Este blogue se destina ao uso artístico da linguagem e a quaisquer comentários e reflexões sobre esta que é a maior necessidade humana: a comunicação. Sejam todos bem-vindos, participantes ou apenas curiosos (a curiosidade e a necessidade são os principais geradores da evolução). A casa está aberta.
sexta-feira, 10 de abril de 2020
FOME
devagarzinho, ela veio
e mais me esvaziava
quanto mais me preenchia
tirou-me a paz
e impossibilitou a luta,
desarmando-me de minhas forças
e meus princípios
somente os dentes e as unhas
restaram.
com eles, eu, caninamente,
persigo pelos desvãos da noite compacta,
cego e sem faro,
em minha bestialidade,
as ganas de matá-la.
10/04/20
quarta-feira, 25 de março de 2020
LUÍS CLÁUDIO
(Para o meu irmão, que me fez querer dançar.)
foi-se o meu sangue,
foi com os mortos,
foi para as almas.
foi-se um herói torto,
peça inútil num quebra-cabeças errado,
que morreu muito antes da morte,
campeando a bandeira da ruína.
que minha mãe o acolha,
que meu pai o perdoe
e lhe peça o devido perdão.
que haja um céu onde ele caiba,
que haja um anjo que lhe valha,
de berimbau na mão
num terreiro de paz.
que lhe acabe a guerra
com o tátil invisível,
e que o deus dos meninos que se perdem
lhe mostre a melhor parte da praia
onde as conchas e os búzios mais lindos
aguardem-lhe a colheita do artesão.
foi-se o meu sangue,
foi-se um meu herói
— o meu belo e louco guerreiro manco —,
mas um menino dentro de mim
ainda imita, fiel e dedicado,
o moleque que o inspirou
e não morreu.
25/03/20
foi-se o meu sangue,
foi com os mortos,
foi para as almas.
foi-se um herói torto,
peça inútil num quebra-cabeças errado,
que morreu muito antes da morte,
campeando a bandeira da ruína.
que minha mãe o acolha,
que meu pai o perdoe
e lhe peça o devido perdão.
que haja um céu onde ele caiba,
que haja um anjo que lhe valha,
de berimbau na mão
num terreiro de paz.
que lhe acabe a guerra
com o tátil invisível,
e que o deus dos meninos que se perdem
lhe mostre a melhor parte da praia
onde as conchas e os búzios mais lindos
aguardem-lhe a colheita do artesão.
foi-se o meu sangue,
foi-se um meu herói
— o meu belo e louco guerreiro manco —,
mas um menino dentro de mim
ainda imita, fiel e dedicado,
o moleque que o inspirou
e não morreu.
25/03/20
O CORPO
o silêncio é o verdadeiro corpo
daquilo que chamamos alma.
gritar, gemer, sussurrar, escrever,
tudo isso é roupa,
babilaques adornosos e rudimentares
que se esganiçam na construção de uma forma
que mais deforma que define
o eremita silente
que dorme como as estrelas das crianças
num céu apenas imaginado.
é no silêncio que existe
o deus que nos mendiga.
25/03/20
daquilo que chamamos alma.
gritar, gemer, sussurrar, escrever,
tudo isso é roupa,
babilaques adornosos e rudimentares
que se esganiçam na construção de uma forma
que mais deforma que define
o eremita silente
que dorme como as estrelas das crianças
num céu apenas imaginado.
é no silêncio que existe
o deus que nos mendiga.
25/03/20
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Diálogo,
Metapoema,
Pensamento,
Poema
segunda-feira, 2 de março de 2020
O INVISÍVEL
e esta incomunicabilidade?
resolve-se como? com a poesia?
mas se a mesma poesia necessita
da intermediação do vazio,
esse céu e inferno dos talvezes,
para, só depois de muito garimpo
e erros de labirinto,
chegar única, singular
e diferente de mim
a quem nunca é quem lhe iniciou
a leitura
e menos ainda
— menos que nunca —
a quem lhe estufa as asas?
é como mandar por um filho
um recado
que ele balbuciará disléxico
ao seu pai adotivo.
amigos morreram; amores, também.
mas o motor das mandíbulas
vibra em ponto-morto
o que o sinal, sempre fechado,
ilegaliza.
a noite dorme.
eu, não.
ultrapasso o cruzamento,
certo de colidir.
porém, adiante, o asfalto,
negro e fustigado,
prostituta esgarçada em seu sono de repouso,
ressona ao meu atrito
a ausência de todos os veículos.
somente os gatos,
suicidas atocaiados,
cruzam as linhas comigo.
entre latas e copos virados,
colorimos o p&b do inferno
e escrevemos escandalosamente
o invisível.
02/03/20
resolve-se como? com a poesia?
mas se a mesma poesia necessita
da intermediação do vazio,
esse céu e inferno dos talvezes,
para, só depois de muito garimpo
e erros de labirinto,
chegar única, singular
e diferente de mim
a quem nunca é quem lhe iniciou
a leitura
e menos ainda
— menos que nunca —
a quem lhe estufa as asas?
é como mandar por um filho
um recado
que ele balbuciará disléxico
ao seu pai adotivo.
amigos morreram; amores, também.
mas o motor das mandíbulas
vibra em ponto-morto
o que o sinal, sempre fechado,
ilegaliza.
a noite dorme.
eu, não.
ultrapasso o cruzamento,
certo de colidir.
porém, adiante, o asfalto,
negro e fustigado,
prostituta esgarçada em seu sono de repouso,
ressona ao meu atrito
a ausência de todos os veículos.
somente os gatos,
suicidas atocaiados,
cruzam as linhas comigo.
entre latas e copos virados,
colorimos o p&b do inferno
e escrevemos escandalosamente
o invisível.
02/03/20
domingo, 23 de fevereiro de 2020
FAXINA
Há que se deixar em paz um sentimento até ele deixar de ser. É preciso cuidar de deixar de sentir assim como de sentir. Somente assim, nessa retroação, podem-se faxinar dos cantos e desvãos os restos mortos dos que esperam no além pela paz do desamor. Funciona assim como com as sombras, que, estendendo-se nas superfícies onde estamos ausentes, continuam os corpos, como uma noite de um dia, e é preciso viver com os dois juntos, em harmonia. As sombras são a nossa presença ausente, a interseção do que somos e do que não somos. Contudo, não se fala nem se come nem se faz amor com sombras, muito menos se pode ter medo delas, principalmente da sua própria. Contemplam-se e esquecem-se, para que se possa depois contemplá-las devidamente.
13/12/19
13/12/19
BILHETE
juro que nunca te vi
nem te marquei na caderneta de minhas buscas
porém, soube de ti
como que de uma guerra num país distante
ou de um desastre no Oceano Pacífico
nessas notícias, eras de um longe
que o impossível era apenas
a metade do caminho
agora, aqui estamos
nesse fim de vidamundoamor
e não sei se te vejo
ou se te adivinho
mas a mim
vejosintoouçopegomato
a mim me despedaço
e não me despeço:
vou
como se nunca houvera estado
para o desvão gretado das paredes de outubro
deixo a tudo
menos a mim
este eu levo
na cachaça da última hora
e no espanto
que me vai assombrar pelo resto desse hoje
que não tem mais fim
30/09/19
nem te marquei na caderneta de minhas buscas
porém, soube de ti
como que de uma guerra num país distante
ou de um desastre no Oceano Pacífico
nessas notícias, eras de um longe
que o impossível era apenas
a metade do caminho
agora, aqui estamos
nesse fim de vidamundoamor
e não sei se te vejo
ou se te adivinho
mas a mim
vejosintoouçopegomato
a mim me despedaço
e não me despeço:
vou
como se nunca houvera estado
para o desvão gretado das paredes de outubro
deixo a tudo
menos a mim
este eu levo
na cachaça da última hora
e no espanto
que me vai assombrar pelo resto desse hoje
que não tem mais fim
30/09/19
quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020
SEM O CORPO
o corpo, este persiste.
eu, não.
sinto inveja dele, que existe
incondicionalmente,
assim como os mendigos e as mães.
existe em corpo, existirá em pústulas e nitratos.
existirá na terra e na flor continuada.
federá e subirá aos ares, será atmosfera e umidade.
o corpo sempre houve, e sempre existirá,
mesmo quando retornar carbono
ao ventre materno das estrelas.
já o que nele existe, que sou eu,
este não se pode dar ao luxo de não possuir condições.
eu, o inquilino do meu corpo, abro mão dele
humildemente,
pois só existo vadiando
pelos corpos de pensão
e sob as marquises dos corpos de ofício
que me cedem sombra.
existo na existência que me observa e me percebe
e na que me escala, de quando em quando,
para um carteado de corpos ou uma batalha de xadrez.
sem isso, perdoem-me,
mas existir não basta,
nem no meu eterno corpo
nem na pauta lagrimada.
amputado, vou para onde vão os feitos,
as palavras e os silêncios:
para esse nada tão indolente
que a memória-mãe trata de conduzir a um nada ainda maior
onde vivem os líquenes lodosos
das memórias órfãs e das assombrações mudas.
12/02/20
eu, não.
sinto inveja dele, que existe
incondicionalmente,
assim como os mendigos e as mães.
existe em corpo, existirá em pústulas e nitratos.
existirá na terra e na flor continuada.
federá e subirá aos ares, será atmosfera e umidade.
o corpo sempre houve, e sempre existirá,
mesmo quando retornar carbono
ao ventre materno das estrelas.
já o que nele existe, que sou eu,
este não se pode dar ao luxo de não possuir condições.
eu, o inquilino do meu corpo, abro mão dele
humildemente,
pois só existo vadiando
pelos corpos de pensão
e sob as marquises dos corpos de ofício
que me cedem sombra.
existo na existência que me observa e me percebe
e na que me escala, de quando em quando,
para um carteado de corpos ou uma batalha de xadrez.
sem isso, perdoem-me,
mas existir não basta,
nem no meu eterno corpo
nem na pauta lagrimada.
amputado, vou para onde vão os feitos,
as palavras e os silêncios:
para esse nada tão indolente
que a memória-mãe trata de conduzir a um nada ainda maior
onde vivem os líquenes lodosos
das memórias órfãs e das assombrações mudas.
12/02/20
sexta-feira, 31 de janeiro de 2020
JANEIRO
(Foto: Fernando de Souza. Clique para ampliar.)
gota a gota, o jardim aceita a chuva,
que tira do telhado
a roupa do verão.
debaixo, a terra, no escuro,
a despeito de seus arrepios
— a que chamamos primavera —,
planeja os rios que sangram nos mares,
onde mora a alma das chuvas.
o que somos
simplesmente assiste,
temeroso e encantado,
entre bicas, goteiras e enchentes,
ao petalar-se das flores que desabrocham em nós
e à miséria da lama que soterra vidas e memórias.
nos hiatos de sereno,
em que até a lua chora, melancólica,
lacrimeja o peito sertanejo a aurora
e o orvalho matinal da invernada.
31/01/20
segunda-feira, 27 de janeiro de 2020
ALIENAÇÃO
(Foto: Fernando de Souza. Clique na imagem para ampliá-la.)
é preciso esquecer as tempestades
e todo o alarde da morte e suas anunciações.
é necessário ser insensível à dor da navalha
que se esqueceu na pele e lá ficou.
não é por maldade
nem é alienação.
é da vida mesma esse esquecer
quando uma hora qualquer se achega
marulhando baixinho,
esvoejando as saias pela janela,
e ondeia na praia como o rumor de um beija-flor
e se permite passar devagarzinho, bonitinha,
distraída e vadia nos seus flertes.
é mais que necessário ser surdo
aos clamores da miséria,
aos gritos dos terrores
e aos estertores da agonia
para que os ouvidos fiquem livres.
as flores só cantam a primavera
a ouvidos vagabundos.
há que se ser distraído
para perceber o fecundo oculto
que se gesta no útero da noite
e olhar nos olhos do dia nascituro
em que se pode ser feliz.
27/01/20
sexta-feira, 17 de janeiro de 2020
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