tempo,
não arraste aqui as suas águas
represadas de décadas.
houve motivo para as rochas,
as árvores e o entulho,
e não lhe cabe legislar
sobre quem não lhe deseja o fluxo,
a torrente
ou a seca.
não umedeça quem quer a boca seca,
não afogue quem não sabe nadar,
não banhe
quem quer a sujeira plástica do mundo.
fique parado,
evole-se, acumule-se no céu
das mocinhas chorosas
e chore sobre quem lhe deseja
alguma precipitação,
mas não venha molhar os pés
que escolheram as profundezas da terra
para dormir.
pare, tempo,
e grave no relógio de pontos
o instante exato em que a sede
parou de lhe ter necessidade,
o momento preciso
em que a vida estancou,
para que me fiquem claras na memória
a duração
e a partida,
e eu possa me presenciar,
inerme e seguro,
inalcançável às marés
e aos pântanos
que são tão de sua natureza infligir.
deixe meus olhos assim,
esvaziados,
e poderei saber em mim
de todas as partes,
sem o temor do naufrágio
e o enjoo do bordejo.
deixe-me, tempo,
que preciso sacar-me de todas as horas.
há de se fazer o silêncio
de suas correntes
para que eu me liberte
e seja terra firme, afinal.
30/03/24

Este blogue se destina ao uso artístico da linguagem e a quaisquer comentários e reflexões sobre esta que é a maior necessidade humana: a comunicação. Sejam todos bem-vindos, participantes ou apenas curiosos (a curiosidade e a necessidade são os principais geradores da evolução). A casa está aberta.
quarta-feira, 3 de abril de 2024
VALE SECO
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