a tresandar a suor e vinagre, a couve-roxa e a roupas sujas. Teve a sensação de se encontrar em toda a sua nudez e fealdade, perscrutado pelo olhar de alguém que o fixava sem nada revelar de si. Era como se esta exploração olfactiva lhe atravessasse a pele e lhe devassasse o íntimo.”
    A existência de Jean-Baptiste Grenouille, enquanto ser que tudo sente das pessoas pelo seu olfato e que, por sua vez, é imperceptível a elas pelo mesmo sentido, é a existência da nudez compulsória dos pecados da humanidade; da revelação forçosa de tudo o que é mais oculto, contra a qual nada se pode fazer; e da subsequente tentativa de eliminação dessa existência a fim da manutenção da vida aparente, assim como faz um perfume à fetidez do corpo. Grenouille é, como alegoria, aquele de quem nada se pode esconder; de quem ninguém consegue escapar; e quem, conforme se narra no clímax da história, ninguém pode matar, exceto se for de seu desejo morrer. Grenouille é aquele que não tem cheiro próprio, porém condensa em si mesmo todos os fedores do ser humano, e, por todos esses motivos, é uma das personagens mais fascinantes da Literatura.
    Grenouille fica anos ignorante de ser inodoro. Todavia, talvez (na minha leitura) por causa tanto dessa característica quanto dessa ignorância, passa a categorizar o mundo pelos aromas, a despeito de sempre ter sido insensível à vida ou à inanimação daquilo que os emitia. Os cheiros, uma vez sentidos, eram categorizados e possuídos como peças de um universo particular e íntimo, dentro do qual ele existia e imperava como um deus real, onipotente e tirânico. A fuga interna de Grenouille e sua capacidade de sobreviver a praticamente tudo amplificaram sua sociopatia num ódio à humanidade, cujos odores detestava até aquele momento, o que foi o primeiro passo para ele se tornar um assassino em série: a vida que portava o cheiro importava tanto quanto um frasco de perfume e tinha a mesma descartabilidade daquele. Após se sentir patologicamente atraído pela fragrância natural de uma jovem, ele a persegue e a mata a fim de se apoderar daquilo que, até então, era o mais precioso bem de suas posses interiores: o cheiro da beleza e do amor, a essência da única coisa que dava sentido àquela existência infernal à que estava preso (“Cem mil perfumes pareciam nada valer comparados com este. Este perfume único constituía o princípio-padrão a partir do qual se deviam classificar todos os outros. Era a beleza pura.”). A partir daí, seus atos eram todos direcionados à captura dessas essências. Aprendeu a profissão de perfumista, mudou-se para a cidade de Grasse e lá desenvolveu uma técnica particular para a materialização em óleos essenciais dos cheiros das mulheres que matava a fim de extraí-los.
    Porém, há uma chave para que ele se dispusesse a tal empreitada. Süskind cria um momento em que há uma percepção íntima de Grenouille de que era, de fato, um ser miserável, malgrado a divindade que manifestava onipresente em seu mundo interior, o único que, até então, importava. Em Grasse, ele sente o cheiro de uma jovem que se sobrepunha a todos os outros. O pai desta, pressentindo que a filha poderia ter o mesmo fim que as outras mulheres assassinadas misteriosamente até então, empreende uma mudança com ela para um local secreto, porém Grenouille parte em seu encalço, guiado pelo perfume da moça. Essa obra me capturou na primeira página e se mantém em mim desde a primeira leitura, ali no final dos anos 1990. Contudo, é nessa passagem da narrativa que ela se torna especial para mim por identificação e criação de uma intimidade com Grenouille, não, obviamente, pelos seus atos, mas sim por seu inferno. Durante a sua ida a Grasse, ele passa por uma região bastante inóspita e se dá conta de que está num lugar em que não há, absolutamente, cheiro de nenhum ser humano nem de civilização. Estava distante de tudo o que lhe era pérfido e deletério, estava desobrigado de sentir o que lhe sufocava naquela miséria de vida e de forçosa interação humana. Estava livre. Nesse ponto, sente-se inclinado a desistir de seu intento e passa a seguir o seu olfato neste sentido: iria para o lugar onde houvesse a mais intensa esterilidade. É nesse ponto que encontra a caverna. Nela, ele se entoca e ali passa um longo período a existir unicamente em seu reino interior, rodeado e servido pelos cheiros dos quais se apropriara até aquele momento, inclusive e principalmente, o da primeira mulher que matara. As outras funções e necessidades corporais não lhe importavam. Alimentava-se de musgos e bebia água da chuva apenas para manter exteriormente a viabilidade do paraíso interior. Ele mesmo ela um frasco de tudo aquilo que tirara do mundo que tanto tentara lhe tirar a vida. Estava, em suas particulares concepções, em paz. A história foi adaptada para o cinema em 2006, num filme homônimo muito bem dirigido por Tom Tykwer, 
roteirizado por Tom Tykwer, Andrew Birkin e Bernd Eichinger e protagonizado com excelência por Ben Whishaw, porém — não sei se por escolha ou por impossibilidade narrativa —, ele falha em retratar esse recorte. Não há, no filme, as imagens do paraíso interior de Grenouille: a servidão que ele impunha aos cheiros, os quais representavam todo o mundo que lhe era conhecido e dos quais se vingava em seu absolutismo divino; e as fantasias de poder que o assomavam em decorrência de uma vida inteira de sobrevivência a crueldades e à miséria, de privações e de desumanização. No livro, esse é o instante em que se percebe o quanto Grenouille representa a gigantesca “caterva” de miseráveis cuja existência deve ser aniquilada pela “normalidade” do mundo, exceto, é claro, se estes lhe servirem a algum propósito, como ele próprio servira a todos os que foram responsáveis por ele ou seus patrões, desde Madame Gaillard, que era paga para mantê-lo no orfanato, passando por Grimal, que lhe explorava em seu curtume, até Giuseppe Baldini, em sua perfumaria, todos mortos posteriormente ao seu desvínculo com Grenouille. Süskind nos mostra que, quando Jean-Baptiste se percebe vazio, desespera-se, pois há uma ruptura do limite entre o seu corpo, que era vítima do mundo, e seu espírito, que possuía um mundo ideal. Essa epifania o força a uma confrontação. A idealização desse mundo, na qual se dão as suas fantasias de poder e onde o amor e a aceitação por parte das essências escolhidas por ele do mundo acontecem conforme os seus comandos, não significa nada, pois, na realidade do mundo exterior, Jean-Baptiste percebe que nunca foi nem nunca será amado justamente por não possuir aquilo que vinha tornando possível amar o mundo: o cheiro. É, na narrativa, a deflagração dos atos posteriores que culminarão no clímax da obra, que não descreverei aqui.

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    O motivo de O Perfume ter me marcado tão profundamente não se limita à inegável genialidade narrativa de Patrick Süskind. A relação entre o mundo exterior (o real) e o interior (o ideal) de Grenouille pode ser compreendida como a dicotomia significante-significado, ou seja, a dualidade entre a matéria e a transcendência, ou entre o mundo e as palavras, ou entre a crueldade da sociedade e a criação de monstros, ou ainda entre a natureza e a arte. Porém, para mim, ela atinge, quando o retrata, aquele sítio do espírito humano em que se constrói um mundo íntimo que torna possível a existência no mundo real. Esse universo interior começa como o refúgio de uma criança que não é aceita, que se sente deslocada num mundo que não lhe guarda nenhum segredo e que esse próprio mundo passa a tentar usar, a despeito do nojo que este nutre a ela por um medo intuitivo; ou descartar, quando esta não se lhe mostra mais útil. É o refúgio de Grenouille na caverna, para mim, o ponto mais alto da narrativa. Lá, ele abre mão da existência exterior, de seus desejos mais intensos, do trabalho de uma vida inteira, em prol de um isolamento no vazio da idealização. Não consigo encontrar na obra uma desesperança na vida da personagem que seja maior que essa, nem mesmo a desgraça, a miséria, a corrupção da vida e a morte. A fuga de Grenouille para dentro da caverna e para dentro de si é a desistência de si no mundo. A compreensão de que não possui um cheiro próprio é a morte de seu espírito, pois o entendimento de que, mesmo no ideal, a beleza e o amor daquela vida são ilusórios, uma vez posto que não há o que ser amado ou belo, destrói nele a única esperança de existência. A tragédia de O Perfume tem o seu apogeu no meio da narrativa, e todo o resto da história é uma tentativa do protagonista de reexistir, de se materializar, de trazer para o corpo o que, no espírito, era perfeito. Contudo, Grenouille não contava com o fato de que, assim como ele não possuía um cheiro a ser sentido (note-se: uma alma a ser consagrada ou um corpo a ser amado), a própria humanidade não possuía nenhum sentido que percebesse a sua essência (note-se: um céu para a alma ou um amor para o corpo). Aquela desesperança, que ele tentou aniquilar pela própria materialização, concretizou-se no total abandono de si, no vazio de existir num mundo em que a própria existência é vazia.
    Jean-Baptiste Grenouille nasceu só, viveu só e morreu na consumição de seu próprio vazio (atentem ao final do livro), vítima de um encadeamento de decorrências post mortem em vida, como um séquito em que o próprio cadáver carrega o seu próprio caixão. O filme vale muito a pena ser visto, principalmente como uma prévia do livro. Já o livro é uma obra para se ler depois de ser lida, para além de si, dentro de nós, na construção de pontes entre o real e o ideal, ou entre o corpo e os seus cheiros.

09/05/24

quarta-feira, 3 de abril de 2024

PALAVRA SEM NOME

Albert György - Melancholy
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(ah, poesia…
se eu de ti me ria,
o que, sem ti, eu faria?)

procura no som de tua boca,
no texto que te vai no sangue,
o verbo sem letras que evocas,
que nunca disseste, mas ganes.

borraste-o de tuas plaquetas?
queimaste-o quiçá por engano,
ateando nas bibliotecas
o fogo melhor de teus anos?

comeste-o, faminta de ti,
inane de amor e de fúria:
no oco do ventre, o carpir;
na boca e na voz, a loucura?

se a alma que é dele era a tua,
verdade que nunca o disseste?
se é assim, no inferno, procura
o espelho em que tu adormeces.

mataste o que tu não formaras,
mas te sustentava, invisível:
o leito em que ancoraras
teu corpo, tua nave impossível.

ausente, a palavra inda existe:
viver, talvez interpretar…
a ti, o tempo não permite
saudade ou dor que vingará

a morte, que, por ti, mataste;
a vida, que não mais terás.
sem ti, não és mais o estandarte
de tua nação insular.

agora, que a palavra existe,
tu és a ausente que está:
visita sem ter quem visite,
memória sem ter quem lembrar.

03/04/24

VALE SECO

tempo,
não arraste aqui as suas águas
represadas de décadas.
houve motivo para as rochas,
as árvores e o entulho,

e não lhe cabe legislar
sobre quem não lhe deseja o fluxo,
a torrente
ou a seca.

não umedeça quem quer a boca seca,
não afogue quem não sabe nadar,
não banhe
quem quer a sujeira plástica do mundo.

fique parado,
evole-se, acumule-se no céu
das mocinhas chorosas
e chore sobre quem lhe deseja
alguma precipitação,

mas não venha molhar os pés
que escolheram as profundezas da terra
para dormir.

pare, tempo,
e grave no relógio de pontos
o instante exato em que a sede
parou de lhe ter necessidade,

o momento preciso
em que a vida estancou,
para que me fiquem claras na memória
a duração
e a partida,

e eu possa me presenciar,
inerme e seguro,
inalcançável às marés
e aos pântanos
que são tão de sua natureza infligir.

deixe meus olhos assim,
esvaziados,
e poderei saber em mim
de todas as partes,
sem o temor do naufrágio
e o enjoo do bordejo.

deixe-me, tempo,
que preciso sacar-me de todas as horas.
há de se fazer o silêncio
de suas correntes
para que eu me liberte
e seja terra firme, afinal.

30/03/24

quarta-feira, 13 de março de 2024

SALA DE PARTO

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essa demora, essa luz
suspensas e ubíquas
essa cegueira e essa roupa
que são feitas de tudo

existem!, e essa existência
não quer, não precisa,
não permite a participação

metais acesos e lentos
fulguram retorcidos
raios penetram pelas nesgas
rasgadas pelo breve tempo

a carne, mole, permanece
os ossos, tortos, espiralam
o espírito ordena:
nasce! nasce! nasce!,
em sussurros de prece
inauditos e afásicos
no oco da catedral

a forma se prepara
para a palavra que não existe
coisas sem nome
fogem das frases
que não as querem

mas a forma se prepara
se esquece
se esvazia
até se tornar só corpo
um corpo prestes
desde sempre à espera
da última palavra
que o definirá

13/03/24

JOÃO


(Inspirado em Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, e em Construção, de Chico Buarque)

    — Ando precisado de morte, mestre Caetano.
    Começava sempre assim o fim de seu dia, quando ia ter com mestre Caetano em seu boteco, que só abria depois do Angelus. Era um dos últimos antigos, com enorme balcão de sucupira, peitoril de milhares de vidas que a noite conduzia, intermediando seus êxodos e procissões.
    Trabalhava menos por necessidade que rotina. Não sabia quem era se não estivesse em alguma “empeleita” ou fazendo algum bico. Chegava primeiro ao balcão, olhava como sempre os calendários de várias décadas, alguns, com paisagens, outros, com santos, muitos, com mulheres nuas. O tempo era registrado com sonhos que não sabia como ter. Até tentava se imaginar através das imagens, como fazia com filmes e novelas que mestre Caetano compartilhava na tevê de tubo, de vez em quando. Para ele, as gravuras, as fotos e a tevê estavam em algum idioma que lhe era estrangeiro, vedado à sua pequena humanidade. Eram a lembrança de que aquele balcão era a fronteira além da qual, caso se aventurasse, seria preso pela estranheza, ou, por ela, morto. Costumava desfiar as lamúrias em conversa baixa, sem interlocução definida, alternando a destinação a quem transitava ou lhe parava ao lado acidentalmente. Mestre Caetano costumava lhe engendrar um arrazoado qualquer de sua experiência, e, assim, existia fixo, ancorado naquela confirmação de que vivia, de que era alguém apesar de si mesmo. Mestre Caetano aferia que ele era uma pessoa.
    — Não carece de precisar, João.
   — Por quê, não? Preciso de dinheiro, preciso de comida, preciso de roupa, de uma dose… Bote uma aí. Preciso de morte, mestre.
    — Sua ou de alguém?
    — E eu não sou alguém?
    — Então não precisa.
    — Já tenho muita, né? Essa vida sem nada, sem mim, já tá toda preenchida de morte, né isso? Hoje, tava lá, na laje do condomínio, arriando o cimento na massa, fungando o pó cinza. Tem mais cimento em mim do que naquele prédio. Olhei pra baixo, vi os carros, as pessoas, todo mundo indo e vindo de algum lugar a outro. A vida é isto, mestre: ter lugar de onde se vem e aonde se vai. O mestre sabe que não tenho o primeiro, até meu nome veio da rua. Meu barraco é só o jacaré, duas panelas, dois armadores de rede. Não tem eu na minha vida, mestre. O lugar de partida e de chegada é a pessoa, é a razão, diz quem se é. A vida é ser, mestre. Eu não sou. Então, já tenho morte de sobra neste buraco cimentado, não é?
    — É. Mas isso não é ruim não, João. Todo mundo é cheio de morte, todo mundo é vazio de si. A gente passa a vida se procurando pra se preencher, e isso é a vida. Morrer é não procurar, morrer é viver nesse buraco, sem fundo e sem corda. Tome aqui.
    — Quem vai morar naquele condomínio é vazio, mestre? Quer dizer, aquela gente anda mais, viaja, procura mais, como o senhor disse. Quem procura mais é mais morto do que eu? Ou mais vivo? E eu sou mais morto porque passo a vida construindo lugar que não é meu pra essa gente se encontrar nele? Eu sou mais morto porque não posso me procurar, mestre, e tenho de passar a vida fazendo chão e levantando parede e cavando piscina e plantando jardim pra gente que vive?
    — Sim.
    — E é por isso que não preciso de morte, mestre?
    — Sim.
    — Morte chama mais morte…
    — Morte não chama nada, João. Quem vive morre. Uns, mais, uns, menos. A vida é assim também. Uma é a falta da outra, como um casal casado há muito tempo que não sabe mais ser cada um. Não é amor, não é amizade. É uma argamassa. A construção é a gente. A gaiola, as aranhas, a malha, o esqueleto. Os tijolos. No final, o prédio. Depois, a ruína. Depois, o basculho. Depois, o alicerce. E tudo de novo, meu amigo, como esta sucupira. Isto aqui já foi semente. Esta morte desta madeira é uma morte de vera? Hoje ela é tudo que ela não era, ela era vazia disto. A vida que ela tinha era cheia desta morte. A morte que ela tem é cheia daquela vida.
    — Esperar cansa, mestre. Não saber é não ser, e não ser é morte.
    — Vida, também.
    — Que vida?
    — Vida apenas, João. Você, eu, a sucupira, os moradores do prédio. Morte, também. Tudo junto.
    — E isso é justo?
    — Só não é justo pra quem não vive. Sua vida é vazia de você, mas é vida. Você é este balcão, João. Ele não sabe quem foi, não é mais quem foi. Sabe menos ainda quem será. Mas ele é. Você é, João. Ignorar não é morrer. E quem diz que sabe mente. Ninguém sabe.
    — Nem as pessoas que fazem os calendários?
   — O tempo é como esta cachaça: entretém, embebeda, acalma, mata. É parte da vida. Tá boa? Quer mais uma?
    — Viver direito é morrer direito, né, mestre?
    — Disse melhor do que eu.
    — Então, bote outra. Vamos fazer as coisas como se deve.

13/03/24

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

CARACTERES

Gérard Dubois - Moby Dick
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eu sou Fabiano e sou Baleia
no sertão de preás gordos

sou Rebeca Buendía com seu saco de ossos
sua pele verde e olhos fosforescentes
sou José Arcadio louco atado ao castanheiro
e Úrsula diminuta na mentira de sua morte

sou Vadinho no chão do Domingo de Carnaval
sou Rozilda e seu fel de Quarta-Feira de Cinzas

sou Sancho crédulo de sua ilha
sou Quejada alucinado e só num mundo grande
grande demais

sou Ishmael lúcido entre loucos
sou Ahab inconcluso e espedaçado
pela irracionalidade branca

sou a Rosa na redoma
o baobá e o vulcão
no pequeno asteroide ao pôr do sol
esperando sem esperar
o ofício da Serpente

sou Flor, Gabriela e Dora
e o cansaço de guerra de Tereza
sou Maria do Carmo embuchada de inevitabilidades
na rede de João da Mata
e a faca de peixes de Bertoleza
libertando o próprio ventre
ante a possibilidade do horror

sou Margarida, vulgo Mocinha
pequena e escura
descansando da vida dos brancos
na pedra da fonte da estrada de Petrópolis
e a esvaziada Macabéa
preenchida por um Mercedes amarelo
na rua atravessada

sou Severino do finado Zacarias
indagando vida e morte à beira do Capibaribe
e sou Mestre Carpina
em cuja calma nasce outro Severino
que também sou eu

sou Amaro e Aleixo no porão do navio
e o punhal assassino de Crapiúna

sou a lavação dos peitos mortos de Diadorim
e a traição do torso nu de Luzia-Homem

sou o cínico Brás e seus emplastros
o inepto Bentinho em turvação
frente ao mar ressaqueado de Capitolina

sou tantos, e não sou nada
nem o sentimento do mundo tenho
nunca fui o infante sadio e grimpante
nunca guardei rebanhos
nunca fui a Pasárgada
nem conheço rei algum
ou felicidade, ainda que clandestina

sou um caractere apenas
um espaço-em-branco
vasilhame que o outro mundo preenche
e que este mundo rotula e enfileira na prateleira

sou também a boca que bebe
ora no copo, ora no gargalo, ora no mar
as pessoas que por mim trafegam
e transpassam como se meu único trabalho
fosse registrá-las
e esquecê-las

esquecendo, existo
e, através de mim, existem todos

22/02/24

domingo, 18 de fevereiro de 2024

MANEJO

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a mão esquece
quem é que a traz ao pulso

esquece que tem braço 
e este, que tem torso
e este, que é casa
que deve resistir a tudo

não pode a mão
seguir-se de uma oferta
um aperto, um entrelace
se são do corpo
a carne para o soco
e o rosto para a tapa
se é no corpo
o espírito que se imola

perdões
é necessário que existam
mas nunca em prejuízo
da dor
rasgada a tratores
na terra do corpo
sob a escusa de estradas
e vias públicas

no volante, a mão esquece
quem é o condutor
que fez do nascedouro
a incerteza da partida
e, da vida, a morte
entre tráfegos e engarrafamentos

a mão de nada sabe
das sentenças que assina

18/02/24

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

JARDINZINHO ORDINÁRIO

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mandei construir um cocho
na fachada de minha casa
onde plantaria um pequeno jardim

nele, sonhei chananas, mandacarus e girassóis
e outras tantas que carrego comigo
no mais íntimo

feito o cocho, plantado o jardim,
vieram ladrões
e arrebataram o que crescia

mudei as plantas:
cravei espadas-de-ogum e um jasmineiro
e deixei o matinho vicejar
o que o asfalto e as caminhadas
não permitem

hoje, pingam jasmins na minha janela,
e me protege Ogum de todo o mal,
e a beldroega flora amarela,
e ramam outras que não sei

na frente de minha casa,
o possível sobrepujou o projetado
e, como na vida,
como em tudo,
escancarou a janela de sua lindeza
no inusitado do ordinário

permita-se o ordinário
na fachada de cada coração

01/02/24

sábado, 13 de janeiro de 2024

"THE BROWNING VERSION"

 
Mike Figgis - The Browning version
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(Para Sérgio Alencar e Paulo Mosânio Teixeira Duarte, que me ajudaram a dar serventia às palavras)


    “God, from afar, looks graciously upon a gentle master”.
    Ser um professor foi, certamente, a escolha de vida que mais me consumiu. Perde-se muito quando se entrega corretamente o espírito. Talvez para aliviar um pouco as articulações desse mesmo espírito, eu goste tanto de ver (bons) filmes sobre o magistério, sem a pieguice das superficialidades, quais sejam: o poder de transformação da sociedade, a perpetuação de valores e conhecimentos, blá-blá-blá. Não transformamos quase nada em termos sociais, efetivamente, e, se perpetuamos algo, este é, principalmente, a invariabilidade da estrutura de opressão do mundo. Eu ainda nem tinha decidido se entraria, ou não, na faculdade, menos ainda se seria professor, quando assisti à versão de 1994 de The Browning version, provavelmente o melhor de todos os filmes que vi sobre minha profissão, justo por tratar de algumas das grandes dores que, se ainda não o foram, serão vivenciadas por qualquer professor: a frustração, a obsolescência, a derrota, a subqualificação.
    A versão de 1994 (dirigida por Mike Figgis e produzida por Percy Main) é a refilmagem da de 1951 (dirigida por Anthony Asquith), a qual, por sua vez, é a adaptação da peça homônima de Terence Rattigan, de 1948. O roteiro é adaptado por Ronald Harwood sobre o livro de Rattigan, o qual é creditado como corroteirista. Harwood foi indicado ao BAFTA, e Figgis, à Palma de Ouro por esse trabalho. De antemão, peço perdão a quem quer que leia este texto pela não citação do título comum aos dois em português, dadas a tacanhice interpretativa de quem o “verteu” e a subsequente indignidade de menção. O Google pode muito bem expor essa estupidez no meu lugar. Contudo, a obra cuida rapidamente de estabelecer a que vem.
    O filme também é, de certa forma, uma testemunha das mudanças dos meados dos anos 90. O professor de Estudos Clássicos de uma escola tradicionalíssima inglesa, chamado Andrew Crocker-Harris, interpretado pelo magnífico Albert Finney (vencedor da premiação de melhor ator na Boston Society of Film Critics Awards por esse trabalho), está sendo substituído por um professor mais jovem e com uma abordagem moderna, interpretado por Julian Sands, cujas limitações interpretativas foram perfeitamente aproveitadas por Figgis em sua personagem para fazer o contraponto, o perfeito contraste à grandeza da personagem de Finney, e à deste próprio. As transformações sociais são sutil e organicamente mencionadas na obra: o início da acessibilidade geral aos computadores, o fim da perestroika, a incorporação da diversidade cultural aos Estudos Clássicos, a presença incômoda dessa mesma diversidade na própria escola, portanto, na própria elite britânica, tudo está lá. Andrew também está com problemas cardíacos, desculpa utilizada pela corpo diretor para a sua demissão, e vivencia a ruína de seu casamento com Laura (Greta Scaachi, espetacular), aproximadamente 20 anos mais nova que ele, por quem se incompatibilizou e criou aversão e que o trai com Frank Hunter (Matthew Modine), o professor de Ciências. Andrew é chamado de “Croc”, ou o “Hitler da 5ª série”, apelidos maldosos que lhe deram pelas costas os seus alunos, que têm por ele, acima de tudo, temor. Tive eu mesmo, no Ensino Médio, um grande professor de Português chamado Sérgio Alencar, o qual apelidávamos de “o carniceiro de Acaraú”. Inventávamos várias histórias sobre uma cicatriz em forma de meia-lua que trazia na ponta do queixo, e, mesmo dentro da nossa molecagem de cearenses, tínhamos-lhe grandes medo e respeito. Sérgio foi, e ainda é, precedido por Paulo Mosânio, um dos meus dois espelhos de profissional. Certamente, em vários momentos, isso me levou também a ser, em várias ocasiões, o carniceiro de tantos e tantos alunos.

 
Mike Figgis - The Browning version
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    A derrota de Andrew é a derrota de todo e qualquer professor, e estas são o ponto central, a base que me fideliza à personagem: a sua certeza vergonhosa do fracasso em ensinar e a consciência de que não fez o melhor que poderia ter feito. Andrew não entende como, nem quando, as crianças pararam de rir de suas piadas e passaram a isolá-lo em suas tentativas de lhes mostrar o que tinha de melhor, que era a paixão pelo que ensinava, assim como a fé em que a cultura, como fundamento civilizatório, tinha nele o maior responsável pela sua perpetuação. Ele sabe que falhou na sua missão e vai terminar de cumpri-la resignado, assim como se resignou diante de todas as injustiças cometidas pela esposa e pelo colegiado, que pretende culminá-las na preterição de Andrew no discurso de despedida ao corpo discente. Juntamente com ele, um professor chamado Fletcher, que é idolatrado pelos alunos pelo seu sucesso no críquete, esporte no qual é campeão, vai deixar a escola para poder competir nacionalmente. Por esse motivo, pede-se a Andrew que abra mão de sua prerrogativa de encerrar o evento em função de Fletcher, argumentando que o oposto seria um anticlímax. É a derradeira ofensa. É a morte simbólica de um mestre ante a glorificação de um ídolo, o qual, não por acaso, demonstra-se inepto fora de seu esporte.
 
 
Mike Figgis - The Browning version
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    No meio desse processo, o jovem Taplow (interpretado com uma excelência incrivelmente precoce por Ben Silverstone, com 14 anos à época), aluno de Andrew, parece ser o único que consegue ver além da sua couraça. E é aqui que o filme acerta no âmago de qualquer professor. Taplow, que pleiteava trocar os Estudos Clássicos pelas Ciências, razão pela qual tinha todos os motivos para antagonizar Andrew, é o único que se  identifica com o seu amor pelos clássicos, tanto que compra com seu próprio dinheiro uma versão de Robert Browning (daí, o título) de Agamémnon, de Ésquilo, para presenteá-lo. Andrew diz, após receber o presente e se mostrar pela primeira vez vulnerável, a ponto de desabar em prantos diante de Taplow, que aquilo valia mais que qualquer coisa que pudesse ganhar naquele momento.
    É nesse ponto que se inicia o terceiro ato do filme, o qual não vou arruinar aqui com pequenas descrições. Porém, Figgis, magistralmente, faz um jogo de clímax-anticlímax-clímax que é arrebatador. Não é novidade que toda história bem contada, em que há o reconhecimento e a ascensão após uma longa humilhação, é, de fato, garantia de sucesso de audiência. Também não é, para quem assistiu à obra, é claro, um drama com uma história original. É bem verdade que já vimos inúmeros assim, e um enredo em cujo clímax o protagonista revela suas fraquezas e recebe o devido mérito por sua humanidade chega a ser até um clichê. No entanto, Figgis conduziu o microdetalhismo da interpretação de Albert Finney e Greta Scaachi, assim como o brilho irresistível e a veracidade de Ben Silverstone, de tal maneira que tudo nesse filme é extraordinariamente inato, original, como uma canção genial dentro de um gênero ordinário, a qual, de tão singular, parece pertencer a um gênero próprio.
    The Browning version ficou décadas dentro de mim, que o procurei, sem sucesso, nas minhas garimpadas em sebos e locadoras. Encabeçava minhas listas (sim, eu as fazia, no Excel, inclusive) de filmes a serem possuídos. Nem mesmo na internet, eu o havia encontrado, até que o consegui ontem e o vi hoje, dia 12. Comecei a escrever esta crítica (ou ensaio, ou resenha, ou sei-lá) imediatamente após me reencontrar nele e com ele. Eu o vi pela primeira vez nessas sessões televisivas noturnas nas quais me refugiava ali pelos meus vinte e poucos anos, quando a angústia, o medo e a depressão me afastavam cada vez mais da vida. Ainda não era professor, e faltava muito pouco para me perder do estado de ser alguma coisa e me encontrar apenas como uma coisa, em último resumo. The Browning version, assim como algumas outras preciosidades, mantiveram comigo um diálogo que, sem exagero nenhum, me ajudaram a chegar até aqui e, de várias formas, ainda me ajudam a continuar, como as “minhas” músicas e minhas plantas, meus relicários e minhas memórias, uma coleção de mim que me suporta o reconhecimento neste mundo e em meu espelho. Hoje, após metade de minha vida sendo profissionalmente um professor, esse filme é particular e intimamente meu. Assim como os de Andrew, são os meus fracassos que legitimam as batalhas que lutei. Assim como a de Taplow, foi escrita por mim a citação com que o Agamémnon foi presenteado a Andrew: “Deus, à distância, considera graciosamente um gentil mestre”. E fui eu que o recebi.
 
 
Mike Figgis - The Browning version
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    Assistam com todo o coração.

13/01/24