Número de sílabas (desde 11/2008)

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quinta-feira, 16 de setembro de 2021

ÁGUAS


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(lá fora,
uma melodia aquosa e desgarrada
prenuncia as águas.)

— mas é setembro ainda.

— o quase, em meu coração,
é destamanhado.

16/09/21

quarta-feira, 25 de agosto de 2021

DO TEMPO E DO TRAÇO

Foto: Fernando de Souza
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o tempo é juntura
com que tudo faço:
do rasgo, um laço
de fina costura,
que, só no momento
em que a faca fura,
cura o ferimento
com seu próprio aço.

novelo de tempo
com que me enlaço:
me cubro o cansaço
e me reinvento
— meu novo modelo
de renascimento
é estar sempre em sê-lo
da cruz ao regaço.

compões o cimento
do chão dos meus passos
— do meu erro crasso
tu és pavimento.
também és mansões
e compartimentos:
silêncio e canções
do fim donde nasço.

25/08/21

quarta-feira, 4 de agosto de 2021

CURTINHOS

 
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I
minha cama é uma jangada
de vela arriada,
por quatro âncoras,
ancorada
no fundo noturno do mar.

II
aqui era bom
quando ainda não era aqui.

III
embaixo dos carros,
gatos mortos e cães e pombos
evaporam.
tão certos são de chegar ao céu
como a água que se despede da lama.

IV
quando tinha dez a doze anos,
não imaginava
que me faria tanta falta.

04/08/21

ENTRE OUTRAS COISAS

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desde menino, sei de coisas
que só as coisas sabem, por exemplo:
nadejar e tudejar
no terreiro amplo do espaço das tardes
como as terras, os ventos
e a indiferença das plantas;
andar a esmo nas importâncias
sem me dar delas;
caber no vazio
quando me apercebo dele;
e inexistir
na via expressa dos afazeres humanos.

04/08/21

DE CORPO E ALMA

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embora a alma dependa intimamente
do que não é alma,
o corpo, essa não-alma, depende
inteiramente
da ausência da alma noutro corpo,
do vazio que por ele será preenchido,
do desejo ardente de si mesmo,
de que é tão ausente.

04/08/21

domingo, 1 de agosto de 2021

AGOSTO

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por aí, no meio do mundo,
ainda há jogos e lutas rebarbando as pessoas.
nos bares e botecos, meus amigos pelejam contra a morte,
uns com os outros.
todos resistem, todos soterram os silêncios
sob camadas e camadas de palavras encharcadas.

a lama das palavras é fértil.
dela, nascem sonhos de dias melhores
e decapitações públicas.
no topo, no cogulo dos sonhos, um pomo imundo,
vermelho e vagabundo,
serve aos morcegos e periquitos
o sumo vivo da terra molhada,
a carne-e-sangue da comunhão da miséria
com o ódio
de se ver na noite, esparramado e invisível,
de se feder no ar, irrespirável:
a imperceptível hemácia
do sangue da revolução.

triste corpo, pobre corpo, que sangra em silêncio
há tanto tempo,
alimentando vermes e vampiros.

resta o sol, esse dia colonial,
essa alvorada em trombetas que anuncia mais uma marcha,
mais uma jornada de trabalho,
mais um milagre
que nos ressuscita e iguala a todos num mesmo corpo,
numa só máquina
— em que somos tudo, menos gente.

01/08/21

sábado, 3 de julho de 2021

JARDINS SUSPENSOS

Jasmim-do-caribe
 
do terraço de um edifício alheio,
vejo na sacada de outro
um jasmim-do-caribe não fazer diferença nenhuma
no massacre e no genocídio que correm no asfalto.

o branco-leite das flores
diz no azul celeste que existe uma Grécia,
e o açúcar no cheiro
sabe a adolesceres e deflorações suspirosas.

contudo, a terra roubada no miolo do vaso
levou consigo o sangue de milhares,
negros como a terra,
podres como o estrume,
férteis como o adubo,
os quais, sem nada de branco,
seivam os caules finos,
delicados, da vida suspensa
que ignora a existência da morte.

colhidos,
adornam os arcos rosa das orelhinhas
da filha mais nova,
linda como a irrealidade,
calçadinha de chinelinhas azuis,
imaculadas da sujeira do mundo,
e chafurdando na pureza floral da antessala.

no prédio ao lado,
no mármore antigo,
habitam todas as gerações
que, dado o ininterrupto polimento,
formam enormes salões de espelhos suaves,
multicoloridos de flores sem chão,
espalhadas na perpetuação das tardes coloniais.

23/06/21

ONDAS CURTAS

Rádio Philco Transistone

nós perdemos a briga,
coração.
mas,
como somos surdos
e simples,
continuamos
um no outro
batendo
num telecatch circense
transmitido pelo rádio.

08/06/21

domingo, 18 de abril de 2021

SETE ANOS DE SOLIDÃO

 
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    Sempre ensino aos meus alunos que se deve adaptar o princípio da alteridade ao texto. Imaginar o leitor é fundamental para estabelecer as premissas básicas do “diálogo”, e uma delas é a adaptação do que se tem a dizer nos planos da forma e do sentido àquele em cujas mãos o texto cairá. Contudo, não paro por aí. Intimamente, eu projeto a minha própria leitura ao momento do inédito da obra, ou até antes, quando ela não seria sequer possível. Recomendo essa experiência. Garanto que, no mínimo, ela é capaz de tornar filmes, livros, músicas que são absolutamente ordinários um entretenimento prazeroso. Com filmes, por exemplo, isso funciona, que é uma beleza! Vi Godzila vs. Kong e assumo que passei os primeiros minutos imaginando se não tinha nada melhor a fazer da minha vida, mas bastou me projetar no tempo até os primórdios do CGI e me vestir com os meus olhinhos de menino, que aquela lenga-lenga barulhenta se tornou um espetáculo sensorial, como um grandioso número circense. É verdade, aqui e ali, o adulto emergia e estragava a experiência, mas há que se dar um desconto: é um filme de dois babaus brincando de telequete. Quem não se diverte com isso cresceu demais, ao meu ver.
    No entanto, em alguns casos, esse ineditismo acontece de não precisar ser inventado, e, para minha sorte, foi isso que se deu com a obra de García Márquez. Ontem, fez sete anos que o colombiano de Aracataca, cidade que ele transformaria em continente, morreu. O primeiro livro que me veio às mãos foi logo o vencedor do Nobel de Literatura de 1982, Cem anos de solidão. Um dos livros mais traduzidos do mundo, ele teve a peculiaridade de ser um premiado bastante popular, o que fez a crítica questionar o seu valor literário posteriormente. Afinal, se o povão gostou, não pode ser tão bom assim, na cabeça erudita e ensebada da “elite” intelectual.
    O arrebatamento de que esse livro me vitimou foi desproporcional à minha própria capacidade de ser arrebatado, o que me causou a sensação de, muitas vezes, lutar por um ponto de equilíbrio numa ascensão espiralada, como se um rodamoinho me tragasse e me cuspisse, sem se importar onde ficavam o céu e o chão. Hoje, passados bem mais de vinte anos dessa primeira leitura — à qual se sucedeu bem uma dezena de outras — ainda não me arrisco a dizer que domei a voragem. Porém, entendi plenamente que era esse o objetivo de Gabo. A América Latina alegorizada em um pueblo chamado Macondo e o realismo mágico usado como caminho para a compreensão do homem imerso em sua história são, na minha opinião, os dois causadores principais dessa abdução do leitor de qualquer época, e é isso que ombreia García Márquez com Jorge Amado, com Saramago, com Cervantes, com Melville, com Homero. Os leitores desses homens sempre vão ser arrebatados e sempre se sentirão arremessados por furacões, sem o lastro do tempo e sequestrados por ciganos mágicos.
    Depois disso, li outras obras dele, poucas, reconheço, mas suficientes para me fazerem despertar em outras vidas, em outros lugares, tão meus como esta que vivo e este em que estou. Acredito que um grande escritor tem muito mais dos outros do que de si mesmo, é muito mais pessoas do que uma só. É capaz de prever vidas que nunca viveu e encantá-las, fazê-las reféns de si mesmo até que elas o sejam e, dessa forma, tornar-se imaterial, essencial, ubíquo em qualquer um que não padeça de insensibilidades.
    De verdade, isso me transformou. Escritores como Gabriel García Márquez, Clarice Lispector e os outros de que falei deixaram de ser pessoas simplesmente. São como uma música que vira intuição e sai num assobio sem que se pense mais nela, organicamente, misturada nos hábitos diários. Todos me habitam, todos sou eu um pouco: sou o patriarca gigantesco José Arcadio amarrado louco no tronco do castanheiro, sou a matriarca Úrsula aceitando estar morta porque assim lhe disseram por molecagem, sou o espectral Melquíades predizendo juízos finais. Sem eles, quem eu seria? O que teria sido feito da criança a quem o tempo roubou os brinquedos, mas manteve cruelmente os olhos?

18/04/21

quinta-feira, 15 de abril de 2021

QUANDO UM CABA VIRA MANO, MORRE MAIS QUE UM CALANGO

 
A cidade piauiense de Lagoa do Barro recebe pela primeira vez transmissão de TV, e seriado Chaves é pioneiro (05/12/1993).
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    Quando é que uma palavra deixa de ser palavra e vira “regionalismo”? Veja bem, isto não é nada contra as variantes. Muitíssimo pelo contrário, eu defendo a legitimação desses territórios culturais que as palavras demarcam. Minha inquietação vem justamente da marginalização que os termos regionais sofrem até mesmo nos dicionários, quando estes assim os setorizam, enclausurando, consequentemente, o seu escopo. Sempre me pareceu incômoda a categoria “folclore” na cultura, por exemplo, começando pela inglesada etimológica: folk (povo) lore (instrução). Então Zeus engolir Métis (grávida dele mesmo) e ele próprio parir Atena (que já nasceu armadurada) pelo quengo (que foi aberto a machadadas pelo seu irmão Hefesto, depois de uma grande dor de cabeça daquele lá) é mitologia, mas deixar uma peinha de fumo para agradar a Comadre Fulozinha antes de entrar na mata para caçar é folclore? Mas, menino! Pois vem daí o meu ranço. Quando alguém usa “regional” ou folclórico” para descrever algo, pode reparar na via de mão dupla dessa valoração: de um lado, despertam-se o orgulho bairrista, a memória afetiva, a herança, o telurismo; de outro, é como um prêmio de consolação, um Grammy Latino, um Oscar de melhor filme estrangeiro. É dizer que lacraia é melhor que embuá, ou pior, que o certo é caracol, e aruá é “só” um regionalismo.
    A pior parte disso vem agora, nestes tempos em que “profissões” como coach, influencer ou youtuber afetam diretamente os falares identitários, a cultura que o discurso de um povo reflete. Mais uma vez, é preciso esclarecer: eu não sou contra aquilo que soma; sou contra, radicalmente, aquilo que substitui, sou contra aquilo que subtrai. É mais ou menos como um gênero musical novo. Há alguns poucos anos, o k-pop ultrapassou as barreiras geográficas e idiomáticas e ganhou o mundo, especialmente, o Brazil, que adora bajular uma novidade, principalmente, as estrangeiras. À época, eu vi um documentário sobre essa música pop sul-coreana e entendi a importância que ela tem naquele país, onde foi o veículo de uma renovação de costumes, um sopro de liberdade num cenário dominado pelo tradicionalismo e pela sem-gracice. Uma vez aqui, a meninada adorou, como adorou o Menudo nos anos 80, ou como, nos 60, o yeah, yeah, yeah! virou iê-iê-iê e apavorou os que veem diabo até na cruz. Até aí, tudo bem, porque é sempre bom ter uma coisa a mais como expressão de arte ou de entretenimento. O problema é que a mídia, que é um dos setores que mais destroem a cultura — principalmente, pelo esgotamento — suprimiu de certa forma boa parte do espaço destinado aos gêneros nacionais, o que deu aos kapopeiros a sensação de onipresença do BTS e das Blackpink, retirando deles outras possibilidades de expressão — muito mais legítimas — de seu comportamento. Ser jovem é foda. Superficialidade e profundidade são extremos em constante batalha pelos coraçõezinhos adolescentes, e isso é natural. Mas vamos pelo menos lutar em português, não é?
    Pois bem. Semelhante ao que acontece na música, a linguagem vem perdendo espaço (há muito tempo, eu sei) e, consequentemente, prestígio para modismos internos oriundos das capitais e de seu pseudocosmopolitismo, visto que, no Brazil (com z, mesmo!), isso significa arreganhar as pernas primeiro ao Sul-Maravilha e, depois, à gringalhada. Como consequência, a criançada de 5 a 45 anos daqui do Ceará, por exemplo, passou a usar “mano” em vez de “macho” ou “má”, e o “cê é louco, meu” vem minando o “aí dento”, que resiste bravamente, apesar de tudo. Até o tema melódico dos sotaques vem sendo alterado. Lembro que, há muitos anos, um radialista aqui de Fortaleza anunciou um evento no então Mucuripe Club, que reabrirá com o nome Mucuripe Music (pois é!), alterando a prosódia da palavra para “Múcuripe”, talvez para combinar com o “clâb”, que ele pronunciou britanicamente, como convém a qualquer locutor que se preze. Sem gringuismo, não há respaldo, não é? Pois então!
    Além disso, eu percebo que a “neutralização” (para não dizer descarte) do sotaque cearense aumenta proporcionalmente à classe social e à conta bancária do fortalezense. Parece que existem vários esqueletos no armário que cada aspirante a “aristocrata” — ou, de fato, membro de alguma oligarquia — tenta desesperadamente esconder em cada s sibilado antes de t e d, em cada escolha vocabular artificial ou estrangeira, em cada amnésia idiomática afetada diante do constrangimento da palavra inconvenientemente ouvida (“o que é quenga?”). Eles forçam por se perder, por se desconectar. Sei que não se deve nunca ter pena de quem tem dinheiro, mas é digna de piedade a pessoa que não tem povo, que não tem gente, que só se assemelha pelos badulaques dispostos impecáveis no aparador, validando-os como “cidadãos do mundo”. Nada contra os cacarecos, que também tenho esses fetiches, e os considero um materialismo saudável, mas me parece que, sem eles, aquelas pessoas não são capazes de dizer quem são da mesma forma como fazemos meramente chupando uma ciriguela.
    Também é enorme a quantidade de Felipes Netos, de RezendeEvils, de Felipes Castanharis, de Kéferas Buchmanns, de Harus Jigglies, de Coccielos, todos eles misturados, que eu vejo no jeito novo de falar o cearês. O mais curioso é que o Whindersson Nunes, que é o youtuber mais bem-sucedido do Brazil hoje e é piauiense, não influencia a fala de ninguém. É o complexo nelsonrodriguesano de vira-lata, só que de um jeito mais hipócrita: todos adoram o pé-duro amarelo, mas ele nunca vai latir tão bem como um weimaraner.
    Eu me preocupo de verdade é com aquilo que se pode perder. Sou da capital, mas meu pai me deu o melhor presente que podia na minha formação de caráter, que foi o levar-me constantemente ao sertão e proporcionar que o sertão me levasse aonde ele não podia, que era a riqueza silenciosa de sua cultura. Sei o que é um jirau porque foi num que emborquei a caneca de alumínio para secar, no terreiro branco da casa de Dona Zefinha, em Pacajus. Sei o que são um puçá, um jereré, um landuá, uma sovela, um samburá, um mão-no-olho, porque tudo isso fez parte do meu universo de pescaria nos interiores e litorais daqui. Sei que pão de milho não é um pão, porque moí os caroços secos no quintal da casa de meus primos em São Miguel, hoje, Itaitinga. Sei o que é um quixó, porque meu pai me ensinou a fazer um para matar os ratos do quintal. Sei a diferença entre a rasga-mortalha e o caburé, porque ouvi os dois piarem, à noite e de dia, e aprendi ali o misticismo sertanejo, os malassombros e as visagens que ali, na Serra da Boa Vista, no roçado dos capuchos de algodão, tornaram-se meus como se tivessem nascido comigo. Sei, enfim, de um pouco da riqueza de minha terra, de minha gente, que me chegou nas palavras, nos cantares, nos sotaques tão gostosos quanto enciclopédicos, e tudo isso significa que eu pertenço a um lugar, a um povo, a uma beleza imaterial que se vivencia quando, simplesmente, se fala. Nada disso nunca foi “regional”, nunca foi “folclórico”, mas sim fui eu com os meus, foi vivência, foi natural como as palavras e as suas almas devem ser. Será que esse chão sobreviverá nos meus filhos? Será que essa pertença que a linguagem agrega ao falante vai enraizá-los em si mesmos, situando-os no mundo e dando-lhes a perspectiva de que sua fala é seu lar? Será que eles vão sobreviver a esse autoetnocídio financiado a dólar? Não sei, realmente. A vida é a cada dia mais “de plástico”, e o manual de instruções vem impresso em mandarim.

15/04/21