Número de sílabas (desde 11/2008)

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domingo, 19 de abril de 2020

MEL


Minha mãe era fã da Bethania. Nesse álbum, percebe-se, quase destruída pelo tempo e pelos maus cuidados, a dedicatória feita a ela pelo meu pai, no ano seguinte ao seu lançamento, 1980. Era costume dele assinar os discos da casa, ainda não sei se como uma forma de protegê-los de extravios (e foram muitos) ou como uma segunda autoria, um registro de que ele mesmo pertencia aos discos, pois estes diziam dele o que ele nunca fora capaz de dizer. "Mel" é especial pra mim, pois, dentre os que sobreviveram às décadas e à ruína do que nossa família fora, ele "me incomodava" porque era sinestésico. Só hoje sei atribuir-lhe esse adjetivo. As canções têm cheiro, sabor, textura. Ouvi-las é ser eu menino, observando minha mãe comendo a voz da Bethania com os olhos, os ouvidos, os poros, uma voz que abria outra dentro dela, silente, e esta eu ouvia, e é a que canta pra mim de novo e de novo. Dói bastante, mas dói a dor humana de saber-se pequeno diante do sentimento, que é tão grande, e tão bom.

18/04/20

BASTANTE

Foto: Fernando de Souza

Atila Iamarino disse em entrevista que o mundo como conhecemos não existe mais. Neste confinamento, influencers e blogueiros postam TBT de um mundo que nunca vi, onde nunca estive, um mundo outro, vedado a quem sou. Nada disso me enfada. Até mesmo o confinamento a que chamam quarentena quase não me é novo ou anormal. O que me atormenta nem é o desaparecimento do mundo que conheci, que eu, individual e unicamente, experienciei. Porque esse mundo, raríssimas vezes registrado em fotos, mudou, aterrou-se, enterrou-se, mas, como é matéria, continua lá, numa matéria diferente. Pode ser escavado, limpo, polido, exposto novamente à luz do Sol. Quem não existe mais sou eu. Não existo como existi nas fotos, não pertenço como, um dia, com um fôlego heroico, tomei posse. Hoje, memórias escavacadas nessa arqueologia rústica, às pressas, apavorada pelo desaparecimento possível do que, intimamente, nem creio mais haver, são envasadas em álcool, penduradas numa parede de manipansos incompletos. O meu pavor é, após tudo isto, se teimar a nostalgia retornar à guisa de reencontro, perder-me definitivamente, mudo e pasmo, engasgado com um ar que só existe para engasgar-me, estrangeiro ilegal pedindo asilo num país de vento. Como andei tanto, estando imóvel? Como me perdi trancado na clausura do comodismo? Quem fui, quem quer que tenha sido, é um processo prescrito, uma injustiça irreparável. Dói. Sabe amaríssimo, insuportável. Exige, impõe obliteração. Mas dói-me ainda mais matar o cadáver, pois que sei a profundidade da cova em que jaz, donde preciso arrancá-lo, olhar-lhe as cavas cranianas onde orbitaram as retinas que viram o que não sou capaz de esquecer e deixá-lo em paz. Tremo, juro que tremo. Não há volta. Sou agora o que não deve mais lembrar, e esvaziar-me o peso e as horas requer todo o tempo restante. Serei bastante?

18/04/20

sexta-feira, 10 de abril de 2020

DISTRAÇÃO

(Clique na imagem para ampliá-la e na legenda para acessar a página do autor.) 

pois é.
a poesia veio,
passou,
e eu nem vi.
daí, eu me pergunto:
teria sido aquele incômodo profundo,
aquela raiva
de causa inindentificável
ou aquela vontade imensa de me exilar
dentro de uma garrafa?
teria sido a angústia? a apatia?
teria estado ao meu lado
à espera
de que eu a percebesse
ou teria me ignorado
(como de praxe)?
teria se cansado?
teria me abandonado?

10/04/20

FOME


devagarzinho, ela veio
e mais me esvaziava
quanto mais me preenchia

tirou-me a paz
e impossibilitou a luta,
desarmando-me de minhas forças
e meus princípios

somente os dentes e as unhas
restaram.

com eles, eu, caninamente,
persigo pelos desvãos da noite compacta,
cego e sem faro,
em minha bestialidade,
as ganas de matá-la.

10/04/20

quarta-feira, 25 de março de 2020

LUÍS CLÁUDIO

(Para o meu irmão, que me fez querer dançar.)

foi-se o meu sangue,
foi com os mortos,
foi para as almas.

foi-se um herói torto,
peça inútil num quebra-cabeças errado,
que morreu muito antes da morte,
campeando a bandeira da ruína.

que minha mãe o acolha,
que meu pai o perdoe
e lhe peça o devido perdão.

que haja um céu onde ele caiba,
que haja um anjo que lhe valha,
de berimbau na mão
num terreiro de paz.

que lhe acabe a guerra
com o tátil invisível,
e que o deus dos meninos que se perdem
lhe mostre a melhor parte da praia
onde as conchas e os búzios mais lindos
aguardem-lhe a colheita do artesão.

foi-se o meu sangue,
foi-se um meu herói
— o meu belo e louco guerreiro manco —,
mas um menino dentro de mim
ainda imita, fiel e dedicado,
o moleque que o inspirou
e não morreu.

25/03/20

O CORPO

o silêncio é o verdadeiro corpo
daquilo que chamamos alma.

gritar, gemer, sussurrar, escrever,
tudo isso é roupa,
babilaques adornosos e rudimentares
que se esganiçam na construção de uma forma
que mais deforma que define
o eremita silente
que dorme como as estrelas das crianças
num céu apenas imaginado.

é no silêncio que existe
o deus que nos mendiga.

25/03/20

segunda-feira, 2 de março de 2020

O INVISÍVEL

e esta incomunicabilidade?
resolve-se como? com a poesia?
mas se a mesma poesia necessita
da intermediação do vazio,
esse céu e inferno dos talvezes,
para, só depois de muito garimpo
e erros de labirinto,
chegar única, singular
e diferente de mim
a quem nunca é quem lhe iniciou
a leitura
e menos ainda
— menos que nunca —
a quem lhe estufa as asas?

é como mandar por um filho
um recado
que ele balbuciará disléxico
ao seu pai adotivo.

amigos morreram; amores, também.
mas o motor das mandíbulas
vibra em ponto-morto
o que o sinal, sempre fechado,
ilegaliza.
a noite dorme.
eu, não.
ultrapasso o cruzamento,
certo de colidir.

porém, adiante, o asfalto,
negro e fustigado,
prostituta esgarçada em seu sono de repouso,
ressona ao meu atrito
a ausência de todos os veículos.

somente os gatos,
suicidas atocaiados,
cruzam as linhas comigo.
entre latas e copos virados,
colorimos o p&b do inferno
e escrevemos escandalosamente
o invisível.

02/03/20

domingo, 23 de fevereiro de 2020

FAXINA

Há que se deixar em paz um sentimento até ele deixar de ser. É preciso cuidar de deixar de sentir assim como de sentir. Somente assim, nessa retroação, podem-se faxinar dos cantos e desvãos os restos mortos dos que esperam no além pela paz do desamor. Funciona assim como com as sombras, que, estendendo-se nas superfícies onde estamos ausentes, continuam os corpos, como uma noite de um dia, e é preciso viver com os dois juntos, em harmonia. As sombras são a nossa presença ausente, a interseção do que somos e do que não somos. Contudo, não se fala nem se come nem se faz amor com sombras, muito menos se pode ter medo delas, principalmente da sua própria. Contemplam-se e esquecem-se, para que se possa depois contemplá-las devidamente.

13/12/19

BILHETE

juro que nunca te vi
nem te marquei na caderneta de minhas buscas

porém, soube de ti
como que de uma guerra num país distante
ou de um desastre no Oceano Pacífico

nessas notícias, eras de um longe
que o impossível era apenas
a metade do caminho

agora, aqui estamos
nesse fim de vidamundoamor
e não sei se te vejo
ou se te adivinho
mas a mim
vejosintoouçopegomato
a mim me despedaço
e não me despeço:
vou
como se nunca houvera estado
para o desvão gretado das paredes de outubro

deixo a tudo
menos a mim
este eu levo
na cachaça da última hora
e no espanto
que me vai assombrar pelo resto desse hoje
que não tem mais fim

30/09/19

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

SEM O CORPO

o corpo, este persiste.
eu, não.
sinto inveja dele, que existe
incondicionalmente,
assim como os mendigos e as mães.
existe em corpo, existirá em pústulas e nitratos.
existirá na terra e na flor continuada.
federá e subirá aos ares, será atmosfera e umidade.
o corpo sempre houve, e sempre existirá,
mesmo quando retornar carbono
ao ventre materno das estrelas.
já o que nele existe, que sou eu,
este não se pode dar ao luxo de não possuir condições.
eu, o inquilino do meu corpo, abro mão dele
humildemente,
pois só existo vadiando
pelos corpos de pensão
e sob as marquises dos corpos de ofício
que me cedem sombra.
existo na existência que me observa e me percebe
e na que me escala, de quando em quando,
para um carteado de corpos ou uma batalha de xadrez.
sem isso, perdoem-me,
mas existir não basta,
nem no meu eterno corpo
nem na pauta lagrimada.
amputado, vou para onde vão os feitos,
as palavras e os silêncios:
para esse nada tão indolente
que a memória-mãe trata de conduzir a um nada ainda maior
onde vivem os líquenes lodosos
das memórias órfãs e das assombrações mudas.

12/02/20