Número de sílabas (desde 11/2008)

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segunda-feira, 14 de outubro de 2019

A REVELAÇÃO

     Ele era fastioso desde menino. Sobejava os pratos, estruía pães e frutas, fingia esquecer refeições, recusava o oferecido até em festas.
     — Mas nem um pedaço de bolo? É de chocolate, eu que fiz.
     — É que me dá azia…
     No bar, ficava só no limão com sal como tira-gosto. Era o que se dava às vezes, muito raro: umas palitadas de calabresa ou uns cubinhos de coalho assado. Os amigos só não se exasperavam porque bebia bem e sabia ser parceiro de farra, virando tanto copos quanto noites e, fosse o caso, mesas e cadeiras. Tinha mais de um conjunto de cicatrizes de garrafadas pelo corpo. Batia-se por causas e mulheres, pelos amigos e pelo nome da mãe. Não amunhecava diante de nenhum dos três: covardias, afrontas e direitismos. Parecia odiar tanto militares quanto macarrão, e ansiavam-lhe a bile beterrabas e empresários, peito de frango e de evangélicos, músculo de boi e de bombados de academia bolsonaristas.
     — Acho que você devia cuidar mais da saúde. Depois, acaba tisgo. Isso de esponja de chão de bar vai te lascar como fez com o Deci. Lembra dele?
     — Primeiro, que academia foi feita pra imortais. Segundo, o Decisão morreu atropelado.
     — Atravessando a rua bebaço.
     — Vai culpar a vítima agora? O sujeito arrastou o negão por meia quadra.
     — Era uma ambulância!
     — Pois que salvasse vida e não tirasse! O Deci era um cabra bom, generoso. Mais de uma vez te defendeu!
     — Macho, era a minha mulher na briga!
     — Vá se lascar! Continua com ela? Pois vão se lascar os dois!
     …
     — Vai me dizer que tu é Lula?
     — Vou.
     — E o mensalão?
     — Tem ladrão em todo partido, mas no meu se investiga.
     — Vai defender bandido pra lá! E o PT?
     — Lugar de trabalhador. E o teu miliciano babão de imperialista? Já chupou o ovo do Trump hoje?
     — Trabalhador? Tudo vagabundo e ladrão igual a tu!
     Pelo menos, tinha quem lhe valesse na mão. Eram uns três amigos fiéis, de sangrar junto, que sempre escolhiam o seu lado. Não tinham muito do que se arrepender; normalmente, era o lado certo. Ele era desses borralhos quixotescos, brilhante e boquirroto, e, como o da Mancha, não aguentava muita pancada, mas não abria.
     Porém, um dia, encontrou-se com fome, dessas de converter ateu. Trabalhava muito, devia ser isso. Escapou numa coxinha com suco de graviola no boteco em frente, o de costume. Não deu uma hora, ela voltou como um carma, personificada em câimbras estomacais e gemendo como as visagens do sertão de seu pai. A contragosto, fechou a marcenaria mais cedo e foi ao bar, que não tinha quase nada de comer em casa. Perguntou o que tinha de tira-gosto.
     — Como é?
     — Feijão verde, tem?
     — Tem, mas…
     — Vê meia porção.
     Mastigou revoltado, tentando não sentir o gosto. Mas era bom, e ele sentiu. Dois minutos foi o que durou.
     — Vê a outra.
     — Quem?
     — A outra porção, Biu! Ligeiro, que eu quero acabar logo.
     — Chega aqui, Chico! Olha isso aqui!
     Biu serviu a outra metade, e mais uma porção inteira, e mais uma de batata frita, uma de linguiça e uma de macaxeira. Ele sonhava dentro de um pesadelo. O paladar lhe era uma novidade total, assim como o olfato, mas eram ambos luzes piscando sobre a pele que se esturricava de ódio pelas cessões a que se submetia. Faltava o quê agora? Pedir o peixe com baião? Peixe que nunca provara, cujo cheiro odiava e cuja fama atribuía, anticristão, à patuscada ilusionista de Jesus para enganar o povo? O boteco era simples, e aquilo era o que ainda havia pronto àquela hora. O estômago relinchava, e a antinaturalidade daquilo não lhe assustava tanto quanto o medo ancestral de morrer de fome. Tinha pouco medo da morte, mas este era o único que sobressaía: tinha consciência de sua fraqueza física e abusava na esbórnia como atrevimento diante da morte, mas sempre apelava para o chá e as mezinhas limpadoras de tripas e receios. Não comer era como ele erguia-se diante de Deus e gritava com orgulho sua debilidade diante da fé opressora e tirana, escravizadora de corpos e de almas. Logo ele, que não acreditava em almas, nem nas do sertão do seu pai, começou a sentir um prazer que não se localizava em lugar nenhum do corpo, não era ilusão de álcool nem nostalgia inútil de mulheres. Era algo tão íntimo e que o acariciava como nada lhe havia feito, que, justo pelo racional que era, custou a admitir o erro de atribuí-lo a serotoninas, endorfinas e dopaminas. Acabara de perceber que tinha um espírito, e este era uma besta feroz feita, aparentemente, apenas de voracidade.
     — Traz o peixe, então.
     Nessa hora, juntou gente. Os que iam chegando para o início da chumbregação noturna, as prostitutas que iam tomar o caldo de carne moída antes do serviço, os cobradores e motoristas que esperavam sua escala, os descoladinhos que gostavam de se passar por boêmios, os verdadeiros boêmios e os seus três amigos fiéis, todos começavam a chegar para bater o ponto. E todos, pasmos, afásicos, jurariam mais tarde que aquilo teria sido obra de aposta ou de autoflagelação pela última mulher perdida.
     — O que é isso, Arnaldo? Tá tudo bem?
     Os olhos crispados, a boca cheia de tilápia frita com cebola e baião de dois com nata e uma lagrimazinha sorridente foram a resposta. Pediram espaço, ladearam-no e pediram o habitual na expectante suspensão dos que aguardam um desastre. O desastre ocorreu após, finalmente, Arnaldo dar cabo de mais duas porções de batatas gratinadas e pedir uma cerveja. Sumarento, inchado e delirante, ensaiou levantar-se e caiu, girando trezentos e sessenta graus ao pé do balcão, arrastando consigo dois dos fiéis. No chão, espocando por todos os orifícios, gemeu numa voz suave que nenhum dos amigos havia ouvido até então:
     — Deus é um fela da puta…
     No enterro, os quatro amigos, que eram versados em várias literaturas, assim como ele, lembravam que lhes faltavam cavalos ou floretes para aquela situação.
     — Eu sempre achei que seria por causa de quenga.
     Compareceram algumas: as solteiras, carpindo, e as casadas, ocultando a presença. Biu era o que mais se lamentava. Por toda a vida carregaria a culpa de ter sorrido naquele dia.
     Arnaldo era pobre, e o caixão ele mesmo havia feito com madeira de palete em sua oficina. Apesar do que pedira, que era o ser enterrado como indigente para se unir às massas, os amigos fizeram uma vaquinha para lhe pagar os ritos fúnebres e o enterro: havia de ser assim, pois a heresia das últimas palavras não apagava a revelação. Enterraram-no confusos, sem terem o que dizer. Somente o Biu, numa tentativa de se livrar do remorso, deixando sobre a areia da cova tampada uma garrafa de cachaça e umas asinhas de frango, à moda de despacho:
     — Pelo menos morreu de barriga cheia…

14/10/19

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

O MOLHADO DA FAROFA

     Em criança, aprendera de sua mãe como fazer uma farofa. Vendo, intuía que se frita algo, então se aproveita o óleo com os resíduos na própria frigideira, e coloca-se a farinha por cima, ao que, com uma colher de pau, de preferência, se mexe e se raspa e se mistura tudo. Era esta a farofa: sequinha, um pouquinho queimada e com um gosto distante do que se fritou. A de ovo era diferente; fazia-se com a própria fritura — eram ela e a de couro de frango as únicas que se requintavam com pedaços — e, porque o ovo nunca era seco, era um tanto molhadinha, um meio-termo entre uma farofa e um pirão. Às vezes, fazia-se uma de galinha cozida, e era também molhada. Eram as exceções. Tudo era sequinho: a de fígado, a de peixe e a de bife, que não eram dados a luxos.
     Cresceu, e seu paladar o acompanhou na austeridade da semipobreza. Gostava de coisas simples e pragmáticas, e era dentro desse pragmatismo alimentar que o prazer da mesa existia. Nas raras vezes em que se aventurou, tivera ou uma reação alérgica ou uma culpa retrogustativa. Essa culpa era como um cilício que lhe sangrava a coxa, pois gostava de comer e o fazia em parceria com esse desgosto. Era um sofrimentozinho que insipidava a língua. Chegou a desenvolver um refluxo gástrico que lhe arremetia a uma autopunição, um jeito de pagar a mais pela comida sem culpa, pois sofria.
     Passou o tempo, passou o refluxo, arrefeceu a austeridade, e instaurou-se um novo jeito de flagelar-se: a irresponsabilidade. Passou a comer novidades. Incrementou a culinária. Cozinhava criando, misturando o impossível, temperando com o insalubre. Demorou, mas atingiu uma espécie de bom senso. Tinha gosto em preparar almoços e merendas para a família e esperava deles a anuência dos gemidos e suspiros. Nesse ponto, rompeu com o paladar filial. Imaginou sua mãe como expectadora e provadora de seus pratos. Divergia intimamente de tudo quanto comera: carneiro leva sim canela; frango frito vai ao forno com batatas; não se dessala carne salgada para o feijão. A última foi a farofa. A de sua infância migrou da austeridade sublimada e da mesquinhez desinventiva ao experimentalismo semierótico e pseudocientífico. Foi ali o seu último rompimento, a tesourada no último fiapo do cordão umbilical. Passou a não só fazer a farofa com pedaços da fritura — aliás, reduziu a fritura a uma mera etapa da feitura da farofa —, mas também lhe acrescentava iguarias caras, compradas especialmente para ela, como cogumelos, aspargos, alcachofras, azeitonas recheadas, alho-poró, gengibre, cominho, louro, salsa fresca, pimentas-biquinho. Comprara uma frigideira enorme, como vira nos canais de culinária. Fritava a carne de sol com cebola e alho, pedaços picados de toucinho, cubinhos de pernil de porco caramelados com gergelim, depois encimava de vegetais que nunca comera em menino e o fazia com uma certa raiva por ter demorado tanto
quanto tempo até aquela gastança, aquele perdularismo, aquela sobejidão! Imaginava a mãe em espírito ao lado do cook-top, sacudindo levemente a cabeça — “esse menino já gosta de inventar…” — e sorria, querendo que ela provasse e aprovasse.
     Cozinhar estendia sua solidão. Nesse esteio, desenlinhava-se o tear de sentimentos enovelados que carregava no peito. Acabava aquilo por ser o que mais queria: desconectar-se, existir internalizado e livre no castelo do ensimesmamento. Cada ingrediente era saboreado molecularmente nas enzimas de sua solidão, e os digeria lento, satisfeito com a autofagia espiritual. Nunca, na sua vida de menino, sonhara em comer apenas farofa. Nem mesmo paçoca, que lhe era uma extravagância como camarão ou batata frita, coisas reservadas para dias de viagem e outras experiências familiares teatrais. Aquela infância limitada de sabores e texturas lhe incumbira a tarefa de engendrar sua horta e sua criação ele mesmo, na terra sertaneja de seus sonhos. Agora, hora do almoço, dava-se o comer apenas aquilo, e aquilo lhe era bastante, e o isolamento assomava como uma transmutação, e todos os sabores se reuniam na orgia egoísta de sua cozinha anímica. Ao seu lado, seus familiares mortos, os sorrisos condescendentes, as cabecinhas espirituais sacudindo enfastiadas: “esse menino, esse menino só quer ser o que não pode…”.

07/10/19

domingo, 6 de outubro de 2019

INTERRUPÇÃO

E se anoitecesse de repente, como uma chuva?
Uma que não se anuncia, uma de verão.
O que seria deste fim de dia interrompido,
sem a catarse do crepúsculo?
Seria… uma morte, sim?
Fecharia os olhos, sem suspiros.
Não divagaria nem seria acometido de saudades
ou arrependimentos.
Viraria estrela.
Sonharia nos sonhos dos outros, interminável.
Há dias — no mais íntimo de minha esperança —
que merecem findar em estrelas.

06/10/19

FRETE SEM VÉUS

     Era alta. Morena como o Diabo, maltratada, mas, outrora, recebera dengos. Cabelos indígenas, olhar de capitã do mato. Mãe. O filho vinha ao lado, saracoteando gentil. Junta aos dois, uma parenta circunstante. Olhava se a olhavam. A fêmea antes daquilo tudo era ativada se a olhavam. Ainda que casualmente. Muitas pessoas na estação; algumas, homens; poucos destes, em seu caminho. Calhou de o olhar de um, juvenescido de repente, esgueirar um vetor onde ela estava. A tangente acertou-a na linha da cintura, que aqueceu e serpenteou. O filho, criançando na plataforma, cambiou de status e converteu-se num empecilho inevitável: ele era um documento intransferível de mãe. O homem notou, e seu olhar, como uma parábola, curvou-se desencorajado ao menino, que já tinha uma intuição daquilo: danava-se um pouco mais, a mãe era dele, notasse-o!
     A morenice crepusculou súbito, e sua mão respondeu apertando muda o pulso do menino — “ai, mãe, minha mão, mãe!” — e semierguendo-o como uma sacola de lixo que se arrasta para longe, no caso, longe da vista do homem. A parenta limitou-se a um riso meio falado, nervoso e servil, pois já vira e sabia aquilo: também ela já fora mulher. O menino chorava de modo a revoltar os pré-passageiros do metrô. Já o homem, este não via mais uma mulher; via uma mãe, uma merda de mãe, uma que não merecia ser mãe. Lembrou-se da sua: tão santa, só lhe dera uma ou duas surras, nem se lembrava, jazia no céu das mães nas nuvens dos filhos órfãos, coitada. Aqueloutra, a diaba, nem se lhe parecia, nem era mulher! Pobre daquele menino, melhor que nem tivesse pai, que, se houvesse, seria um protocorno. Filho de uma puta com um corno, quem lhe valeria?
     Ela, já anoitecida, nem entendia mais a jiboia faminta em seu ventre. Havia quanto? Meses, anos? Arrastava, agora acompanhado de ralhos e xingamentos em voz baixa e dura, o filho catarrento de choro. Não gozara na feitura dele, nem depois se lembraria de tê-lo feito. Amortecia a barriga com a outra mão espalmada, resignando-se àquela castração. O olhar adivinhava ódio. A parenta oscilava aparvalhada os olhos, a cabeça e o sorriso pateta para todos os lados. O trem chegava.

06/10/19

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

O GUARDA-CHUVA

(Clique na imagem para ampliá-la e no nome do artista para acessar a página original)


     Achei a coisa mais triste, hoje, um homem que vi na rua, portando só um guarda-chuva. Imaginem-se a preparação antes de sair de casa, a busca automática pelo essencial: óculos, chaves, documentos, dinheiro, cigarro; em seguida, as circunstâncias: os telefones, os boletos, as agendas, a bolsa, os papéis e a determinação de funcionar novamente. Caso houvesse a chuva ou a possibilidade desta, aí sim, o guarda-chuva. Mas, só o guarda-chuva? Num dia sem chuva e sem essa possibilidade? Imaginei para que aquele homem se preparara. Ato contínuo e maquinal, costume herdado dos antigos, cópia de personagens cinematográficos, necessidade de um objeto fálico nas mãos ou de alguma coisa que se justificasse esquecer e completasse a lacuna que o próprio hábito de esquecer-se criara? Como quem andasse com garrafinhas d’água nas mãos só para queixar-se depois de havê-las perdido?
     Nada. Não havia mais nada com aquele homem em suas mãos exceto o guarda-chuva. Teria deixado arraigar-se o uso dele como se o usasse para diferenciar-se do vulgo? Teria a eterna incredulidade dos que duvidam do óbvio ou a dúvida infantil de si mesmo? Talvez. Mas como me incomodou profundamente a tristeza que senti pelo seu desamparo de uma possível preparação frustrada pelo sol! E se o usasse como um guarda-sol? Poderia ser. Não é comum em homens, mesmo os velhos, mas poderia ser o seu caso. Contudo, a sua postura empertigada de quem ia ou vinha de um afazer, o seu movimento laboral estático como um elástico puxado diziam que não. Aquele homem esperava uma chuva na existência de seu dia. Mas, que chuva, meu Deus, em entradas de outubro, ausente mesmo no caos climático deste início de século? Deu-me uma dó tão grande o seu desamparo! Pareceu-me haver procurado no guarda-chuva uma dignidade de homem urbano que não batia com o seu tempo. Seria aquilo um distintivo, uma lança de Quixote, uma lanterna de Demóstenes, um archote de Prometeu? O que aquele homem buscava, senão a proteção óbvia? Talvez o não óbvio: proteger-se dos outros homens ou de uma queda num equilibrismo desastroso numa comédia de praça. Poderia ser esse guarda-chuva uma clava moderna e citadina contra a insegurança da urbe, ou seria mesmo apenas uma forma de preservar-se da ausência em que ficam as mãos sem objetos, o que intuiria nos outros uma pobreza que sairia dos bens e entraria na alma e, mais fundo, no espírito? Não carregar nada é não ter nada, o que é o mesmo que não ser nada aos olhos dos outros, o que vem a ser o mesmo que não ser nada aos próprios olhos. Mas poderia tê-lo achado, poderia estar levando-o para ou de alguém. Poderia tê-lo furtado, escamoteado de uma loja (mas era usado!), poderia tê-lo surrupiado a outro — igual a este ele que eu imagino e de quem tanto me comisero — de dentro de um ônibus, talvez, ou do metrô. Poderiam ter-lho dado, como se faz com um desses estorvos que se ajuntam nas casas de quem quer das coisas o supérfluo e depois o descarta para dar lugar ao supérfluo mais novo — assim como os homens fazem com as mulheres e como as mulheres fazem com os homens e como todos fazem com os velhos, as crianças, os celulares e as rifas de caixas de chocolate. Mas como era dele! aquele guarda-chuva, era tão dele!, e inútil!, como um terceiro braço, negro e atrofiado! ou como uma enorme estrovenga capada, empalhada e envolta em crepom negro e enrugado! Não havia de ter sido roubado, furtado ou transportado. Era dele.
     O espelho da rua refletia aquele homem arquetipicamente: um estado natural superior e antigo, elaborado, mas sem retoques, requintado e bruto, comum e específico. Entretanto, a opacidade dos meus olhos não o refletiu. Em vez de um ordinário destaque urbano, um caractere, um homem, senti-o fugente, sobejante como uma guimba caída de um cinzeiro imundo, desculpando-se às cinzas pela imolação. Guardei-o na memória e deixei-o ao expediente ordinário das letras, que são o contar e o recontar as coisas amputadas do tempo da vida dos outros. Segui meu caminho, certo de que nunca mais veria a chuva tão plena de sua tanta onipresença: faltará sempre ela cair sobre aquele homem murcho, dentro de quem, eu bem o sabia, chiavam torrões de estiagem tão secos e estéreis que nem mesmo o próprio sertão, com seus ossuários de desejo, abarcaria.

02/10/19

terça-feira, 1 de outubro de 2019

PRIMAVERA

Fernando de Souza - Chananas no Araripe

a folha em branco nunca me desapontou
praia de minha infância
deserta e repleta como eu
nela, cato conchinhas e finjo afundar
na arrebentação
emerjo para o sol
com a saudade de quem ainda não partiu
e o desamparo do recém-conhecimento

diferente é o sertão
neste, expedições!
ao contrário do mar, onde imergir é morrer
o sertão me abre à medida que o abro
também como o papel em branco
mas diferente
o primeiro é o último segundo magnético
— a hora erma finalmente encontrada —
e o segundo, mesmo seco
é a estação em que floresço
primeiro que todos
e por último

01/10/19

sábado, 28 de setembro de 2019

CANSEIRA

Quando era só espírito,
eu me deixava ficar entre as multidões.
Cada gente tem de líquido
as saudades, os ciúmes e as luxúrias,
mar do qual fui peixe.

Entre elas, escancarava meus opérculos
e me permitia afogar de seus secretos,
e tudo quanto éramos, éramos até a morte.

Daí, nasci,
e, do caldo antes suave,
agora é fel,
e só tenho de mim para beber.
Neste borralho de corpo,
neste borracho de alma,
sou Tântalo afogado
no agreste desta embriaguez.

Cansei desse negócio dídimo de corpo e alma!
Esse compromisso insuportável que o corpo tem
com tudo que o cerca!

Que é a vida senão essa cadência de encontros sem busca,
esse afogar-se no seco do mar de gente?
A vida é essa experiência físico-carnal,
essa obrigatoriedade de ter de achar uma razão que vista a existência
— a três dedos acima do joelho, no mínimo.

Melhor seria ser só espírito e escolher
— ser espírito é escolher —
seres e estares, peles e plasmas, ritos e caos.

Melhor que jamais se sentir completo
e acomodar-se ao incômodo completo do próprio corpo
e suas propriedades físicas
como o equilíbrio e a azia
e essa rústica sentimentalidade do amor seminal
seria pairar sólido num oceano
que se inventa e desinventa apenas para isso.

Melhor seria, a amar, ser amor,
e isso só se pode
evolando-se e chovendo e tornando-se parte do chão
e virando caule e sombra e fim de tarde
e voltando ao íntimo da nuvem e…

Melhor é ser só,
que o espírito é esse só bastante de tudo,
de possibilidades inacreditáveis e íntimas.

23/05 e 26/06/19

AUTOANÁLISE Nº1

há um pouco de dor dentro dessas tardes
a janela trincada do trem refrata um mundo sempre passante
sempre mais cheio de sofrimento que o meu aqui dentro
e a grandeza da vida dos outros torna ainda menores a pequenez e a miséria
e a mesquinharia e a avareza do meu sofrimento

vejo um aleijado
— poderia ser eu, poderiam ser meus filhos —
um esmoler sem pés gritando Salmos na porta da CEF
— até os pombos da Praça, meu Deus!, até a fauna urbana! —
o mendigo róseo passando fezes na carne podre das feridas
a moça só
o crente alucinado
as crianças de rua
— todos me humilhando a dor com as suas —
e, de todos, o olhar ignoto e a desimportância de mim
— que me orbita aonde quer que eu vá —
me confirmam:
eu não existo fora da minha dor
não penso fora dela
não habito onde ela não esteja
— cavernas minúsculas esfiapadas em salõezinhos e camarazinhas
repletinhas de animaizinhos mortinhos —
e esse eu-não-ser-sem-ela
acaba sendo o que sou
e minha ausência

falto, eu sei
mas não falto de fazer falta
falto sim de deixar a lacuna de minha presença
— como uma cavidade de dente podre na boca
ou um oco de um tronco de castanholeira —
ali, incomodando, exigindo respostas
que só uma existência contígua poderia dar

existo diferente
dor e culpa, apego e sobrecarga
me coabitam
e vivo a punição de não sofrer a mais
de não ser despedaçado ou esquálido,
ulcerado ou putrefato

sou inteiro e quebrado
e não caibo em minha própria ausência
como uma memória viva e renitente
uma dor no dente que apodreceu e caiu
ou um luto impossibilitado pelo cadáver insepulto

27/09/19

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

ORIENTAÇÕES FINAIS

deixa uma digital de vestígio nos teus crimes
assim, o Diabo saberá teu nome
na hora de defender-te

almeja a participação entre os párias e as corjas
luta entre teus pares
para que sejais todos irmãos e nunca sós

quando errares no sertão da própria alma
procura com os pés as ferinas das palmas
sangra nos rastros
para que teu espírito te rastreie
e não te percas

afunda-te nos vãos dos prédios
para que tuas asas te encontrem
e no chão do asfalto te registrem
para que sinalizes que viveste

ou permita que te apedrejem na praça
que te erijam um monumento de asco e ódio
pois só assim
pedra
a
pedra
serás o castelo de ti
sobre a montanha sem pátria dos teus dias

26/09/19

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

ES DECIR

hoy me puso el riesgo
y la creencia
a la merced de la vida
y ella se me sonrió de vuelta
como llamándome
como si no me supiera nada
ni la muerte que le he votado todo este tiempo

hoy comprendí
en la mitad del camino
me comprendí suelo
no caminante
no andarillo
sino que suelo
donde risas y ternuras son semillas muertas
cáusticas y maldichosas
cómo úlceras en la piel
donde vi romerías y éxodos
y carretas llevándome en procesión
pero aquí soy
y desde aquí me veo huyendo
nunca y siempre solo
nunca y siempre adiós

la vida, sonriéndome
ojos mudos
al que me tartamudeo en cuestiones
cuyas respuestas sé
— siempre y nunca
nunca y siempre
son lo mismo yo —
el suelo estéril
lleno de vida muerta
y de muerte vívida
lleno y vacío de mí
porque soy suelo y cielo
secos los dos
de la Primavera que me mira
sin decirme fresco ni color
sin lloverme
sin quererme
sin dejarme

sin embargo me hace sonidos
testigos de mí
y ellos son el són
Montecristos que me suenan bueno
aunque no sepa bailar
ni a ellos
ni a nadie
ni para nada

la danza llena de vida de la Primavera
que se me dá sin que me quepa
me encuentra un Colón asesinando taínos
los cuales vomita de rodillas al padre
en confesión

19/09/19